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Notícias Especiais

18 de outubro de 2019

Especial 'Dia do Poeta': poesia de cordel - trovas e rimas populares

Especial 'Dia do Poeta': poesia de cordel - trovas e rimas populares

Paulo Henrique Pereira despertou para escrita de cordel quando tinha apenas 8 anos

Mônica Gentil lembra que a poesia de cordel já existia há muitos anos. Antigamente, era possível vê-las em rimas populares, trovas e repentes. Hoje, ela está nas novelas, em programas de televisão, declamada pelo cearense Bráulio Bessa e nas redes sociais.

Paulo Henrique Pereira, de 24 anos, é natural de Picos (PI), mas mora na cidade de Jaicós (PI), a 364 km de Teresina. Ele utiliza o Instagram para divulgar seu trabalho de cordelista, atualmente tem mais de 10 mil seguidores. Mas o despertar para escrita de cordel surgiu quando ele tinha apenas 8 anos.


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“Comecei a escrever depois que ganhei um folheto de cordel de presente da minha mãe, ‘As proezas de João Grilo’. E foi amor à primeira vista. Desde então, procuro escrever sobre conflitos da vida. Eu venho de família pobre, a gente passou por muita dificuldade, teve muitos casos de suicídio. Então meus cordéis são de superação, minha poesia fala sobre luta, sobre vencer os desafios”, diz Paulo Henrique Pereira.

Um dos seus cordéis que ganhou espaço e alcançou outros estados foi o texto “Dar um fim a própria vida nunca será a solução”, que o picoense escreveu logo após perder três pessoas da sua família, que se suicidaram.


Hoje Paulo Henrique Pereira, de 24 anos, tem mais de 10 mil seguidores no Instagram - Foto: Reprodução/Instagram

Alerta

Apesar do sucesso das poesias nas redes sociais, a professora Mônica Gentil diz que lhe preocupa a instantaneidade da internet, que faz com que tudo seja fugaz. “O tempo exigiu do poeta que se renovasse. Antes, os jovens procuravam livro, hoje procuram praticidade nas redes sociais. Você pode ler bons textos como de Fernando Pessoa na internet, mas não tem a magia de um livro. No livro você para, chora, ri. Já as redes sociais têm que ser rápidas. A minha preocupação é que a rede social não dá espaço para o jovem pensar, porque tem que ser rápido e tem outro texto para ser lido”, conclui Monica Gentil.


Dar um fim a própria vida nunca será a solução 

Perceba que a dor

Por mais que seja grande

Não cresce o bastante

Pra ser maior que o amor

Ele que é o curador

Quem devolve a satisfação

Põe fim na escuridão

Faz com que você resista

Dar o fim à própria vida

Nunca será a solução

Por isso, passe a se amar

Valorize sua existência

Tenha fé e paciência

Nunca pare de sonhar

Você tem tanto pra realizar

Acredite nisso, irmão

Segure firme na mão

De uma pessoa amiga

Pois dar o fim à própria vida

Nunca será é a solução.


Novos poetas disseminam sensibilidade nas redes sociais

Novos poetas disseminam sensibilidade nas redes sociais

O piauiense Ítalo Lima, por exemplo, leva para seu perfil no Instagram leveza, objetividade e discussões atuais, traduzindo sentimentos em palavras.

A poesia está em toda parte. É possível ver versos com reflexões sobre o mundo em livros, grafites, pichações, cordel, repentes e nas redes sociais. A pós-modernidade trouxe um novo olhar das rimas para os poetas que, no próximo dia 20, comemoram sua criatividade, imaginação e sensibilidade com as palavras. 

Segundo a professora de Literatura, Mônica Gentil, quando se fala em poesia, logo se associa a poiêsis, da época de Aristóteles, que nada mais é que o fazer literário, que não está ligado à rima ou estrofes.


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“Quando surgiram os textos de poesia como literário, se tinha a escrita poética, dramática, narrativa. Já os textos líricos eram em primeira pessoa, o eu lírico, e, por meio destes versos, ficou a ideia de poesia”, explica Mônica Gentil.

Todavia, com o tempo, a poesia tradicional, com quartetos, sextetos e versos alexandrinos, deram espaço a uma liberdade literária, que não segue com rigidez a questão da estrutura.

Ítalo Lima, por exemplo, é um poeta versátil. Ele diz que a poesia o encontrou precocemente, o acolheu desde os 14 anos. Mas que somente aos 18 anos, ele acreditou em seu talento e resolveu escrever para sobreviver em meio aos conflitos.


Foto: Reprodução/Instagram

“Pode soar esquisito, mas eu busco sempre minhas inspirações onde a dor faz morada. É no sorriso que você disfarça. Nos olhos aflitos que todo mundo esconde. Na solidão que a gente ameniza. No adeus dito em voz trêmula. Em toda dor que a gente esconde minha poesia quer fazer de abrigo. Minha matéria-prima é fazer da dor poemas em linhas tortas”, descreve Ítalo Lima. 

Os textos nas redes sociais pedem leveza, objetividade e discussões atuais. O poeta tem mais de 17 mil pessoas seguindo seu perfil no Instagram, onde busca diversificar os temas da sua poesia. Além disso, o teresinense escreve para uma revista local. São textos distintos, que trazem um pouco da alma do escritor. 

“Atualmente, eu escrevo na coluna da Revista Revestrés e é sempre com um texto inédito. Nesse espaço eu me cobro mais, tento sempre dar o máximo de mim. Não que nas minhas redes sociais eu seja mais relaxado, eu só busco ser mais abrangente e diversifico ao máximo o tipo de conteúdo. Nas minhas redes, eu posso assumir várias personas e, ainda sim, ser eu mesmo, que dorme e acorda aflito e que tem boleto pra pagar”, conta Ítalo Lima. 

12 de outubro de 2019

História e milagres de Nossa Senhora da Conceição Aparecida

História e milagres de Nossa Senhora da Conceição Aparecida

Entre os milagres conhecidos de Nossa Senhora Aparecida está a libertação do escravo Zacarias.

A aparição da imagem de Nossa Senhora de Aparecida ocorreu no Brasil em 1717, época das Capitanias Hereditárias. O governante das capitanias de São Paulo e Minas de Ouro estava de passagem pelo Vale do Paraíba, mais precisamente por Guaratinguetá.

Animados com a visita, o povo daquela localidade resolveu fazer uma festa de boas-vindas e, para isso, chamaram três pescadores, Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso para lançar as redes no rio e pescar bons peixes.


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O fato era que, naquela época, meados de outubro, não era tempo de peixes. Porém, como não podiam contradizer o pedido, rezaram pela proteção e benção da Virgem Maria e de Deus para que pudessem voltar à terra firme com fartura. Depois de inúmeras tentativas sem sucesso, eis que surpreendentemente eles pescaram o corpo de uma imagem. Curiosos, lançaram novamente as redes e “pescaram” uma cabeça que se encaixou perfeitamente ao corpo. Depois deste encontro, que nos dias de hoje é representado em todo o Brasil no dia 12 de outubro emocionando os fieis, o barco se encheu tanto de peixes que ele quase virou.

A partir daí, a devoção da Santa foi se espalhando. Primeiro nas casas, depois se construiu uma capela, depois uma basílica, até chegar ao quarto maior santuário do mundo, o Santuário Nacional de Aparecida localizado na cidade de Aparecida, interior do Estado de São Paulo.


Milagres de Nossa Senhora Aparecida

Entre os milagres conhecidos de Nossa Senhora Aparecida está a libertação do escravo Zacarias. Nossa Senhora Aparecida aconteceu em um momento triste da história do Brasil: a escravidão, quando o povo negro sofria nas mãos dos donos das terras. A “Mãe Negra” veio para dar uma lição de vida e amor ao próximo.

Segundo a fé cristã, foi o que aconteceu com o escravo Zacarias, que havia fugido de uma fazenda do Paraná e era caçado por todos os cantos, até ser encontrado no Vale do Paraíba. Preso, Zacarias foi acorrentado nos pulsos e nos pés. O caminho de volta passava próximo à capela que havia sido construída para a imagem de Nossa Senhora Aparecida, então, o escravo pediu permissão ao seu caçador para rezar diante da imagem.

O caçador deixou e a fé de Zacarias foi tamanha que milagrosamente as correntes se romperam, deixando-o livre. Diante do milagre, o caçador acabou por libertá-lo.


Devotos se inspiram nos ensinamentos de solidariedade

Devotos se inspiram nos ensinamentos de solidariedade

Na paróquia localizada na Santa Maria da Copidi, fieis falam da relação e das provas de fé para com Nossa Senhora Aparecida

Maria Oneide, a Neide, de 52 anos, é uma das mais fervorosas devotas de Nossa Senhora Aparecida da comunidade da Santa Maria da Copidi. Ela viu a comunidade crescer em volta da devoção à santa e acredita que, diariamente, é Nossa Senhora quem intercede pela proteção da localidade. As provas da fé, para ela, são muitas.

“Eu comecei a frequentar quando a igreja já estava formada, em 1996, mas durante anos me dediquei completamente a nossa diaconia. No começo, as missas aconteciam ao lado de onde hoje é levantada a igreja, mas foi a Dona Carolina Cardoso de Macedo, conhecida como Calú, quem doou o terreno e a primeira imagem para a sede da igreja”, relembra a devota.

“A fé possibilitou a melhoria da comunidade. Eu lembro quando conseguimos colocar a calçada na igreja, quando realizamos a primeira comunhão da comunidade, são coisas que ficam marcadas na nossa história”, destaca.


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Por ter se responsabilizado pelos cuidados de sua mãe, Neide deixou de frequentar mais assiduamente os ritos na sede da igreja, mas afirma que todos os dias reza o terço e faz as leituras de devoção à santa.

“Também sempre quando posso procuro fazer caridade e sempre me informar do que a igreja está precisando. É um ensinamento que todos os devotos de Nossa Senhora Aparecida sabem pela lição que ela deixou”, explica.

Comunidade celebra Dia de Nossa Senhora Aparecida com missa campal

Comunidade celebra Dia de Nossa Senhora Aparecida com missa campal

Segundo a crença católica, graças à misericórdia de Deus, Maria apareceu no Brasil na forma de uma imagem negra, na época da escravidão

O feriado deste sábado, dia 12 de outubro, tem uma razão religiosa para existir dentro da tradição católica brasileira: para a Igreja, a data é dedicada à Nossa Senhora Aparecida, santa considerada a padroeira do Brasil. Em Teresina, paróquias e diaconias em que a santa é padroeira celebram a data com ritos de fé e união.

Na Arquidiocese de Teresina, existem áreas pastorais, diaconias, comunidades e paróquias. No bairro Santa Maria da Codipi, extremo Norte de Teresina, a diaconia consagrada à Nossa Senhora Aparecida, por exemplo, termina os seus nove dias de festejo neste sábado, com a realização de procissão pelas ruas do bairro e uma missa campal.

O diácono Paulo Afonso explica a relevância de Nossa Senhora para as comunidades em Teresina e em todo o país. “Nossa Senhora tem uma devoção tão grande por parte dos fieis que, neste período, nós rezamos pedindo proteção e ternura advinda daquela que se colocou à disposição, servindo a sua prima Izabel e também aos mais necessitados. É uma referência de solidariedade e acolhimento para os católicos de todo o Brasil”, explica.

Não há um número consolidado sobre quantas igrejas dedicadas à Nossa Senhora Aparecida existem no Brasil, mas certamente se trata da santa de maior devoção popular. Em Teresina, além da diaconia no bairro Santa Maria da Codipi, a paróquia do bairro Renascença, na zona Sudeste, também tem como padroeira a “Mãe Negra”.

“A escolha de uma santa padroeira se dá de acordo com a devoção das primeiras pessoas que estabelecem os ritos religiosos de cada localidade. Aqui, os primeiros grupos começaram a construir a capela em forma de palhoça e destacavam a devoção pela figura de Nossa Senhora Aparecida. Assim, com a implementação da diaconia, a santa permaneceu como padroeira”, explica.

Segundo a crença católica, graças à misericórdia de Deus, Maria apareceu no Brasil na forma de uma imagem negra, na época em que a escravidão no país estava em alta. Maria foi proclamada Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Rainha do Brasil, em 16 de julho de 1930 pelo papa Pio XI. Mas foi em 12 de outubro de 1980, que foi proclamado o feriado e consagração do Santuário Nacional de Aparecida pelo Papa João Paulo II.

07 de outubro de 2019

“A importância para a cidadania das pessoas trans é imensurável”

“A importância para a cidadania das pessoas trans é imensurável”

Patrícia Monte, titular da 12ª Defensoria Pública de Família, conta que a procura para retificação do nome no registro civil é diária e que o procedimento não é tão burocrático quanto parece.

Uma das alternativas viáveis para conseguir a retificação do nome no registro civil é por meio da Defensoria Pública do Piauí. O órgão faz os pedidos ao cartório com a autorização do provimento do Conselho Nacionalde Justiça (CNJ), que determina a não necessidade de entrar com ação judicial para fazer alterações de prenome e gênero.

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O serviço é contínuo e, para pessoas transexuais que ganham renda mensal de até três salários mínimos, é solicitada a dispensa das taxas do cartório. Patrícia Monte, titular da 12ª Defensoria Pública de Família, conta que a procura para retificação do nome no registro civil é diária e que o procedimento não é tão burocrático quanto parece.

“Ano passado fizemos o projeto Meu nome, meu orgulho’, que foi como mutirões itinerantes. Porém, diariamente, as pessoas procuram a Defensoria Pública, aqui na Avenida João XXIII, na diretoria de Primeiro Atendimento. Recebemos homens e mulheres trans para poder fazer esses pedidos de alteração. Fazemos um requerimento do nome e gênero e já instruímos sobre todos os documentos necessários. Isso não é tão burocrático e o cartório tem somado muito com a Defensoria, dando respostas com até dez dias”, comenta a defensora pública.

Para Patrícia Monte, os transtornos que uma pessoa transexual passa diariamente são inúmeros, especialmente se ela não tiver um documento que represente sua real identidade. Por isso, a retificação do nome no registro civil é importante, pois dignifica e possibilita oportunidades.

“A pessoa trans se apresenta com uma identidade completamente diferente da que está no registro civil, então é um constrangimento, principalmente quando é no atendimento ao público; além da questão do conforto pessoal com aquele nome que escolheu ter. A importância para a cidadania dessas pessoas trans é imensurável. Quando eu fiz o projeto, muitas pessoas me disseram que era uma conquista de luta de uma vida, e foi muito gratificante, principalmente pelo fato do nome ser um direito personalíssimo. Se a pessoa não tem esse conforto com o próprio nome, é complicado e não tem nem como mensurar como isso causa um transtorno para essa pessoa”, conclui Patrícia Monte, titular da 12ª Defensoria Pública de Família. 


Patrícia Monte destaca projetos promovidos pela Defensoria Pública. Arquivo O Dia

Rede promove direitos humanos em parceria  com diversos órgãos

No dia 10 de dezembro de 2018, data de comemoração dos 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), foi assinado o acordo de cooperação técnica entre diversos órgãos públicos e entidades piauienses para a formação da Rede de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (Rede DH-Piauí) no âmbito estadual.

A Rede-DH faz parte de um projeto da 49ª Promotoria da Cidadania e Direitos Humanos e do Centro de Apoio Operacional da Educação e Cidadania, órgão também vinculado ao Ministério Público do Estado do Piauí, coordenado pela promotora de Justiça Flávia Gomes Cordeiro.

“A Rede DH-Piauí é uma das etapas do #IssoéDireitoHumano. É um projeto que visa desmistificar o conceito de Direitos Humanos. É dizer para as pessoas que são direitos de pessoas humanas. A Rede pauta a atuação conjunta de órgãos públicos, federal e estadual”, explica a promotora de JustiçaMyrian Lago e presidente da Rede.

A Rede DH-Piauí é integrada pelos órgãos: Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI); Secretaria Estadual da Educação n(Seduc-PI); Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Seccional Piauí; Secretaria da Segurança Pública do Estado do Piauí (SSP-PI); Secretaria de Estado da Justiça (Sejus- -PI); Secretaria da Assistência Social e Cidadania (Sasc-PI); Universidade Federal do Piauí (UFPI); Universidade Estadual do Piauí (Uespi); Instituto Federal de Educação (IFPI); Defensoria Pública do Estado do Piauí (DPE-PI); Defensoria Pública da União (DPU); Secretaria Estadual para Inclusão da Pessoa com Deficiência (Seid); Coordenadoria Estadual de Políticas Públicas para as Mulheres (CEPM-PI); Tribunal de Justiça do Estado do Piauí (TJ-PI); Conselho Regional de Psicologia (CRP-PI); Conselho Regional de Serviço Social (Cress-PI).


Mudança de nome é sinônimo de dignidade

Mudança de nome é sinônimo de dignidade

A carteira do nome social, Lei Estadual 5.916/2009, da deputada Flora Izabel, foi criada como forma de minorar a dificuldade e o preconceito que as pessoas transexuais enfrentam.

A carteira do nome social, Lei Estadual 5.916/2009, da deputada Flora Izabel, foi criada como forma de minorar a dificuldade e o preconceito que as pessoas transexuais enfrentam. Contudo, ela só é válida no âmbito estadual. Apesar disso, para Myrian Lago, titular da 49ª Promotoria de Justiça de Teresina, a criação da lei estadual trouxe melhorias para a população LGBT. 

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“Essa lei veio muito antes da Lei do Supremo, que garante a mudança do nome no registro civil.Carteira do Nome Social foi o primeiro passo garantia da mínima dignidade à pessoa trans. A lei garante eles serem reconhecidos e respeitados pelo nome que corresponde à sua identidade de gênero”, disse.

É o que enfatiza Maria Laura dos Reis, assistente técnica da Sasc. Segundo ela, as pessoas trans solicitam a retificação do nome no registro civil quando desejam incluir seu nome social em algum documento oficial, como carteira de trabalho ou diploma. “Muitas meninas que se formam querem ter o nome alterado no seu diploma, assim como as que querem ter a carteira profissional ou as que arrumaram um emprego formal.Geralmente isso acontece quando a pessoa tem um objetivo, mas se for só para mudar por mudar, muitas desistem por conta da burocracia”, enfatiza.

 Para Maria Laura, o processo de retificação do nome no registo civil e na carteira do nome social tem um significado maior que apenas um direito social, está relacionado à garantia da cidadania“A gente tinha nosso direito ferido, porque sempre éramos tratados de uma forma que a gente não se reconhecia. E a partir do momento que pudemos mudar nosso nome social e gênero, nós estamos exercendo a cidadania de fato. É uma vitória, uma conquista que foi travada arduamente, e que a gente venceu”, conclui Maria Laura dos Reis. 


Marcela Braz ressalta que, além do reconhecimento, a retificação dos seus documentos melhorou sua autoestima. Assis Fernandes

Para a arquiteta Marcela Braz, a retificação do nome e do gênero nos documentos oficiais possibilitam, além do reconhecimento, a melhora na autoestima“Esse processo é muito importante, não é somente o nome que muda, tem a possibilidade de mudar o gênero. No meu caso, antes da lei ser aprovada por definitivo, a juíza autorizava somente a mudança do nome, e como eu me incomodo por ter o gênero masculino, vou entrar com outro pedido para mudança de gênero para o feminino, assim vou me sentir melhor para me apresentar ao público”, acrescenta.

É preciso desburocratizar o processo, avalia promotora

Para a promotora Myrian Lago, é preciso desburocratizar o processo de retificação do nome em  cartório, permitindo assim que mais pessoas transexuais tenham acesso ao procedimento. A promotora reconhece a necessidade da solicitação dos documentos como forma de segurança jurídica, entretanto, lembra que isso se torna um empecilho para que mais pessoas procurem o serviço. “A questão é burocrática. Se o cartório tivesse outro nome seria ‘burocracia’. 

A pessoa que tem o perfil de vulnerabilidade econômica pode solicitar isenção das taxas e, com essa isenção, há um ganho, mas, de fato, a quantidade de documentos solicitados é gigantesca. Na perspectiva dos Direitos Humanoseu queria que fosse mais facilitado, mas, por exemplo, os colegas da área criminal têm uma preocupação muito grande da pessoa que está respondendo um processo querer mudar o nome. Isso complica, principalmente se o processo estiver correndo, pois no processo não mudaria. Por isso, antes de mudar o nome é preciso apresentar tantos documentos, inclusive a certidão negativa”, enfatiza.

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Myrian Lago, titular da 49ª Promotoria de Justiça de Teresina enfatiza que os avanços estão acontecendo gradativamente, especialmente dentro do Estado.

Mesmo com alguns retrocessos, como a extinção, em abril deste ano, do Conselho Nacional de Combate à Discriminação LGBT+, que foi criado por medida provisória em 2001, e sem leis em nível federal, o Piauí tem avançado em ações e políticas públicas voltadas para a população LGBT, ainda que de forma lenta.

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Myrian Lago, titular da 49ª Promotoria de Justiça de Teresina e presidente da Rede de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (Rede DH-Piauí), enfatiza que os avanços estão acontecendo gradativamente, especialmente dentro do Estado. “No que o Piauí pode legislar, o Estado está bem à frente dos outros, com legislações muito boas, inclusive municipais, como em Teresina e Picos, onde existem coordenações próprias, conselhos municipais ativos e participação de movimentos. No Piauí a última conquista foi a criação do Conselho Estadual de Direitos da População LGBT, de 2017”, acrescenta.

A promotora de Justiça enfatiza que os avanços se devem às decisões do Supremo Tribunal Federal (STF)como no caso do casamento de pessoas do mesmo sexo; adoção de crianças por pessoas LGBT e a mudança do nome no registro civil, independente da mudança física, vez que antes essa era uma condicionante.

O Ministério Público do Estado do Piauí (MP-PI) também  tem atuado incessantemente em diversas frentes de forma a trazer mais dignidade à pessoa LGBT. “O MP-PI já atuou na regularização da carteirinha do nome social expedido pela Sasc, que não estava acontecendo; na ‘ressurreição’ do Conselho LGBT, que estava parado; e até no Sistema Penitenciário, para que as pessoas trans fossem respeitadas de acordo com sua orientação sexual e identidade de gênero”, pontua.

“Tinham muitos casos de mulheres trans que entravam no sistema prisional, iam para a Casa de Custódia e os agentes cortavam os cabelos e obrigavam-na a usar farda masculina. Nós atuamos junto à Secretaria, então agora a pessoa se identifica por uma autodeclaração, onde ela explica que não fez a mudança de registro, mas se identifica como tal e ela não vai ser obrigada a cortar os cabelos e é colocada separada. Se for no presídio masculino, os agentes colocam a pessoa em uma ala com criminosos de periculosidade menor, de forma a proteger a integridade dessa pessoa. No final, ficou acertado que a Secretaria de Justiça colocaria a pessoa no local que ela dissesse”, explica.


Myrian Lago, titular da 49ª Promotoria de Justiça de Teresina e presidente da Rede de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos (Rede DH-Piauí). Assis Fernandes

“Eu mudei porque me incomodava, mas isso abre portas para adquirir respeito”

 Formada em Arquitetura, Marcela Braz, de 43 anos, é coordenadora de enfrentamento à homofobia da Sasc. Ela foi uma das primeiras mulheres transexuais de Teresina a mudar o nome no registro civil, no ano de 2016, através de um mutirão realizado pela Defensoria Pública, e a solicitar a carteira do nome social, da Sasc. A alteração do prenome na certidão de nascimento trouxe à Marcela mais do que uma sensação de conforto, lhe proporcionou oportunidades e garantiu respeito. 

“Eu me considero uma inspiração. Sou graduada em Arquitetura e minha luta é essa. Preciso estar me sentindo confortável com meu novo nome e meu gênero para estar inserida no mercado de trabalho, na sociedade e vivendo com respeito e dignidade. E com nome adequado ao meu gênero isso fica mais fácil, por isso estou sempre aconselhando outras pessoas e sugerindo que façam o mesmo, que busquem seus direitos. Eu mudei porque me incomodava, mas isso abre portas para adquirir respeito, para conscientizar as pessoas para o uso do nome conforme o gênero que a gente vive”, enfatiza.

Marcela Braz comenta ainda que, por ser um procedimento novo e que poucas pessoas conhecem a legislação, a procura pela retificação do nome no registro civil ainda é baixa, além do valor das taxas e certidões ser elevado. E claro, por fatores pessoais, no qual a pessoa, mesmo se reconhecendo por outro nome e gênero, opta por não mudar essas informações nos documentos oficiais.

“Nem todas as transvestis ou transexuais querem fazer a mudança, mesmo no dia a dia adotando um gênero oposto ao do nascimento. Elas podem usar um novo nome, mas não querem mudar na documentação. Quem se sente incomodada com o nome de batismo tem essa possibilidade e, quando a lei foi aprovada, ficou mais fácil, porque as pessoas podem ir ao cartório fazer a solicitação. Infelizmente, as taxas cobradas são caras se levarmos em consideração que as pessoas trans geralmente são de baixa renda”, ressalta.


Retificação de nome em registro civil demorou mais de um ano

Retificação de nome em registro civil demorou mais de um ano

O contador Ícaro Leão, de 24 anos, iniciou seu processo de retificação do nome social, emitido pela Sasc, ainda no ano de 2017.0

O contador Ícaro Leão, de 24 anos, iniciou seu processo de retificação do nome social, emitido pela Sascainda no ano de 2017. Ele conta que soube da possibilidade através de um evento realizado pelo órgão. O procedimento foi rápido e simplificado, bem diferente da retificação do nome no registro  civil, que durou cerca de um ano.

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“Mudar o nome no registro era algo inimaginável.  Na época, demorava em torno de dois anos o processo judicialpara mudar o nome no registro civil, pois era preciso emitir a carteira do nome social, usá-la por um determinado tempo, depois comprovar que você estava sendo reconhecido como tal por usar a carteira e, a partir de então, ficaria a critério do juiz mudar ou não seu registro. Como os grupos do movimento LGBT estavam em cima, meu processo demorou cerca de cinco meses. Ainda assim, eu precisei de testemunhas, solicitar vários documentos e fazer diversas consultas, inclusive acompanhamento psicológico”, comenta.

Para dar continuidade ao processo, o que lhe demandava muito tempo, Ícaro Leão precisou sair do estágio. Por meio da Defensoria Pública, o jovem entrou com um processo judicial e, após cinco meses, conseguiu a documentação.

“Eles foram muito receptivos.Tive audiência com a juíza, levei as testemunhas e, com cinco meses, eu já estava com a documentação aprovada. Na época, não podíamos alterar o nome e o sexo, pois cada um era um processo diferente. Então, eu solicitei a certidão de nascimento com a alteração do nome e fiquei aguardando a decisão do STJ para os cartórios se regularizarem e, assim, eu poder mudar também o sexo. Para isso, eu ainda precisei aguardar mais três meses”, disse.


O contador Ícaro Leão, de 24 anos, iniciou seu processo de retificação do nome social, emitido pela Sasc, ainda no ano de 2017. Assis Fernandes

Ter o nome e o gênero que escolheu e se reconhecer presente no registro civil tem uma grande importância para Ícaro, não somente pelo reconhecimento em órgãos públicos, mas para a vida social e profissional. “No caso do nome social, tínhamos dificuldades em algumas entidades privadas a aceitarem. Já os órgãos públicos estão se adaptando, porque tem uma lei estadual, mas ainda acontece de algumas empresas não terem no sistema o espaço para colocar o nome social e o nome de registro. Muita coisa ainda precisa ser superada. Está acontecendo, mas ainda em passos lentos”, frisa.

Em 2018, Ícaro Leão ajudou na criação da Associação de Trans Masculino do Piauí (ATrams), um grupo de homens transgêneros e não binários, que se identificam em maior escala com o gênero masculino, que visa reivindicar direitos, dar visibilidade e espaço para a comunidade transexual.

Paralelo a isso, a ATrams também formou um grupo de apoio às pessoas trans. “Criamos rede de profissionais que atendessem homens trans, pois é muito difícil encontrar profissionais que atendam homens. Isso não tinha e precisamos construir isso, até para facilitar na hora de fazer a retificação do nome, já que eram solicitados diversos documentos e laudos médicos, que eram exigidos, mas não tinha aparato”, enfatiza Ícaro Leão.

05 de outubro de 2019

Nome social: é direito, é humano

Nome social: é direito, é humano

Lei garante que pessoas transexuais sejam reconhecidas e respeitadas pelo nome correspondente a sua identidade de gênero.

Você já parou para pensar como o seu nome impacta na sua vida? Se ter um nome ou sobrenome que você não gosta pode causar desconforto, imagina ser chamado por um nome que você não se identifica. Agora aplique isso também ao gênero. Parece um pouco confuso, mas não é! Trata-se da Disforia de Gênero ou transtorno da identidade sexual, reconhecida pela medicina (CID 10 F64) e que se caracteriza pelo desconforto do indivíduo ao não se reconhecer com o gênero que fisicamente parece ser.

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Mudança de nome é sinônimo de dignidade  

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Diariamente, as pessoas transexuais passam por situações nada agradáveis relacionadas ao seu nome ou identidade de gênero. Em 2018, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) regulamentou a mudança de nome e gênero em cartório para transexuais. Isso permitiu que pessoas transgênero pudessem fazer as alterações necessárias em certidões de nascimento e casamento sem precisar provar mudança de sexo ou apresentar uma ordem judicial.

Maria Laura dos Reis (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

No Piauí, desde que o CNJ passou a regulamentar a mudança, cerca de 50 pessoas transexuais já fizeram a retificação do nome no registro civil em cartório. E de 2011 a 2019, 159 pessoas solicitaram a carteira de nome social expedida pelo Centro de Referência LGBT, da Secretaria Estadual de Assistência Social (Sasc). A Lei do Nome Social, nº 5.916, existe desde 2009 e garante que as pessoas transexuais sejam reconhecidas e respeitadas pelo nome que corresponde à sua identidade de gênero, mediante a apresentação deste documento.

Maria Laura dos Reis, assistente técnica do Centro de Referência LGBT da Sasc, pontua que a carteira do nome social é um procedimento de tratamento e que não substitui os documentos originais, como o Registro Geral (RG), Cadastro de Pessoa Física (CPF) ou Certidão de Nascimento. E lembra que o documento tem a finalidade de evitar que as pessoas transexuais passem por constrangimentos em locais públicos. 

“Não tem burocracia para ter acesso à carteira do nome social. A pessoa traz os documentos necessários e nós mandamos confeccionar, com um prazo de uma semana para receber”, comenta.

A emissão da carteira do nome social é rápida, além de ser um documento gratuito, diferentemente da retificação do nome ou gênero no registro civil. Maria Laura dos Reis pontua que este outro procedimento é mais burocrático, vez que são solicitados muitos documentos pelo cartório, além de ser um pago. A assistente técnica da Sasc associa a baixa procura pela retificação ao custo e à falta de informação.

“Poucas meninas têm informação de como podem fazer a retificação do nome e gênero no registro civil. Além de ser muito caro para quem tem baixa renda, como é a situação da maioria das trans. Cada taxa da documentação custa R$ 25 e a certidão final varia de R$ 150 a R$ 180. A gente pensou que, quando o procedimento passasse no STF, aumentaria a procura pela alteração do nome social, mas por causa da burocracia, muitas pessoas transexuais estão desanimadas”, frisa.

03 de outubro de 2019

Enem: professoras listam possíveis temas da redação

Enem: professoras listam possíveis temas da redação

Violência, saúde e meio ambiente são algumas das apostas para a prova deste ano

Falta exatamente um mês para a aplicação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A primeira bateria de provas está marcada para o dia 3 de novembro e inclui as disciplinas de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias; Redação e Ciências Humanas e suas Tecnologias. Já no dia 10, serão aplicadas as provas de Ciências da Natureza e suas Tecnologias, e Matemática e suas Tecnologias. 


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A prova de redação costuma ser a mais temida pelos candidatos e a professora Vanessa Soares já tem suas apostas quanto ao tema que deve ser trabalhado este ano. Ela acredita que, diferente dos anos anteriores, não serão trabalhados temas voltados para a minoria. Segundo ela, desde de 2012, as provas de redação do Enem têm um viés ideológico e já abordam violência contra mulher, intolerância religiosa e pessoa com deficiência. 

“Levando em conta o contexto político, este ano temos uma possibilidade de trabalhar com a diminuição da violência, tratamento de doenças [que já foram erradicadas e estão voltando], posse e porte de arma, a tecnologia na saúde e educação [pois, no próximo ano, temos a possibilidade de ter um Enem digital], além da redução da maior idade penal e ensino em casa [homeschooling]. Isso de acordo com o perfil que temos hoje”, aposta Vanessa. 


A professora Vanessa Soares acredita que o tema não vai trabalhar a mesma linha de minorias dos anos anteriores - Foto: Arquivo Pessoal

E a professora de redação Patrícia Lima amplia as possibilidades de temas, ela acredita que a questão ambiental, no quesito de manejo de resíduos sólidos, crise hídrica e desastres ambientais, possa estar em debate na prova deste ano. Já na área da saúde, assuntos como Infecções Sexualmente Transmissíveis, doenças mentais, gravidez na adolescência, má alimentação, obesidade, doação de sangue e de órgãos, autismo, vícios em drogas ilícitas e lícitas também podem aparecer. 

“Na área de educação, podem cair temas como evasão escolar, ensino domiciliar, bullying, violência nas escolas, militarização das escolas. Assim como assuntos voltados para a cultura, a exemplo da preservação do patrimônio cultural, preconceito linguístico, nacionalismo, e sobre trabalho, pode cair desemprego, geração nem-nem e trabalho escravo”, expõe Patrícia Lima.

Reta final deve ser de prática

A professora de redação Patrícia Lima reforça que, no último mês que antecede a prova, é preciso praticar, escrever, no mínimo, duas redações por semana e saber o que acontece no mundo para ter argumento. 

Mas a professora Vanessa Soares lembra que a preparação para a prova deve começar ainda no início do ano e, ao longo deste período, o candidato deve ir escrevendo redações, antenado no que está em debate no país e em assuntos que voltam a ser discutidos na mídia com outra abordagem. 

“As temáticas que o Enem trabalha também ajudam na formação cidadão. Por isso, é preciso pensar em que contexto o Enem está sendo produzido. Atualmente, temos uma banca totalmente diferente e um contexto político, sociopolítico e ideológico do país diferente dos últimos anos”, indica Vanessa Soares. 

Vale lembrar que a prova de redação do Enem exige que o estudante conheça as 5 competências exigidas, são elas: uso correto do Português; compreender e desenvolver o tema no estilo dissertativo-argumentativo; defender seu ponto de vista com argumentos; demonstrar capacidade de argumentação; e elaborar a proposta de intervenção. 


Além do lado intelectual, estudantes devem se preparar físico e psicologicamente - Foto: Arquivo O Dia

Preparação física e psicológica 

Além da preparação intelectual, os candidatos precisam trabalhar o lado físico e psicológico. A psicóloga Ana Cecília Bugyja destaca que é preciso estar bem psicologicamente para não atrapalhar a prova. 

“O aluno deve tentar ter uma noite de sono tranquila, ter dormido a quantidade de horas que o deixa descansado antes da prova, além de ter se alimentado de comidas leves. No dia do Exame, é bom levar água e algum alimento pra repor as energias, praticar técnicas de respiração e relaxamento antes da prova, e pular as questões que não está conseguindo realizar e fazer as disciplinas que tem mais segurança primeiro”, comenta Ana Cecilia Bugyja.

28 de setembro de 2019

Todo parto tem quer ser humanizado, afirma enfermeira

Todo parto tem quer ser humanizado, afirma enfermeira

A enfermeira obstétrica Elaine Barbosa, conta que trabalho de parto é um dos principais indícios que a criança está pronta par nascer.

De acordo com a enfermeira obstétrica Elaine Barbosa, os benefícios do parto normal para a mãe e para o bebê são inúmeros, sendo que o próprio trabalho de parto é um dos principais indícios que a criança está pronta par nascer. 

“Nesse processo, a mãe produz hormônios que favorece a saúde dos dois, a oxitocina protege o recém-nascido de danos cerebrais, e ajuda no amadurecimento desse órgão, fortalece o vínculo entre mãe e filho e, junto com a prolactina, favorece a amamentação, além de prevenir hemorragia materna”, destaca.

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Elaine Barbosa ainda acrescenta como benefícios deste tipo de parto a recuperação mais rápida da mãe e a redução do risco de depressão pós-parto e de infecção puerperal. “Além disso, a compressão torácica que o feto sofre ao percorrer o canal do parto libera o líquido dos pulmões do bebêdiminuindo o risco de desconforto respiratório ao nascer; e as bactérias presentes no trato vaginal também conferem resistência imunológica ao bebê”, conclui.

A enfermeira obstétrica diz que já é direito da mãe escolher o tipo de parto que quer ter, mas ela deve ter escolhas justas e situações que não coloquem sua saúde em risco. “A informação e a assistência qualificada e humanizada são subsídios crucias nas tomadas de decisão da mãe e da família. É importante que a sociedade e o poder público favoreçam o debate a respeito desse tema e propicie o protagonismo feminino nesse evento que entrelaça as dimensões biopsicosociocultural da família”, ressalta.


É direito da mãe escolher o tipo de parto que quer ter, mas ela deve ter escolhas justas e situações que não coloquem sua saúde em risco. Reprodução

Além disso, ter um parto humanizado é ter o direito de ter um acompanhante, ser assistida enquanto está em trabalho de parto, ter conforto, informação e segurança. Por esse fato é que a Organização Mundial de Saúde (OMS) vem incentivando o parto normal e humanizado, pois os benéficos sobressaem aos medos e receios da mulher.

“O parto humanizado é o que todo parto deveria ser, é onde o profissional ver essa mulher como um ser ativo, dona do seu próprio corpo, com o seu protagonismoproporcionam que, em todo processo de nascimento, ela tenha o poder da decisão e de se colocar. É necessária uma assistência individualizada, onde você conversa com a mulher sobre os procedimentos que serão realizados e decide junto com ela a melhor forma de realizá-los, acompanha o bebê, tem o mínimo de interferência possível de tecnologias que não devem ser usadas, permite que esse parto seja o mais agradável, isso não quer dizer que parto humanizado é música e consola a mulher”, explica Elaine Barbosa

Parto cesariano é indicado quando há risco vida da mãe e do bebê

Parto cesariano é indicado quando há risco vida da mãe e do bebê

Vanessa Bezerra, sonhava em ter um parto vaginal, mas teve pré-eclampse, e fez cesariana.

Vanessa Bezerra, de 23 anos, sonhava em ter um parto normal após ser incentivada por profissionais da saúde e ter lido muito sobre parto vaginal e cesáreo. Quando ela soube da gravidez, estava tomando contraceptivo e, após fazer alguns exames, a gestação foi confirmada.

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Porém, a jovem teve pré-eclampse e o bebê nasceu com 38 semanas e 2 dias (hoje ele está com sete meses). “Eu li bastante, vi os benefícios e era o que eu queria. Não tinha medo das dores, eu estava rezando que elas chegassem. Mas não chegaram, eu comecei a perder líquido e, na minha cidade, só dão encaminhamento se tiver sentindo dor e eu fui fazer uma consulta com uma médica ginecologista e ela disse que eu não tinha mais condições de andar e montou a equipe para fazer o parto”, conta Vanessa Bezerra. 



Vanessa Bezerra, sonhava em ter um parto vaginal, mas teve pré-eclampse. Reprodução

E mesmo a jovem tendo feito a cirurgia em hospital particular, pois corria risco de vida e o bebê nasceu prematuro, ela ainda sofreu violência obstétrica. Estava assustada com a situação e não teve assistência básica necessária para se sentir bem.

 “Tiveram duas enfermeiras que não me ajudaram a me levantar, e minha irmã estava com o bebê, pois ele estava abaixo do peso, então eu preferia que ela ficasse com a criança, e eu pedi 3 vezes que me ajudassem e não vieram. Pedi para avaliar o bebê e não fizeram, ele chorava muito e eu não podia me mexer demais. E o pediatra só voltou mais de 24h depois, e o bebê só chorando. No pós-parto, sentia muitas dores”, relembra Vanessa.

Tipos de parto

A polêmica envolvendo os tipos de parto inclui diversas vertentes, inclusive mitos e verdades. A enfermeira obstétrica Elaine Barbosa explica, por exemplo, que existem recomendações reais e fictícias quando o assunto é a cesariana. Segundo ela, este tipo de parto é cientificamente indicado nas seguintes situações:

 “O parto cesáreo deve ser feito quando a mãe possui algumas doenças infectocontagiosas, como herpes vaginal ativa, condilomas e HIV positivo, para evitar o contágio do bebê; ou quando há desproporção céfalo-pélvica, quando a cabeça do bebê é desproporcional à vagina da mãe, impossibilitando o parto normal; ou ainda quando há colapso do cordão umbilical, descolamento prematuro de placenta, ou sofrimento fetal agudo, quando o bebê está em situação de risco e precisa ser removido rapidamente do útero. A cesárea também é indicada quando há placenta prévia total, que é quando a placenta recobre totalmente o colo do útero e dificulta a passagem do bebê no canal vaginal”, elenca. 

Por outro lado, foi difundido popularmente que o parto cesáreo é indicado em outras situações, mas sem nenhum embasamento científico. São exemplos destes casos: “quando há circular de cordão, se alega que é indicativo de cesariana, mas não é, pois os bebês nascem constantemente com circular de cordão e nascem bem. Outro caso é a da bolsa rota, da falta de dilatação, mas esta só ocorre porque a mulher não está em trabalho de parto ainda, ela está em pródromos ou pré-parto, que são as contrações de treinamento; daí se interna essa mulher que não está efetivamente em trabalho de parto e alega-se a não dilatação para fazer a cesárea”. 

A enfermeira obstétrica destaca ainda que o parto cesariano é um recurso válido para salvar a vida da gestante e do bebê. Porém, não se pode deixar de considerar que o parto é um processo fisiológico e que, como qualquer procedimento cirúrgico, existe o risco de hemorragia, infecções e danos aos órgãos internos das gestantes. 

“Outro ponto importante a se considerar nas cesarianas ‘por conveniência’ é a prematuridade [do bebê], já que a idade gestacional não pode ser calculada com exatidão e [tirá-los antes do tempo] está associado a problemas respiratórios dos bebês”, alerta Elaine Barbosa. 

"PL fere direitos sociais de proteção à maternidade e à infância"

Segundo Alba Vilanova presidente da Comissão de Apoio à Vítima de Violência da OAB-PI, diz que projeto de lei vai contra os direitos de proteção a vida.

A presidente da Comissão de Apoio à Vítima de Violência da OAB-PI, Alba Vilanova, também se posiciona de forma contrária à aprovação do projeto de lei. Ela defende um amplo debate junto à população, conselhos de classe e entidades ligadas ao movimento pelo parto humanizado, antes que o projeto seja apreciado pelos parlamentares.

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“Para quem estuda direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, procura estar atualizada sobre as evidências científicas, estatísticas e recomendações da OMS, milita no combate à violência obstétrica, compreende que o Projeto de Lei fere amplamente os direitos sociais de proteção à maternidade e à infância, consagrados no artigo 6º da Constituição da República Federativa do Brasil, bem como os direitos à proteção integral à vida e à saúde, garantidos ao recém-nascido no artigo 227, da CR, e artigos 4°, 7° e 11, do Estatuto da Criança e do Adolescente”, afirma. 

Alba Vilanova também acompanhou os trâmites e debates da legislação aprovada em São Paulo e conta que alguns Conselhos Regionais de Medicina levantaram questionamentos sobre o parto normal, levando em conta um posicionamento ideológico e não um processo fisiológico do corpo feminino

“O Cremerj [Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro], por exemplo, levantou a bandeira contra o movimento do parto humanizado, nos chamando de esquerdistas, feministas, comunistas, espalhando para as pessoas que violência obstétrica não existia, que queríamos obrigar as mulheres a fazerem parto normal. Esse problema se tornou um debate ideológico político, infelizmente”, lembra a advogada. 

CRM-PI vê com preocupação PL que dispõe gestante optar por parto cesariano

CRM-PI vê com preocupação PL que dispõe gestante optar por parto cesariano

O conselho alega falta de estrtutura e risco a saúde da gestante e do bebê

Procurado pela reportagem de O DIA para discutir o Projeto de Lei que dispõe sobre a garantia da gestante optar pelo parto cesariano, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Piauí (CRM-PI) demonstra preocupação, vez que é preciso pensar o que é mais importante: os princípios da autonomia da gestante, do seu direito à escolha e/ou o princípio de preservação à vida.

 “Além disso, é preciso avaliar as regras de organização e funcionamento da saúde pública, especialmente dentro do Sistema Único de Saúde – SUS, que tem normas e fundamentos constitucionais voltados para a proteção da saúdepor meio de medidas e escolhas que inibam os riscos de agravos à saúde das pessoas, seja de modo individual ou coletivo”, destaca a nota.

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Segundo o CRM-PI, o primeiro desses fundamentos, conforme disposto no art. 196 da Constituição Federal (CF), é o da adoção de políticas públicas que preservem a saúde sob todos os aspectos, o que se denomina de princípio da segurança sanitária

 Tal princípio, que não se contrapõe à autonomia da vontade, fornece orientações a partir da definição, de acordo com as evidências científicas, de medidas protetivas segundo as quais o serviço de saúde deve ser sempre voltado à prevenção, evitando-se o atendimento curativo, conforme estabelece diretriz organizativa do SUS prevista no art. 198, II da CF. 


CRM-PI demonstra preocupação,sobre Projeto de Lei que dispõe sobre a garantia da gestante optar pelo parto cesariano. Reprodução

“Importa destacar que, dentre os fundamentos de organização do SUS, sobretudo em relação ao parto, estão as políticas de saúde que dispõem que o parto natural é o que mais previne riscos, sendo o parto cesariano a exceção, devendo somente ser realizado caso haja real necessidade”, ressalta. 

Sobre este ponto, o Ministério da Saúde (MS), por meio da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias em Saúde (CONITEC), realizou consulta pública, em abril de 2015, quanto às “Diretrizes de Atenção à Gestante: a operação Cesariana”, com extensa descrição da situação no Brasil e seu impacto na saúde da mulher e do bebê. Estas diretrizes foram aprovadas em 2016, pela Portaria n° 306, de 28 de março de 2016, após pactuação na Comissão Inter gestores Tripartite (CIT). 

A adoção dessa política pelo MS decorre do assustador número de cesarianas no Brasil, que alcançou as mais altas taxas do mundo, tendo a OMS se referido a uma “epidemia de cesarianas”, uma vez que o Brasil apresentou, no ano de 2016, uma taxa de 55% de partos cesáreos.

“Portanto, para o CRM-PI, está fundamentadamente comprovado que o parto cesariano oferece mais riscos de infecções e morte para pacientes nas situações habituais. Além disso, o CRM-PI também considera alarmante o Projeto de Lei Estadual n° 163 de 19 de agosto de 2019, pois o sistema público de saúde, que já não vem comportando a sobrecarga existente, não suportará o aumento do número de atendimentos por cirurgia, que certamente demanda mais profissionais qualificados, mais estrutura de centros cirúrgicos, leitos de UTI e leitos de enfermaria, sem falar no maior tempo de internação”, conclui a nota.

Projeto de lei quer garantir o direito da gestante optar pelo parto cesáreo

Projeto de lei quer garantir o direito da gestante optar pelo parto cesáreo

A proposta ainda prevê que a gestante poderá escolher se irá querer analgesia mesmo quando for escolhido parto normal na rede pública de saúde.

As gestantes piauienses poderão ter o direito, assegurado por lei, de optar pelo parto cesáreo a partir da 39ª semana de gestação. É o que propõe o Projeto de Lei (PL) N° 163, de 19 de agosto de 2019, de autoria do deputado estadual João Madison. A proposta ainda prevê que a gestante poderá escolher se irá querer analgesia mesmo quando for escolhido parto normal na rede pública de saúde.

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O PL no âmbito do Piauí segue as diretrizes da Lei nº 17.137, de 23 de agosto de 2019, aprovada em São Paulo e de autoria da deputada estadual Janaina Paschoal. “Esse projeto foi sancionado em São Paulo e a gente pegou a ideia de lá. Muitas vezes, as mulheres sofrem muito, principalmente as pessoas mais pobres, que não têm condições de ter um parto cesáreo e isso leva a criança a demorar muito para nascer, sofrer. Isso não quer dizer que nós vamos fazer todos os partos cesáreos”, argumenta João Madison.


Gestantes piauienses poderão ter o direito, assegurado por lei, de optar pelo parto cesáreo a partir da 39ª semana de gestação. Reprodução

A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que até 15% dos partos realizados sejam cesarianos e que ocorra apenas quando a mãe ou bebê estejam correndo risco de vida. Todavia, uma pesquisa realizada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em 2017, mostrou que, no Brasil, o número de cesáreas chega a 57% nas unidades públicas e a 84% dos partos realizados em hospitais particulares.

Para João Madison, as estatísticas, contudo, não devem ser encaradas como justificativa para a não aprovação do projeto de lei. “Muita gente está me dizendo que os hospitais não estão preparados, mas a gente tem que pensar em melhorar, é preciso que o Governo Federal e Estadual trabalhe nisso para colocar esses hospitais em uma estrutura melhor. Não é porque não tem hoje que não vai se fazer a lei para atender essa demanda. Acho que é o momento da gente estar trabalhando e melhorando essas unidades de saúde”, explica.

O projeto de lei foi apresentado pelo deputado estadual João Madison no dia 19 de agosto e atualmente encontra-se na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do Piauí, aguardando parecer da comissão para seguir a tramitação. Após a apreciação das comissões responsáveis, o projeto de lei deve ser levado para votação na plenária e, se aprovado, segue para sanção do governador do Estado.

25 de setembro de 2019

Trânsito: de cada 10 amputados, sete sofreram acidente de moto

Trânsito: de cada 10 amputados, sete sofreram acidente de moto

Fisioterapeuta do Ceir destaca que a maioria dos pacientes são pacientes jovens e que sofreram lesões graves no trânsito.

O Centro Integrado de Reabilitação (Ceir) atende pessoas com deficiência no Piauí e conta com uma equipe multidisciplinar, que utiliza técnicas modernas e equipamentos de última geração. Aline Matos é fisioterapeuta e integra a equipe do setor de amputados do Centro. Segundo ela, a maior incidência de pacientes que dão entrada no Ceir é de pessoas vítimas de acidente envolvendo motocicleta. Em geral, são pacientes jovens e que sofreram lesões graves

“Eu, por exemplo, só atendo pacientes amputados, então de 10 pacientes, sete são vítimas de motocicletas. Muitos desses pacientes ficam em cadeiras de rodas, paraplégicos e tetraplégicos por conta do acidente. Quem vem de cadeiras de rodas acha que a vida acabou, mas queremos mostrar para esse paciente que não, que é possível ele ter sua independência e ser reinserido, tanto na vida profissional como na sociedade como um todo”, comenta Aline Matos.


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A fisioterapeuta reforça que é preciso conscientização por parte dos motoristas para que dirijam de maneira prudente no trânsito e enfatiza que misturar álcool e direção, excesso de velocidade e falta de atenção resultam em acidentes graves e até fatais. 

“Falta conscientização para entender que dirigir de forma incorreta pode ser um risco. Os acidentes acontecem e as sequelas são para o resto da vida, pois os tipos de amputações podem ser variadas, desde uma perna, as duas, os braços e até todos os membros inferiores e superiores, além das sequelas de traumatismo craniado, isso quando não perde a vida”, pontua.


Aline Matos destaca que a reabilitação visa dar independência para o paciente - Foto: Assis Fernandes/O Dia

Recuperação

Para que a recuperação desse paciente evolua positivamente, é preciso não somente que a equipe multidisciplinar se dedique, mas que o paciente também tenha interesse e força de vontade. A fisioterapeuta Aline Matos enfatiza que a autoestima e a aceitação são essenciais para que a recuperação seja rápida.

“Quando o paciente dá entrada no Centro de Reabilitação, ele passa por um processo de triagem e já conseguimos observar do que ele está precisando: se é uma cadeira de banho, de rodas, muletas, e também determinamos quais terapias eles podem ser enquadrados. A maioria dos pacientes amputados são enquadrados na hidroterapia e na reabilitação desportiva (RD), que são pacientes que praticam natação ou futebol de amputados. Tentamos incluí-los nas atividades, para que eles participem do todo, e também oferecemos suporte psicólogo, tanto em grupo como individual, onde é trabalhada a aceitação”, enfatiza.


Em 2018, a quantidade de motos no Estado triplicou, resultando numa média de uma moto para cada cinco habitante - Foto: O Dia

Metade dos motociclistas não são habilitados no Piauí

Segundo o Anuário da Indústria Brasileira de Duas Rodas 2019, divulgado pela Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), em 2008, a população do Piauí era de 3.119.697 e a frota de motocicletas era 224.327, o que dava uma média de 14 pessoas para cada moto. Uma década depois, em 2018, a população do Estado subiu para 3.264.531 e a quantidade de motos triplicou, saltando para 664.422, uma média de 5 motos para cada habitante. Porém, a quantidade de pessoas com habilitação na categoria ‘A’ é de apenas 352.549, ou seja, quase metade dos motociclistas piauienses não são habilitados.

Samyra Motta, gerente de Educação no Trânsito da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (Strans), pontua que esse grande índice de motociclistas sem habilitação, associado à direção perigosa, são os principais fatores causadores de acidentes e por tornar esse o maior grupo de risco.

“Têm as pessoas que não tiram porque não dão prioridade. É fácil comprar uma moto, com mensalidades pequenas, mas têm pessoas que não tiram a Carteira Nacional de Habilitação porque é cara. Em muitos casos, o pai oferece a moto ao filho menor de idade. Às vezes, ele sai da autoescola obedecendo às regras, mas, com o tempo, adquire vícios, como andar com o capacete sem a fivela”, comenta.


Samyra Motta alerta para os riscos de pilotar sem ter CNH - Foto: Arquivo O Dia

Além disso, a imprudência em não respeitar as leis de trânsito também é um fator que corrobora para os índices elevados de acidente envolvendo esse grupo. Samyra Motta enfatiza que os motociclistas são os que mais atropelam pedestres, vez que, a maioria não para no sinal e avança o sinal vermelho enquanto os pedestres ainda estão atravessando a via.

A gerente de Educação no Trânsito comenta ainda que os motociclistas se arriscam entre os carros ao ficarem em ‘pontos cegos’, impossibilitando de serem vistos pelos motoristas de outros veículos. 

“O motociclista transita entre os veículos; passa no canteiro central; anda sem capacete ou, quando anda com capacete, o equipamento está no cotovelo; transporta mais de um passageiro; crianças de colo ou menor de sete anos. Além de utilizar celular digitando com uma mão e a outra no guidom. Por ser a peça mais frágil, ele deveria se proteger mais”, conclui Samyra Motta.

Trânsito: Maioria das vítimas sofre traumatismo grave, diz médica

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Ortopedista explica que a recuperação varia de acordo com a gravidade da lesão e pode levar mais de seis meses, dependendo do caso.

A ortopedista do HUT, Ayrana Aires, enfatiza que os pacientes vítimas de acidente de trânsito precisam de cuidados especiais e, em geral, têm uma recuperação lenta. A médica ainda destaca que a maior parte dos pacientes envolvidos nesse tipo de ocorrência dá entrada no HUT com traumatismo grave.

“Os pacientes podem sofrer diversos tipos de lesões, como traumatismo craniano grave ou até uma lesão modular importante, que pode causar uma difusão de outras vias, fazendo com que esse paciente fique mais tempo no hospital. Um paciente com fratura exposta de fêmur, por exemplo, leva de quatro a seis meses para se consolidar. Uma fratura mais grave, que vai precisar de reconstrução, pode demorar ainda mais. Já uma fratura de punho pode levar de dois a três meses de recuperação”, comenta.


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Ayrana Aires pontua que esses pacientes vítimas de acidente de trânsito são, em geral, pessoas economicamente ativas e que necessitam se afastar de suas atividades em virtude das lesões. E de acordo com a fratura que venha a sofrer, o paciente pode demorar, em média, seis meses afastado do mercado de trabalho. 

“São pessoas economicamente produtivas, que estão no mercado de trabalho e, muitas vezes, provedora do sustento da família, e que acabam deixando de trabalhar e ficando dependentes de seguros, como do INSS. E quando é algo que o paciente precisa de fisioterapia ou medicação, o tratamento pode ser estender um ou dois anos. Isso gera mais custos para o governo, tanto para o paciente quanto para a família, que também precisa de assistência”, finaliza a ortopedista.


HUT é um hospital credenciado de média e alta complexidade - Foto: Arquivo O Dia

Mesmo com a perna amputada, vítima de trânsito não perdeu bom humor

Ter prudência e atenção no trânsito é fundamental para evitar acidentes; e aquela clássica frase ‘dirija por você e pelo outro’, mais do que nunca, deve ser levada ao pé da letra. Quando o condutor não respeita as leis de trânsito, acidentes como o do seu Isaias Manuel da Silva, de 43 anos, podem acontecer.

Natural de Passagem Franca, a 209 Km de Teresina, Isaias Manuel entrou para as estatísticas de motociclistas envolvidos em acidentes de trânsito. Seu cuidado e atenção não foram suficientes para evitar o fato que aconteceu e lhe deixou sequelas para o resto da vida. Em dezembro de 2017, após encerrar o expediente de trabalho, Isaias havia saído da empresa para jantar quando foi surpreendido por um veículo que invadiu o sinal vermelho e o atingiu.

O fato aconteceu às 21h, no bairro Parque Piauí, zona Sul de Teresina. O motorista fugiu sem prestar qualquer tipo de socorro. Mesmo acidentado, Isaias Manuel ainda tentou reconhecer o veículo e a placa para ajudar nas investigações, mas sem êxito.


Isaias Manuel se prepara para receber a prótese da perna - Foto: Assis Fernandes/O Dia

“Foi algo tão rápido que não dá nem para imaginar. Eu não conseguia ver a proporção do que tinha acontecido. Quando olhei para a perna [que foi esmagada na batida], não me desesperei, nem senti dor. Passei 15 dias no hospital, fiz duas cirurgias para tentar recuperar a perna e, após ter uma infecção hospitalar, ela precisou ser amputada. Também não fiquei abalado com a notícia, pois eu só pensava que estava vivo”, detalha.

Para Isaias, a vida não parou após o acidente. Mesmo com inúmeras dificuldades, ele nuca perdeu o sorriso no rosto e o bom humor. Duas vezes por semana, ele vai ao Centro Integrado de Reabilitação (Ceir), onde faz fisioterapia e hidroterapia. Há mais de um ano e meio, ele recebe atendimento especializado no Centro e sua recuperação tem sido rápida. Agora, ele se prepara para receber a prótese da perna. 

“O atendimento dos profissionais tem sido fundamental, pois eles estão me ajudando nesse processo, me incentivando, dando suporte e orientações, pois eu não saberia a quem recorrer. Eles fazem a diferença na minha vida e me fazem seguir em frente, afinal, a vida não para e dá para continuar vivendo com a prótese”, enfatiza Isaias Manuel.

“Precisamos dirigir pela gente e pelos outros. Se a pessoa não tiver consciência do que está fazendo, ela vai causar o acidente ou sofrer. É preciso estar focado 100% no trânsito, porque a maioria das causas dos acidentes são causas por embriaguez, celular ou distração. Quando você está focado, embora o outro esteja distraído, há chances de conseguir evitar, apesar de que, infelizmente, nem sempre é possível. Hoje eu agradeço a Deus por estar vivo, caminhando. Logo vou receber a prótese e assim ganhar mais independência”, acrescenta o motorista.

Nova rotina

Isaias Manuel tem uma rotina bastante corrida. Motorista profissional há mais de 20 anos, ele conta que nunca se envolveu em acidentes e sempre dirigiu com prudência. Após o acidente, sua vida mudou completamente e ele deu uma desacelerada. Agora, ele está cuidando mais da sua saúde, se recuperando para receber sua prótese e voltar ao mercado de trabalho. 

“Estou no processo de adaptação para receber a prótese e isso me dá mais esperança, me anima muito. A vida que eu levava era muito corrida, de motorista particular e de carreta na empresa que eu trabalhava, gostava muito do que eu fazia e, depois do acidente, tudo parou. Hoje eu estou me dedicando praticamente à fisioterapia e não estou trabalhando, mas pretendo quando estiver reabilitado a voltar a trabalhar. O médico disse que depende só de mim e eu estou me esforçando para isso”, destaca o motorista.

Para Isaias, a família tem sido essencial para o sucesso da recuperação. São eles que motivam o motorista para não desistir e pensar sempre de maneira positiva. E esse não somente da esposa e filhos, mas dos profissionais do Ceir, que fazem com que Isaias não perca as esperanças, mantendo o sorriso no rosto e bom humor. 

“Eu me considero uma pessoa muito alto-astral e de bem com a vida, mesmo com a gravidade do acidente. Eu não senti depressão, não me abalei, simplesmente só pensei em Deus, em me reabilitar e que a vida continua. Tendo o apoio das profissionais também me ajuda muito, porque se eu estivesse sozinho em casa, talvez estivesse pensando em outras coisas e o processo se tornaria mais difícil. Estar aqui hoje é uma vitória, pois têm muitas pessoas que gostaria de ter esse acompanhamento profissional, mas devido à quantidade de pacientes não conseguem vagas”, pontua.

Trânsito: 24 motociclistas são atendidos no HUT todos os dias

Trânsito: 24 motociclistas são atendidos no HUT todos os dias

De janeiro a agosto deste ano, o HUT atendeu 5.818 pacientes envolvidos em acidentes de trânsito; desse total, 86% eram motociclistas

O Dia Nacional do Trânsito, comemorado hoje, 25 de setembro, tem como principal objetivo conscientizar e chama a atenção dos motoristas e pedestres sobre os cuidados básicos que devem ser adotados no trânsito. Este dia foi instituído a partir da criação do Código de Trânsito Brasileiro, em setembro de 1997.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que o Brasil é o quinto país com mais vítimas fatais durante o tráfego de veículos. Somente de janeiro a junho deste ano, houve quase 19 mil mortes no trânsito brasileiro. Desse total, 77% das vítimas eram motociclistas. Dados do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) apontam que, de janeiro a agosto de 2019, o Samu Teresina atendeu 4.790 ocorrências decorrentes de acidentes de trânsito, o que corresponde a uma média de 598 acidentes por mês, sendo 69,72% das vítimas do sexo masculino.


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E os motociclistas lideram entre as principais vítimas de trânsito. Na capital piauiense, de janeiro a agosto deste ano, dos 6.793 pacientes que deram entrada no Hospital de Urgência de Teresina (HUT) vítimas de acidente de trânsito, 86% (5.818) eram motociclistas, quase 24 atendimentos por dia. Um aumento de 3%, em relação ao mesmo período do ano passado, quando foram atendidos 5.791 (83%) motociclistas envolvidos em acidente de trânsito. 


As principais vítimas são homens com idade de 21 a 40 anos , com 414,9 casos por mês - Foto: Arquivo O Dia

Dos motociclistas atendidos pelo HUT, 75% eram homens. De janeiro a agosto, foram realizados 4.352 atendimentos, o que corresponde a 544 casos por mês. As principais vítimas são homens com idade de 21 a 40 anos (57%), com 414,9 casos por mês (3.319 atendimentos de janeiro a agosto). Seguido dos pacientes com idade de 41 a 60 anos (22%), com 161,8 casos por mês (1.294 atendimentos de janeiro a agosto deste ano).

O HUT é um hospital credenciado de média e alta complexidade, ou seja, os pacientes que chegam à unidade de saúde são direcionados de acordo com a gravidade da ocorrência, sobretudo de acidente de trânsito.

“Na parte ortopédica, a grande maioria dos pacientes é de acidente de trânsito. O tempo de cirurgia para esse paciente é relativamente rápido. Depois de feitos todos os exames pré-operatórios, em no máximo dois dias, ele é operado, caso não haja necessidade de exames mais detalhados. E, dependendo da medicação, esse paciente deve ter alta de três a cinco dias. Comparado a outros centros públicos, no HUT é muito rápido e há uma rotatividade de pacientes muito grande”, disse a ortopedista do HUT, Ayrana Aires.

22 de setembro de 2019

Nova cadeia minimiza, mas não resolve superlotação, diz sindicato

Nova cadeia minimiza, mas não resolve superlotação, diz sindicato

Inauguração de cadeia abre mais 604 vagas, mas o Piauí precisaria de pelo menos 2.200 vagas para conseguir atender à demanda.

Nesta segunda-feira (23), será inaugurada pelo Governo do Estado e a Secretaria de Justiça a Cadeia Pública de Altos. Com 604 vagas, o estabelecimento deverá receber o excedente carcerário das demais unidades, mas, mesmo assim, o problema da superlotação no Piauí não se resolve. Ele será apenas minimizado. É o que denuncia o Sinpoljuspi (Sindicato dos Agentes Penitenciários do Piauí) e a Defensoria Pública do Piauí.

Construída por meio de convênio entre Estado e União, com investimento na casa dos R$ 17 milhões, a cadeia pública começou a ser idealizada ainda em 2008, quando o sistema prisional do Piauí abrigava cerca de 1.900 detentos, segundo dados do Sinpoljuspi, como resposta ao problema de superlotação dos presídios na época.

Celas da nova Cadeia Pública de Altos. (Foto: Divulgação/Sejus)

Mais de uma década depois, o sistema quase triplicou a quantidade de presos. Segundos dados da Secretaria de Justiça, o sistema possui atualmente 5.105 presos para as 2.390 vagas disponíveis. Ou seja, mesmo com as 604 novas vagas da cadeia pública, elevando o número de vagas disponíveis para quase três mil, os presídios do estado continuarão operando com 70,47% além da sua capacidade.

"Essa inauguração dará certo alívio por uma média de seis meses, mas é uma demanda crescente”, revela Kleiton Holanda.

“A obra está muito bem feita, já passou por várias tentativas de inauguração e, por falta de servidores, não foi inaugurada, mas há uma necessidade urgente devido à superlotação em várias unidades prisionais. Essa inauguração dará certo alívio por uma média de seis meses, mas é uma demanda crescente”, explica o presidente do Sinpoljuspi, Kleiton Holanda.

Visão externa da nova Cadeia Pública de Altos. (Foto: Divulgação/Sejus)

Para a titular da 4ª Defensoria Criminal, o estabelecimento não resolve o problema da superlotação no Piauí. Segundo Viviane Setúbal, não é só abrir uma nova cadeia. Trata-se de se investir em projetos de ressocialização para os detentos e também na formação e capacitação dos profissionais que vão lidar diretamente com eles.

“Infelizmente a ideia que se tem é que investir nessa área é algo que não tem futuro. O Executivo, os administradores precisam ter consciência de que não é investimento em vão. A gente não pode ver aquele preso que está ali como uma pessoa que não tem mais perspectiva, pelo contrário. Existem pessoas no sistema que têm sim toda a capacidade de mudar de vida e só precisa de oportunidade. A oportunidade que não teve antes”, avalia Viviane.

Agentes penitenciários

Outro ponto destacado pelo sindicato, diz respeito à quantidade de agentes penitenciários atuando no novo presídio. A Resolução Nº 9 de 2009, do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), determina que o número de agentes do estabelecimento penal deve respeitar a proporção de um agente penitenciário para cada cinco presos.

"A necessidade total seria de 448 agentes penitenciários para trabalhar somente nessa unidade", diz presidente do Sinpoljuspi.

Pelo cálculo, o presídio deveria operar em sua plenitude com 122 agentes penitenciários por plantão. “Considerando que são quatro plantões, a necessidade total seria de 448 agentes penitenciários para trabalhar somente nessa unidade. No entanto, o governo quer colocar apenas 50 agentes na inauguração”, denuncia o presidente do Sinpoljuspi.

Kleiton Holanda, presidente do Sinpoljuspi. (Foto: Arquivo O Dia)

Segundo o Sinpoljuspi, o Estado possui atualmente 800 agentes penitenciários divididos entre as 16 unidades prisionais. Desse total, 110 possuem pedidos de aposentadoria em andamento.“Em 2016 houve concurso e 316 agentes passaram por todas as fases. A gente sabe que o concurso não era o número ideal, mas mesmo assim houve o curso de formação para 150, foram chamados alguns para trabalhar nas unidades que já necessitam hoje”, explica Kleiton Holanda.

No último dia 17, o governador Wellington Dias assinou a prorrogação, por mais dois anos, do concurso ao qual se refere o sindicalista, cuja validade seria encerrada no dia 20 de outubro de 2019. Atualmente, cerca de 40 agentes penitenciários aprovados no concurso público passaram pelo curso de formação e estão esperando há um ano pela nomeação, outros 166 ainda aguardam o curso de formação. Dentre os aprovados, 107 foram convocados e já atuam no sistema penal.

Aprovados em concurso protestam em frente ao Palácio de Karnak. (Foto: Arquivo O Dia)

“Se convocassem esses aprovados, daria para inaugurar o estabelecimento, mesmo trabalhando com o número mínimo. Queremos que a obra inaugurada funcione em sua plenitude, e não de forma parcial, e o Governo do Estado pode resolver essa questão, chamando imediatamente os que já fizeram o curso de formação”, argumenta o sindicalista.

Em entrevista a uma emissora de TV local, o secretário de Justiça, Carlos Edilson, informou que os agentes que passaram pelo curso de formação serão convocados em breve. Já os outros 166 aprovados serão capacitados a atuar no sistema prisional quando o Estado tiver a capacidade financeira de arcar com o curso, sem especificar datas.

Superlotação sem ressocialização, diz defensora

Com uma superlotação que atualmente chega à casa dos 110% além da sua capacidade, o sistema carcerário do Piauí não ressocializa seus detentos. É o que afirma a titular da 4ª Defensoria Criminal do Piauí, Viviane Setúbal, que integra um grupo de trabalho responsável pelo levantamento das condições de cumprimento de pena dos presos e das instalações dos presídios do Estado. De acordo com ele, o Piauí precisaria de, no mínimo, mais duas mil vagas no sistema prisional para poder começar a atender a demanda.

Visão interna da Cadeia Pública de Altos. (Foto: Divulgação/Sejus)

O caso mais grave é o da Penitenciária José de Ribamar Leite, a Casa de Custódia, que é a maior unidade carcerária do Estado. Com capacidade para 396 detentos, ela recebe atualmente 1.200, ou seja, quase o triplo do que realmente suporta. Piora ainda mais a situação o fato de que boa parte destes detentos é formada por presos que já deveriam estar cumprindo o regime semiaberto em outra unidade prisional.

"Tem que ser dividido entre os reincidentes e os não reincidentes e aqui no Piauí essa lei não é cumprida", afirma defensora.

“A Lei de Execução Penal diz que preso provisório deve ficar em uma cadeia e que o preso condenado deve ir para a penitenciária. E esse condenado, para cumprir pena devidamente na forma da lei, tem que estar separado por crime, por idade, tem que ser dividido entre os reincidentes e os não reincidentes e aqui no Piauí, assim como no Brasil todo, essa lei não é cumprida”, explica a defensora.

O caos da superlotação dos presídios piauienses chegou ao ápice em julho deste ano, quando presos da Colônia Agrícola Major César se rebelaram, atearam fogo em colchões, dominaram agentes e depredaram boa parte da estrutura da cadeia. Na ocasião, a Defensoria Pública entrou na Justiça com um pedido de habeas corpus coletivo que beneficiaria 600 presos com o regime aberto monitorado (mediante uso de tornozeleira eletrônica).

A medida visava basicamente desafogar o sistema prisional, colocando em liberdade aqueles detentos aptos para isto. O Ministério Público emitiu um parecer contrário ao pedido da Defensoria e três meses depois o habeas corpus ainda não foi julgado pela justiça. A situação na Major Cesar, de acordo com Viviane, continua a mesma: superlotada e com estrutura deficitária.

“A CAMCO [Colônia Agrícola Major César Oliveira] é um estabelecimento relativamente pequeno e a população carcerária tem aumentado, logo, ele não atende mais à demanda e superlota. Há pessoas lá que deveriam estar fora do sistema prisional e não estão por falta de expedição da guia, que é o que dá início ao cumprimento da pena em um novo regime. O objetivo do habeas corpus era esse: de minimizar a situação dessas pessoas e, por consequência, abrir algumas vagas dentro da Major Cesar para quem deve cumprir pena lá”.

21 de setembro de 2019

“A dança é feita para todos que visam se construir como ser social”

“A dança é feita para todos que visam se construir como ser social”

Especial 'O Palco é Deles': profissional ainda destaca que os tabus são conceitos falsos lançados sobre algo e, no caso da dança, é preciso que ela percorra diversos espaços da sociedade.

Ravenna Silva Santana é professora de dança e enfatiza que dançar é uma forma de expressão humana através de gestos e ritmos desencadeados pelo próprio corpo, fazendo uso da coordenação motora. É também a possibilidade de interação social entre indivíduos de um mesmo grupo, reunindo pessoas com objetivos comuns, independentemente da cor da pele, da sexualidade ou qualquer outra especificidade. Para ela, como uma manifestação da arte, a dança é feita para todos que visam, por meio dela, se construir como ser social.

“A dança é livre de qualquer preconceito, partindo desse pressuposto, qualquer pessoa, em qualquer idade, pode dançar, exceto se esta possuir alguma limitação física que a impeça. Do contrário, dançar será um dos mecanismos que lhe proporcionará inclusão social, bem-estar físico, melhor condicionamento e longevidade”, comenta.


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A profissional ainda destaca que os tabus são conceitos falsos lançados sobre algo e, no caso da dança, é preciso que ela percorra diversos espaços da sociedade, como academias, convidando alunos, além da popularização.

“Os alunos precisam ser convidados a uma aula gratuita como elemento motivador. Uma rápida explanação em vídeo pode ocorrer nas academias, em pequenos telões ou televisões e a academia realize momentos de dança na comunidade, por exemplo. É necessário que estratégias pedagógicas sejam usadas neste espaço para atrair as pessoas e ser reconhecida como importante para homens e mulheres”, enfatiza.


Ravenna destaca os benefícios da dança - Foto: Arquivo Pessoal

Ravenna é professora há 16 anos e trabalha também com produção cultural no contexto escolar, além de montagens coreográficas para eventos em geral e produção artística personalizada na dança. Segundo ela, apesar de ter sua importância secundarizada durante décadas, a dança tem se desenvolvido muito em Teresina, nas academias e em espaços públicos, como a zumba. Com isso, percebe-se que a população já tem reconhecido sua real importância para a manutenção da qualidade de vida.

“Sou professora de ritmos gerais, como forró, ballet clássico, jazz, estiletto, danças folclóricas, entre outros. A receptividade dos alunos é sempre muito boa, trabalho com o que gosto, por isso estou sempre me aperfeiçoando e dando o melhor de mim, afinal, me preocupo com o desenvolvimento de cada aluno. É necessário não apenas dançar, mas também perceber se seu aluno consegue aprender, quais suas dificuldades e como potencializar suas habilidades, a fim de que a dança se torne para ele algo significativo”, disso.

'O Palco é Deles': dançar também é levar conhecimento para todos

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Dos palcos à docência: como professores, dançarinos levam a arte da dança para quem quer aprender independente de sexo e idade.

A dança mudou a vida de Marcus Vinícius e Rudson Plácido. Hoje, eles são professores e querem levar a dança a todos que tenham o desejo de aprender, independente do sexo ou da idade. O que antes começou como uma diversão, hoje se tornou uma profissão e motivo de orgulho.


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“No começo, eu pensei em desistir do balé, pois eu tinha a dança como forma de diversão. Depois que entrei no projeto Adimó e vi que a dança não era somente diversão e que era algo além, eu fui tendo outros pontos de vista. Passei a estudar o que realmente é a dança, como a dança surgiu, o porquê, o que acontece no mundo da dança e depois de ter conhecimento, eu me interessava cada vez mais, estudava mais e com isso eu tive interesse em fazer parte de grandes companhias, de participar de festivais de dança, de mostrar meu talento para o mundo”, pontua Marcus Vinícius.

E para Rudson Plácido não foi diferente. Hoje, além de ser professor no Balé da Cidade de Teresina, onde ministra aulas de dança contemporânea e improviso, ele também integra o Cordão Grupo de Dança, onde sua carreira iniciou. Para ele, mais do que uma profissão, a dança tem um significado maior em sua vida: de conquista e realização de sonho.


Marcus Vinicius é professor de dança e quer levar seu conhecimento para todos - Foto: Arquivo Pessoal

“A dança é o resumo de tudo, é o que faz a gente querer estar lá, como artistas. A gente passa por tanta coisa, tantos desafios e, se hoje eu sou o que sou, recebo meu dinheiro e tenho uma vida é por conta da dança, pois eu recebo para fazer isso. Foi algo que eu busquei, me especializei e corri atrás para chegar onde estou hoje. Se hoje eu tenho uma profissão, se tenho uma moradia, consigo pagar minhas contas e viver, é por conta da dança. Ela sempre esteve relacionada diretamente comigo”, comemora.

O professor destaca que Teresina ainda é uma cidade que, para a dança, deixa a desejar. Segundo ele, atualmente só existe uma companhia profissional que remunera os bailarinos, que é o Balé da Cidade. “Nessa companhia só tem 14 bailarinos e eu estou entre eles, então, para mim, isso é tudo que eu busquei, pelo menos para dentro da cidade”, frisa.

'O Palco é Deles': apoio da família é essencial para superar desafios

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Os dançarinos nunca desistiram e encontram na família a força para continuar com seus sonhos.

Apesar de todos os desafios encontrados ao longo do caminho, os dançarinos nunca desistiram e encontram em seus familiares e na dança forças para continuar com seus sonhos. Marcus Vinícius de Sousa enfatiza que, diante do preconceito, o apoio familiar é fundamental para superar esse e qualquer outro desafio que possa surgir ao longo da carreira.

“Minha família nunca teve preconceito com relação a eu dançar, graças a Deus. Com o tempo, meus colegas foram tendo outro conhecimento e ponto de vista com relação ao balé, mas a minha família sempre me apoiou desde o início, nunca sofri qualquer rejeição da parte deles. Eu fui crescendo dentro da dança e eles foram vendo que era bom para mim e que eu estava evoluindo, tanto profissionalmente como tendo um conhecimento maior na sociedade”, disse.


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Rudson Plácido também teve total apoio de sua família. Tanto que conseguiu incluir seu irmão, que é deficiente. Os dois montaram uma apresentação e isso resultou em diversos prêmios para eles e para o Cordão Grupo de Dança.

“A minha família estava muito por mim, via meus resultados, que eu estava fazendo e conquistando, então para mim foi mais fácil, pois fui tendo resultados. Não foi como pessoas que estavam fazendo e os outros julgando ‘ah, isso não vai dar em nada’. Justamente por eu estar conseguindo é que as pessoas me apoiavam. Se eu tivesse uma apresentação, poderia ter só quatro pessoas, mas uma delas era minha mãe, sempre na frente, e depois que meu irmão entrou aí que ela passou a ser ainda mais presente”, enfatiza.


“A minha família estava muito por mim, via meus resultados, que eu estava fazendo e conquistando, então para mim foi mais fácil", diz Rudson Plácido - Foto: Arquivo Pessoal

No Cordão Grupo de Dança, Rudson ganhou prêmios, nacional e internacional, no Festival de Dança de São Paulo e em Fortaleza. A premiação veio por conta de coreografia que ele encenou com seu irmão. Apesar das limitações, o professor e bailarino lembra que a dança, mais que uma forma de expressão, é uma modalidade de inclusão.

“A coreografia que ganhei, a premiação foi com meu irmão, que é deficiente. Fizemos um dueto e tem toda uma história, pois eu também consegui inseri-lo no grupo de dança. Claro que tinha uma limitação, mas o professor conseguiu extrair o melhor dele. A dança é inclusão e ninguém se sentia incapaz. Ainda existe preconceito e é um tabu que precisa ser quebrado. É algo que já foi furado, mas ainda precisa ser rasgado. É difícil quebrar e colocar isso na cabeça das pessoas; algumas aceitam, outras ainda não, mas é preciso trabalhar isso”, ressalta.

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O palco é deles: O Dia traz histórias daqueles profissionais que externam seus sentimentos por meio dos movimentos e da expressão corporal.

Dançar é se expressar. É usar o corpo para mostrar sua identidade, um momento, uma emoção. O senso comum costuma relacionar a dança necessariamente ao sexo feminino ou à homossexualidade; aspectos que fazem muitos homens se afastarem ou sequer tentarem praticar a dança e, assim, se privam de externar seus sentimentos.


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Nas danças clássica e moderna, por exemplo, esse preconceito é ainda mais presente, porém, com o surgimento das danças contemporâneas, essa discriminação tem diminuído e os caminhos estão se abrindo aos poucos para os homens. Um caminho bem árduo, cheio de desafios, mas com muitas conquistas e sonhos realizados.

Marcus Vinícius de Sousa tem 24 anos e é natural de Picos, região Centro-Sul do Piauí. A dança entrou em sua vida quando ele tinha apenas 13 anos, através de grupos que integrava em seu bairro. Ele conta que iniciou com aulas de dança na Casa da Cultura do município, onde fazia dança contemporânea e, posteriormente, ingressou no projeto social Adimó.


Foto: Tassia Araújo

“Um dos critérios para fazer parte do grupo Adimó era fazer balé clássico. Só que eu nunca tive muito interesse no clássico em si, mas por eu gostar muito de dançar, comecei a fazer. No início, eu mesmo tinha uma rejeição, pois achava que não havia necessidade de fazer balé, mas minha professora sempre foi muito clara e explicativa em relação a isso. Ela sempre me mostrou que o balé iria me ajudar muito e que eu iria melhorar de forma técnica e ter uma maior evolução. E isso me fez continuar”, relembra.

Hoje, além de bailarino, Marcus Vinícius cursa Educação Física, é professor de dança e coreógrafo de uma academia de balé. “Não foi pelo meu querer que o balé entrou na minha vida, mas depois que comecei a fazer, me encantei pela arte do balé clássico e hoje em dia eu me encanto cada vez mais”, fala.


“Não foi pelo meu querer que o balé entrou na minha vida, mas depois que comecei a fazer, me encantei pela arte" - Marcus Vinícius de Sousa


O balé clássico também está presente na vida de Rudson Plácido, de 25 anos. Professor de dança do Balé da Cidade, ele lembra que a dança entrou em sua vida aos 14 anos, quando ingressou em um projeto na escola que estudava. O jovem explica que o professor, na época Roberto Farias, que também é dançarino, ministrava além da Educação Física, aulas de dança. Isso fez despertar em Rudson o gosto pela modalidade.

“O professor Roberto Freitas colocou a dança dentro das aulas de Educação Física e viu resultado, então criou o Cordão Grupo de Dança, que existe até hoje. E começamos a participar, onde eu até hoje permaneço. O grupo era voltado para a dança, seja o balé clássico ou a dança contemporânea”, explica.

“As pessoas ficavam falando, fazendo brincadeiras pesadas e sem graça”

Rudson Plácido conta que, na época do Cordão Grupo de Dança, poucos meninos compareciam para audição. De 30 alunos que se inscreviam, somente quatro eram do sexo masculino. O motivo da pouca presença de homens tinha uma explicação: muitos deles sofriam preconceito por quererem dançar.

“Na época da escola, só podia participar quem era aluno e sempre tinha um pouco de represália, e era complicado, já que as pessoas chacoteavam e faziam piada. No início, quando se fazia uma audição, só apareciam 10 meninos, mas com o passar dos dias, ia diminuindo, porque as pessoas ficavam falando, fazendo brincadeiras pesadas e sem graça, então eles saiam. Hoje em dia, no Balé da Cidade, onde sou professor, sempre aparecem homens querendo fazer dança, mas em número menor que o de mulheres”, destaca.


Rudson fala que muitos meninos deixam de dançar por preconceito - Foto: Tassia Araújo

Marcus Vinícius de Sousa também lembra que o preconceito contra homens que dançam é bastante comum. Ele conta que, no começo da carreira, muitos colegas faziam piadas por ele dançar, alegando que somente mulher fazia balé. Apesar das constantes provocações, o bailarino nunca desistiu dos seus sonhos.

“No começo, eu sofri um pouco de preconceito. Meus colegas me zoavam muito, dizendo que balé era coisa de mulher, que homem não dançava, mas eu consegui mostrar para eles que não tem nada a ver uma coisa com a outra. O balé é uma arte e é uma dança como qualquer outra, como o break ou a dança de salão, que também são dançadas por homens”, pontua.

16 de setembro de 2019

Família acolhedora: muito além de uma adoção temporária

Família acolhedora: muito além de uma adoção temporária

Participante do programa Família Acolhedora compartilha experiências, desafios e perspectivas

Quando Lidiane Magalhães, de 44 anos, passou a frequentar a Casa do Reencontro, seguindo um programa pessoal intitulado “Amparo”, adotar uma criança ainda não estava nos planos. Segundo a missionária, que chegou ao Piauí em 2017, um dos principais fatores que a moveu foi a curiosidade. “Conheci esses programas de voluntariado em uma capacitação que fiz em Curitiba. Fiquei curiosa para conhecer mais”.

“Não estava nos planos eu participar efetivamente dos programas, e sim dar alguma ajuda e apoio". Alguns meses atrás, essa ideia acabou por se solidificar em uma necessidade de engajamento mais profundo. “Me encantei... e aqui estamos!”. Do apadrinhamento de oito crianças na Casa do Reencontro, Lidiane chegou ao acolhimento de duas delas, por meio do programa Família Acolhedora

Lidiane e o marido estão cuidando de duas meninas há mais de um ano - Foto: Sescapi

As duas meninas, de 9 e 4 anos, estão com ela desde maio deste ano. A família, formada também pelo esposo e pelas filhas de Lidiane, comemorou a Páscoa toda junta.

O Família Acolhedora é um serviço da Prefeitura de Teresina, oferecido por meio da Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas (Semcaspi), e trata-se de uma ação de acolhimento temporário que pode se tornar permanente. 

A pessoa adotada, que pode ter de 13 a 18 anos, é transferida a uma família cadastrada que, durante a estadia, é acompanhada por uma equipe técnica. Enquanto isso, os responsáveis de origem passam por uma série de ações socioassistenciais, realizada por uma equipe formada por assistentes sociais e psicólogos, com o objetivo de promover a reintegração adequada da criança acolhida, que realiza visitas ocasionais durante o atendimento. Por motivos de segurança, a família acolhedora tem seu anonimato garantido.

A acolhedora ressalta com frequência como o trabalho vem sendo uma experiência marcante e transformadora. “Tem sido um crescimento pessoal estar envolvida nesse projeto. Às vezes, a gente fica no nosso mundinho, na zona de conforto, e não vê o que tem acontecido fora. Coisas que a gente pensa que está muito longe, estão na casa da gente”. Lidiane espera que as meninas se sintam bem tratadas e diz que pretende continuar agindo por meio da adoção temporária articulada pelo Família Acolhedora. "Já tenho alguma experiência mas a gente sabe que cada caso é um caso."

Princípios do programa

O Família Acolhedora tem como princípio a importância de se oferecer uma segunda chance, de uma nova família temporária para as crianças que vivem em situações de abuso ou negligência no meio familiar de origem. Os menores são temporariamente removidos do ambiente impossibilitado e passam a ser acolhidas por outra família. Durante a estadia, tanto a criança quanto a família de origem passam por um processo de reabilitação, para que no final possam se reunir e restaurar os laços. Lidiane vem lidando com a partida das meninas, que é uma possibilidade futura. “O que conforta o meu coração é ter contribuído na vida dessas crianças. Tenho a esperança que vão estar em um lugar bom, onde possam ser felizes”.

A acolhedora espera que sua história incentive outras pessoas a se engajarem, mesmo que dentro de suas limitações. "Se você não tem a coragem ou os meios, apoie e auxilie quem tem. Financeiramente, não tenho uma super estrutura, mas o pouco que tenho a gente divide e contribui. Tem coisas que talvez eu, como acolhedora, não possa dar, mas alguém tem sobrando e pode. Também evite criticar. Tem gente que diz: ‘ah, você é doida, está correndo risco’. Não fazer esse tipo de coisa, não tentar desestimular e sim, dar apoio também é importante. Às vezes, a própria família julga a gente. Essas crianças não são coisa de outro mundo, não são marginais e temos que incentivá-las e ser e fazer a diferença”, destaca.

Como participar?

Entre os principais critérios estão: residir em Teresina, ser maior de idade (com 21 anos ou mais), ter disponibilidade afetiva para cuidar de crianças ou adolescentes, não apresentar problemas psiquiátricos, não ser dependente de substâncias psicoativas e não responder a processo judicial. Os interessados podem entrar em contato pelo 3131-4751 e agendar uma entrevista. A sede fica no térreo da Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas (Semcaspi) — localizada na Rua Álvaro Mendes, 861, Centro.

“O Família Acolhedora é um programa importante na medida em que fortalece a política de proteção à criança e ao adolescente em Teresina. A criança contemplada pelo projeto não fica limitada ao atendimento institucional e se mantém vivo um convívio familiar, um vínculo solidário. É uma grande e bela missão", destaca o secretário de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas, Samuel Silveira.

A Casa do Reencontro, unidade citada no texto como ponto de partida de Lidiane, está aberta a voluntários e padrinhos e fica na Rua Prof. Odilo Ramos, 1379-1555, no bairro Morada do Sol. O local abriga crianças de 0 a 12 anos incompletos, que tiveram a integridade física e afetiva comprometidas devido à violação de direitos. Os encaminhamentos para a Casa Reencontro são realizados por meio do Conselho Tutelar.

06 de setembro de 2019

Idosos comemoram independência na forma de viver a vida

Idosos comemoram independência na forma de viver a vida

Especial Centenários: especialistas afirmam que a longevidade está associada à melhoria dos fatores socioeconômicos.

No próximo dia 14 de setembro, Maria Ferreira Borges chegará aos 90 anos. Para comemorar a data, parte da família, composta de nove filhos, 54 netos, 61 bisnetos e nove tataranetos, organiza uma grande festa. A data contará com tudo que a história nonagenária tem direito, inclusive, um ensaio fotográfico feito previamente para servir de destaque no evento. Entre poses e sorrisos, Maria conta a satisfação de chegar na casa dos 90 como sempre levou a vida: cercada de gente, ativa e feliz.


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“Sempre trabalhei muito e até hoje não fico parada sem fazer nada. Eu faço uns tapetes de tira de pano, bordo, vendo e muitos dou para as minhas filhas. Não posso é ficar parada porque se eu ficar parada, eu adoeço. Estou nesta idade, mas eu conto as vezes que estive internada: nenhuma. Sou muito feliz por chegar aos 90 anos assim, muito bem”, considera.


Maria Ferreira Borges comemorará 90 anos no próximo dia 14 - Foto: Jailson Soares/O Dia

Tão bem que ela se tornou referência para a família. O que dona Maria diz é acatado e muito bem escutado, além do jeito despojado e contagiante ser espelho até para os mais novos e agregados membros da grande família Ferreira. “Tenho anotado o número de membros da minha família porque nem todos moram aqui e é muita gente. Hoje, até os amigos dos meus netos me chamam de vó, então, eu não tenho o que reclamar, sou cercada de gente que, ao que parece, me quer muito bem”, ressalta.

A vitalidade e independência são marcas fortes da senhora, que diz não ter segredo para levar a vida. Para Maria, o cuidado com a manutenção da mente ativa e uma alimentação balanceada apontam que os 90 anos serão parte de uma história que ainda tem muito o que experienciar.

Longevidade está ligada à melhoria de fatores socioeconômicos, destaca geriatra

A adoção de uma alimentação balanceada e cuidados com a saúde são pilares essenciais para o envelhecimento da população, como destaca o médico geriatra Wesley Damásio. Mas não só isso. O especialista  também destaca que o envelhecimento da população tem a ver com as condições de vida em que os indivíduos estão inseridos. Isso quer dizer que quão melhor for o cenário de acesso a serviços básicos, por exemplo, mais as pessoas podem alcançar a longevidade.

O médico chega a comparar a expectativa de vida entre os estados mais e menos desenvolvidos no país. “Nós temos um problema social que precisa ser encarado. Por que em Santa Catarina as pessoas vivem, em média, 79 anos e, no Piauí, apenas 71, enquanto a média do Brasil é de 76 anos? É porque onde tem saneamento, acesso à saúde, serviços básicos, a população envelhece mais e melhor”, explica.


"Onde tem saneamento, acesso à saúde e serviços básicos a população envelhece mais e melhor"


Para o médico, investir em escolaridade, vacinação e saneamento básico são aspectos tão importantes quanto cobrar e insistir em uma alimentação balanceada para os idosos. 

Wesley Damásio destaca que, enquanto na Capital do Piauí seus atendimentos acontecem para um público maior que 60 anos, no interior do Estado, ele diminui a média para 50 anos. “Em cidades menores, onde a infraestrutura e a escolaridade são reduzidas, temos que informar mais e melhor para que as pessoas consigam envelhecer com qualidade”, explica.

Assim, são as escolhas individuais, mas também a oferta do cenário de desenvolvimento social e econômico que continuarão a contar para a longevidade da população. 

Mãos que plantam e colhem

Natural de Campo Maior, município ao Norte do Estado, José Serapião de Sousa Filho, 90 anos, é um dos moradores mais antigos do bairro Boa Esperança, que integra a região do Poti Velho, zona Norte de Teresina e de onde a cidade se iniciou. Ele mora no local há mais de 50 anos e viu muitas mudanças acontecerem em seu entorno. Viu também sua perspectiva de vida melhorar.

E das terras onde ergueu sua casa e criou sua família, José Serapião sempre tirou o alimento que ia para sua mesa. Nos anos 50, o local era rodeado de fazendas e ele era responsável pelas vacarias. Foi na região onde o senhor casou com Vitória Cardoso de Melo (hoje com 67) e da união, que já dura 41 anos, nasceram seis filhos. Hoje, a família está maior, com 11 netos e cinco bisnetos. Todos morando ali, uns perto dos outros.


José Serapião de Sousa Filho, hoje com 90 anos, viu sua perspectiva de vida melhorar com o tempo - Foto: Elias Fontinele/O Dia

Na vila, essencialmente formada por pescadores, pequenos agricultores e comerciantes, ele plantava e criava tudo que era essencial para sobrevivência. A esposa de José Serapião, Vitória Cardoso, lembra que, assim que se mudou para o bairro, não haviam tantos moradores como hoje. 

“Criamos nossa minha família aqui, criando animais, como galinhas, porcos, perus, pato e plantando. Hoje temos feijão, quiabo, abóbora, melancia tudo no quintal, então é só chover que a gente planta. O que compramos no mercado é o que não produzimos, como o arroz, mas o que consumimos vem das nossas terras”, fala em tom de auto gratulação.

Para Serapião, ter cuidado de si e da família de uma forma tão próxima é, também, uma forma de impulsionar a vida. Aos 90 anos, o apego pela terra, pela família e pela vida só cresce.

05 de setembro de 2019

Especial Centenários: qualidade de vida a serviço de todos

Especial Centenários: qualidade de vida a serviço de todos

Idosos, e o público nas demais faixas etárias, têm à disposição, em Teresina, 79 academias ao ar livre, favorecendo a prática de exercícios físicos

Nem todo mundo tem condições financeiras de pagar as mensalidades das academias, então, para se manter ativo, é preciso buscar alternativas mais viáveis. Uma delas é a academia popular. Ao todo, são 79 espalhadas em diversos pontos da cidade, como praças e parques, e que são utilizadas por pessoas de todas as idades.

As academias ao ar livre têm como finalidade estimular a prática regular e contínua de atividades físicas, melhorando a flexibilidade e alongamento muscular. E para que o público consiga obter bons resultados, algumas contam com a orientação de profissionais de Educação Física.

Naiara Dias, coordenadora da UBS Cidade Verde, localizada no Centro de Teresina, conta que, se utilizados corretamente, os aparelhos representam um grande ganho para a saúde, melhorando a qualidade de vida e contribuindo para o equilíbrio do corpo, especialmente para os idosos, que estão sujeitos a debilidades por conta da idade. 

“Nós sabemos que exercício físico traz muitos benefícios, principalmente depois de uma certa idade, quando os músculos vão ficando mais fracos, porém, se for ser feito de maneira correta, a qualidade de vida tende a melhorar”, pontua.


Os aparelhos representam um grande ganho para a saúde, melhorando a qualidade de vida e contribuindo para o equilíbrio do corpo - Foto: Divulgação

Para Naiara, o levantamento da quantidade de idosos com 100 anos ou mais em Teresina é considerado positivo, pois mostra não somente que as pessoas estão vivendo mais e melhor, mas que a qualidade do serviço de saúde também tem melhorado.

“Se levarmos em consideração que existem diversos fatores que impedem a longevidade, como violência, sobrecarga de trabalho na cidade, acidentes e alimentação ruim, e que os idosos estão sujeitos a debilidades, então esses números de pessoas centenárias em Teresina são muito bons. No passado, viver muitos anos era algo que se almejava e agora que a qualidade de vida está melhorando, estamos conseguindo chegar nesta idade”, disse.

Mulheres procuram mais o serviço de saúde

Dos 231 idosos acompanhados pelas unidades básicas de saúde, sua grande maioria é de mulheres. Isso mostra que, apesar das campanhas para intensificar a importância de todos se cuidarem, os homens continuam sendo relutantes em buscar auxílio médico.

É o que enfatiza Naiara Dias, coordenadora da UBS Cidade Verde, ao pontuar que os pacientes do sexo masculino, em muitos casos, somente recorrem às unidades de saúde quando já estão com a doença instalada, enquanto as mulheres buscam ajuda médica como forma de prevenção.


"Foi-se o tempo em que os idosos eram deixados de lado e ficavam prostrados em uma cadeira. Mantê-los ativos faz com que eles vivam mais e melhor"


O princípio para manter os idosos cada vez mais ativos, e assim contribuir para a melhor qualidade de vida, está na manutenção de ações que estimulem tanto a parte física como mental. No Centro de Convivência Marli Sarney, que fica localizado próximo à UBS Cidade Verde, são realizados trabalhos essenciais para que os idosos se mantenham proativos, já que no local são ofertadas atividades lúdicas como dança, pintura, rodas de conversa, música, entre outras ações.

“Foi-se o tempo em que os idosos eram deixados de lado e ficavam prostrados em uma cadeira. Mantê-los ativos faz com que eles vivam mais e melhor, e isso só é possível quando a mente deles é exercitada. Eles têm capacidade para fazer qualquer coisa, como exercício físico, caminhada ou hidroginástica, desde que tenham acompanhamento, claro”, enfatiza.

Nas UBSs, por exemplo, constantemente são promovidas palestras voltadas para os idosos com temáticas direcionadas para a prática de atividade física, qualidade de vida e alimentação. O consumo de alimentos saudáveis também é fundamental para alcançar a longevidade e, nessa idade, essa atenção deve ser redobrada.

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Centenários mostram que o segredo da longevidade está em não ter segredo: vida ativa e alimentação saudável.

Um século de vida. O período temporal que parece longo para a vida humana vem sendo alcançado com maior frequência pela população em todo o Brasil. Em Teresina, Capital do Piauí, um levantamento feito pela Fundação Municipal de Saúde (FMS) revela que 231 idosos, cadastrados e acompanhados pelas equipes das Unidades Básicas de Saúde (UBSs), já alcançaram ou ultrapassaram a marca centenária. Inês dos Santos Nascimento, aos 101 anos, moradora da zona Norte de Teresina, é uma delas.

Do total de idosos acompanhados pelas equipes de saúde básica do município, 83 residem na zona Norte da cidade; 63 na zona Sul; 30 na região Sudeste; 27 na zona Leste e 28 na zona rural.

A Capital do Piauí, que recentemente completara 167 anos, parece uma menina aos olhos de Dona Inês, a matriarca de uma família de 18 filhos. “Quando cheguei aqui, era tudo mato, vi essa cidade crescer e cresci com ela. Não sei nem quantos netos já tenho espalhados por aí”, responde com uma voz firme antecipando uma de suas fortes características: a de mulher resiliente que se incumbiu à missão de criar toda família. Inês é chamada de “mãe” até pelos bisnetos.


Aos 101 anos, Inês dos Santos Nascimento vive rodeada dos filhos, netos e bisnetos Foto: Arquivo Pessoal

Para a família, o segredo da longevidade da centenária está na sua vida sempre ativa, na alimentação simples e na fé que nunca faltou mesmo nos dias difíceis. “Ela sempre gostou de andar muito. Lembro que íamos comprar carne em Timon (cidade vizinha a Teresina), todos andando a pé, toda semana”, destaca a neta Shirlene Sales.

Segundo pesquisa publicada este ano no Journal of Epidemiology & Community Health, alguns fatores como altura, peso e a prática de exercícios se mostram intimamente ligados à longevidade dos homens e mulheres. 

Neste quesito, foram separados pela quantidade de tempo que dedicavam à movimentação do corpo. Os resultados mostraram que os que se exercitavam por mais tempo tinham uma probabilidade 39% maior em chegar à idade de controle, que era de 90 anos.

Expectativa

Chegar ao marco de 100 anos, no Piauí, significa, literalmente, ultrapassar expectativas. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em dados referentes ao ano de 2017, o Estado possui a segunda pior expectativa de vida do Brasil, perdendo apenas para o Maranhão. No Brasil, segundo o IBGE, a expectativa de vida ao nascer, em 2019, é de 80 anos para mulheres e de 73 anos para homens.

A vida de dona Inês, que parou de caminhar há sete anos em virtude de uma fratura no fêmur, continua ativa em outros aspectos: nas conversas do cotidiano que troca com os familiares, na rotina religiosa que tem e na disponibilidade de contar tudo que viveu e vive, em detalhes.

“Gosto da minha família unida, de cuidar da casa e consagro minha vida ao sagrado coração de maria”, destaca.


Foto: Jailson Soares/O Dia

Boa alimentação e rede de afeto são chaves para uma vida longa

Vindo da cidade de Jaicós, região do Sul Piauí, para Teresina, ainda no ano de 1969, Raimundo Mendes de Carvalho, hoje com 103 anos, trabalhou em diversas atividades para o próprio sustento, da esposa e de seus 18 filhos. O centenário já foi mestre de obras, zelador e comerciante, sempre atuando no mercado informal. Trabalhos que exigiam muito esforço físico, mas que, dentro de suas convicções, “nunca foi problema”.

Hoje, Raimundo mora com um dos filhos, mas recebe diariamente a visita dos outros, inclusive ligações dos que moram em outros estados. Ele é o centro das atenções da família, que faz de tudo para acompanhar o bem-estar do anfitrião. Nas reuniões familiares, é fácil somar mais de 80 pessoas, afinal, além dos filhos entram na conta os 45 netos, 27 bisnetos e três tataranetos da linhagem Mendes de Carvalho.

Rita de Cassia de Carvalho, uma das filhas do idoso, conta que o motivo da longevidade do pai é a alimentação controlada e equilibrada que ele sempre teve ao longo da vida, sem produtos industrializados e “tudo direto da feira”.

“Meu pai não come alimentos industrializados, como embutidos, e isso sempre refletiu nos filhos, porque nós também não consumimos. Ele sempre comeu coisas saudáveis. No café da manhã, por exemplo, é uma fatia de mamão, depois uma caneca com caldo de carne, um copo com leite e três biscoitos. Esse caldo é feito pelo genro dele, que todos os dias nos manda. É o mais famoso na cidade, conhecido como um dos melhores de Teresina, justamente por não ter tanta gordura”, comenta.


Raimundo Mendes de Carvalho, de 103 anos, não come alimentos industrializados e nem muito gordurosos - Foto: Elias Fontinele/O Dia

O almoço da família também não foge à regra. A refeição leva o gosto da comida caseira, com a presença constante de arroz, feijão, abóbora, maxixe, quiabo, ovos e carne branca. Nada de lasanhas, comidas gordurosas ou carne vermelha. Mas como bom nordestino, depois da refeição, não pode faltar a tradicional rapadura. As frutas também estão presentes ao longo do dia. Toda a dieta do idoso é feita por uma nutricionista e os filhos seguem à risca as orientações.

Por muitos anos, era o senhor Raimundo o responsável por ir à feira todos os dias comprar os alimentos que seriam consumidos no almoço. A família mora há mais de 50 anos próxima ao Mercado do Mafuá, um dos mais tradicionais da Capital, onde funciona uma feira onde praticamente todos os produtos vendidos vêm de hortas comunitárias e orgânicas.

A ida ao mercado também servia como caminhada, mas, após um acidente, as saídas se tornaram raras. Hoje, os alongamentos são feitos em casa mesmo. “Hoje eu faço pouca caminhada, só dentro de casa, mas eu gosto muito”, conta.

Há um mês, o idoso sofreu um derrame ocular e perdeu alguns movimentos e a visão ficou comprometida, além de algumas alterações nas taxas e mudanças de comportamento. “Meu pai não tomava nenhum medicamento, então, para a idade dele, a quantidade de medicamentos é até pouca, mas acho que tudo isso é graças ao cuidado que temos com ele, a preocupação e amor que desprendemos todos os dias”, conclui Rita de Cássia.

31 de agosto de 2019

Órgãos discutem protocolo de atendimento de saúde mental

Órgãos discutem protocolo de atendimento de saúde mental

Ministério Público Estadual do Piauí, em parceira com outros órgãos, está desenvolvendo ações voltadas para crianças, adultos, idosos e pessoa em situação de rua.

Debater saúde mental é responsabilidade da sociedade como um todo. Instituições públicas e privadas, assim como a família e a escola, devem se unir para combater os altos índices e buscar formas de trabalho visando a prevenção de transtornos mentais.

Segundo o promotor de Justiça, Eny Marcos, da 29ª Promotoria de Justiça de Teresina e que atua na defesa do direito à saúde na Capital, o Ministério Público Estadual do Piauí (MP-PI), em parceira com outros órgãos, está desenvolvendo ações voltadas para crianças, adultos, idosos e pessoa em situação de rua.

“Nós temos diuturnamente cobrado essa parte da gestão pública de saúde e, assim, a preocupação vai muito além do Ministério Público, e isso eu trago como uma novidade. Uma ação está sendo desenvolvida por diversas promotorias, que preocupadas com a grande incidência de casos de urgência, de crises de transtorno mentais, estabeleceu um grupo de trabalho tanto formado por promotores de Justiça como por técnicos da Secretaria Estadual de Saúde do Piauí (Sesapi) e Fundação Municipal de Saúde (FMS)”, explica o promotor.


Eny Marcos afirma que novas diretrizes serão divulgadas no início de setembro - Foto: Elias Fontinele/O Dia

O protocolo de saúde mental está sendo desenvolvido desde janeiro deste ano e os profissionais se reúnem mensalmente para planejar estratégias que melhorem o fluxo de atendimento de urgência de pessoas com transtorno mental.

“Agora no começo de setembro, a gente vai tornar público todos os fluxos, de forma bem didática, para que o cidadão, que é o principal interessado, possa ter conhecimento de quem acionar em caso de crise e os profissionais terão regras estabelecidas de como tratar esses pacientes”, informa Eny Marcos.

MP-PI e a rede de assistência 

Além do protocolo de saúde mental que está sendo desenvolvido pelo Ministério Público, o órgão está em constante fiscalização dos serviços prestados aos pacientes com transtornos mentais em Teresina. O MP-PI tem acompanhado a rede de saúde mental, que inclui Caps (Centro de Atenção Psicossocial), além das residências terapêuticas e o Hospital Areolino de Abreu.

“Temos trabalhado com parceiras e outras instituições que têm contribuído, fazendo inspeções e trazendo relatórios fundamentados de toda situação estrutural e de organização desses estabelecimentos”, conta o promotor Eny Marcos.

O promotor enfatiza que a procura por atendimento nessas unidades tem aumentado devido dois fatores: tanto pela disposição em procurar o serviço de saúde, quanto pela incidência maior de problemas de saúde mental na população. A ampliação da rede de assistência é outra causa que o promotor Eny Marcos busca solucionar para melhorar o atendimento na cidade.


Rede inclui parcerias com o Ministério Público, com os Centros de Atenção Psicossocial, além das residências terapêuticas e o Hospital Areolino de Abreu


“Essa cobrança é feita extrajudicialmente através dos nossos procedimentos administrativos com recomendações, Termos de Ajuste de Conduta ou de Ação Judicial referente ao aumento de Caps e de residências. Atualmente, nós temos uma ação tramitando no poder judiciário que determina ao poder público municipal a ampliação da rede de assistência como um todo”, expõe o promotor.

Desse modo, além de recursos estruturais, são necessários profissionais capacitados para atender a um paciente em crise, assim como realizar um tratamento que busque dar possibilidade dessa pessoa voltar às suas condições normais.

“A política de saúde mental vai muito além disso. Tanto que hoje a internação do paciente é em último caso, por isso a existência de Caps, inclusive com perfil de atendimento a pacientes usuários de substâncias entorpecentes, para que o tratamento seja feito de forma preventiva ou contínua através de profissionais de diversas técnicas. Com os Caps, além de consultas, medicamentos e atendimentos, também são disponibilizadas oficinas semanais para os pacientes, desenvolvendo, assim, uma atividade terapêutica para que ele possa ter consciência e oportunidade para reverter sua situação”, explana Eny Marcos.

De acordo com o promotor, além das atividades e cobranças, há outro fator importante na recuperação do paciente. “Diariamente, recebemos solicitações por parte das famílias para que o MP-PI intervenha na assistência. Agora, sempre quando atendemos individualmente as famílias, colocamos também o seu grande papel no engajamento, ou seja, não é só entregar o seu familiar a uma instituição para que ela tome de conta, eles também devem fazer sua parte”, conclui.

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Especialista orienta que aos primeiros sinais de ansiedade é preciso procurar ajuda, a partir de terapias e autoconhecimento.

“A ansiedade pode iniciar com sinais pequenos de preocupação com o futuro. A pessoa passa a ter palpitações, falta de ar, febre, até chegar ao nível de ficar impossibilitada de fazer atividades simples”. A descrição é da psicóloga e coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), Elizandra Pires, e reforça a importância de não se ignorar os sintomas da ansiedade. 

“A ansiedade é uma coisa natural do ser humano, mas, quando isso passa a atrapalhar sua vida, você tem que ficar em alerta, como por exemplo, se você fica preocupado com tudo, com medo e se isso lhe paralisa. Muitas vezes, as pessoas pensam que vai passar, ficam deixando para depois e, quando vai em busca de ajuda, já está com Transtorno Generalizado de Ansiedade”, explica. 

Elizandra destaca que o transtorno pode ser prevenido a partir de terapias e autoconhecimento, adotando um estilo de vida com mais qualidade, com práticas de lazer, esporte, educação e saúde. Ela comenta que os transtornos, como ansiedade e depressão, são desencadeados quando algumas áreas da vida passam por mudanças, afetando, assim, o psicológico do indivíduo.

“No mundo, o Brasil é o 1º país com casos de ansiedade, o 2º em estresse e o 5º em depressão. Nós somos recorde na América Latina, então o que está acontecendo? Quando a gente vai fazer essa análise é algo multifatorial, são as nossas questões socioeconômicas de moradia, de transporte, a vida nas cidades grandes, a forma como você se alimenta. É precisa ter o ócio, o momento de você não fazer nada”, indica a coordenadora do Caps AD.


Foto: Folhapress

Elizandra Pires explica ainda as principais diferenças entre a ansiedade e outros transtornos que acometem a população. Entenda:

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“Quem tem transtorno de ansiedade está a um passo para a depressão, pois alguns sintomas coincidem. Só que a ansiedade é uma preocupação exagerada com o futuro, já a depressão é relacionada a perdas do passado não trabalhadas”, explica Elizandra Pires, destacando que a depressão é a doença mais incapacitante, pois deixa a pessoa menos produtiva. 

A psicóloga também cita os sintomas em comum. “Com ansiedade, a pessoa tem dificuldade de concentração, assim como na depressão. Você se sente paralisada, não consegue fazer as coisas porque tem medo, só que a depressão ela vem associada da sintomatologia da ansiedade, como a apatia, tristeza constante, choro fácil e desinteresse pelas coisas”, explica.

Girassol, por exemplo, descobriu que tinha ansiedade ainda no Ensino Médio e, sem os cuidados necessários, suas crises pioraram e passaram a ser mais intensas. Segundo ela, o início da depressão ocorreu justamente por não entender que sofria com ansiedade.

“Procurei ajuda, fui em uma terapia para entender o que estava acontecendo, mas eu negligenciei. Fui em uma sessão e não fui mais e passei a conviver com isso, mas sempre percebia algo, mas não dava importância à ansiedade. No meio do curso, comecei a perceber que tive de novo crise de ansiedade, entendi que era porque eu estava querendo voltar a morar com meus pais. E voltei”, conta.

Ansiedade x Síndrome de Burnout

Trabalhar além do limite, não ter vontade de fazer as atividades, se sentir desmotivado e desvalorizado são algumas das características da Síndrome de Burnout, que pode ser desencadeada com mais facilidade em pessoas já ansiosas, como explica a psicóloga Elizandra Pires.

“Se uma pessoa tinha meta de atender 100 clientes em um ou dois dias e começa a diminuir essa produção, então ela começa a ficar com medo. Percebe-se que era uma pessoa que tinha boa relação interpessoal e intrapessoal, mas, do nada, seu rendimento começa a cair”, cita.

Nesses casos, a especialista alerta que as empresas devem estar atentas. É preciso observar os sinais que os funcionários repassam por meio de seus coordenadores e, assim, buscar alternativas para contornar essas crises e criar mecanismos para manter seu colaborador ativo. Algumas empresas estão criando o Núcleo de Saúde do Trabalhador, onde são trabalhadas ações preventivas, como ginástica laboral, meditação, atendimento médico e psicológico.


Nesses casos, a especialista alerta que as empresas devem estar atentas. É preciso observar os sinais que os funcionários repassam por meio de seus coordenadores e, assim, buscar alternativas para contornar essas crises


“Têm várias empresas que trabalham a qualidade de vida e saúde do trabalhador. Antes de a produção cair, o funcionário dá alguns sinais, como falar que não está bem ou diminui a interação com os colegas. É assim que a ansiedade evolui, juntando à ansiedade, o estresse e outras sintomatologias. Quando a pessoa desenvolve o Burnout, já é algo extremo, que ela não consegue mais fazer nada, começa a chorar, ficar nervosa, se tremer, se achar incapaz, que não consegue mais e começa a ter sintomatologias físicas, como dor de cabeça, dor de estômago e dificuldade para dormir. A insônia é bem característica de quem tem ansiedade, depressão e Burnout”, ressalta a Elizandra.

Margarida, de 26 anos, faz parte do grupo de risco do Burnout. “A pressão do dia a dia conta muito. Tenho diagnóstico do transtorno de ansiedade e já faço acompanhamento desde a morte da minha mãe, em 2011. Na minha área de atuação você depende muito dos outros e se eles não te dão retorno, conta muito para o psicológico. É como se você estivesse deixando de fazer o seu trabalho e é complicado. Essa pressão para produzir não é legal”, pontua.

Elizandra Pires adverte ainda que qualquer pessoa precisa fazer terapia. “Todo mundo tem questões existenciais e comportamentais que precisam ser trabalhadas, afinal, ninguém vem ao mundo com manual de instrução. Os pais procuram dar o melhor, mas a gente nem sempre acerta e você vai criando questões emocionais, um padrão de comportamento que a sociedade não aceita no trabalho e a tendência é contrair problemas, então quando isso é trabalhado antes de desenvolver o transtorno, é melhor”, completa.

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Apesar dos cenários diversos, psicóloga destaca que não se deve culpabilizar as famílias, porque cada uma tem o seu papel.

As cobranças para ser um bom aluno, o melhor da escola, o mais inteligente, iniciam na infância e muitas vezes os pais não sabem o peso que essas exigências acarretarão na vida adulta de seu filho. A psicóloga e coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas de Teresina (Caps AD), Elizandra Pires, comenta que essas cobranças se intensificam na época do vestibular, quando se exige que o jovem decida sua carreira ainda na adolescência, e se estendem em outras áreas da vida, como pessoal, afetiva e familiar.

“Ao fazer 18 anos, você não é mais criança, mas também têm coisas que ainda não tem idade para fazer e isso causa uma confusão muito grande para a vida das pessoas. Apesar disso, não se deve trabalhar com a perspectiva de culpabilizar as famílias, porque cada família tem o seu papel”, pontua.


“Ao fazer 18 anos, você não é mais criança, mas também têm coisas que ainda não tem idade para fazer e isso causa uma confusão muito grande para a vida das pessoas". - Elizandra Pires


A autoexigência de Girassol, por exemplo, teve início ainda na infância, que sempre esteve em busca da perfeição. “Para mim, a autocobrança pesa e, querendo ou não, eu venho de uma família que se cobra muito e são muito perfeccionistas, que não se envolvem, fazem tudo certo e não se permitem errar, mesmo sabendo que a gente tem a condição de errar”, explica.

De acordo com a psicóloga, essa cobrança assusta os jovens, que tendem a não conseguir alcançar o que lhe é imposto, tornando-se adultos frustrados. “Eu acho que a nossa sociedade cobra muito para que você reproduza determinada atitude. Se você perguntar a um menino o que ele quer ser quando crescer e ele disser ‘vendedor’, pode ser que a família diga que ele não precise mais estudar. A tendência da família é dizer que está investindo na criança para que ela seja médica, advogada ou engenheira”, ilustra Elizandra Pires.


Elizandra Pires destaca que a família repassa os valores para a criança ainda em crescimento pessoal - Foto: Assis Fernandes/O Dia

A especialista frisa que a família deve ter ciência de que é o primeiro grupo de contato da criança, no qual são repassados os valores para este ser que ainda está em crescimento pessoal. “A gente tem que pensar que um ser humano saudável e feliz é aquele que faz o que gosta, gente que produz e tem sucesso em qualquer profissão, desde que seja algo que ele goste. A família pode proteger para não desenvolver esses fatores, assim como pode ser um fator de risco para desenvolver esses transtornos”, aponta.

As imposições sociais e seus reflexos

“‘Você tem que casar porque uma moça que não casa...’. A forma como eu ensino este conceito para uma criança vai repercutir na sua vida adulta, porque se a jovem não conseguir casar, qual vai ser o objetivo de vida dela? É a mesma coisa que dizer ‘você tem que ser médica’ e se a pessoa não conseguir ser médica, como vai ficar a vida desse adulto? Como que ele vai se relacionar?”. É com este exemplo que a psicóloga Elizandra Pires demonstra que as imposições feitas ainda na infância podem se refletir na vida adulta.


“‘Você tem que casar porque uma moça que não casa...’. A forma como eu ensino este conceito para uma criança vai repercutir na sua vida adulta, porque se a jovem não conseguir casar, qual vai ser o objetivo de vida dela?


Mas também, fora dessa fase também ocorrem outras imposições que impactam negativamente a vida das pessoas: as imposições sociais. Íris, de 29 anos, é um exemplo. “Eu não me acho boa suficiente para ter pessoas ao meu lado e acho que não vou ter filhos, não porque eu não queira, mais porque acho que nunca vou encontrar alguém. Isso é algo que tenho trabalhado na terapia, que eu preciso me amar para amar outra pessoa; que eu não preciso de ninguém para ser alguém. Só que a sociedade impõe isso, esse negócio das tias perguntarem ‘você já casou?’, da sociedade perguntar a uma mulher de 30 anos porque ainda está solteira, esse tipo de coisa faz você ficar mal. Vejo meus irmãos casando, meus amigos tendo filhos, então praticamente todo dia eu tenho uma ‘bad’, porque eu fico me perguntando se isso não vai chegar pra mim”, conta.

Outro fator perigoso é ser ambicioso demais, o que move o ser humano é sempre querer crescer, ter algo melhor, mas isso pode ser doentio. “A gente vive sempre em falta, quando o sonho é comprar uma casa e consegue comprar, ainda continua insatisfeito e pensa ‘agora quero comprar o carro top’ e se você não consegue, aí vêm os sintomas de ansiedade e depressão. Aí você trabalha, consegue o carro dos sonhos, mas mesmo assim quer mais”, reflete Elizandra Pires.

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Vidas por um fio: as pessoas precisam dar mais atenção para a saúde mental

No mundo, o Brasil é o 1º país com mais casos de ansiedade, o 2º em estresse e o 5º em depressão. Mas todos estes transtornos podem ser prevenidos a partir de terapias e autoconhecimento.

Com 18,6 milhões de brasileiros, ou seja, 9,3% da população vivendo com ansiedade, o Brasil lidera o ranking mundial de casos da doença. A depressão também acomete milhões de brasileiros e, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o país ocupa o 5º lugar no ranking mundial de casos dessa doença. Os números reforçam a importância de se discutir os temas e aproveitando o início da campanha Setembro Amarelo, que se volta para o bem-estar e para a saúde mental da população no intuito de prevenir o suicídio, o Jornal O DIA traz esta reportagem especial, cujas publicações também vão se estender ao longo do mês, sempre marcadas pelo símbolo da campanha: o laço amarelo. 

Para representar as personagens que preferiram manter suas identidades preservadas, foram usados nomes de flores, como Íris, de 29 anos. Íris é estudante, trabalha, é prestativa, brincalhona, faz todos ao seu redor sorrir e, aparentemente, não tem nenhum problema. Mas poucos sabem o que realmente acontece em sua vida. “Não sei se é ansiedade. A terapeuta disse que é princípio de depressão. Começou com algo pessoal que aconteceu há um ano. Eu fiquei arrasada e mexeu muito com meu psicológico. Eu nunca tive autoestima elevada, sempre achei que não era uma boa funcionária, uma boa filha, uma boa amiga, que não era boa em nada”, conta.

Segundo Íris, a baixa autoestima faz com que ela não consiga realizar atividades profissionais que tem capacidade. “Principalmente quando eu sou colocada para fazer algo que não tenho costume de fazer. Sempre me dá taquicardia, suo frio, minha cabeça ficava a mil, me cobro, fico aflita, nervosa. Todo dia é um desafio para eu me superar enquanto pessoa, tentando ser melhor. Se hoje eu penso que fui péssima, amanhã, ao invés de me superar, eu fico internalizando isso, que depois de amanhã vai ser pior do que foi hoje. Como se eu não fosse boa, sabe?”, explica Íris.

Já Margarida, de 26 anos, relata que seu transtorno de ansiedade começou na época em que fazia mestrado. “Com a questão da pressão por produção para colocar no currículo, acabei desenvolvendo o transtorno, pois o programa depende da sua produção para ser bem avaliado e isso pesa muito na hora de você levar aquilo adiante. Quando o mestrado encerrou, eu tirei uma tonelada das costas e depois veio a questão do trabalho. Parece que dobraram a quantidade de coisas que eu fazia”, expõe. 

A jovem conta que, ao sair da rotina, nada mais entra no eixo durante o dia. “Para quem tem transtorno de ansiedade é como se a gente vivesse em uma linha reta, qualquer coisa que saia dessa linha te deixa doida. Situações que são atípicas são horríveis para mim. Eu tenho minhas coisas para fazer e, quando algo me tira daquele planejamento, acaba comigo, emocionalmente e psicologicamente, e se manifesta com mais força com calafrio, palpitação, tremedeira, suor, a pressão baixa, sensação que o peito está apertando. É uma sensação de apreensão com o desconhecido”, cita.


Foto: 123RF

Ansiedade: a distorção da realidade

Bromélia, de 29 anos, se recorda de ouvir as pessoas comentando sobre transtorno de ansiedade, mas nunca tinha conseguido entender bem o que era a doença. Em 2016, quando ingressou na universidade, se deparou com casos mais severos, de suicídio de alunos e, por conta do cenário, passou a participar debates sobre saúde mental. 

“Nesse período, eu procurei um psicólogo. Sempre fui uma pessoa emotiva, muito sensível, mas nunca imaginei que, de alguma forma, isso estaria atrelado à ansiedade. Cheguei a frequentar algumas sessões, mas deixei de ir. Em 2017, estava passando por problemas pessoais graves e acumulou com a universidade e eu dei um surto. Me isolei de todo mundo, comecei a ter alguns sintomas preocupantes”, comenta.

Bromélia fala que o pensamento acelerado é seu principal obstáculo na luta contra a ansiedade e a faz criar cenários distorcidos. “Em determinadas situações, é como se fosse um véu, um filtro, que destorce a realidade. Pequenas coisas, que não têm significado se eu tivesse bem, criam uma proporção gigantesca. Eu começo a distorcer, acho que as pessoas estão contra mim, que eu não sou suficiente, que não dou conta daquilo, e começo a pensar muito rápido sobre isso, não consigo controlar meus pensamentos. Dependendo da situação, começo a sentir falta de ar, o coração começa a bater acelerado e tenho palpitações”, revela.


Sempre fui uma pessoa emotiva, muito sensível, mas nunca imaginei que, de alguma forma, isso estaria atrelado à ansiedade" - Bromélia


A ansiedade também afeta Girassol, de 23 anos. Ela sente os sintomas desde os 16. “Eu percebi que tinha problema de ansiedade ainda no Ensino Médio, devido ao vestibular. Entrei cedo na universidade, ainda estava cursando o primeiro semestre do terceiro ano, com apenas 16 anos. Então, percebi que estava me limitando a fazer certas atividades, estava com dificuldade de escutar coisas simples, fazer uma resenha, um resumo do colégio, eu não conseguia me concentrar e fui me isolando”, diz.

Girassol revela que, quando está em crise, não consegue desenvolver atividades simples. “Tem gente que pode acreditar que estou procrastinando, mas quando você sabe executar uma atividade e a ansiedade não deixa, você perde o controle, não consegue se concentrar, iniciar ou terminar algo. Quando percebo já estou em crise”, detalha.

Taquicardia, falta de apetite, insônia

Nenúfar tem 28 anos e, ao passar por problemas em um relacionamento amoroso, começou a perceber alguns sinais de que precisava de ajuda. “A primeira vez que percebi que havia algo errado eu estava passando por um período conturbado. Estava escrevendo o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e estava passando por problemas no relacionamento. Os primeiros sintomas envolviam taquicardia, falta de apetite, insônia, problemas de concentração, calafrios, tensão muscular e uma sensação de impotência. Tudo isso acompanhado de um sentimento ruim, uma aflição que não tinha fim, que não passava e não dá para explicar de onde vem”, descreve.


Os primeiros sintomas envolviam taquicardia, falta de apetite, insônia, problemas de concentração, calafrios, tensão muscular e uma sensação de impotência.


Os sintomas do transtorno também afetam Amarílis, professora voluntária, atriz, criadora de vídeos de cordel e humor, estudante de administração, filha única adotada e amante da causa animal. “Tudo me afeta. Quando alguém me olha torto, meu mundo desaba. Coisas pequenas mesmo, que não era para a gente ligar, mas, por conta de estar abalada, acaba afetando. Uma crítica, um problema familiar, pensando mil coisas que não existem. Por exemplo, eu namoro e do nada penso que ele está me traindo. Eu monto um começo, meio e fim e tudo é algo trágico. É isso que é a ansiedade e depressão”, pontua.

Jasmim, de 23 anos, também revela que os sintomas físicos da ansiedade e depressão foram muito fortes e causaram grande impacto em sua vida. “Quando se está em crise, você pensa que não vai conseguir fazer nada, que não tem jeito, sente o coração acelerado, as mãos geladas, soam muito, sente muita dor no corpo, febre sem explicação, você só consegue chorar, por tudo. Como a crise foi muito forte, eu comecei a sentir parte do meu rosto com sensação de dormência”, lembra a jovem que também se percebeu doente na fase final de concluir seu curso superior, em meio a desafios pessoais e profissionais.

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30 de agosto de 2019

Especialistas alertam: hábito de fumar prejudica saúde bucal

Especialistas alertam: hábito de fumar prejudica saúde bucal

Diagnósticos vão de mau hálito, a caries, perdas dentárias até câncer de boca. Secretaria de Estado da Saúde implementou o Programa de Controle do Tabagismo.

Para quem faz do fumo um hábito, as chances de ficar doente são ampliadas. Isto porque, através das substâncias presentes no cigarro, o usuário absorve substâncias tóxicas à saúde, capazes de levar à morte. Na saúde bucal não é diferente. Há uma grande chance em desenvolver um mau hálito, doença periodontal, cárie, perdas dentárias e até câncer de boca por conta do uso contínuo de cigarro.


O dentista César Gustavo, do Conselho Regional de Odontologia do Piauí (CRO-PI) , diz que os agravos trazidos pelo uso do cigarro podem acontecer em qualquer faixa etária. “As substâncias do cigarro atingem os tecidos de sustentação dos dentes por conta da nocividade da nicotina. O aumento da temperatura da boca devido ao uso do cigarro também contribui para acumular placa e tártaro. Então, desde novos, pacientes jovens, mas fumantes, apresentam indícios da formação de alguma patologia, que pode ser mancha, mau hálito ou até doenças mais graves”, explica.


Foto: Assis Fernandes/O Dia

Outro sinal bastante conhecido do hábito de fumar são os dentes amarelados. Isso acontece porque o cigarro apresenta componentes, como nicotina, alcatrão e amônia, que acabam ficando impregnados na superfície dentária.

Toda vez que o fumante inala a fumaça do cigarro aceso, ela passa por toda a sua boca e deixa resquícios desses componentes nos dentes. Com o passar do tempo, o acúmulo desses resíduos forma manchas — inclusive, quem fuma há muitos anos corre o risco de adquirir manchas impossíveis de remover.

“A gente sabe que o cigarro é extremamente prejudicial e as pessoas acabam negligenciando o cuidado com a boca. O mau hálito, por exemplo, vem por conta da fumaça ressecar a boca e inibir a produção de saliva. Isso acaba deixando que permaneçam substâncias que a gente consome na boca que, depois, exalarão o mau odor”, explica o dentista.

Outros tipos de diagnósticos comuns são as doenças periodontais, como a gengivite e a periodontite, inflamações decorrentes do acúmulo de bactérias. A questão é que como o cigarro tende a causar uma vasoconstrição sistêmica, a gengiva não sangra muito e a pessoa não percebe que algo está errado.

Outras possíveis ocorrências são inchaço e retração da gengiva, amolecimento dos dentes e perda óssea. Por tudo isso, não é difícil encontrar fumantes que já tenham perdido alguns dos seus dentes e tiverem que fazer implantes.

Normalmente, o tabagismo é uma porta de entrada para diversas doenças que afetam a saúde de modo geral. Existe ainda o risco do câncer de boca, que está estampado nas embalagens de cigarro como alerta para a população.

Além da boca, o uso de cigarro também atinge pulmões, garganta e nariz. Por isso, o dentista César Gustavo, lembra que a melhor prevenção para a saúde é a suspensão do uso do hábito de fumar.


Foto: O Dia

Piauí reduz em 70% o número de fumantes

O estado do Piauí reduziu em 70% o número de adultos fumantes em nove anos. Para diminuir ainda mais esse quantitativo, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesapi) lança a campanha “Tabaco e Saúde Pulmonar”. O objetivo é alertar a população sobre o uso do tabaco como fator de risco para várias doenças, como explica a coordenadora de Saúde do Adulto e Idoso da Sesapi, Valdite Leão.

“O fumo é um desencadeador de várias doenças, mas principalmente de câncer de pulmão, traqueia e brônquios. O tabaco fumado em qualquer uma de suas formas é responsável por 90% de doenças pulmonares. E alertar sobre esses riscos à saúde é uma das estratégias da nossa campanha”, destaca Leão.

Em 2009, a Secretaria de Estado da Saúde implementou o Programa de Controle do Tabagismo, que vem avançando significativamente. Neste ano, já são 190 municípios piauienses que oferecem o tratamento em 912 postos de saúde, o que colaborou para a queda do número de fumantes.

“Quando começamos os trabalhos em 2009, o Piauí tinha 18,9% de sua população adulta fumante e, no ano passado, esses números reduziram para 5,5%”, ressalta a coordenadora.

Além de alertar sobre os riscos para a saúde, a iniciativa quer chamar a atenção para os serviços disponibilizados, que ajudam no tratamento de quem quer parar de fumar. “Estamos fazendo capacitações nas onze regionais de saúde. Nossa meta para 2020 é que os 224 municípios piauienses possam oferecer esse serviço, para que esses números caiam ainda mais”, afirmou Valdite Costa.

Para os que desejam parar de fumar, a Secretaria de Estado da Saúde orienta que procure o posto de saúde mais próximo de sua casa, onde será atendido por uma equipe multidisciplinar e contará ainda com medicamentos gratuitos à sua disposição. Outras informações podem ser consultadas na Coordenação de Controle ao Tabagismo da Sesapi, ou por meio do Disque Saúde 136.

27 de agosto de 2019

Pacientes esperam até 15 meses para tratar câncer de próstata

Pacientes esperam até 15 meses para tratar câncer de próstata

O período infringe a Lei dos 60 Dias, que determina que o paciente tem direito de iniciar o tratamento da doença em até 60 dias depois do diagnóstico

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos, a pedido da Janssen, farmacêutica da Johnson & Johnson, revela que o intervalo médio identificado entre os primeiros sinais da doença, o diagnóstico e o começo do tratamento do câncer de próstata no Brasil, foi de 15 meses.

O período, que ultrapassa um ano, também infringe a Lei dos 60 Dias, que determina que o paciente oncológico tem direito de iniciar o tratamento da doença em até 60 dias depois de “firmado o diagnóstico em laudo patológico ou em prazo menor, conforme a necessidade terapêutica”.


“Estudos revelam que 20% dos pacientes demoram 60 dias entre a queixa e a feitura do diagnóstico clínico, outros 20% demoram entre o diagnóstico e a realização da biopsia, mais 20% entre a biopsia e o tratamento"


Todavia, na perspectiva do oncologista Fernando Maluf, este descumprimento não é intencional, mas sim resultado de uma rede que se inicia antes mesmo do diagnóstico da doença. " A lei fala que, depois do diagnóstico, tem que iniciar o tratamento em 60 dias, então, ela não é cumprida para esses 20%. Mas têm outra parte maior, entre 30 e 40%, que após os sintomas, demoram para marcação da consulta, demoram para fazer os exames. Então, na verdade, muitos serviços não cumprem a lei, não por maldade, mas por esses procedimentos. É muito mais o pré-biopsia, que o pós-biopsia”, pondera.

A pesquisa da Janssen entrevistou 200 homens acima dos 40 anos, diagnosticados com câncer de próstata há mais de dois anos, divididos em grupos de pacientes metastáticos e não metastáticos, em 13 capitais (Belém, Manaus, Recife, Salvador, Fortaleza, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Brasília e Goiânia).


Medicamento retarda surgimento da metástase do câncer de próstata

Após ser submetido à cirurgia ou à radioterapia para tratar o câncer de próstata em estágio inicial, 20 a 30% dos pacientes voltam a ter o PSA aumentado. E quando este antígeno começa a subir muito rápido, este homem tem o risco maior de apresentar a doença metastática – que é quando o câncer se espalha para outros órgãos e as chances de cura reduzem.

Neste intervalo, entre o aumento do PSA até o diagnóstico da metástase, e dependendo do caso, é possível iniciar um tratamento inovador, que já demonstrou diminuir em 72% o risco de progressão para metástase ou morte em pacientes com câncer de próstata, além de proporcionar mais de 40 meses de sobrevida livre de metástase (mediana), o que representa um ganho de dois anos quando comparado ao uso de um remédio placebo (mediana de 16,2 meses).

A pesquisa da Janssen entrevistou 200 homens acima dos 40 anos, diagnosticados com câncer de próstata há mais de dois anos

Desenvolvido pela Janssen, farmacêutica da Johnson & Johnson, a apalutamida é um inibidor oral de receptor de andrógeno que bloqueia a via de sinalização dos andrógenos em células do câncer de próstata. O medicamento inibe o crescimento de células cancerosas de três formas: prevenindo a ligação de andrógenos ao seu receptor nas células; bloqueando a entrada dos receptores de andrógenos nas células cancerosas; e impedindo os receptores de se ligar ao DNA da célula maligna.

Além de postergar o agravamento da doença, a apalutamida também demonstrou ter um perfil favorável de segurança e tolerabilidade. Durante a realização do estudo clínico, grande parte dos pacientes não metastáticos e assintomáticos relataram manter a mesma qualidade de vida que tinham antes do uso do medicamento. Neste estudo, os principais eventos adversos de apalutamida foram fadiga, hipertensão e rash cutâneo.

“Quando oferecemos aos pacientes um medicamento que é capaz de evitar a piora de seu quadro sem trazer efeitos colaterais muito impactantes, podemos realmente dizer que ele terá a chance não apenas de prolongar sua vida, mas principalmente de seguir desfrutando dela com qualidade”, afirma Telma Santos, diretora médica da Janssen Brasil.


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Homens negros são mais vulneráveis ao câncer de próstata 

Homens negros são mais vulneráveis ao câncer de próstata

Homens negros são mais vulneráveis ao câncer de próstata

Com menos casos da doença que os Estados Unidos, brasileiros têm índice de mortalidade duas vezes maior que o país norte-americano


As razões ainda não são claras, mas os negros apresentam risco ao câncer de próstata de duas a três vezes maior que o restante da população masculina, bem como o dobro da probabilidade de morrer por conta da doença. Além disso, a ocorrência desse tipo de câncer nos homens brancos acontece em geral a partir dos 50 anos, ao passo que em negros se dá entre cinco e dez anos mais cedo. Os dados confirmados pelo oncologista Fernando Maluf, diretor médico do Centro Oncológico da Beneficência Portuguesa de São Paulo, membro do Comitê Gestor do Hospital Israelita Albert Einstein e Diretor do Centro de Oncologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, alertam ainda para outros fatores de risco, como os genéticos e ambientais.



“Se você tem um parente de primeiro grau com a doença, a probabilidade de você desenvolver [o câncer de próstata] é duas vezes maior; dois parentes de primeiro grau, quatro vezes; três parentes, seis vezes. Então, o risco vai aumentando de acordo com o número de parentes acometidos pela doença, a proximidade e a idade em que aquele parente teve câncer de próstata”, explica Maluf, acrescentando que a obesidade é outro agravante da doença. “Além da parte familiar, tem a obesidade, e não só pelo risco de ter a doença, mas o obeso tem a doença pior; a raça negra tem mais câncer de próstata e mais agressivo, e a idade, pois raramente o câncer de próstata vai acometer alguém abaixo de 40, 45 anos”, completa.



O oncologista apresenta ainda outros dados alarmantes. Enquanto nos Estados Unidos a estimativa de novos casos de câncer de próstata é de cerca de 200 mil e de cada 10 casos diagnosticados, um vem a óbito; no Brasil, espera-se a ocorrência de 70 mil novos casos de câncer de próstata por ano, no entanto, de cada 10 casos diagnosticados, dois morrem. Ou seja, a mortalidade no Brasil é o dobro que do registrado nos Estados Unidos, onde há mais casos diagnosticados da doença.

Para Fernando Maluf, a justificativa para este cenário passa pela cultura resistente do homem em buscar ajuda médica. “No Brasil, os pacientes chegam, com frequência, tardiamente ao diagnóstico. Uma pesquisa da SBU [Sociedade Brasileira de Urologia] mostra que a quantidade de pacientes com doença avançada no diagnóstico é de duas a três vezes maior que nos EUA. Se você olhar para os negros, ou para as pessoas mais pobres, esse risco aumenta de quatro a cinco vezes. Então, nosso tumor é igual ao dos americanos, o nosso problema chama-se doença social, não doença só da doença”, pondera o oncologista, citando que os homens vão oito vezes menos ao médico espontaneamente que as mulheres no Brasil e eles vivem sete anos a menos que elas no país.


Exame do toque: “desconforto é muito mais na cabeça que na parte física”

O rastreamento da saúde da próstata deve começar aos 50 anos. Todavia, se o homem tiver algum dos fatores de risco, o acompanhamento deve começar aos 40 anos. Para tanto, o urologista irá solicitar a realização do exame de toque retal e o exame de sangue para avaliar a dosagem do PSA (antígeno prostático específico).

Segundo o oncologista Fernando Maluf, os dois exames são complementares e o resultado de um não anula a necessidade de realização do outro. “O exame de toque demora uns sete segundos, praticamente indolor. O desconforto é muito mais na cabeça que na parte física. E é importante lembrar que o toque complementa o PSA. Há casos em que o PSA dá baixo, mas o toque retal dá alterado e, em geral, esses são os piores tumores, aqueles que não expressam em PSA”, alerta.

Ainda sobre a prevenção da doença, o médico indica hábitos de vida saudáveis e a ingestão de alimentos como chá verde, cúrcuma, tomate, alho, pimenta, romã, além de ômega 3 e vitamina D. Ele ressalta que o licopeno, pigmento carotenoide e fitoquímico encontrado principalmente no tomate e seus derivados, sendo o responsável pela cor vermelha intensa dele e de outras frutas, também é um importante aliado na prevenção da patologia. Ademais, deve-se evitar a ingestão de embutidos, frituras, alimentos condimentados e carnes vermelha em excesso.


Diagnóstico e formas de tratamento

Caso sejam constatadas alterações suspeitas no exame de toque e PSA, o médico, então, solicita a biopsia e, dependendo do resultado anátomo-patológico, confirma-se ou descarta-se o diagnóstico de câncer de próstata. Em caso positivo para a doença localizada, os tratamentos mais comuns são cirurgia e radioterapia.

“A cirurgia pode causar um pouco mais de chances de desenvolver incontinência urinária que a radioterapia, e a chance de impotência é parecida nas duas modalidades. Já a radioterapia pode causar um pouco mais de inflamação, é mais demorada, pois leva de sete a oito semanas para ser concluída. Os dois tratamentos têm prós e contras, mas são super corretos”, explica Fernando Maluf.

Já quando a doença se apresenta em estágio avançado, os tratamentos são: a castração, que é diminuir a produção de testosterona nos testículos, pois ela é o alimento vital das células cancerígenas; além da quimioterapia, imunoterapia ou radioterapia injetável. “No entanto, é possível que, após a castração, as células cancerígenas aprendam a se alimentar de outra substância, e aí vêm outras alternativas, como drogas, tratamentos hormonais, etc.”, completa.











Homens encaram com desespero e medo o diagnóstico da doença

Em um país cuja masculinidade foi socialmente construída sob a virilidade do homem, enfrentar o diagnóstico de câncer de próstata pode trazer sérios impactos à saúde emocional e mental dos pacientes. 

Segundo a psicóloga Luiza Polessa, membro da Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO), ao receber o diagnóstico da doença, este homem começa a viver na iminência de vários sentimentos. “É tudo tão intenso, tão avassalador que é como se ele tivesse caindo no vácuo, com muita preocupação financeira, alteração de sono, depressão, casos de ideação suicida, bloqueio emocional e cognitivo, descrença e desesperança de cura”, descreve.

E a família também sofre neste processo. “A família também é impactada com sentimentos de pesar, angústia, medo e até ambivalência de sentimentos, porque nem sempre esse familiar é um querido, muitas vezes ele não foi um bom pai, um bom marido, um bom irmão ou um bom colega de trabalho. E ao mesmo tempo que vem o pesar, vem o distanciamento, a desqualificação”, ressalta a psicóloga.

Um reflexo desses impactos emocionais e mentais no paciente também foi descrito pela pesquisa do Instituto Ipsos, a pedido da Janssen. O levantamento aponta que aproximadamente duas vezes mais pacientes metastáticos (31%) procuraram apoio psicológico em comparação àqueles que não tinham metástase (17%).

“É necessário olhar o aspecto psicossocial da doença, uma vez que a pessoa pode, de repente, deixar de ser produtiva socialmente ou intelectualmente. Além disso, os indivíduos precisam lidar ainda com outras questões associadas ao câncer, como disfunção erétil, que descaracterizam a identidade do homem de uma maneira muito significativa”, completa Luiza Polessa.

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