“No início da gestação, participava de um grupo, no WhatsApp, de mães; onde trocávamos experiências, tirávamos dúvidas, era um suporte nessa nova etapa da minha vida. Com a perda do meu pequeno coração (Otávio Augusto), eu já não fazia mais parte daquele grupo. Como ele tinha me feito tão bem, senti a necessidade de procurar um grupo de mães que passaram pelo que eu passei, para dividir os meus sentimentos e saber como caminhar após a perda”. A narrativa é da professora Daniela Gomes, que perdeu seu bebê no período pós-neonatal. Ele tinha dois meses quando teve complicações de saúde e faleceu.
Leia também:
Mães revelam os sentimentos que permeiam a perda de um filho
Mãe cobra humanização por parte dos profissionais de saúde
Piauí pode ter Dia Estadual de Sensibilização à Perda Gestacional e Neonatal
Daniela sentiu o desejo de saber como lidar com a saudade do filho. E ao buscar por redes sociais que falavam sobre ‘mães de anjos’, encontrou a conta no Instagram @entremaesdeanjos . Lá ela pode perceber que não está sozinha neste momento de luto, que muitas mães passam por perdas diariamente.
![]()
“É um grupo que está sempre atualizado, isso nos faz sentir acolhida! Porque a maioria da sociedade pensa que, quando a gente perde um bebê pequeno, não sofre, porque o tempo foi curto pra criar laços”, fala.
Para Daniela, além do grupo de mães que vivenciam a mesma dor, a sua família é essencial neste período de luto, que dura pouco mais de um mês. “É muito difícil! Têm dias que acordo naquela fase de raiva e revolta, com a cabeça cheia de porquês; em outros dias, entro na fase da aceitação. E com isso percebi que a dor entre as mães á a mesma, mas cada uma passa pelo momento de forma diferente”, expõe.
Grupos de apoio ajudam mães de anjos
“Muitas mulheres têm perdas gestacionais, mas acabam silenciando as suas dores por terem a sensação de que não serão compreendidas e sofrem sozinhas. É importante que a mulher busque grupo de apoio, em que tem outras pessoas que passaram pela mesma experiência; assim a mãe vai se sentir segura. Os grupos podem auxiliar nesse processo de elaboração do luto”, argumenta a psicóloga Julia Gomes.
O grupo Entre Mães de Anjos , por exemplo, foi criado pela pedagoga Daniela Rezes, que iniciou as reflexões em sua conta pessoal, com relatos sobre a sua filha. E a partir da hashtag #mãesdeanjos foi ganhando mais visibilidade e seguidores. “Quando eu cheguei a três mil seguidores, não era mais a conta da Daniela Rezes. Mas da Dani Rezes, que escreve para as mães de anjos. Foi então que eu mudei o nome para Entre Mães de Anjos. A minha conta é mais direcionada a perda de bebês, seja perda gestacional (abortos espontâneos, retidos e perda tardia) e perdas neonatais (bebês prematuros)”, explica.
Daniela Rezes teve uma perda e o motivo não foi diagnosticado. A partir da sua experiência, ela ajuda outras mães a aprenderem a conviver com a saudade do filho. Para trabalhar os casos mais complicados, Dani Rezes conta com o apoio da psicóloga Fernanda Rangel, que realiza bate-papos com as mães através de vídeo ao vivo nas redes sociais e encaminha as mães para grupos de apoio em suas cidades.
“As falas são as mesmas, mudam apenas o endereço. São falas como ‘me pedem para eu esquecer, que vai doer menos’; ‘meu esposo me deixou’; ‘não tenho compreensão’; ‘minha família não me escuta, pede para eu não falar do bebê’. Violência obstétrica e negligência médica. ‘O que fazer com as coisas do bebê?’; ‘Dani, chorar ajuda a aliviar?’. E muitas querem apenas conversar”, descreve.
![]()
Para Daniela Rezes, utilizar
falas de amor com essas mães é
um dos caminhos para amenizar
a dor. Mas trabalhar com essa temática e com pessoas tão fragilizadas neste momento é complexo.
Assim, a pedagoga teve que fazer
mudanças pessoais, ter acompanhamento psicoterápico e se conhecer melhor para se envolver
na causa e auxiliar cada vez mais mulheres.
Por: Sandy Swamy - Jornal O Dia