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Notícias Especiais

23 de junho de 2019

Suicídio: grupos de vulnerabilidade e cuidados para quem fica

Suicídio: grupos de vulnerabilidade e cuidados para quem fica

Muitos associal a depressão ao suicídio, mas esta é apenas uma das causas que pode levar ao ato.

Quando se fala sobre suicídio a primeira palavra que interligam é com a depressão. Só que a sociedade não compreende que essa é apenas uma das causas que pode levar ao ato, “existe um grupo em que tem relação com o suicídio e algumas relações de vulnerabilidade de saúde mental, depressão, tem uma associação muito intensa, boa parte dos suicidas tem um histórico de problemas de saúde”, fala o professor.

Isso acontece por que muitas pessoas não tem acesso a um tratamento de saúde adequado e, portanto, não têm diagnóstico. Outra situação são pessoas bipolares, “essa doença aumenta o risco em 4 ou 5 vezes mais de cometer o suicídio, do que em pessoas com situação sem ter esse problema, então, pessoas com vulnerabilidade de saúde mental, precisam ser acompanhadas, por que elas têm maior risco de ter esse efeito, de recepção como estimulo”, elucida o psicólogo . 


Muitas pessoas não têm acesso ao tratamento adequado - Foto: Jailson Soares/O Dia

Papel da família

Ao detectar atitudes diferentes em amigos ou familiares, o primeiro passo, é não diminuir a dor do outro, pois o suicida só chega ao ato, após a ideação e ter feito tentativas. Como reforça o psicólogo, “o indicativo é não minimizar que há um quadro de problema de saúde mental, então, é recomendado buscar apoio para que haja assistência, e os apoios mais importantes são aqueles que integram o trabalho e um psiquiatra quando há indicação de medicamento” expõe.

Outro ponto que merece atenção, é que durante o tratamento ou após a internação o suicida pode tentar mais uma vez, “quando ele está melhorando, é que tem mais risco, por que já tem um incômodo de sofrimento grande, só que agora eles estão com força, com energia para fazer alguma coisa e muitos se matam, há casos de suicídio dentro do hospital”, relata Denis.

Entretanto o acompanhamento é indispensável, não se deve flexibilizar e brincar sobre a situação com pessoas que estejam com ideação suicida. O correto é conversar, mostrar que se importa, que quer ajudar e nunca julgar. O suicídio nunca é sinônimo de fraqueza ou força. Um abraço, uma palavra amiga, pode auxiliar neste momento.

Cuidado para quem fica

A pósvenção é pouco debatida no meio desse cenário doloroso. Este é o momento após o ato do suicídio, quando a família e pessoas próximas passam pelo período de luto, “existe o luto natural de quem perde alguém, que o sofrimento pode ser patológico. Tem que observar se vai durar muito tempo qual a intensidade desse sofrimento, se impede a pessoa de ter uma vida normal, trabalhar, ter vida social. Chegando nessa dimensão, precisa-se encaminhar para uma assistência mais especializada na área da saúde mental, com psicólogo e psiquiatra”, informa o professor Denis Carvalho. 


“Existe o luto natural de quem perde alguém, que o sofrimento pode ser patológico. Tem que observar se vai durar muito tempo qual a intensidade desse sofrimento" - Denis Carvalho


O psicólogo continua,  “o sofrimento nos primeiros meses é natural, o luto que tem que ser trabalhado, mas temos outros problemas, em alguns casos a situação estatística mostra que fica aquele medo, os questionamentos, sobre em que eu falhei, junto comum sentimento de dor profunda, que gera um adoecimento, a sensação de que as pessoas poderiam ter feito mais do que fizeram, e se culpam, sofrem e adoecem, isso precisa trabalhar bem”, detalha.

Observar quem ficou é importante para que as pessoas não comentam também suicídio, pelo sentimento de culpa, “mas é bom lembrar que o sofrimento é a situação de luto não é um sinal de doença, é normal, todo mundo tem que trabalhar o luto, a perda. A gente tem uma sociedade que tem dificuldade em admitir que o sofrimento e a dor fazem parte da vida. Isso não pode ser transformado em doença e somente tratado com medicamentos, é preciso ver a intensidade, se for muito tempo e se inviabilizar que a pessoa tenha uma vida normal, aí sim, deve começar a se preocupar”, pontua o psicólogo Denis Carvalho.

Igrejas se unem em campanha contra o suicídio em Teresina

Igrejas se unem em campanha contra o suicídio em Teresina

Grupos ficam acampados nas entradas das principais pontes da cidade compartilhando mensagens de amor e esperança a quem passa.

Quem passa pela Avenida Frei Serafim tem se deparado com um grupo de pessoas acampadas na entrada da ponte Juscelino Kubitscheck, segurando faixas e cartazes com palavras de amor e esperança. A escolha do lugar não foi aleatória e tem muito a ver com o propósito da ação. É que as pontes de Teresina têm sido cenário de um número frequente de casos de suicídios na Capital e os grupos que ali se fixam estão tentando justamente ajudar a reverter este quadro.

A iniciativa partiu de grupos das Igrejas Evangélicas e da Igreja Católica de Teresina, que se uniram para levarem palavras de conforto, carinho, amor e esperança para aqueles que mais precisam e que não conseguem enxergar mais nenhuma perspectiva na vida. Munidos de fé e muita disposição, os grupos oferecem abraços e acolhimento a quem a eles recorrerem. 

A iniciativa é recente na Capital piauiense, tendo iniciado nos primeiros dias deste mês de junho, por incentivo de grupos voluntários do Rio Grande do Norte, após casos seguidos de suicídio naquela cidade. É o que explica o voluntário Thiago Melo: “Aquilo meio que mexeu com a gente e sabendo desse alto índice de suicídio aqui na nossa Capital, a gente decidiu fazer algo. Nos reunimos com o pessoal, fizemos divulgação nas redes sociais, recrutamos mais gente e formamos essa rede de ajuda ao próximo”.


Foto: Assis Fernandes/O Dia

O projeto começou com 30 pessoas e hoje já são mais de cem voluntários se revezando em grupos e em esquema de plantão das 7h da manhã até as 20 horas todos os dias nas pontes de Teresina. Nas reuniões de preparação, os participantes receberam instruções de psicólogos e demais profissionais da saúde, como enfermeiros e médicos, além de terem contado também com a ajuda de profissionais da segurança para aprenderem a lidar em casos de situações extremas e necessidade de abordagem.

Yara Naira, que também é voluntária, relata que o principal propósito da iniciativa é mostrar para o outro que há alguém que se importa com ele mesmo quando ele se sente sozinho no mundo. “Nós estamos aqui para conversar, abraçar, acolher, porque a gente sabe que o mundo é carente de amor. Às vezes são mães, são pais, são filhos que não conseguem mais ver o amor em nada, nem dentro de suas próprias casas e a gente tenta mostrar que nem tudo está perdido, que há sempre uma outra saída, uma palavra positiva para que ela não desista jamais. Que existe ainda muita vida para ser vivida”, diz Yara.

Suicídio: um tema para ser abordado com responsabilidade

Suicídio: um tema para ser abordado com responsabilidade

Divulgar fotos e vídeos de pessoas mortas para satisfazer a curiosidade, pode causar prejuízos graves. Esse ato se tornou crime através da PL 2175/15 aprovada em abril deste ano.

O suicídio ainda é considerado um tema tabu na sociedade, entre os veículos de comunicação a dúvida é, em como noticiar tentativas de suicídio. O psicólogo e professor Denis Carvalho, explica que a melhor maneira é trazer a temática para o sentido reflexivo da questão e apresentando dados. “A forma correta é nunca focar no caso especifico, quando tem notícia de um caso especifico aproveitar pra falar do suicídio em si, uma matéria de como prevenir, quais são os principais riscos, e nunca com detalhe de faixa etária, modo de suicídio e local”, esclarece.

Os jornalistas ao noticiar qualquer assunto devem ter em mente se o conteúdo vai trazer danos a sociedade, como é o caso do suicídio, “com essas informações pode-se criar o efeito contágio, pois várias pesquisas mostram que quando você detalha o suicídio, você pode provocar uma indução à pessoas vulneráveis, com uma certa tendência ao suicídio, muitas delas criam coragem, e outra coisa é que tem o modelo de como cometer o ato”, explica o psicólogo.

Os comunicólogos contam ainda com uma “Cartilha de suicídio para os profissionais de imprensa”, que detalha como deve se dar com o assunto, além de frases de alertas que as pessoas costumam falar e locais de apoio. 


Professor alerta que compartilhar imagens causa um novo sofrimento a parentes - Foto: Elias Fontinele/O Dia

Compartilhamento de vídeos nas redes sociais

Divulgar fotos e vídeos de pessoas mortas para satisfazer a curiosidade, pode causar prejuízos graves. Esse ato se tornou crime através da PL 2175/15 aprovada em abril deste ano, a lei pune quem reproduzir imagens de cadáveres seja na internet ou outras mídias. A pessoa pode cumprir mandado de prisão, de um a três anos e pagar multa. A pena aumenta em um terço, se o responsável tiver acesso por meio da profissão.

O professor ainda explana que essa é uma ação que jamais deve ser feita, “nunca se deve filmar, pois é algo absurdo, condenável, repudiável no mais alto grau, se você tiver próximo, tente conversar, mesmo à distância, falar coma a pessoa, para ganhar tempo e acionar o Corpo de Bombeiros e a Polícia. Por que geralmente esses órgãos tem gente com treinamento específico para abordagem”, esclarece.

O prejuízo à pessoas próximas, pode ser ainda mais devastador, ao ver as imagens circulando na internet, “com os pais é uma violência, leva uma segunda facada na vida, reativa a dor, reativa a ferida, por que é um tipo de imagem que não deveria ser permitida, e nas pessoas mais vulneráveis, você pode ter o efeito inspirador, de apresentar um modelo bem sucedido de suicídio, isso pode aumentar o risco”, alerta Denis Carvalho.

Suicídio desafia sociedade a exercitar empatia e cuidados com a saúde mental

Suicídio desafia sociedade a exercitar empatia e cuidados com a saúde mental

Em situação de desespero, as pessoas precisam ser amparadas, não julgadas.

“O suicídio é um fenômeno complexo e multicausal, ou seja: algo muito simples não pode explicá-lo”. O destaque é feito por Marcelle Beatriz, psicóloga terapeuta de casal e família e pós-graduanda em prevenção e posvenção ao suicídio. A especialista faz o destaque para que se encare o tema com a complexidade que ele se apresenta, por isto, neste cenário, julgamentos, busca por culpados ou negação, não contribuem para que a sociedade lide, de forma saudável, com as vidas que se perdem ou são afetadas em conseqüência deste fenômeno.

“A pessoa quando comete suicídio não quer tirar sua própria vida, ela quer minimizar a dor que está sentido, ela se vê sozinha, não se vê compreendida e a gente vive em uma cultura que dá muito valor as pessoas quando ela se vão”, explica a psicóloga. 


Especialista mostra necessidade de cuidar do outro - Foto: Poliana Oliveira/O Dia

Partindo deste entendimento, a profissional lembra que, em situações de desespero, as pessoas têm de ser amparadas, não julgadas. Isto talvez possa fazer a diferença entre salvar uma vida ou perdê-la. “A coisa que a gente menos deve fazer é julgar aquela pessoa, a gente vai tentar o máximo acolher o sofrimento dela, tentar entender o que ela está passando. Não usar religião ou uma cultura para fazer aquele tipo de indicação: você não acredita em Deus? Você não acredita que Deus pode te salvar? Imagina como tua família vai se sentir? Esse tipo de coisa só faz a pessoa se sentir mais culpada e mais errada, tudo isso pode intensificar aquela situação. Então, o momento é de não atribuir culpa”, considera.

A orientação serve como base para que pessoas que não tenham um conhecimento aprofundado sobre o tema saibam lidar com alguma inesperada situação, mas, é claro, que é através da intervenção de um profissional da saúde a forma mais correta de lidar com qualquer tipo de situação.


“A coisa que a gente menos deve fazer é julgar aquela pessoa, a gente vai tentar o máximo acolher o sofrimento dela, tentar entender o que ela está passando" - Marcelle Beatriz


“Para ajudar, acolher, você precisa conhecer, não pode tratar um tema tão complexo sem buscar entender os sinais de alerta, a forma de abordagem. Mas é claro que não vamos capacitar toda uma sociedade para lidar com isso, mas nós, como sociedade, não podemos ficar alheio ao problema do outro. Precisamos entender, porque ninguém está alheio a essa temática. Precisamos nos cuidar para cuidar do outro”, finaliza.

Atenção a frases alarmistas

Há um mito dito com recorrência que as pessoas que falam em cometer o suicídio não farão mal a si próprias, pois querem apenas “chamar a atenção”. Além de não contribuir com o debate, o pensamento é um conceito falso, como alerta a cartilha do Centro de Valorização da Vida (CVV).

Existem diversas dicas que podem indicar que uma pessoa possa estar enfrentando esse tipo de problema e planejando cometer suicídio e as frases de alarme podem denunciar a situação: “A vida não vale a pena”, “Nada mais importa”, “Não ficarei magoado mais pois não estarei mais aqui”, “Vão sentir a minha falta quando eu me for”, “Você se sentirá mal quando eu me for?”, “Não aguento a dor”, “Não consigo lidar com tudo isso – a vida é muito difícil”.

Parentes, amigos ou pessoas que convivam no ciclo social de indivíduos que deixam tais alertas devem permanecer abertos para ajudar a lidar com a situação.


Centro de Valorização da Vida treina pessoas para liderem com o tema - Foto: Elias Fontinele/O Dia

CVV na rede de amparo

Para contribuir com este contexto, o CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, no número 188; email e chat 24 horas (https://www.cvv.org.br) todos os dias.

“O que fazemos é uma escuta ativa, uma conversa que pode contribuir para a pessoa que esteja precisando ser ouvida e poder estimular que ela busque solucionar seus problemas”, explica Eyder Mendes, atendente e coordenador de divulgação do CVV Piauí.

As pessoas que querem ser voluntárias do CVV tem que fazer parte de um treinamento, que dura em média três fins de semana, e ter disponibilidade de 4h por semana em qualquer horário. 

22 de junho de 2019

Suicídio: fenômeno para exercitar empatia desafia sociedade

Suicídio: fenômeno para exercitar empatia desafia sociedade

Há um mito dito com recorrência que as pessoas que falam em cometer o suicídio não farão mal a si próprias, pois querem apenas “chamar a atenção”

“O suicídio é um fenômeno complexo e multicausal, ou seja: algo muito simples não pode explicá-lo”. O destaque é feito por Marcelle Beatriz, psicóloga terapeuta de casal e família e pós-graduanda em prevenção e posvenção ao suicídio. A especialista faz o destaque para que se encare o tema com a complexidade que ele se apresenta, por isto, neste cenário, julgamentos, busca por culpados ou negação, não contribuem para que a sociedade lide, de forma saudável, com as vidas que se perdem ou são afetadas em consequência deste fenômeno. “A pessoa quando comete suicídio não quer tirar sua própria vida, ela quer minimizar a dor que está sentido, ela se vê sozinha, não se vê compreendida e a gente vive em uma cultura que dá muito valor as pessoas quando ela se vão”, explica a psicóloga.


Poliana Oliveira/O DIA

Partindo deste entendimento, a profissional lembra que, em situações de desespero, as pessoas têm de ser amparadas, não julgadas. Isto talvez possa fazer a diferença entre salvar uma vida ou perdê-la. “A coisa que a gente menos deve fazer é julgar aquela pessoa, a gente vai tentar o máximo acolher o sofrimento dela, tentar entender o que ela está passando. Não usar religião ou uma cultura para fazer aquele tipo de indicação: você não acredita em Deus? Você não acredita que Deus pode te salvar? Imagina como tua família vai se sentir? Esse tipo de coisa só faz a pessoa se sentir mais culpada e mais errada, tudo isso pode intensificar aquela situação.

Então, o momento é de não atribuir culpa”, considera. A orientação serve como base para que pessoas que não tenham um conhecimento aprofundado sobre o tema saibam lidar com alguma inesperada situação, mas, é claro, que é através da intervenção de um profissional da saúde a forma mais correta de lidar com qualquer tipo de situação.

“Para ajudar, acolher, você precisa conhecer, não pode tratar um tema tão complexo sem buscar entender os sinais de alerta, a forma de abordagem. Mas é claro que não vamos capacitar toda uma sociedade para lidar com isso, mas nós, como sociedade, não podemos ficar alheio ao problema do outro. Precisamos entender, porque ninguém está alheio a essa temática. Precisamos nos cuidar para cuidar do outro”, finaliza.

Atenção a frases alarmistas

Há um mito dito com recorrência que as pessoas que falam em cometer o suicídio não farão mal a si próprias, pois querem apenas “chamar a atenção”. Além de não contribuir com o debate, o pensamento é um conceito falso, como alerta a cartilha do Centro de Valorização da Vida (CVV).


Elias Fontenele/O DIA

Existem diversas dicas que podem indicar que uma pessoa possa estar enfrentando esse tipo de problema e planejando cometer suicídio e as frases de alarme podem denunciar a situação: “A vida não vale a pena”, “Nada mais importa”, “Não ficarei magoado mais pois não estarei mais aqui”, “Vão sentir a minha falta quando eu me for”, “Você se sentirá mal quando eu me for?”, “Não aguento a dor”, “Não consigo lidar com tudo isso – a vida é muito difícil”.

Parentes, amigos ou pessoas que convivam no ciclo social de indivíduos que deixam tais alertas devem permanecer abertos para ajudar a lidar com a situação.

CVV na rede de amparo

Para contribuir com este contexto, o CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, no número 188; email e chat 24 horas (https://www.cvv.org.br) todos os dias.

“O que fazemos é uma escuta ativa, uma conversa que pode contribuir para a pessoa que esteja precisando ser ouvida e poder estimular que ela busque solucionar seus problemas”, explica Eyder Mendes, atendente e coordenador de divulgação do CVV Piauí. As pessoas que querem ser voluntárias do CVV tem que fazer parte de um treinamento, que dura em média três fins de semana, e ter disponibilidade de 4h por semana em qualquer horário.

(Glenda Uchôa)

Um tema para ser abordado com responsabilidade

O suicídio ainda é considerado um tema tabu na sociedade, entre os veículos de comunicação a dúvida é, em como noticiar tentativas de suicídio. O psicólogo e professor Denis Carvalho, explica que a melhor maneira é trazer a temática para o sentido reflexivo da questão e apresentando dados. “A forma correta é nunca focar no caso especifico, quando tem notícia de um caso especifico aproveitar pra falar do suicídio em si, uma matéria de como prevenir, quais são os principais riscos, e nunca com detalhe de faixa etária, modo de suicídio e local”, esclarece.

Os jornalistas ao noticiar qualquer assunto devem ter em mente se o conteúdo vai trazer danos a sociedade, como é o caso do suicídio, “com essas informações pode -se criar o efeito contágio, pois várias pesquisas mostram que quando você detalha o suicídio, você pode provocar uma indução à pessoas vulneráveis, com uma certa tendência ao suicídio, muitas delas criam coragem, e outra coisa é que tem o modelo de como cometer o ato”, explica o psicólogo.

Os comunicólogos contam ainda com uma “Cartilha de suicídio para os profissionais de imprensa”, que detalha como deve se dar com o assunto, além de frases de alertas que as pessoas costumam falar e locais de apoio. 

Compartilhamento de  vídeos nas redes sociais 

Divulgar fotos e vídeos de pessoas mortas para satisfazer a curiosidade, pode causar prejuízos graves. Esse ato se tornou crime através da PL 2175/15 aprovada em abril deste ano, a lei pune quem reproduzir imagens de cadáveres seja na internet ou outras mídias. A pessoa pode cumprir mandado de prisão, de um a três anos e pagar multa. A pena aumenta em um terço, se o responsável tiver acesso por meio da profissão.

O professor ainda explana que essa é uma ação que  jamais deve ser feita, “nunca se deve filmar, pois é algo absurdo,condenável, repudiável no mais alto grau, se você tiver próximo, tente conversar, mesmo à distância, falar coma a pessoa, para ganhar tempo e acionar o Corpo de Bombeiros e a Polícia. Por que geralmente esses órgãos tem gente com treinamento específico para abordagem”, esclarece.


Elias Fontenele/O DIA

O prejuízo à pessoas próximas, pode ser ainda mais devastador, ao ver as imagens circulando na internet, “com os pais é uma violência, leva uma segunda facada na vida, reativa a dor, reativa a ferida, por que é um tipo de imagem que não deveria ser permitida, e nas pessoas mais vulneráveis, você pode ter o efeito inspirador, de apresentar um modelo bem sucedido de suicídio, isso pode aumentar o risco”, alerta Denis Carvalho.

(Sandy Swamy)

Igrejas se unem em campanha contra o suicídio em Teresina

Sub: Grupos ficam acampados nas entradas das principais pontes da cidade compartilhando mensagens de amor e esperança a quem passa. Quem passa pela Avenida Frei Serafim tem se deparado com um grupo de pessoas acampadas na entrada da ponte Juscelino Kubitscheck, segurando faixas e cartazes com palavras de amor e esperança.

A escolha do lugar não foi aleatória e tem muito a ver com o propósito da ação. É que as pontes de Teresina têm sido cenário de um número frequente de casos de suicídios na Capital e os grupos que ali se fixam estão tentando justamente ajudar a reverter este quadro.

A iniciativa partiu de grupos das Igrejas Evangélicas e da Igreja Católica de Teresina, que se uniram para levarem palavras de conforto, carinho, amor e esperança para ,aqueles que mais precisam e que não conseguem enxergar mais nenhuma perspectiva na vida. Munidos de fé e muita disposição, os grupos oferecem abraços e acolhimento a quem a eles recorrerem.

A iniciativa é recente na Capital piauiense, tendo iniciado nos primeiros dias deste mês de junho, por incentivo de grupos voluntários do Rio Grande do Norte, após casos seguidos de suicídio naquela cidade. É o que explica o voluntário Thiago Melo: “Aquilo meio que mexeu com a gente e sabendo desse alto índice de suicídio aqui na nossa Capital, a gente decidiu fazer algo. Nos reunimos com o pessoal, fizemos divulgação nas redes sociais, recrutamos mais gente e formamos essa rede de ajuda ao próximo”. O projeto começou com 30 pessoas e hoje já são mais de cem voluntários se revezando em grupos e em esquema de plantão das 7h da manhã até as 20 horas todos os dias nas pontes de Teresina. 

Nas reuniões de preparação, os participantes receberam instruções de psicólogos e demais profissionais da saúde, como enfermeiros e médicos, além de terem contado também com a ajuda de profissionais da segurança para aprenderem a lidar em casos de situações extremas e necessidade de abordagem.

Yara Naira, que também é voluntária, relata que o principal propósito da iniciativa é mostrar para o outro que há alguém que se importa com ele mesmo quando ele se sente  sozinho no mundo. “Nós estamos aqui para conversar, abraçar, acolher, porque a gente sabe que o mundo é carente de amor. Às vezes são mães, são pais, são filhos que não conseguem mais ver o amor em nada, nem dentro de suas próprias casas e a gente tenta mostrar que nem tudo está perdido, que há sempre uma outra saída, uma palavra positiva para que ela não desista jamais. Que existe ainda muita vida para ser vivida”, diz Yara.

(Maria Clara Estrêla)

Papel da família

Ao detectar atitudes diferentes em amigos ou familiares, o primeiro passo, é não diminuir a dordo outro, pois o suicida só chega ao ato, após a ideação e ter feito tentativas. Como reforça o psicólogo, “o indicativo é não minimizar que há um quadro de problema de saúde mental, então, é recomendado buscar apoio para que haja assistência, e os apoios mais importantes são aqueles que integram o trabalho e um psiquiatra quando há indicação de medicamento” expõe.

Outro ponto que merece atenção, é que durante o tratamento ou após a internação o suicida pode tentar mais uma vez, “quando ele está melhorando, é que tem mais risco, por que já tem um incômodo de sofrimento grande, só que agora eles estão com força, com energia para fazer alguma coisa e muitos se matam, há casos de suicídio dentro do hospital”, relata Denis.

Entretanto o acompanhamento é indispensável, não se deve flexibilizar e brincar sobre a situação com pessoas que estejam com ideação suicida. O correto é conversar, mostrar que se importa, que quer ajudar e nunca julgar. O suicídio nunca é sinônimo de fraqueza ou força. Um abraço, uma palavra amiga, pode auxiliar neste momento.

Grupos de vulnerabilidade

Quando se fala sobre suicídio a primeira palavra que interligam é com a depressão. Só que a sociedade não compreende que essa é apenas uma das causas que pode levar ao ato, “existe um grupo em que tem relação com o suicídio e algumas relações de vulnerabilidade de saúde mental, depressão, tem uma associação muito intensa, boa parte dos suicidas tem um histórico de problemas de saúde”, fala o professor.

Isso acontece por que muitas pessoas não tem acesso a um tratamento de saúde adequado e, portanto, não têm diagnóstico. Outra situação são pessoas bipolares, “essa doença aumenta o risco em 4 ou 5 vezes mais de cometer o suicídio, do que em pessoas com situação sem ter esse problema, então, pessoas com vulnerabilidade de saúde mental, precisam ser acompanhadas, por que elas têm maior risco de ter esse efeito, de recepção como  estimulo”, elucida o psicólogo.

Cuidado para quem fica

A pósvenção é pouco debatida no meio desse cenário doloroso. Este é o momento após o ato do suicídio, quando a família e pessoas próximas passam pelo período de luto, “existe o luto natural de quem perde alguém, que o sofrimento pode ser patológico. Tem que observar se vai durar muito tempo qual a intensidade desse sofrimento,  se impede a pessoa de ter uma vida normal, trabalhar, ter vida social. Chegando nessa dimensão, precisa-se encaminhar para uma assistência mais especializada na área da saúde mental, com psicólogo e psiquiatra”, informa o professor Denis Carvalho.

O psicólogo continua, “o sofrimento nos primeiros meses é natural, o luto que tem que ser trabalhado, mas temos outros problemas, em alguns casos a situação estatística mostra que fica aquele medo, os questionamentos, sobre em que eu falhei, junto comum sentimento de dor profunda, que gera um adoecimento, a sensação de que as pessoas poderiam ter feito mais do que fizeram, e se culpam, sofrem e adoecem, isso precisa trabalhar bem”, detalha.

Observar quem ficou é importante para que as pessoas não comentam também suicídio, pelo sentimento de culpa, “mas é bom lembrar que o sofrimento é a situação de luto não  é um sinal de doença, é normal, todo mundo  tem que trabalhar o luto, a perda. A gente te uma sociedade que tem dificuldade em admitir que o sofrimento e a dor fazem parte da vida.

Isso não pode ser transformado em doença e somente tratado com medicamentos, é preciso ver a intensidade, se for muito tempo e se inviabilizar que a pessoa tenha uma vida normal, aí sim, deve começar a se preocupar”, pontua o psicólogo Denis Carvalho.

(Sandy Swamy)


15 de junho de 2019

Instituições transformam vidas através da solidariedade

Instituições transformam vidas através da solidariedade

O Lar de Misericórdia existe desde 1992 e é uma das três instituições beneficiadas pelos donativos arrecadados na Caminhada da Fraternidade, evento que este ano levou mais de 60 mil pessoas para as avenidas de Teresina

Imaginar uma cozinha grande, sala de convivência, terraço sombreado por árvores, quartos, é induzir o cérebro a formatar a ideia de um lar. E um local que tem exatamente essa formatação, mas que é habitado não apenas por uma, mas por dezenas de famílias, é o Lar de Misericórdia, localizado na zona Leste de Teresina. O local é um dos serviços da Ação Social Arquidiocesana (ASA) e existe com a missão de acolher pessoas em tratamento oncológico que não tenham nenhuma referencia de domicilio na Capital. Acolhendo pessoas, o espaço contribui para que elas continuem em tratamento para lutar por suas vidas.

O Lar de Misericórdia existe desde 1992 e é uma das três instituições beneficiadas pelos donativos arrecadados na Caminhada da Fraternidade, evento que este ano levou mais de 60 mil pessoas para as avenidas de Teresina, no último domingo (9), com o tema: “Abraço, nosso laço com o outro”.

Para Sebastiana Leal, funcionária do Lar há dez anos, o espaço é a prova de que a solidariedade pode transformar realidades. “Recebemos os pacientes encaminhados dos serviços oncológicos do Hospital São Marcos e Hospital Universitário, que não tem como se manter em Teresina para realizar o seu tratamento. Aqui, eles têm a possibilidade de realmente ter um lar longe de casa, com a nossa estrutura de quarto, refeições, tudo sem custo. Funcionamos através das doações realizadas no ofertório da missa que acontece aqui aos domingos, de doações e dos recursos arrecadas na caminhada da Fraternidade. É sempre a solidariedade que nos ajuda a manter as portas abertas”, explica.

Sebastiana acolhe os moradores do Lar como uma família (Fotos: Assis Fernandes, Poliana Oliveira e Jaílson Soares/ODIA)

A estrutura da casa, que antes abrigava um seminário, é ampla e arejada. No espaço, oito quartos podem comportar até 32 pessoas. Além disso, um grande refeitório, espaço para convivência e áreas de jardim complementam o cenário de acolhimento para as pessoas que estão longe de casa.

 “Fizemos uma reforma e, agora, temos mais um quarto grande disponível, nossa capacidade vai aumentar, mas falta ganharmos as camas. Essa é a próxima providência divina que esperamos”, relata Sebastiana, com alegria pelo fato do local estar crescendo para receber mais pessoas.

Cada um dos atendidos pelo Lar traz consigo um acompanhante e são essas pessoas as responsáveis por dar suporte ao funcionamento do espaço. “Hoje, contamos com voluntários para que tudo funcione da melhor forma. As atividades da cozinha e de limpeza são partilhadas, todos tem responsabilidade com todos. Assim, é como se realmente fôssemos uma família”, destaca.

Voluntário diz encontrar sentido na vida ao ajudar pessoas

Francisco das Chagas, mais conhecido como Oliveira, 54 anos, faz jus ao sentimento familiar que permeia no Lar de Misericórdia. Ele começou a frequentar a entidade em 2011 ao acompanhar um familiar em tratamento. Anos depois, voltou à instituição para acompanhar um amigo em tratamento e, dessa vez, não saiu mais. Voluntário do Lar há anos, ele diz que ajudar as pessoas faz a vida ter mais sentido.

“Acho que é muito importante ter um espaço como esse que acolhe o pessoal, porque são pessoas que chegam aqui sem nada, não conhecem ninguém e aqui encontram mais apoio. Eu me sinto melhor quando estou ajudando, a vida passa a fazer mais sentido”, destaca.

Francisco das Chagas afirma que se sente melhor quando ajuda outras pessoas (Fotos: Assis Fernandes, Poliana Oliveira e Jaílson Soares/ODIA)

Morador de Parnaíba, no Norte do Estado, solteiro e com a família encaminhada, Oliveira lembra que o espaço oportuniza que ele faça mais laços de amizade. Como passa longos períodos no Lar, de um a quatro meses, ele também já se faz essencial na rotina do espaço.

É Oliveira quem acorda cedo e se responsabiliza por desligar o sistema de ar condicionado dos quartos, preparar o primeiro café e leite que serão servidos, além de cuidar do jardim. Trabalho que faz com sensação de recompensa por se sentir inserido naquela realidade. “E se não tiver um dia quem faça comida, eu também faço. Faço de um tudo porque gosto de me sentir útil, de estar contribuindo com essas pessoas que são tão boas”, destaca.


10 de junho de 2019

Não só do canal vive o Panamá - Confira locais vale visitar

Não só do canal vive o Panamá - Confira locais vale visitar

Maria das Graças Targino - Especial para o Jornal O Dia

Eis o Panamá! Tão próximo e demoramos tanto a conhecê-lo! Nenhuma razão explícita. Talvez, o preconceito inconsciente de que o fantástico desse país, cuja Capital é seu homônimo, é tão somente o célebre Canal do Panamá, construído em 1914! De fato, é ele importante para a vida de sua gente e de outros povos. Afinal, a República do Panamá é o país mais meridional da América Central, situado ao centro de dois extensos territórios que constituem as Américas (América do Norte e América do Sul) e entre os oceanos Atlântico e Pacífico, de tal forma que sua posição geográfica favoreceu desde sempre a redução das rotas mercantis mundo afora 


Canal do Panamá

Após conseguir independência da Espanha, ano 1821, a Província do Panamá contou com o apoio dos Estados Unidos para se libertar da Colômbia, 1903. Mas, como sempre ocorre, os EUA impuseram seu poderio, mantendo o Panamá como colônia por longos 97 anos, ao ponto de habitarem por lá cerca de 160 mil norte-americanos! Construíram o Canal e, por décadas, mantiveram o direito de exploração. Tão somente em 1999, após intensas e duras negociações, o Panamá conseguiu autonomia sobre o território. Em três anos sob gestão panamenha, a arrecadação correspondeu ao mesmo valor da soma de 85 anos, período correspondente à administração conjunta com o Governo norte-americano.

Como decorrência, a nação demorou a deslanchar. Oligarquias e militares em permanente conflito perduraram até a Queda da Ditadura, quando Manuel Antonio Noriega governou o Panamá entre 1983 e 1989, com mão de ferro, em meio a histórias transformadas em chacota e lendas. Por exemplo, contam que, em suas aparições públicas, empunhava sempre um facão, literalmente rugindo: “Nenhum passo atrás!” As espetaculosas manifestações de suas Brigadas, nomeadas como Batallones Dignidad, tinham o intuito explícito de defender o Panamá contra invasão liderada pelos EUA, o que terminou por acontecer ao final de 1989, com o objetivo de capturar Manuel Noriega, acusado tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e corrupção. 

O mundo desconhecia que, em meio aos discursos inflamados, Noriega era associado da CIA e mantinha contatos sistemáticos com outros serviços de inteligência, como o de Moscou, além de apoiar narcotraficantes e ditadores. Extraditado para os EUA, cumpriu pena por mais de 20 anos. De volta ao Panamá, ano 2011, sentenciado por 60 anos, quando de sua morte, ano 2017, estava em prisão domiciliar, por problemas de saúde. A este respeito, o atual presidente do país, Juan Carlos Varela, limitou-se a escrever em rede social: “a morte de Noriega encerra um capítulo de nossa história.”

Após esta rápida digressão acerca da complexa história do Panamá, o fato é que, por fim, o desenvolvimento se delineia, trazendo consigo, além de um regime democrático, uma série de facilidades para atrair investidores, de forma a impor a geração de empregos e o ritmo acelerado de crescimento econômico, que posiciona o país, hoje, como importante nação para a economia da região. Conecta o Sul ao Norte. Conecta todos com o Caribe. 


Pontos de atração 

Isla Toboga

A Capital, cidade do Panamá, fundada em 1519, é um recanto cosmopolita, mesclando certa aura de encantamento histórico e traços de modernidade. Não deixa a desejar para outros recantos, em termos de lazer; gastronomia para todos os gostos, em especial, para os amantes dos frutos do mar; áreas verdes, com jardins e parques de beleza ímpar, a exemplo dos parques Darién e La Amistad. 

O consumismo faz a festa para quem não resiste às inovações tecnológicas, incluindo eletrônicos em geral, smartphones, computadores, relógios, além de bebidas, perfumes e roupas de marcas sofisticadas. Mas ao contrário do que se pensa, tão somente em Cólon (na extremidade do Caribe no canal do Panamá) vale o sistema de tax-free e numa ou outra loja, incluindo o aeroporto de Tocumen, que é per se um complexo de lojas. Mas os valores estão longe de ser acessíveis, incluindo o artesanato, pouco original e muito caro por toda parte.

Ruínas do Panamá Viejo

Dentre suas atrações, o Canal do Panamá não perde sua posição! Com 80km de extensão, funciona diuturnamente. Embarcações de diferentes portes nos levam para lá e para cá, ou seja, nos permitem atravessar o Oceano Atlântico ao Pacífico ou do Pacífico ao Atlântico, sem dar volta no continente. Funciona por meio do sistema de eclusas, ênfase para Miraflores, Gatun Lake e Pedro Miguel. Apesar de um pouquinho distante do centro da cidade, a primeira é a que permite melhor visão aos visitantes e possui infraestrutura mais adequada. 

É comum os mais desavisados, dentre os quais me incluo, pensarem que as eclusas do Canal existem porque o Atlântico e o Pacífico possuem alturas diferentes. Ao contrário: sua altura é quase a mesma. As eclusas resultam da topografia da região, que faz com o que o lago do Canal fique acima do nível do mar. Funcionam como “elevadores”: os navios sobem durante o percurso no Canal e descem até o outro oceano. Afinal, eis uma obra de engenharia por mãos humanas, que deixa uma marca indelével em nossa memória. Impossível sair imune após passeio tão singular, coalhado de histórias e causos para lá de interessantes! 

A Ponte Las Americas, 1962, época ainda da supremacia norte-americana, une os dois lados do Canal do Panamá, isto é, o Pacífico e o Atlântico. Ponte com grandes estruturas metálicas e um grande arco, além do mirante, que dá boas-vindas aos 150 anos da cultura chinesa no país, incitam os visitantes a sacarem dezenas de foto. 


Panamá Viejo

Como a designação antevê, o Panamá Viejo (Panamá Velho, 1519-1671) é a primeira Cidade do Panamá e portanto, a área mais antiga. Consiste em sítio arqueológico, com construções magníficas feitas em pedras, a exemplo do Museu Patronato Panamá Viejo, que conta a história panamenha; a Puente del Matadero; e a Torre da Catedral.


Casco antiguo

Casco Antiguo

Transcorrido o tempo, a segunda sede da Cidade do Panamá passou a ser o Casco Antiguo ou Casco Viejo (Casco Antigo, bairro San Felipe), cuja construção se deu, em 1671, quando o Panamá Viejo foi totalmente saqueado e destruído por piratas, restando ruínas, hoje, abertas à visitação. Reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, abriga museus, praças, igrejas e conventos, além de prédios e ruas íngremes de pedra, que dispensam saltos altos para que a turista possa caminhar ao sabor do vento e do céu azul, e desfrutar a vida noturna para lá de animada, com “n” opções de casas noturnas, restaurantes e bares, com uma esticadinha na Calle Uruguay.

Para quem gosta de jogo de azar, é possível encontrar cassinos em várias partes da cidade e no bairro El Cangrejo, local que merece capítulo à parte. Há de tudo: o Parque Andres Bello; um pôr do sol inesquecível no The Roof; karaokê ao vivo na Via Argentina; lanche à meia-noite em Del Prado, etc. etc. 

Ainda no Casco Antiguo, dentre suas construções, eis o antigo Convento de Santo Domingo ou, simplesmente, Arco Chato, face a um detalhe de sua construção: o arco de formato achatado mantinha a função de sustentar o coro do convento. Hoje, em seu pátio, vez por outra, há exposições de arte em suas variações. Ainda por lá, estão a Igreja de São Francisco de Assis; a Catedral e o Museu do Canal Interoceânico, que explora a história do Canal do Panamá. A Universidade do Panamá está na Avenida Transístmica e em seu caminho, é possível visitar a Igreja de São José, construção entre 1671 e 1677, e que sobreviveu a um terrível incêndio. Seu altar, estilo barroco com pintura de ouro, é de beleza indescritível. 

Aliás, o ensino superior é de boa qualidade, com 11 instituições, sete das quais privadas, que, de forma consensual, segundo a população, prezam pela qualidade e pelo rigor. A saúde pública não está no alvo das lamentações, mas estranhamente, os panamenhos se queixam da falta de medicamentos e de seus preços para lá de elevados! 


Zona Nova

Dubai das Américas

Deixando a zona antiga da charmosa Capital panamenha, é a hora de curtir a parte nova, sem esquecer de visita ao Mercado de Mariscos, um dos mais tradicionais, mas que deixa muito a desejar no quesito limpeza. Na Cinta Costera, orla marítima recentemente revitalizada, em seu calçadão, esportistas (ou não) se perdem em longas caminhadas ou passeios de bike e de patins, desfrutando a beleza de parques onde estão esculturas e maravilhosos espelhos d'água. Num arroubo de patriotismo, como de lá é possível avistar os numerosos edifícios do Panamá, a Capital já chegou a ser nomeada como “Dubai das Américas”, devido à grandiosidade de suas construções mais recentes. Algumas delas estão no Punta Pacífica, bairro mais ou menos novo, com edifícios de grande porte, à semelhança da Trump Tower, em homenagem a Donald Trump. Um passeio pelo Corredor Sur nos permite apreciar mais de perto as modernas construções que dão charme ao novo Panamá.

Eis a hora de El Paseo Amador (Amador Causeway). É o elo entre continente e às pequenas ilhas Naos, Perico e Flamenco, repletas de restaurantes, lojinhas e uma marina. Trata-se de avenida construída com as pedras remanescentes da construção do Canal. Sua beleza convida qualquer um a passeios de bike ou a uma paradinha num barzinho qualquer para conviver com o panamenho que se distribui em quatro segmentos bem nítidos – brancos, negros, mestiços e índios. Aliás, no país, convivem sete etnias indígenas, disseminadas por todo seu território: ngäbe; buglé; kuna; emberá; wounaan; naso tjerdi; e bri, mas, na Capital, é mais frequente a presença dos kuna yala (ou guna yala ou hoy kuna), embora seja mais fácil a inesquecível visita à comunidade dos emberá, ao largo dos rios Gatun e Chagres. 

Comunidade dos  emberás

No Amador Causeway, o BioMuseo é imperdível, tanto por sua arquitetura multicolorida, obra do arquiteto canadense Frank Gehry, de 85 anos, naturalizado norte-americano, quanto por seu acervo valioso. O foco central é difundir a biodiversidade do Panamá e, ao mesmo tempo, conscientizar a população sobre a relevância da conservação do planeta. Suas exposições permanentes se espalham por oito galerias: Galeria de biodiversidade; Panamarama; A ponte emerge; A grande troca; A pegada humana; Oceanos divididos; A rede viva; e Panamá é o Museu. Seu conteúdo é inarrável e requer visita in loco ou, no mínimo, ao site oficial www.biomuseopana ma.org.


Há mais...

O Cerro Ancón (Morro Ancón) também é imperdível. Em suas proximidades, há interessante mesquita com um templo, onde ocorrem cultos da fé Bahái. O morro mais alto da região (200m de altura) está cercado por densa vegetação, onde vivem diferentes espécies de animais. Além de ostentar uma enorme bandeira panamenha, o Ancón favorece uma das melhores vistas panorâmicas da Capital, incluindo parte do Canal e dos novos edifícios. Trata-se de área ora ocupada por militares panamenhos em vez dos norte-americanos, que partiram, deixando alguns remanescentes e certas heranças, a exemplo da moeda. Oficialmente, é ela o balboa, mas o que circula para valer é o dólar americano, até porque o balboa só existe em moedas! 

Dentre as excentricidades, está a localização do Palácio do Governo. Diante do Pacífico, as águas nem sempre plácidas do Oceano impedem a entrada pela frente das instalações do prédio, e, então, quaisquer manifestações contrárias ao Governo. Aqui, destaque para algo fenomenal e que deveria ser implantado em qualquer regime democrático: presidente, governadores e prefeitos não podem ser eleitos mais de uma vez (cinco anos) e somente os deputados são reelegíveis, com tendências que emergem para que os mandatos também sejam restritos!  Outra singularidade, desta vez, também a favor do povo, os maiores de 60 anos, turistas ou não, em qualquer restaurante, têm direito a desconto, salvo as redes internacionais de fast food. 

Arquipélagos e ilhas

A Cidade do Panamá não possui praias, face à formação de mangues, quando da edificação da Capital, que impediam a formação do arenal. No entanto, visitar o Panamá e não conhecer suas ilhas e seus arquipélagos, é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa! Dentre eles, para quem dispuser de tempo para ir mais longe, sobretudo, os aficionados por praia e esportes aquáticos, destino certo: praias de Santa Catalina (387 km da Capital) ou arquipélago Bocas del Toro, 250 km. Mais próximo, está San Blás, arquipélago-paraíso distante 148km da Capital, com suas ilhas caribenhas de águas mornas e areia branca. Taboga, mais ou menos a 22km da costa panamenha, é imperdível como o próprio cognome sugere: Ilha das Flores!


Mas nem tudo são flores

Ônibus desconforto e colorido

Como o Brasil e os demais países em desenvolvimento, a cidade do Panamá ainda carece de infraestrutura ideal para o turismo, com problemas da segurança pública e áreas de risco. A polícia única conta com um contingente significativo de mulheres e é totalmente segmentada – para turistas, mulheres, rodoviárias, famílias, fronteiras, drogas, etc. O transporte público é bastante deficitário. O metrô barato (cerca de 35 centavos), possui apenas duas linhas, a segunda recém-inaugurada. Os ônibus coloridos são bem antigos e lembram os de países, como Índia. Os táxis não adotam o taxímetro e os preços variam de uma forma incrível, que torna a negociação para lá de cansativa! Embora haja queixa generalizada contra mosquitos, eles só fazem a festa no período chuvoso. Mas, definitivamente, chama atenção o amor do panamenho ao Brasil, em especial, nos quesitos futebol (embora o beisebol seja o esporte número um do país), carnaval e novelas. Há um clima de idolatria! Enfim, tudo nos leva a viver as delícias dessa nação de povo sorridente e de locais tão aprazíveis! Para nós, nenhum problema, mas o calor panamenho põe o de nosso Piauí no chinelo! É de matar! 

Faiska Massacre faz cultura da periferia virar sucesso na internet

Faiska Massacre faz cultura da periferia virar sucesso na internet

“OH PEGA PÁ TU” - os grupos de WhatsApp foram invadidos por vídeos com as batalha de swuingueira e seus bordões marcantes

Ednael Francisco é um jovem de 27 anos que tem conquistado atenção na internet e em grupos de whatsapp com vídeos em que aceita ser desafiado para “batalhas de swingueira” em Teresina e no vizinho município maranhense de Timon. Na verdade, não é propriamente Ednael quem é responsável pelo sucesso, mas o personagem encarnado por ele em cada uma das aparições: Faiska Massacre , o dançarino que, como o próprio nome lembra, “massacra” nas competições de dança em que se apresenta. Os vídeos do jovem, em sua recente conta criada em uma das redes sociais, chegam a quase 20 mil visualizações.

Em um dos vídeos que fizeram sucesso nas últimas semanas, ele aparece com expressão sisuda, agradecendo a atenção que tem recebido de internautas e aceita um convite para um desafio de dança com outro personagem que também povoou a atenção da internet nos últimos dias, o Italo Quebradeira. “Eu queria perguntar pra ele, porque ele está me convidando pra disputar de novo? Agora você vai pegar o massacre! Pois pega ‘pá’ tu, Italo quebradeira. Pega ‘pá’ tu!”, anuncia no vídeo que viralizou.

O talento para a dança, o estilo marrento e os bordões “pega pá tu” e “pois toma, desgraçado”, fizeram o jovem chamar atenção a uma cultura que faz parte da rotina dos jovens na periferia das cidades de Teresina e Timon: os shows de swingueira e os desafios de dança gerados por eles. 

Para Faiska, mesmo antes das disputas, a dança sempre fez parte da sua rotina de vida. Com o recente sucesso, agora, ele sonha em fazer dela a profissão de vida. “Desde 2005, eu já dançava em todo lugar porque é o que eu gosto de fazer. Depois, comecei a botar os vídeos na internet, mas não estourava, até que começaram a me desafiar, que é uma coisa mais recente por aqui. Eu não tenho medo e enfrento todo mundo. Aqui é massacre!”,  explica.

A dança realmente parece algo natural para o jovem.  Ele aponta para os joelhos machucados, que são frutos dos ensaios diários, com satisfação. “Quando eu era menor, eu via meus amigos dançando e pedia pra eles me ensinarem, mas ninguém queria. Eu falava: “um dia eu vou ser o cara”. Agora eu treino todo dia e sou o melhor de Timon e Teresina, não tem pra ninguém não”, comemora.

O jeito sisudo dá espaço quando ele pega o celular, emprestado do irmão, para mostrar os muitos vídeos que tem gravado em que dança em diferentes locais de Teresina e Timon. Empolgado, ele explica cada passo e avaliação das próprias apresentações.

Faiska já faz da dança um princípio de vida, mas quer fazer dela também uma profissão. Desempregado, sonha em ser contratado por bandas de abrangência nacional. Por hora, as participações em shows e vitórias em batalhas rendem apenas pequenos cachês. “Já dancei muito por aqui, agora quero ser profissional, quero ser contratado e viajar o Brasil todo. Quero muito ganhar pelo que eu faço”, anuncia.


Família apoia e acompanha sonho de infância

Enquanto não consegue realizar o sonho de ganhar o Brasil com o seu talento, o jovem acompanha o ‘boom’ de ser cada vez ser mais conhecido, não só onde mora, no Parque São Francisco, em Timon, mas também na Capital do Piauí. A família vê com empolgação o inicial reconhecimento do sonho do jovem.

A mãe de Ednael, Francisca da Chagas, é uma das grandes incentivadoras do sonho do filho. “Trabalho vendendo verdura aqui em Timon e, hoje em dia, todo mundo me chama pra ver os vídeos dele. Quero que ele seja feliz, que consiga fazer sucesso com o que gosta”, ressalta. Francisca, além de Ednael, tem outros sete filhos. “Sempre criei eles com o suor do meu trabalho e o Ednael é o meu parceirão, o que sempre me ajudou”.

01 de junho de 2019

Cadeirantes relatam dificuldades para ter acesso à vida social

Cadeirantes relatam dificuldades para ter acesso à vida social

Funcionamento do transporte eficiente aos fins de semana é restrito a dois eventos por mês

No dia do seu aniversário de 32 anos, Daniele Alencar, cadeirante há oito anos, decidiu confraternizar com os amigos e familiares em um dos clubes aquáticos de Teresina. Era um domingo de outubro de sol intenso e ela sabia que a tentativa de chegar ao destino final exigiria especial determinação naquele dia. É que, aos fins de semana e feriados, o transporte acessível, destinado ao transporte de cadeirantes na Capital, não funciona, fazendo com que as pessoas com deficiência física recorram a transportes particulares, táxis ou ao ônibus coletivo convencional. Daniele escolheu a última opção e levou duas horas e meia para conseguir sair de sua casa, na zona Sudeste, e chegar à zona Leste para, enfim, comemorar seu dia. “Geralmente é assim, se a gente não tiver muita força de vontade, não vai”, constata.

A experiência da estudante de Serviço Social naquele dia dá um panorama do que vive uma grande parcela dos cadeirantes na capital do Piauí. Com restrição de mobilidade, a dependência pelo transporte acessível, que não funciona aos fins de semana e feriados, se torna uma barreira no acesso à vida social de forma mais ampla.

Pedro Igor, de 34 anos, também destaca a dificuldade. Cadeirante por decorrência de uma paralisia cerebral, ele diz que o transporte acessível, na verdade, poderia ser chamado de “transporte insensível”. “O transporte é o que mais atrapalha na hora de sair. Acho que o transporte acessível é um transporte insensível, só vive quebrando e não funciona sempre”, critica.

Avanços As muitas dificuldades são reais, mas alguns avanços importantes vêm sendo consolidados na oportunidade de sociabilização de cadeirantes. A acessibilidade das casas de shows, por exemplo, vem tomando contornos mais acessíveis dentro da realidade de Teresina.

Daniele diz que não deixa de ir aos grandes shows de sertanejo, forró e pagode que acontecem na cidade e conta com satisfação a confiança para participar dos momentos. “Temos nosso espaço garantido, o que dá um maior conforto e tranquilidade para quem é cadeirante. No meio da multidão, é muito difícil as pessoas respeitarem. Então sempre quando têm esses shows [com estrutura maior], eu tô dentro”, destaca.

O direito do espaço reservado é garantindo pelo art. 44 do Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015), que diz que nos teatros, cinemas, auditórios, estádios, ginásios de esporte, locais de espetáculos e de conferências e similares, serão reservados espaços livres e assentos para a pessoa com deficiência, de acordo com a capacidade de lotação da edificação.

Pedro Igor diz que o transporte eficiente, na verdade, poderia ser chamado de "transporte ineficiente" (Foto: Jailson Soarees/ODIA)

Daniele sabe da importância de ter assegurado este direito e se manter participante desses espaços. A cadeira de rodas só faz parte da sua vida há oito anos, após ter sofrido um acidente de moto, quando ela, nas próprias palavras, diz ter reaprendido a viver. “Eu nunca imaginei que um dia poderia estar em uma cadeira de rodas, mas aconteceu e eu sempre digo para as pessoas que pode acontecer com todo mundo. Eu reaprendi a viver e por isso sei que o respeito tem de ser para todos”, constata.

Funcionamento do transporte eficiente aos fins de semana é restrito a dois eventos por mês

Por conta da dificuldade enfrentada pelos cadeirantes aos fins de semana e feriados, em que o transporte eficiente não funciona, foi acordado entre o órgão gestor do transporte, a Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito de Teresina (Strans) e a Associação dos Cadeirantes de Teresina (Ascamte) o funcionamento parcial dos veículos durante duas ocasiões a cada mês. Isso quer dizer que a Ascamte tem a possibilidade de escolher dois eventos em que aja a demanda de mais de cinco cadeirantes para solicitar o funcionamento do serviço durante a noite, geralmente, ocorrendo em grandes shows e eventos na Capital.

Há  meses, no entanto, em que os dois ofícios passam longe de ser suficientes. É o que explica Wilson Gomes, presidente da Ascamte, ao lembrar que em maio, em virtude de dois eventos solicitados por um número considerável de cadeirantes, o transporte não pode funcionar no Dia das Mães, por exemplo.

Wilson se questiona como os cadeirantes aproveitarão as festas juninas (Foto: Jailson Soares/ODIA)

“Até três anos atrás, o transporte eficiente podia ser demandado sem isso dos ofícios, mas depois de algumas entidades começaram a alegar que os carros estavam quebrando muito porque não paravam, então, houve essa redução. Têm meses que não dá, maio foi um deles. Tivemos dois eventos próximos no início do mês e agora estamos sem ter como pedir em nenhuma outra ocasião. No Dia das Mães, já estávamos sem ofício. E imagina em junho, nas festas juninas, como será?”, questiona já sabendo a desagradável experiência que responde a sua pergunta.

Diferente do transporte convencional, em que cadeirantes e pessoas com deficiência tem gratuidade, o valor da passagem do transporte eficiente é o mesmo do ônibus convencional, R$ 3,85.

Para Wilson, mesmo sendo um serviço pago, o modal continua a ser um grande empecilho para a sociabilidade dos cadeirantes, que, muitas vezes, não têm como arcar com transportes individuais. “O cadeirante quer viver como qualquer outra pessoa. Antes, nos shows, ficávamos no meio da multidão e agora temos nosso espaço reservado. Muita coisa melhorou, mas muita coisa tem que melhorar. Queremos a gratuidade do transporte e que ele funcione de forma ampla. Todo mundo quer viver”, destaca.

Passe Livre Cultura

O presidente da Ascante também comemora a efetivação do Passe Livre Cultura, benefício que dá acesso em shows e eventos culturais e esportivos as pessoas com deficiência no Piauí. O serviço existe há quatro anos.

O Passe Livre Cultura foi instituído através da lei de autoria da deputada estadual Rejane Dias que garante acesso a eventos esportivos e culturais para pessoas com deficiência com renda per capta familiar de até um salário mínimo.

A partir da divulgação do evento, a pessoa com deficiência pode ir ao local de venda solicitar o ingresso até 24h de antecedência e, nos cinemas, até uma hora para garantir o acesso gratuito. Nos shows, são destinados 2% da capacidade do evento para PCDs – regulamentado pelo decreto federal 5294/94.


Ministério Público move ação judicial contra Strans pela garantia do transporte acessível

A promotora titular da 28ª Promotoria de Justiça, Marlúcia Evaristo, lembra que o lazer é um direito constitucionalmente garantido e, por isso, deve ser usufruído por toda população. O destaque, diante do cenário de dificuldades que contornam a efetivação deste direito para pessoas com deficiência física em Teresina, em especial os cadeirantes, é mais que necessário.

“Nós, enquanto Ministério Público, trabalhamos para que a pessoa com deficiência tenha esse acesso ao lazer. Nós fiscalizamos a efetivação do passe livre-cultura, fiscalizamos a acessibilidade de casas de shows e eventos que são montados, a exemplo da Micarina, e, no caso do transporte eficiente, temos uma ação judicial que já foi movida contra a Strans”, destaca.

Segundo a promotora, o não funcionamento do modal faz com as pessoas com deficiência estejam “quase impedidas de sair de casa”, alerta, ao lembrar que não existe de forma plena acessibilidade nas ruas e calçadas e também falha a acessibilidade no transporte coletivo urbano.

“O transporte eficiente que deveria garantir o transporte de porta a porta é feito de forma precária, as pessoas não têm acesso a ele aos finais de semana. A gente discorda disso, o transporte eficiente é modal de transporte coletivo urbano, tem que funcionar initerruptamente, por isso, entramos com medida judicial e aguardamos que o juiz conceda antecipação de tutela que nós pedimos”, afirma.

Além disso, a promotora também explica que discute na ação a necessidade da gratuidade do transporte. Ambas as ações aguardam a apreciação da justiça.


Frota de 14 micro-ônibus atende cadeirantes em Teresina

O funcionamento do transporte eficiente está previsto na Lei 4008/2010, que tem o objetivo de transportar pessoas com deficiência para atividades de lazer, saúde, para escolas e trabalho, além de outros lugares que necessitem. O serviço é feito de porta a porta e precisa que o usuário faça um agendamento com 24h de antecedência, ligando para o telefone 0800 086 3122. Existem, atualmente, 14 carros em circulação nas cinco zonas da cidade e, segundo a Strans, estão em processo de licitação cinco novos veículos. Atualmente, existem 2.300 pessoas cadastradas no transporte eficiente.

Funcionamento

O processo de solicitação para utilização do serviço deve ser iniciado no Centro de Referência da Assistência Social (Cras), unidade vinculada à Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas (Semcaspi). 

A pessoa que irá solicitar vai precisar de cópia do RG, do CPF, do laudo médico (Semcaspi avalia o laudo) e do comprovante de residência para que seja realizado um cadastro. O benefício é concedido após análise da Strans. Cada usuário tem direito a um acompanhante e, em cada transporte, cabem seis cadeirantes, dependendo do veículo.

Contraponto

Em nota, a Strans explica que não há previsão de lei para executar o funcionamento do transporte eficiente aos fins de semana e feriados. “O horário do funcionamento do transporte é de segunda a sábado até às 23h. Na lei não está previsto o transporte aos domingos, mas a Strans, para ser mais flexível, concede dois veículos para situações específicas como concursos e shows”, destaca.

Segundo o órgão, se utilizam do transporte para fins de saúde cerca de 20% dos usuários, 20% a lazer, 20% a outros tipos de deslocamentos e 25% a escola, 5% a trabalho, 10% a tratamento particular (como ir ao banco).


Morte vira produto de consumo em sociedade que banaliza a vida

Morte vira produto de consumo em sociedade que banaliza a vida

O fenômeno do compartilhamento de imagens e vídeos quando a sociedade se depara com uma morte chocante causa consequências

“A morte é um tabu, mas está estampada nos noticiários, nas mídias, nos jornais do meio dia, porque vende. Chamamos isso do espetáculo da morte”. Esta é uma das formas que a psicóloga e socióloga, Patrícia Moreira, estudiosa da tanatologia - estudo científico da morte, usa para explicar o fenômeno do compartilhamento de imagens e vídeos quando a sociedade se depara com uma morte chocante. Fenômeno que vem sendo ainda mais difundido com o acesso facilitado das tecnologias e o bombardeamento de informações via WhatsApp. Apesar de comum, o ato causa consequências.

O cenário não é novo em sua essência, mas na forma como tem se tornado abrangente é ainda mais impactante. O dito popular “as más notícias chegam depressa” já existe há pelo menos três séculos, segundo o “Dicionário de Provérbios” (Ed. Unesp). Não dá para precisar se, ao longo desses trezentos anos, os infortúnios aumentaram ou diminuíram, mas, certamente, a internet faz com que as notícias chegam ainda mais rápido.

Patrícia Moreira explica que ato está se difundindo cada vez mais do acesso facilitado às tecnologias e bombardeamento de informações via WhastApp (Foto: Jailson Soares/ODIA)

Patrícia lembra que os meios virtuais, ao passo que favoreceram a expressão de sentimentos, prejudicaram a forma de se portar em sociedade. “Não temos mais uma etiqueta social, não temos mais privacidade, estamos na era do eu. Você vê pessoas que vão para um velório e tiram uma selfie, o “eu” está em primeiro lugar, esse é um grande aspecto da banalização da vida. Mas o grande problema é que, quando eu tiro uma foto e envio para outra pessoa, isso vai tornando um ciclo em cadeia. E, principalmente em situações como do suicídio, por exemplo, não podemos fazer isso. Não se passa imagem, não se fala de uma forma banalizada, porque é cientificamente comprovado que gera consequências”, alerta.

A especialista recorre à literatura para destacar ainda mais sobre o compartilhamento das informações. Patrícia lembra sobre o “Efeito Werther”, denominação que aparece com a obra “Os sofrimentos do jovem Werther”, do escritor alemão Wolfgang Von Goethe. O livro foi muito lido à época, idos de 1774, onde o personagem principal se suicida “por amor”. Cerca de 40 jovens, após a leitura, se mataram da mesma forma.

“Sabemos que quanto mais a morte é impactante, podemos lembrar do Domingos Montagner, do Cristiano Araújo; quanto mais jovem, bonito, famoso ou morte violenta, esse é um caldo que a população acompanha. Mas é preciso ter uma educação para a morte e ela não ser olhada apenas como esse tabu e medo”, detalha. Para a pesquisadora, uma educação que envolva a expressão dos sentimentos é fundamental dentro deste contexto. “Se a morte é um tabu, tudo ligado a ela vai ser interdito. Não é para falar da morte como alegria, como uma coisa prazerosa, mas é entender o processo”, avalia.

Ansiedade e depressão: hiperconectividade pode afetar saúde mental

Uma morte violenta ou um trágico acidente, mesmo com pessoas desconhecidas, podem servir de gatilho para deflagrar sensações de ansiedade pela forma ou constância com que as informações são utilizadas. Segundo o presidente do Conselho Regional de Psicologia, José Augusto, a hiperconectividade vem intensificando cenários de comoção coletiva e efeitos negativos na saúde mental das pessoas.

“As informações chegam de forma muito rápida, qualquer acidente, tragédia, a gente procura saber os motivos, com quem aconteceu. E essas notícias ruins têm um impacto bem maior, porque o simples fato de você dizer que teve um acidente de avião, compartilhar imagens, pode gerar uma preocupação, a ampliação do medo, e isso não é bom”, afirma.

José Augusto destaca que é preciso ter responsabilidade e ética ao compartilhar uma informação (Foto: Assis Fernandes/ODIA)

Para Augusto, é preciso ter responsabilidade e ética ao compartilhar uma informação, estar, a todo momento, vinculando a vida a tragédias pode potencializar sensações de ansiedade e depressão. O psicólogo ressalta, no entanto, que se sentir ansioso por um momento, em virtude de algum fato, é normal. O problema é quando isso se prolonga. “Todo mundo é ansioso em alguma proporção, mas o problema é quando se tem severidade e continuidade da sintomática. Se você fica preocupado, se passou um mês, dois meses, e você continua com aquela sensação, se atrapalhar no seu dia a dia, esta é uma ansiedade negativa. Da mesma forma com a depressão: uma simples tristeza não vai acarretar depressão, mas quando ela se prolonga, temos que tratar o problema”, conta.

A atenção mórbida

Para enfrentar os cenários, é preciso entender que a estrutura social faz com que as pessoas busquem cada vez mais atenção e que, pelo fato de notícias ruins ganharem mais notoriedade, elas serão utilizadas com maior frequência. “A rede social nos empodera, todo mundo pode falar, divulgar algo e a gente briga por essa atenção. As notícias negativas chamam mais atenção, as tragédias nos unem mais, mas, também por isso, devemos ter o cuidado, a autoresponsabilidade e ética, para não usar isso de uma forma banal”, esclarece.

Dica

Uma forma de frear o compartilhamento de imagens e vídeos que exponham a morte de outrem pode ser imaginar: se fosse comigo ou com alguém próximo a mim, de que forma gostaria que os outros lidassem com a situação? Este pode ser um exercício limitado ao quadro de uma opinião pessoal, mas é um bom para fornecer um termômetro, ou um norte sobre como se comportar em casos difíceis.

“Educar para morte é olhar para vida de outra forma”

A socióloga e psicóloga Patrícia Moreira, lembra, ainda, que saber olhar para a morte de uma maneira respeitosa é também uma forma de aprender a lidar com a vida.

“Sabemos que sem essas forças culturais, religiosas, que negam a morte, podemos olhar para este momento de forma diferente, percebendo que a única coisa que eu tenho é o hoje, o passado passou, serve de referência, mas precisamos viver. Ter uma religião ou crença, participar de grupos, ter contato com natureza, realizar trabalhos voluntários, são coisas que nos deixam presentes na vida e que mudam nossa percepção”, lembra.

Dessa forma, respeitar a vida e a morte, se tornam uma estratégia para viver de forma mais leve e respeitosa – com quem permanece e quem já partiu.

Compartilhar fotos ou vídeos de pessoas mortas pode ser enquadrado como crime

É nas redes sociais que as pessoas se colocam como elo de compartilhamento entre uma informação e outra. Mas quando os conteúdos são sensíveis, envolvem cenários de acidentes ou crimes em que aparecem pessoas mortas, a divulgação deste tipo de conteúdo pode envolver responsabilização criminal.

Geralmente compartilhada em aplicativos de mensagens instantâneas e redes sociais, a atitude pode ser considerada irresponsável, já que impacta no sentimento de perda de outras pessoas. Além disso, a prática é crime previsto no artigo 212 do Código Penal Brasileiro.

Quem faz imagens ou compartilha e ajuda a divulgar essas fotos e vídeos pode responder por vilipêndio a cadáver, que nada mais é do que expor e desrespeitar a vítima. A pena varia de um a três meses de detenção e multa.

O Código Penal Brasileiro destaca: “mesmo depois da morte, a memória, a imagem e a honra das pessoas continuam a merecer a tutela da lei. Essa proteção é feita em benefício dos parentes do morto, para se evitar os danos que podem sofrer em decorrência da injusta agressão moral a um membro da família já falecido”.

Basta que alguém, familiares ou amigos, se sinta ofendido com o compartilhamento das imagens e procure a polícia para registrar um boletim de ocorrência. O crime pode ser cometido por qualquer pessoa, até mesmo pelos familiares das vítimas. A lei também destaca que caso a pessoa que fez as imagens, ou compartilhou, teve acesso a elas devido a sua profissão, a pena pode ser aumentada em um terço. 

25 de maio de 2019

Incentivo à criatividade e foco contribuem para longevidade

Incentivo à criatividade e foco contribuem para longevidade

A neuróbica é uma série de exercícios desenvolvidos pensando na manutenção da saúde cerebral

É sempre bastante compartilhado que as atividades físicas são essenciais para a manutenção da qualidade de vida. O desejo pelo corpo saudável também é uma grande meta para grande parte da população, tanto aqueles preocupados com a estética, quanto os que buscam a manutenção da saúde. Mas onde ficam os cuidados com a mente no desenvolvimento humano? 

Muitas vezes negligenciado, o esforço para manter o cérebro em forma é também essencial na jornada de vida. Estudiosos ressaltam que neuróbica, assim como é descrita a ginástica para o cérebro, é tão necessária quanto a ginástica para o corpo. 

Em Teresina, pais buscam incentivar a potencialidade do desenvolvimento cerebral dos filhos desde os primeiros anos e empreendimentos especializam-se para ofertar atividades que atendam esta demanda. A ideia é que potencializar o funcionamento do cérebro é necessário ainda nas primeiras fases da vida até a terceira idade.

O médico piauiense João Carvalho, neurologista e neuropsiquiatra, levanta o questionamento: qual foi a última vez que você desafiou seu cérebro a sair do trivial e aprender algo novo? Segundo ele, para acrescentar mais anos à vida e, principalmente, mais qualidade ao longo deste tempo, é necessário alimentar a mente com conhecimento, novas experiências, atitudes positivas e bons pensamentos.


Foto: Divulgação

Por isso, a neuróbica começa a ganhar adesão de mais e mais pessoas. A neuróbica é uma série de exercícios desenvolvidos pensando na manutenção da saúde cerebral. Criadores do termo, os pesquisadores americanos Lawrence C. Katz e Manning Rubin, elencam no livro Mantenha Seu Cérebro Vivo (Sextante), 83 exercícios que desafiam o cérebro a sair de sua zona de conforto. 

A proposta é estimular a realização de tarefas de jeitos diferentes dos habituais para estimular a mente, seja ao realizar qualquer atividade que nunca tenha tentado antes ou até sugestões para trocar de local itens que se usa rotineiramente, a exemplo do mouse do computador, para poder estimular o cérebro a tentar algo novo.

Robótica estimula raciocínio lógico, analítico e crítico

Raida Veras lembra que, anos atrás, leu uma reportagem que destacava os benefícios para o desenvolvimento do cérebro infantil ao ter contato com atividades como a programação e a robótica. Mãe do pequeno Arthur Veras, hoje com 7 anos, ela decidiu colocar na pauta da oferta de educação para o filho uma rotina que também possibilitasse potencialidades em seu desenvolvimento cognitivo. Por isso, hoje, Arthur, mesmo com a pouca idade, já é entusiasta da área de robótica.

“Ano passado, a gente foi na Polishop e ele viu aquele robô que faz limpeza. Ficou apaixonado e ele disse que queria criar os seus próprios robôs. Eu já tinha lido aquela reportagem e visto que, aqui em Teresina, algumas escolas já colocaram a disciplina de robótica em seus currículos, mas só que para crianças de mais idade. Então fui pesquisar e encontrei o TRON, que recebe crianças da faixa etária dele. Hoje, o Arthur já fala que tem que estudar eletricidade, programação, até conseguir construir o próprio robô”, explica.


Arthur está estudando e pretende construir seu primeiro robô - Foto: Jailson Soares/O Dia

A robótica favorece a curiosidade e a criatividade nas mais variadas idades. Isto porque, ao aprender a linguagem de programação, os alunos são ensinados a pensar de forma estruturada. Eles designam ações a serem cumpridas pelo computador, através de códigos específicos, que são criados por sequências de números e palavras. Desse modo, a parte do cérebro responsável pelo raciocínio lógico, analítico e crítico está sendo sempre estimulada.

“Agora o Arthur diz que, quando crescer, vai ser inventor. Eu sei que a partir destes conhecimentos, assim como dizia naquela reportagem que li há quatro anos, ele pode abrir a mente para vários leques. Ele já sabe sobre energia, corrente elétrica, coisas que a gente só tem acesso no terceiro ano. Fico feliz em poder acompanhar esta etapa da vida dele”, relata a mãe.

Arthur não conta palavras quando o assunto é robótica. Ao ser perguntado quando vai construir seu primeiro robô, ele pondera: “primeiro tenho que aprender programação, mas depois, vou fazer meu robô”, sentencia. Com a mente sendo estimulada a todo momento, não é difícil imaginar a concretude da afirmação.

Usuários acreditam na humanização do atendimento como tratamento

Usuários acreditam na humanização do atendimento como tratamento

“O que está se vendo nesta antirreforma é um retrocesso muito grande, é a volta da injustiça com pessoas que serão internadas contra sua vontade", diz usuário.

Segurando nas mãos trechos da lei 10.216 de 2001, conhecida como a Lei de Reforma Psiquiátrica, que representou um marco ao estabelecer a necessidade de respeito à dignidade humana das pessoas com transtornos mentais no Brasil, Luiz Carvalho faz um resgate de experiências que aprendeu ao ser inserido, como usuário, dentro da rede de atendimento psicossocial, mas também por ser um dos fundadores da Associação Piauiense de Familiares e Usuários de Drogas e Álcool (Homo Lobus). Para ele, as alterações propostas na lei de drogas, afetarão, de forma não efetiva, a vida de milhões de pessoas em todo o Brasil.

“O que está se vendo nesta antirreforma é um retrocesso muito grande, é a volta da injustiça com pessoas que serão internadas contra sua vontade. Defendemos uma reforma psiquiátrica com liberdade ao usuário para que ele tenha um atendimento humanizado, uma equipe multidisciplinar para atendê-lo e que ele tenha direito de escolher”, explica.


Foto: Elias Fontinele/O Dia

A opinião de Luiz se baseia, em grande parte, por sua própria experiência. Ele está há quatro anos sóbrio após aceitar que era alcoolista e iniciar acompanhamento no Caps AD. Foi o tratamento multiprofissional e a aceitação deste que o fizeram entender que as consequências que a bebida trazia em sua vida.

“É uma luta muito difícil, eu vim descobrir que eu era alcoolista quando levei uma amiga pra fazer tratamento e resolvi participar da reunião. Por isso, eu sei do que vivi e que 80% dos meus amigos viveram, acho muito perigoso quando você tira a pessoa do convívio social, da sua vida, do dia a dia. Afastada do seu convívio, em internação, ela terá uma tendência enorme de voltar ao uso porque não se preparou psicologicamente para enfrentar aquela situação, ela estava sem usar porque estava sendo proibida. Eu tenho muito cuidado assim, condeno esse tipo de tratamento onde é oferecido só o trabalho como terapia, a religiosidade e contenção”, considera.

Atualmente, com a Associação Homu Lobus, ele e dezenas de outros pacientes atendidos pelo Caps se empenham na luta antimanicomial. A Associação faz parte de duas redes que também se engrenam na luta, uma a nível de Nordeste e outra a nível Nacional.

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Mudanças no Sistema de Políticas Públicas sobre Drogas impactarão tratamento 

Modelo centralizado em internações não é novo, alerta psicólogo 

“Não há evidência para investir mais em internações", diz especialista 

“Não há evidência para investir mais em internações

“Não há evidência para investir mais em internações", diz especialista

Ricardo Cruz destaca que a volta ao modelo clássico não compreende as dimensões clínicas nas quais estão inseridas o usuário.

Ricardo Cruz, que é psicólogo clínico e mestrando em prevenção e assistência a usuários de álcool e drogas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), também reforça que o modelo centrado em internações, que já aconteceu no Brasil e é retomado através da reedição da lei, não é efetivo dentro do cenário do país.

O especialista destaca que a volta ao modelo clássico não compreende as dimensões clínicas nas quais estão inseridas o usuário: o contexto que em ele vive e suas relações sociais, meios que têm grande importância para o tratamento. 

“Eu acredito nos conceitos trazidos pela redução de danos, que não é contra a abstinência, ela só não considera que o cuidado em saúde tem que ser fio condutor a abstinência. Mas nesta política, eles vão trazer que o tratamento é a abstinência”, destaca.

A redução de danos, entre seus muitos conceitos, considera que o sujeito precisa se inserir no tratamento, e o tratamento precisa ser construído junto à pessoa que usa drogas, respeitando suas singularidades e possibilitando a reinserção a suas atividades. “Sou psicólogo clínico e eu afirmo: é mais fácil um menino que fuma tabaco e quer parar o vício me procurar que um que fuma cannabis, porque tem uma série de preconceito e rótulos que fazem ele não buscar ajuda”, destaca.


Ricardo Cruz defende a redução de danos - Foto: Elias Fontinele/O Dia

Ricardo levanta ainda a necessidade de entender qual o aparato científico que embasa as propostas reeditadas pela lei. O pesquisador lembra que em pesquisa realizada pelo psicofarmacologista Elisaldo Carlini, um dos maiores especialistas mundiais em drogas, ligado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mostra que mais de 80% das pessoas que utilizam substâncias ilícitas não se tornam dependentes. 

“Porque que o governo está investindo tanto na internação? Quais os dados? Cadê os programas de prevenção? Se querem desqualificar dizendo que é um discurso ideológico, estou falando cientificamente, não há evidência para se investir mais em internações e menos em programas comunitários”, afirma.


“Eu acredito nos conceitos trazidos pela redução de danos, que não é contra a abstinência, ela só não considera que o cuidado em saúde tem que ser fio condutor a abstinência", afirma Ricardo Cruz.


Para ele, a história do mundo mostra que lidar com cenários sociais, incentivando a exclusão, não trouxeram efeitos positivos para o mundo. “Lembramos que as mulheres que se rebelaram na idade média foram queimadas; os leprosos, excluídos; os loucos, por muito tempo, apenas presos. Eu considero que o grande vilão socialmente criado, agora, são os usuários de drogas, voltados para um sistema de exclusão e isolamento social. Tem que ter internação? Sim, em casos necessários e a própria reforma psiquiátrica já garantia a internação: a voluntária, involuntária e a compulsório, todas associadas por uma conduta médica. Mas, agora, o nosso receio é que tem uma generalização da internação”, explica.

O profissional acredita que se o uso de drogas tem sido feito por três olhares, sendo eles o da saúde, que vê como doente o usuário; o da justiça, que o vê como criminoso e o da religião que o vê como um pecador, se faz necessário que se enxergue de uma quarta forma: o da responsabilização pelos erros, quando existirem, e a manutenção do apoio quando este precisar da sua garantia de saúde e dos direitos sociais.

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Modelo centralizado em internações não é novo, alerta psicólogo 

Usuários acreditam na humanização do atendimento como tratamento 

Modelo centralizado em internações não é novo, alerta psicólogo

Modelo centralizado em internações não é novo, alerta psicólogo

Especialista no assunto alerta para a preocupação do cenário que se forma a partir do texto que espera a sanção do presidente Jair Bolsonaro.

O texto que, agora, espera a sanção do presidente Jair Bolsonaro determina que o tratamento do usuário ou dependente de drogas ocorra prioritariamente em ambulatórios, admitindo-se a internação quando autorizada por médico em unidades de saúde ou hospitais gerais com equipes multidisciplinares. Diferentemente do previsto na Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei 10.216/ 2001), a proposta não atribui à família ou ao responsável legal o poder de determinar o fim da internação involuntária.

Emanoel Lima, professor universitário e doutor em psicologia social, alerta para a preocupação do cenário que se forma. “É preocupante porque perfaz um caminho já questionado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), que é o da internação integral e a longo prazo para o tratamento de demanda de saúde mental, o que inclui as dificuldades decorrentes do uso de álcool, crack e outras drogas”, destaca.


Emanoel defende tratamento que foca nas demandas psicológicas, sociais e de saúde - Foto: Elias Fontinele/O Dia

O professor considera que as alterações na lei consagram um cenário que desenha desde 2010, em função de lobbys da indústria psiquiátrica tradicional. “Esses dispositivos que trabalham a internação a longo prazo veem como a única resposta pra questão de álcool e drogas a internação. O Governo Federal vai dar um salto de 2 mil leitos em comunidades terapêuticas para 10 mil, e essas comunidades terapêuticas têm várias vertentes, a de querer vincular o problema de álcool e droga por uma visão moral, criminalista, ao invés de alguém que tem demandas psicológicas, sociais e de saúde. Várias pesquisas já mostraram que o grande problema que temos é do álcool e não do crack como se pensa”, afirma.


“É preocupante porque perfaz um caminho já questionado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), que é o da internação integral", diz Emanoel Lima.


Uma das pesquisas destacadas pelo professor foi realizada pela Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, e divulgada recentemente pelos sites The Intercept e a Casa da Democracia. O levantamento aponta que 0,9% da população usou crack alguma vez na vida, 0,3% fez uso no último ano e apenas 0,1% nos últimos 30 dias. No mesmo período, maconha, a droga ilícita mais consumida, foi usada por 1,5%, e a cocaína por 0,3% dos brasileiros. No entanto, a pesquisa revela que 66,4% já fizeram uso de álcool na vida, 43,1% no último ano e 30,1% nos últimos 30 dias.

“Temos que entender que o manicômio não se restringe ao hospital psiquiátrico, o que foi o Meduna ou o Areolino De Abreu, ele pode ser reproduzido em diversos outros dispositivos. As comunidades terapêuticas, por mais que saibamos que existem diversas vertentes, muitas não querem ter equipe de saúde dentro do seu dispositivo, como um médico, psicólogo, assistente social. São comunidades que trabalham com moral religiosa, usando a perspectiva que quem usa droga é vagabundo ou desviando da ordem. Temos visto sobrar denúncias de violação de direitos humanos nesses locais”, explica.

Atualmente, existem mais de 1,8 mil comunidades terapêuticas espalhadas pelo país. No Piauí, são 24 comunidades terapêuticas regularizadas junto ao Governo.

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“Não há evidência para investir mais em internações", diz especialista 

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18 de maio de 2019

Tratamento Música é aliada na recuperação motora e cognitiva de pacientes

Tratamento Música é aliada na recuperação motora e cognitiva de pacientes

A musicoterapia potencializa as habilidades dos pacientes e reduz os danos causados por alterações ou deficiência

Quando alguém decide, quase que involuntariamente, colocar o fone de ouvido ou ligar o som do carro para ouvir uma música a caminho do trabalho, além de querer passar o tempo, está inconscientemente querendo melhorar seu estado de espírito. A música tem esse poder.

Como algo que é contagioso, ela transfere sentimentos através dos seus elementos: melodia, harmonia e ritmo. Mas não é só isso. Do ponto de vista médico, a música é aliada na recuperação de pacientes com dificuldades motoras e cognitivas. O campo que trata e reabilita problemas de saúde por meio da música é denominado de musicoterapia.

Ela envolve, segundo a musicoterapeuta Nydia do Rêgo, a utilização de experiências musicais resultantes do encontro entre o profissional e as pessoas assistidas. A musicoterapia só pode ser aplicada por profissionais com especialização e formação reconhecida pelo MEC, com registro em seu órgão de representação, no caso do Piauí, o AMTPI.

Nydia do Rêgo explica que a musicoterapia potencializa as habilidades dos pacientes e reduz os danos causados por alterações ou deficiência do sistema motor ou cognitivo, adquiridos ou resultantes de alguma patologia. “Os benefícios são inúmeros. Tanto nas áreas cognitiva, emocional, motora, linguagem e social. Na prevenção também. Sempre tem objetivos terapêuticos estabelecidos pelo profissional musicoterapeuta. Antes de iniciar o processo terapêutico é feita avaliação, entrevista e testificação”, pontua.

Em Teresina, um dos lugares que oferece a musicoterapia como tratamento alternativo é o Centro Integrado de Reabilitação (Ceir). A instituição é referência no serviço de assistência a deficientes e pacientes em reabilitação. Somente em 2018, foram realizados 207.231 atendimentos, uma média de 2.917 pacientes por mês. A metodologia de musicoterapia que o Ceir aplica hoje é baseada nos procedimentos da Associação de Assistência à Criança Deficiente - AACD São Paulo.

“São vários procedimentos aqui dentro da instituição. A musicoterapia está presente desde o início, em 2008. A gente se baseou inicialmente pelos procedimentos da AACD em São Paulo. Antes mesmo do Ceir está pronto, a gente estava treinando sobre os processos que seriam adotados. Lá só tinha a musicoterapia individual ou em dupla. Conforme a gente foi percebendo a demanda no Piauí, fomos sugerindo a instituição para se adequar”, diz Nydia.

Técnica auxilia em casos de AVC à reabilitação intelectual

Os musicoterapeutas trabalham métodos ou técnicas ativas onde o paciente toca instrumentos musicais, canta, dança e compõe. No Ceir, por exemplo, há atendimentos individuais para todas as idades e ainda encontros coletivos. A necessidade dos grupos surgiu, em um primeiro momento, a partir da demanda de mães com bebês que tinham necessidade de estimulação precoce para um pleno desenvolvimento psiconeuromotor.

Mais tarde, também se criou grupos de crianças em idade escolar, onde a musicoterapia contribuía na questão da socialização. Atualmente, no Ceir, a musicoterapia também é trabalhada em grupo através da Banda Tocando em Frente e dos encontros com pacientes acometidos por Mal de Parkinson.

A musicoterapeuta Nydia do Rêgo conta que o primeiro foi pensado para trabalhar a socialização e a inclusão de pessoas de 18 a 85 anos. Já o segundo, o Parkinson, surgiu de uma demanda crescente de pacientes que precisavam de estímulos neurológicos proporcionados pela música.

A musicoterapêuta Nydia do Rêgo explica o tratamento multidisciplinar, que funciona para vários quadros clínicos, sendo os mais comuns paralisia cerebral, mielomeningocele, lesão cefálica adquirida, lesão medular, casos de AVC, entre outros (Fotos: Assis Fernandes/ODIA)

“Na banda, acontece uma troca, eles se colocam no lugar do outro, deixam de olhar só para sua dificuldade. É também um trabalho de inclusão porque esse grupo se apresenta, eles já tocaram em teatros, praças e em eventos. O Parkinson é uma demanda que começou aparecer bastante. Esses pacientes precisam de estímulos de ritmos e de movimentos e a musicoterapia trabalha todos os elementos da música, como a dança e a vibração. A gente criou esse grupo com o aval do neurologista do Ceir, Dr. Kelson James”, pontua Nydia.

A musicoterapia funciona para vários quadros clínicos. Os mais comuns, de acordo com Nydia, são os de paralisia cerebral, mielomeningocele, lesão cefálica adquirida, lesão medular, casos de AVC, deficiências auditivas e visuais, tumores ou traumatismos, além de doenças neuromusculares ou degenerativas, onde se perde a força.

Nos últimos anos, além da reabilitação física, o Ceir também direciona a musicoterapia para casos de reabilitação intelectual, onde se enquadraram diagnósticos de autismo, deficiência intelectual e síndrome de down. Os procedimentos que envolvem técnica fazem parte de um tratamento multidisciplinar. O paciente é acompanhado por um grupo de profissionais de diversas áreas e chega até a musicoterapia, normalmente, encaminhado por algum especialista.

No prontuário de cada paciente há os exames, avaliações e observações de cada profissional, seja médico ou terapeuta, que juntos vão conduzindo a reabilitação, levando em consideração um objetivo terapêutico em comum. A cada três meses, esse relatório é revisto e os avanços mensurados.



Soltando a voz

As terças-feiras são dias especiais para os pacientes de musicoterapia atendidos pelo Ceir. É o momento pelo qual eles esperam durante dias. É ali, em uma sala repleta de instrumentos, que todos se encontram para colocar suas dificuldades de lado e entrarem, juntos, na mesma sintonia. Nos ensaios da Banda Tocando em Frente, a união faz o som. Cada integrante contribui à sua maneira, enquanto descobre seu potencial.

Raimundo Francisco Freitas, de 64 anos, é um dos mais animados da turma. Minutos antes de o ensaio começar, ele distribuía sorrisos e aguardava inquieto as orientações da musicoterapeuta. Ansiedade natural de um começo. Em sua segunda aula, ele ainda estava descobrindo como as técnicas ali passadas poderiam ajudá-lo a se recuperar de um AVC sofrido no ano passado. “Minha primeira aula foi muito boa, eu aprendi uma música do John Lennon. Sigo animado. Tenho que está animado todo dia”, disse.

Raimundo chegou até a musicoterapia por indicação de um médico. Logo na primeira aula, pegou o microfone para soltar a voz. A expectativa para a segunda aula era de cantar novamente junto à banda, isso porque ele já sabia o efeito que aquilo lhe causaria. Quando a aula começou, assim o fez. “A gente se sente leve, se sente melhor, melhora o relacionamento. Além de relaxar, você vai adquirindo aquela força de vontade e esquece o seu problema”, destaca. 

Naquele dia, Raimundo Francisco Freitas não cantou John Lennon. Ele puxou o coro de “É preciso saber viver”, canção eternizada por Roberto Carlos. Disposto a superar suas limitações, entoou com força e junto ao grupo: “Toda pedra do caminho você pode retirar”. Ali, naquele momento, ficou claro para cada pessoa presente na sala que eles viam na música uma forma de encarar melhor seus diagnósticos.


Sem perder o compasso

Em um dos lugares da roda de pacientes, enquanto os instrumentos eram tocados, estava Manoel Sabino, ou como ele prefere ser chamado, Fábio, seu nome artístico. A intimidade com o teclado não é algo recente. Antes de enfrentar um tumor no cérebro em 2014 e ficar internado por cinco meses, ele vivia da música. Talvez por isso ela seja tão importante no seu processo de recuperação. 

“Quando ele chegou aqui ao Ceir, encaminhado pelo médico, ele não segurava o tórax. Ficava sentado, mas todo enrolado. Com o tratamento de fisioterapia, ele começou a segurar o tórax, passamos nove meses fazendo a fisioterapia. Quando ele ganhou alta da fisioterapia, descobri a musicoterapia, há cerca de dois anos. Hoje, quando chega o dia da aula, ele já fica animado”, comenta Ormandina Araújo, esposa de Fábio, que o acompanha nos encontros. 

Desde a hora que para frente ao teclado até o fim da aula, ele não descansa os dedos. Toca todas as notas e acompanha qualquer música sugerida. O que impressiona em Fábio, além da sua empolgação, é a melhora no seu quadro clinico. Diferente da época quando chegou, hoje ele se mostra bem mais independente e autônomo nos seus movimentos, conseguindo, inclusive, manter sua postura sozinho. 

Os benefícios da musicoterapia, no caso de Fábio, são tão positivos que Ormandina também o põem em contato com a música em casa. “Ele toca teclado em casa também. Se ele não tivesse o acompanhamento, ele ficaria muito tempo dormindo. Com a música, ele fica desperto, atento. É algo muito bom para quem, assim como ele, está com problemas neurológicos”, conta ela.



Seguindo o ritmo

Movimentos repetitivos, para alguém que tem limitações, é uma conquista. É por isso que Alceste Maria, de 58 anos, gosta tanto de tocar chocalho. Sua dedicação ao instrumento é responsável por adicionar ritmo à mistura de som formada pela banda. Ela se diverte, retoma seus movimentos e o grupo como um todo ganha em termos de sintonia.

Alceste se sente em casa no Ceir. Vai acompanhada do esposo ou dos filhos, mas sempre que chega, transita sozinha pelos espaços já conhecidos e tão presentes nas suas rotinas. Lá, há três anos, ela conheceu a musicoterapia e, desde então, não deixou mais de fazer. Antes ela era atendida de forma individual, mas hoje já assiste às aulas em grupo. “Agora em grupo, eu me sinto realizada, porque ganhamos autoestima e calor humano”, justifica. 

Antes da reabilitação através da música, Alceste tinha dificuldades de caminhar e limitações de movimento. Foi em contato com os vários instrumentos da musicoterapia que ela desenvolveu sua capacidade motora. “Eu não caminhava direito, não subia escada, aprendi a me virar e deixei o andador. A musicoterapia e a arterapia são coisas que têm me ajudado muito com os movimentos, porque têm dias que estou atrofiada e, com a aula, melhoro”, conta.

Enquanto toca seu chocalho, Alceste divide com os demais algumas mensagens de motivação junto à musicoterapeuta. Entre as músicas, eles conversam e falam sobre suas dificuldades e, assim, dando forças uns aos outros. “Confio na equipe e em todo mundo aqui. No dia que chego triste, eu recebo uma palavra de estímulo e de força”, revela. 


Quem dança seus males espanta 

Toda grande banda tem bons músicos e também bons dançarinos. Na Banda Tocando em Frente, do Ceir, Thiago Bruno Silva, de 27 anos, é quem puxa os passos. A música tem tanto efeito sobre ele que somente ficar parado tocando um instrumento não é o suficiente. A descarga de energia e empolgação é descarregada em movimentos ritmados e alinhados com o som do grupo. 

A alegria de Thiago em dias de musicoterapia é contagiante. Basta ele chegar para todos sintonizarem na sua frequência. Comunicativo, faz questão de interagir com todos, desde a equipe do Ceir até os colegas de banda. Durante a aula, quando nota alguém mais quieto, logo convida pela mão para o meio da roda. É como se Thiago quisesse transmitir ao outro o que vibra dentro de si. 

A empolgação chama atenção até mesmo da mãe, Rosa Conceição, que atesta que a música, hoje, para Thiago é uma paixão. “Ele faz musicoterapia desde que começou aqui no Ceir. Com as outras fisioterapias, ele foi ganhando autonomia e foi recebendo alta, mas aqui ele continua, não deixa. Música é o que ele ama. É o parceiro de dança da professora. Sempre chama alguém pra dançar”, comenta.

Quem vê Thiago hoje, durante a musicoterapia, custa acreditar que ele já teve dificuldades nos movimentos. Rosa Conceição conta que uma das maiores conquistas dele foi o equilíbrio. Disso ninguém dúvida, os movimentos sincronizados confirmam bem. Para ele, cada música é uma dança nova e uma nova oportunidade de se aprender.


13 de maio de 2019

‘Violência obstétrica’: CFM aprova medida do Ministério da Saúde

‘Violência obstétrica’: CFM aprova medida do Ministério da Saúde

O Ministério Público Federal recomendou ao Ministério da Saúde (MS) que esclareça por meio de nota que o termo “violência obstétrica” é uma expressão já consagrada em documentos científicos, legais e empregada comumente pela sociedade civil

Em visita ao Piauí, o vice-presidente do CFM (Conselho Federal de Medicina), Emmanuel Fortes, comentou sobre o despacho feito pelo Ministério da Saúde sobre o não uso da expressão ‘violência obstétrica’. Para ele, a categoria médica vem sendo perseguida e culpada ao exercer sua função e adotar as medidas necessárias durante o parto.

 “[Acho] muito saudável, porque a medicina e os médicos estão sofrendo uma sistemática campanha de desmoralização. Quando você diz ‘violência obstétrica’ você não está atingindo outra pessoa além do médico, como se ele praticasse a violência. Se existe excesso no comportamento de algum médico, que seja denunciado na Justiça e no Conselho de Medicina para que a gente apure. Usar uma palavra como chavão, colocando o povo contra os médicos,  é impensável. É o que algumas pessoas ideologicamente estão fazendo. Utilizando-se de expressões para desmoralizar os médicos. Essa medida [do Ministério da Saúde] é para resguardar a profissão, a relação entre as pessoas. Os médicos não são responsáveis pela falta de estrutura nos locais, mas a campanha é tamanha contra os médicos que parece que está nas mãos deles resolver essa situação. Os médicos praticam assistência obstétrica e ao parto”, finaliza.

O Ministério Público Federal recomendou ao Ministério da Saúde (MS) que esclareça por meio de nota que o termo “violência obstétrica” é uma expressão já consagrada em documentos científicos, legais e empregada comumente pela sociedade civil e que a expressão pode ser usada por profissionais de saúde, independentemente de outros termos de preferência do Governo Federal.

Na recomendação, a procuradora da República Ana Carolina Previtalli, responsável por um inquérito civil público com quase 2000 páginas e 40 anexos com relatos de denúncia de violência obstétrica em maternidades e hospitais de todo o país, requer também que o MS se abstenha de realizar ações voltadas a abolir o uso da expressão violência obstétrica, mas que tome medidas para coibir prática agressiva e maus tratos. O MPF demonstra que a OMS reconhece a violência física e verbal no parto, em documentos como a “Declaração de Prevenção e eliminação de abusos, desrespeito e maus-tratos durante o parto”, assinada em em 2014.

“Relatos sobre desrespeito e abusos durante o parto em instituições de saúde incluem violência física, humilhação profunda e abusos verbais, procedimentos médicos coercivos ou não consentidos (incluindo a esterilização), falta de confidencialidade, não obtenção de consentimento esclarecido antes da realização de procedimentos, recusa em administrar analgésicos, graves violações da privacidade, recusa de internação nas instituições de saúde, cuidado negligente durante o parto levando a complicações evitáveis e situações ameaçadoras da vida, e detenção de mulheres e seus recém-nascidos nas instituições, após o parto, por incapacidade de pagamento”, diz o texto da OMS. O MPF reforça que a violência obstétrica caracteriza-se também como violência de gênero e desrespeito às obrigações do Estado brasileiro frente a Convenção do Pará. A recomendação é que o MS adote as ações positivas do documento da OMS mencionado.


Advogada Helflida Sousa ressalta o protagonismo feminino. Foto: Elias Fontinelle/ODIA

Parto humanizado

“O parto humanizado é o tratamento digno à mulher, ao seu protagonismo, em que recebe assistência de uma equipe multidisciplinar. Quando isso não é seguido passa a ser violência obstétrica, que é a retirada desse protagonismo dela”, cita Helflida Sousa, doula e advogada especialista na Defesa dos Direitos das Mulheres. 

Até o final do século XVIII, o parto era um ritual das mulheres, realizado nas casas das famílias com o acompanhamento de parteiras. No final da década de 1980, surgiu o movimento social pela humanização do parto e do nascimento, que teve como base as propostas realizadas pela OMS (Organização das Nações Unidas), em 1985, que estimulavam o parto vaginal, a amamentação logo após o parto, o alojamento conjunto da mãe e do recém-nascido e a presença de acompanhante durante o processo.

Além de resgatar o parto e o nascimento como eventos fisiológicos e naturais, o movimento de humanização também busca empoderar as mulheres, retomando os poderes e saberes femininos que teriam sido eliminados. É reposicionar a mulher enquanto dona do seu corpo, da sua sexualidade, que possui um corpo capaz de gestar e de parir, capaz de ter seus filhos com o apoio e mediação de outras mulheres (enfermeiras, obstetrizes, doulas).

11 de maio de 2019

“Não quero que me vejam com pena”, desabafa mãe de criança autista

“Não quero que me vejam com pena”, desabafa mãe de criança autista

Teresa Ramos pede que a sociedade enxergue seu filho e ela com respeito e relata seu amadurecimento enquanto mãe ao longo da jornada Glenda Uchôa

Faz dez anos que Teresa Ramos deu à luz a Gustavo, único filho de um relacionamento que não teve continuidade a partir do momento que ela relatou para o companheiro que estava grávida. A mudança que aconteceu naquele momento foi apenas um sinal para as outras que continuariam a reverberar na sua vida. Dois anos após o nascimento do filho, Teresa descobriria que Gustavo estava enquadrado dentro do diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA), uma condição que ela jamais tinha ouvido falar. Mas muita coisa continuou a mudar. Hoje, Teresa é uma voz potente dentro do que acredita ser necessário para o seu filho e para a sociedade em que ele está inserido. Neste Dia das Mães, mais uma vez, ela promete comemorar isso com orgulho.

“Não quero que me vejam com pena, quero que a sociedade nos veja, meu filho e eu, como seres que precisam ser respeitados. Nós, mães de autistas, todos os dias, conseguimos conquistar nosso espaço, conquistas que, na verdade, são direitos, mas que tivemos que adquiri-los. É preciso ter respeito pela pessoa com deficiência e é preciso ter respeito por essa mãe que sofre”, afirma.

O nível de autismo de Gustavo faz dele uma criança ainda muito dependente dos cuidados da mãe. É Tereza quem consegue entender a linguagem ainda pouco desenvolvida do filho e que o acompanha nas atividades, e também é ela a primeira a comemorar seus avanços. “Hoje, ele consegue dar duas voltas no cadarço do tênis. As outras pessoas podem ver isso como besteira, não é? Mas para mim é uma felicidade enorme, só eu sei como ele lutou para conseguir”, destaca.


Gustavo demonstra o amor que sente por sua mãe, Teresa Ramos - Foto: Elias Fontinele/O Dia

São essas lutas que fazem da maternidade uma grande missão na vida de Teresa. Missão esta que nem sempre foi entendida de forma tão serena. Ela conta que, antes de saber do exato diagnóstico, imaginava que seu filho poderia ser surdo. “Eu chamava, ele não olhava, não atendia, foi quando fui atrás para saber o que acontecia”, lembra. A resposta da condição do filho ser autista causou um grande susto nela. “Quando meu filho tem um problema que eu posso ajudar, que eu sei o que é, se torna mais fácil, mas quando meu filho tem uma deficiência que eu nunca tinha ouvido falar? Eu fiquei em pânico. Pensei ‘como vou ajudar meu filho? Por onde começo?’”, questionou.

Mas ela começou pela reação. Buscou centros de atendimento para si e para o filho e fez da informação um trampolim para investir no desenvolvimento de Gustavo e no seu fortalecimento enquanto mãe. “Depois que eu me acalmei, eu vi que não podia ser tão egoísta. O momento não é meu, o momento é do meu filho. E nós conseguimos. Hoje meu filho já vai fazer quatro anos que faz atendimento aqui na AMA (Associação de Amigos dos Autistas do Piauí)”, afirma.

Amparada por profissionais e pelas histórias de outras centenas de mães, a rede que se forma para possibilitar uma maior qualidade de vida para os autistas em Teresina se engrandece. Mães e filhos ganham seu lugar e o reconhecimento dos seus muitos direitos, fatores que, quando bem estabelecidos, fazem das dificuldades um pouco menores. “Em nenhum momento me arrependo por ter sido mãe. Eu não considero que meu filho autista me dá trabalho, eu sei que ele foi dado por Deus e eu tenho muita felicidade em saber que eu terei uma pessoa sempre do meu lado, assim como ele também me terá”, finaliza.


Eu não considero que meu filho autista me dá trabalho, eu sei que ele foi dado por Deus e eu tenho muita felicidade em saber que eu terei uma pessoa sempre do meu lado, assim como ele também me terá”


Abandono ainda é triste realidade na vida das mães

Não são isolados os relatos de abandono familiar ao ser comprovado o diagnóstico de autismo de uma criança. Geralmente, os pais somem, deixando a cargo apenas das mães a responsabilidade de cuidar do filho ou filha com TEA. Mas casos de abandono de pais e mães também acontecem, fazendo, geralmente da avó, a cuidadora responsável. Esses cenários são comprovados com uma frequência maior do que a que gostaria Rosália Sousa, presidente da Associação de Amigos dos Autistas do Piauí (AMA-PI), entidade voltada à inclusão de pessoas autistas. Para ela, a informação tem ajudado com que, apesar de ainda existentes, os casos de abandono sejam menores.

“No geral, quando essas mães chegam, elas estão extremamente estressadas, angustiadas, em situação de choque pelo diagnóstico. Os companheiros, muitas vezes, abandonam essa mulher e seu filho. Quando a AMA as recebe, a gente faz um diagnóstico geral da situação dela, vê se ela precisa de acompanhamento psicológico, mostra pra essa mãe que ela não está sozinha, que pode contar com nosso trabalho”, destaca Rosália. 


Rosália destaca o importante suporte prestado pela AMA em prol das famílias - Foto: Elias Fontinele/O Dia

A presidente da Associação ressalta que a família de crianças autistas precisa de acolhimento, e a mãe, em especial, muito mais. “Às vezes, ela se sente até culpada por não ter conseguido gerar um filho dentro do padrão esperado”, explica.

Por isso, são em centros como a AMA que as histórias conseguem tomar novos contornos. A maternidade para mulheres com filhos autistas é cheia de desafios que podem ser mais facilmente contornados com o apoio afetivo e profissional.

“Essa mãe, depois de alguns dias aqui, já percebe a diferença, que ela não é a única mãe que está naquela condição. Então, não trazemos aquela situação como se fosse uma carga pesada, mostramos que aquilo, pra ela, pode ser enfrentado, que muitas outras mães têm verdadeiros problemas, mas o autismo não precisa ser um deles”, explica.

É neste sentido que a disseminação de informações sobre o espectro contribui para que cada vez mais famílias procurem por ajuda e possam ampliar não apenas os resultados de desenvolvimento na vida das crianças, mas da família e sociedade em geral.

04 de maio de 2019

Projeto de integração sofre mudanças ao chegar à Avenida Frei Serafim

Projeto de integração sofre mudanças ao chegar à Avenida Frei Serafim

Via está prestes a passar por uma série de modificações para se adequar ao novo modelo de transporte público da Capital

O projeto é alvo de críticas, sobretudo pela interferência ambiental, já que no canteiro existem árvores histórica (Fotos: Jailson Soares/ODIA)

A forma como o teresinense conhece uma das mais tradicionais vias de acesso da cidade promete ser alterada de forma impactante. A Frei Serafim, localizada no Centro de Teresina, é uma das últimas vias que passará por intervenções para que se cumpra o plano de mobilidade urbana da Capital, estabelecido desde 2009. As mudanças previstas incluem a implantação de sete estações de passageiros no canteiro central da Avenida, local que, atualmente, funciona apenas como passeio público.

Para alguns, as mudanças são necessárias, para outros, permitirão uma agressão gigantesca ao patrimônio histórico da cidade. Entre críticas e celebrações, o certo é que a licitação para construção do novo corredor exclusivo de ônibus na Avenida Frei Serafim está em fase de finalização e, nos próximos dias, deve ser divulgada a empresa que executará o serviço.

De acordo com o projeto de licitação, as obras podem demorar mais de um ano até serem concluídas. Jhamille Almeida, secretária executiva de planejamento urbano de Teresina, explica que a Secretaria Municipal de Planejamento (Semplan) ficou responsável por fazer um processo diferenciado para as estações da via.

“O plano de mobilidade já previa a Frei Serafim como um corredor desde 2009, mas a gente entendeu que precisava de um projeto diferenciado, um projeto que atendesse e que reconhecesse aquela via como patrimônio histórico cultural, que deva ser minimamente impactado. A Semplan, dentro da Secretaria de Planejamento Urbano, ficou responsável de realizar o projeto. Um projeto que atendesse as expectativas do plano de mobilidade e preservasse o máximo possível da questão ambiental e histórica que tem a Frei Serafim”, destaca.

Instituições apontam falhas

A grande questão é que, apesar da Prefeitura destacar a necessidade do projeto especializado para via, instituições como o Ministério Público e Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Piauí (CAU-PI) questionam o que já foi apresentado. “Fizemos análises do projeto e indicamos uma série de sugestões para a Prefeitura, mas, até então, não tivemos nenhuma resposta. A Frei Serafim está em uma zona de preservação, tem toda questão ambiental, além da histórica e cultural. Conversamos com várias instituições e é uma unanimidade: falta muito para chamar aquilo de projeto”, destaca Anderson Mourão, presidente da Comissão de Política Urbana e Ambiental do CAU/PI.

Abrigos de passageiros da avenida terão menos concreto e mais contato com o verde (Foto: Divulgação)

Paradas no decorrer de todo o canteiro

As alterações previstas não alteram a largura do canteiro central da Avenida Frei Serafim, mas a disposição dos aparelhos urbanos e vegetação, sim. O abrigo, que é onde as pessoas irão esperar o ônibus, será climatizado e as plataformas de embarque cobertas. “A gente não consegue fazer nessa plataforma de embarque a climatização justamente para manter todas as arvores. Aquela sensação de boulevard será mantida”, explica Jhamille.

Segundo a arquiteta, também haverá adequação de material, os abrigos se apresentarão de forma transparente, envidraçados, sem aquelas estruturas grandes de concreto comuns nos outros terminais. É um equipamento flutuante, que funcionará como uma espécie de trailer no canteiro central. “A gente já vem discutindo esse projeto há muito tempo, atualmente, a obra encontra-se embargada, mas a gente fez várias propostas, apresentou três ou quatro projetos ao Ministério Público. Agora serão feitos novos estudos e, se eles apontarem alguma inflexão, alguma situação que a gente precisa fazer alguma alteração, faremos”, constata.

Ao todo, o canteiro terá sete estações de ônibus – atualmente, são oito paradas ao longo de toda a via. Serão quatro estações do Centro para a Zona Leste e três da zona Leste para o Centro. “Eles serão despareados. Dentro do canteiro central temos 12 metros, vai ficar confortável com três metros de abrigo, três metros de ciclovia, três metros passagem de pedestre, o canteiro central vai ter adequação de acessibilidade. Então vai ter ciclovia e local do pedestre. O projeto é uma coisa bastante leve, iluminação, jardins, toda uma questão de tratamento urbanístico onde a copa das árvores precisar, ela vai vazar”, finaliza.

15 de abril de 2019

Em três anos, mais de 2.560 processos foram ajuizados no Piauí

Em três anos, mais de 2.560 processos foram ajuizados no Piauí

No final de semana, O DIA trouxe uma matéria contando histórias de jovens infratores. Hoje, veja os números da Justiça sobre esses menores.

No Complexo de Defesa da Cidadania – CDC, deram entrada, de 2016 a 2018, 2563 processos de atos cometidos por menores infratores no Piauí. Os números que revelam a recorrência da criminalidade nesta faixa etária, segundo a juíza Elfrida Costa Belleza Silva, titular da 2ª Vara da Infância e Juventude da comarca de Teresina, também servem para comprovar que aqueles que chegam ao sistema socioeducativo não passam impune. Neste ano, 95 processos já foram ajuizados no Estado. 


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“Temos que descontruir a ideia de que o menor não responde por aquilo que fez, porque ele responde. Temos o regime de liberdade assistida (LA), mas ele serve para que possamos acompanhar esse jovem. O “maior”, em regime aberto, por exemplo, não é acompa nhado por assistente social, por psicólogo, mas o menor, é. Hoje, temos em torno de 400 menores acompanhados nos Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) do municípios, além de todos que estão respondendo pelos atos nas unidades socioeducativas”, destaca Elfrida. 

Para os menores que são identificados cometendo atos infracionais, as medidas socioeducativas podem variar a depender da gravidade e reincidência dos atos. De acordo com o Estatuto da Criança e Adolescência, elas podem acontecer de diversas formas, entre elas, a advertência, quando há apenas a repreensão judicial, com o objetivo de sensibilizar e esclarecer o adolescente sobre as consequências de uma reincidência infracional. 


Temos que desconstruir a ideia de que o menor não responde por aquilo que fez, porque ele responde. - Foto: Poliana Oliveira/O Dia

O ECA também garante a semiliberdade, quando é realizado o acompanhamento, auxílio e orientação do adolescente em conflito com a lei por equipes multidisciplinares, por período mínimo de seis meses, objetivando oferecer atendimento nas diversas áreas de políticas públicas; e até a internação, que é a privação da liberdade praticado pelo adolescente se enquadrar nas situações previstas no art. 122, incisos I, II e III, do Estatudo ( grave ameaça ou violência à pessoa, reiteração no co metimento de outras infrações grave ou descumprimento reiterado e injustificável da medida anteriormente imposta). 

A internação está sujeita aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento. A internação pode ocorrer em caráter provisório ou estrito, quando já é determinado que ele irá cumprir a internação. 

A tentativa, quando enquadrados em regime de liberdade assistida, é fazer com que esse jovem ainda possa ser alvo de políticas públicas que oportunizem sua inclusão, de fato, na sociedade. No entanto, os cenários de vulnerabilidade que estão inseridos os fazem, muitas vezes, não conseguir extrapolar o ciclo de violência. 

“Quando tem tentado a LA por um ano, dois anos, e esse jovem continua reiterando atos infracionais e, inclusive, de gravidade, ai é aplicado a medida socioeducativa com julgamento do mérito. Mas para ele ir para o CEM é oportunizado essa tentativa antes do regime de internação. Lá, esse tempo de até três anos, quem vai balizar é o comportamento dele, é o perfil, a noção que ele tem conscientizado do ato que fez. Isso serve para termos ideia se ele está pronto para voltar para a sociedade”, afirma.

26 de janeiro de 2019

Aterro de lixo de Teresina tem vida útil de apenas cinco anos

Aterro de lixo de Teresina tem vida útil de apenas cinco anos

Local está em processo de desativação para substituição por um aterro sanitário

Para saber que está próximo ao aterro de Teresina, basta olhar o céu. Na região, urubus sobrevoam em bando a área em que em está estabelecido, desde a década de 70, o aterro controlado de Teresina, na zona Sul da cidade. O local recebe uma média de 35 mil toneladas de resíduos gerados pela população da Capital a cada mês e, de acordo com estudos técnicos realizados recentemente, o espaço tem vida útil de apenas cinco anos.

A projeção é traçada pelo secretário executivo da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Semduh), Vicente Moreira, que explica, também, as mudanças previstas para o espaço ainda este ano. A definição de ser um aterro controlado, e não sanitário, é um dos itens que pretende ser mudado em 2019. 

Isto porque, após a finalização da licitação da limpeza pública de Teresina em 2017 - um processo que durou cerca de 10 anos - o consórcio de empresas que assumiu o contrato irá realizar, entre outras responsabilidades, as intervenções no aterro de Teresina.

“Em 2007, a Prefeitura contratou essa mudança com a Sustentare, mas a Sustentare não cumpriu o contrato, foi embora e nós rompemos o contrato. Ela foi multada, penalizada e, de lá para cá, por conta de muitos problemas judiciais que acontecem porque o valor da licitação é muito alto, só em junho de 2017 foi terminada a licitação da limpeza pública da cidade e, novamente, está dentro a transformação do aterro em aterro sanitário”, esclarece.

Segundo Vicente, o contrato em vigor contempla três possibilidades: a transformação da parte posterior do aterro em aterro sanitário e a desativação do atual aterro controlado, ou a possibilidade de contratação de duas centrais privadas que existem em Teresina para utilização da Prefeitura.

“Qual o problema que faz Teresina não deixar o atual aterro e contratar o privado? Porque apesar de estar contratado, isso é uma opção da administração, mas caso ela represente um menor custo. Fizemos os projetos e, como este aterro tem uma vida útil de cinco anos, optou-se por utilizar ainda estes anos, porque isso representa uma economia mensal de um milhão e quinhentos mil reais no orçamento do município”, explica.


17 hectares comportarão lixo em valas impermeáveis

Atualmente, o aterro está estabelecido em uma área de 50 hectares, destes, 33 são usados para comportar o lixo e os outros 17 hectares é onde está sendo implantada a célula onde o lixo será depositado em valas impermeáveis, que impedirão a infiltração do chorume no solo e lençóis freáticos.

“Hoje, após diagnóstico feito pela Escola Politécnica de Salvador, a gente determinou a execução de um projeto que corrigisse os problemas deixados pela Sustentare e pudesse operar o aterro, agora, como sanitário”, explica Vicente Moreira.

Segundo o secretário executivo, na área a ser desativada, serão implantados drenos para captação da água pluvial, cobertura da área utilizada com manta e camadas de solo e, ao final, a inserção de dreno de gases para implantar a queima do metano. “Esses cinco anos nos dará tempo para nos programar, teremos uma área de aterro controlado desativada e outra área com o aterro sanitário implementado”, destaca.


Tratamento do chorume

Atualmente, a área controlada já faz o tratamento do chorume, que é um líquido poluente e de forte odor, produzido naturalmente por meio de processos biológicos, químicos e físicos da decomposição de resíduos orgânicos. 

Desde novembro do ano passado, todo chorume produzido no aterro é drenado para uma primeira lagoa, que é impermeabilizada, e onde é feito o tratamento físico, com a equalização do chorume. Depois, o material passa para uma segunda lagoa, onde é feito o tratamento químico, em que são adicionados componentes para que haja a floculação e decantação do material particulado que tenha dentro do chorume. 

Posteriormente, o líquido passa pelo tratamento biológico em um processo de filtragem na estação de tratamento. Por fim, carros-pipas retiram a água tratada da estação e as direcionam para que sejam utilizadas na irrigação de praças, parques e dentro do próprio aterro, molhando o solo e evitando o excesso de poeira no local.


Diferenças entre aterro controlado e aterro sanitário

Existem diferenças essenciais entre os aterros controlados e sanitários. No primeiro, o lixo é disposto de forma controlada e os resíduos recebem uma cobertura de solos. No entanto, a técnica aplicada no aterro controlado não realiza o tratamento do lixo descartado e produz poluição localizada. Em geral, não é realizado nenhum processo de impermeabilização do solo ou controle dos gases gerados pela decomposição, o que compromete a qualidade do solo, das águas subterrâneas e do ar. 

Nos aterros sanitários, por outro lado, o lixo residencial é depositado em solos que receberam tratamento para tal, ou seja, que foram impermeabilizados, o que inclui uma preparação com o nivelamento de terra e com a selagem da base com argila e mantas de PVC. 

Os aterros sanitários também possuem sistema de drenagem para o chorume (líquido preto e tóxico que resulta da decomposição do lixo), que é levado para tratamento, sendo depois devolvido ao meio ambiente sem risco de contaminação, além de captação dos gases liberados, como metano, seguida da sua queima.

Os aterros sanitários são cobertos com solo e compactados com tratores, o que dificulta o acesso de agentes vetores de doenças e de oxigênio, o que dificulta a proliferação de determinadas bactérias. 

As construções desses aterros são pautadas em regras da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Há também poços de monitoramento abertos próximo aos aterros para que se avalie constantemente a qualidade da água e haja verificação de eventuais contaminações.


Catadores sobrevivem do que encontram no aterro: “é o nosso shopping”

Naquele dia, os irmãos Neto da Silva, de 41 anos, e Alex da Silva, de 40 anos, levariam para casa itens variados que ajudariam a repor os alimentos a serem consumidos ao longo da semana, onde vivem os dois, a esposa de Alex e duas filhas. Bolachas, leite, frutas, enlatados e refrigerantes faziam parte dos produtos que também se misturavam a itens de limpeza, acessórios e brinquedos. Todos eles, não oriundos de compra ou doação, mas do trabalho dos irmãos de vasculhar a pilha de lixo do aterro de Teresina. É como catador de lixo que os irmãos e dezenas de outros trabalhadores sobrevivem em Teresina.

“É o nosso shopping”, brinca Neto ao comemorar um dia inteiro de trabalho e todos os produtos que levaria para casa. Com as roupas sujas e o odor impregnado do dia inteiro entre os resíduos, os irmãos lembram que o inóspito trabalho nem sempre foi suas fontes de renda. 

Neto trabalhava como soldador e Alex como comerciante, mas a crise fez com que os dois perdessem o emprego. O aterro, então, se tornou uma opção.

No local, eles selecionam além dos produtos de alimentação, itens que servem para a venda como reciclado. Garrafas PET, alumínio, cobre, metal, filme, são itens buscados durante todo o dia, em um trabalho que inicia às 7h e termina no meio da tarde, por volta de 15h. Em média, em um dia de atividades, eles conseguem apurar cerca de R$ 50.

“Estou aqui há um ano e trouxe meu irmão, porque não tinha o que fazer. A gente vem pra cá porque não quer roubar e, graças a Deus, ainda não adoecemos. Então é um trabalho digno, não é?”, questiona.

Por estarem expostos aos riscos, trabalhadores dos lixões têm mais probabilidade de adquirir problemas de saúde como leptospirose, dermatites de contato, infecções gástricas e verminoses de toda ordem.

Futuro

No entanto, o trabalho dos irmãos tem prazo para acabar. Com a implementação do aterro sanitário, o local não poderá mais alocar a presença dos catadores. Para isso, a Prefeitura de Teresina implementou, no aterro, uma Central de Triagem para que os catadores possam trabalhar em cooperativa. 

Segundo a Semduh, dos 128 trabalhadores que atuam no lixão, apenas 32 fizeram cadastro na Central de Triagem. Segundo Alex, a informação de uma nova opção de trabalho era desconhecida. “Uma vez pegaram nossos nomes, mas nunca soube de nada ser feito. Eu acho que eles não podem tirar a gente daqui porque é nosso meio de vida, mas se tiver algo organizado para a gente ir, ganhar dinheiro direitinho, eu acho muito bom”, finaliza.


Moradores convivem com mau cheiro no período de chuvas

Por não ser sanitário, o aterro de Teresina causa prejuízos não só ao meio ambiente, mas também aos moradores da região do seu entorno. O local está localizado a 12 quilômetros do Centro de Teresina, mas bairros como o residencial Dagmar Maza ou o Vamos Ver o Sol podem ser acessados a poucos quilômetros do local. Por isso, a população convive com o mau cheiro vindo do aterro.

“Fica pior principalmente nesses meses que a chuva aumenta. O cheiro fica muito forte durante todo o dia. Graças a Deus, ninguém aqui ainda adoeceu, mas ficamos com medo”, destaca Maria do Socorro, de 54 anos, que mora no local há 20 anos e lembra de conviver com o problema desde então.

Para Maria, com os anos, o mau cheiro tem diminuído, mas ainda é muito presente nos meses de chuva. “A gente sente aquele mormaço e o mau cheiro muito presente. É horrível”, considera.

No período de chuva, o lixo exposto possibilita a produção de maior nível de chorume, por isso, o odor tão característico se espalha pela região. Com o tratamento do chorume feito no aterro, a perspectiva é que o impacto do odor seja muito mais amenizado.


Fotos: Jailson Soares/ODIA

15 de abril de 2017

Repórter vive um dia de soldado para mostrar rotina militar

Glenda uchôa, repórter do jornal O DIA, foi soldado do 25º Batalhão de Caçadores durante um dia, e relata sua experiência.

Olhei para o relógio de pulso, ainda na redação, e o ponteiro marcava exatamente 11h. “Falta meia hora”, pensei. O dia de atividades para viver, por um dia, a vida de um soldado do Exército, estava marcado para iniciar às 11h30 de uma terça-feira. Sabia, por leituras anteriores, que pontualidade era um dos lemas da vida no serviço militar e, por isso, a minha preocupação era aceitável. Pouco antes do horário marcado, estaria entrando pela porta principal do 25º Batalhão de Caçadores – Batalhão Alferes Leonardo de Carvalho Castelo Branco. Na mochila, algumas roupas e sapatos que eram, até então, tudo que eu sabia sobre o que precisaria para aquele dia. Seis horas depois, sairia dali não só com a bagagem que trouxera, mas com uma experiência que mochila nenhuma seria capaz de comportar.

Para lembrar o Dia do Exército Brasileiro, comemorado em 19 de abril, a repórter Glenda Uchôa passou um dia no 25º Batalhão de Caçadores e realizou atividades que são rotina entre militares (Fotos: Jailson Soares / O DIA)

Ao lado de soldados, Glenda Uchôa correu e fez flexões (Fotos: Jailson Soares / O DIA)

Aguardei na recepção do Batalhão por poucos minutos até que o tenente Damásio, designado para me acompanhar durante aquele dia, se apresentasse. A primeira ‘missão’ a ser superada foi a de vestir todo o fardamento oficial de um soldado. “Mas não é só uma roupa?”, fiquei me questionando no caminho enquanto ele me falara que uma oficial me ajudaria a concluir o processo. E não, não era apenas uma roupa. O uniforme é um dos principais símbolos que representam a profissão militar. A roupa solidifica a hierarquia e a disciplina indissociáveis à vida do corpo do Exército.

O sol, que permaneceu escondido durante todo o dia, ajudou a tornar menos difícil estar com as peças de pano grosso sobrepostas. Coturno, meias, calça, blusa, cinto, gandola e boina devidamente vestidos me fizeram ter a dimensão de que, sim, dali em diante, eu estaria ainda mais próxima das sensações que vivenciavam um soldado na sua rotina diária. 

Ao sair do alojamento e caminhar poucos metros, o som de passos em marcha e vozes uníssonas, que seriam uma constante durante o dia, foram ficando cada vez mais próximos. Vi se aproximar de mim um dos seis batalhões dos jovens que, atualmente, preparam-se para o serviço militar dentro do 25º BC. Ao todo, 216 jovens começaram a formação de soldado que durará um ano, entre os muros do quartel.

A marcha, o fardamento uniforme e as palavras de ordem ditas durante todo o percurso faziam do grupo, de cerca de 30 jovens, quase uma réplica um dos outros. Juntos, as peculiaridades de cada um dão lugar à homogeneidade assimilada em cada batalhão.

Militar explica como funciona armamento para repórter (Foto: Jailson Soares / O DIA)

O rancho

Chegamos, eu e eles, no mesmo ponto, ‘o rancho’, como é chamado o refeitório. Antes de adentrar ao grande salão cheio de mesas e cadeiras, os soldados executam uma oração em tom de grito de guerra. Senti que o som poderia chegar ao último milímetro do espaço mais distante dali, tamanha era a vivacidade com que as palavras eram repetidas. Nessa hora, senti um pequeno arrepio percorrer o braço. No Exército, tudo é muito intenso. Após percorrer a fila para poder me servir da comida, dividi a mesa com outros cinco soldados. A timidez também acompanhou a refeição e as poucas perguntas feitas eram respondidas com objetividade, talvez pela falta de familiaridade que significava ter uma mulher sentada à mesa em um ambiente que sempre foi predominantemente masculino.

Todos eles vindos de cidade do interior do Piauí mostravam o recorte perfeito do perfil que, hoje, compõe o serviço militar: jovens de baixa renda que buscam oportunidade de qualificação e fonte de renda para iniciar a vida adulta.

Ao longo do dia, sempre acompanhada pelo tenente Damásio e em conversas tidas com diferentes pessoas, muito mais que ouvir sobre a necessidade de seguir regras, respeito e disciplina dentro da vida militar, é fácil perceber nos grandes e pequenos detalhes a essência da vida militar. Cada vez que um superior cruzava o caminho, de forma instantânea, os novos recrutas levantavam e prestavam continência.

Legalmente, as mulheres estão isentas do Serviço Militar Obrigatório, na forma prevista pela Constituição (Fotos: Jailson Soares / O DIA)

Aula de armamento

Rigidez cobrada não só no modo de se portar no convívio interpessoal, mas também durante as atividades. E a próxima atividade do dia foi aprender a montar e desmontar um fuzil, o FN FAL (fuzil automático leve), que é usado pelos profissionais em situações de confronto. 

A arma sem o cartucho carregado pesa em torno de quatro quilos e, mesmo concentrada, entender o nome e a funcionalidade de cada item do objeto foi, literalmente, uma prova de fogo. Os soldados recém ingressados na corporação visivelmente tinham uma desenvoltura muito superior. Para eles, a arma que há pouco havia sido apresentada em suas vidas já era uma amiga de missão, mas, para mim, o objeto parecia tão assustador quanto complicado.

As múltiplas atividades e obrigações fizeram com que as horas se perdessem em sua própria velocidade. O dia parece passar rápido dentro da rotina militar. E, logo depois da aula de armamento, ainda me dedicaria a praticar a marcha, entender sobre vestimentas de guerra e a estrutura que compõe todo o quartel.

De recruta a soldado, preparação dura um ano (Fotos: Jailson Soares / O DIA)

Teste Físico

As pernas já pesavam ao fim do dia, quando o tenente Damásio me lembrou que iríamos para a última atividade daquele dia: o teste físico. Todos os dias pela manhã, os soldados fazem atividades físicas para manter a forma essencial para a vida de um militar. Como cheguei tarde ao quartel, a atividade foi realizada ao fim do dia.

Uma corrida de algumas centenas de metros e flexões foram necessárias para levar minhas últimas doses de fôlego daquele dia. Mesmo cansada, o sentimento era de recompensa. 

O dia que me proporcionou entender um pequeno recorte do que acontece na vida de um soldado foi muito maior que o cumprimento de algumas atividades. Observar de perto o serviço militar me fez ter a certeza que, muito mais que fardas, armamentos e obediência, há pessoas que sonham em conjunto. Há esperança nutrida para a transformação na vida de cada soldado, de cada família e, principalmente, para o país. 


A íntegra desta reportagem pode ser lida na edição deste fim de semana do jornal O DIA.