
As famílias têm assumido o papel de educar os filhos ou essa responsabilidade recai apenas à escola? As crianças e os jovens estão aprendendo a lidar com frustrações e abrir-se para o diálogo? Estes questionamentos norteiam a discussão que se abre desde que um aluno, na cidade de Goiânia, matou dois colegas e feriu outros quatro. O ato seria motivado pelo bullying, mas muitos outros questionamentos vêm à tona pelo cenário formado. Para a coordenadora pedagógica Marlene Lima, as famílias têm falhado em cumprir parte do processo de educação de crianças e jovens.
“Ainda a pouco, conversava com uma aluna sobre um problema que ela está vivendo. E a gente percebe que o ponto principal é a família, que não tem cumprido com atenção o papel de educar esses indivíduos. Eu vejo que, hoje em dia, a responsabilidade recai muito sobre a escola e, muitas vezes, vemos alunos que não sabem lidar com seus sentimentos e frustrações”, explica Marlene.
Um texto divulgado logo após a tragédia também reascendeu a discussão da forma como as pessoas estão se formando na sociedade e o pensamento viralizou na internet. A autoria é do psicoterapeuta clínico de crianças, jovens e adultos, Jordan Campos, que lembrou fatores para além do apontado como primeira motivação para o crime.
“Bullying não é a piada sem graça, a ofensa solta ou uma provocação por conta do odor resultante da falta de desodorante por quatro dias, que foi exatamente o ‘caso’ do adolescente que matou seus colegas. O motivo pelo qual o jovem assassinou seus colegas é um conjunto de fatores na formação de sua personalidade sob responsabilidade de seus pais”, escreveu o especialista.
Fica destacada a falta de preparo emocional e educacional que se forma entre os jovens para lidar com frustrações e situações de adversidade. É por isso que Marlene Lima também destaca que é essencial que educadores percebam como cada indivíduo lida com os diferentes cenários. “Na escola, dá para perceber, pela convivência que temos com o aluno, os tipos de comportamento que ele vai reforçando. Então temos que conversar e acionar a família, que também deve estar atenta a isso”, finaliza.
Lidar com sentimentos é fundamental
A psicóloga Maria Abreu lembra que as experiências pelas quais passam uma criança ou jovem serão, ao longo da vida, formadores de sua personalidade e, por isso, fazê-las lidar com diferentes sentimentos de forma saudável é fundamental.
“Dá para entender que aquele adolescente que estava sofrendo muito e não teve capacidade, habilidade e estratégia para lidar com sofrimento. O que acontece com as experiências de vida de uma pessoa que, diante de uma frustação, acaba tendo um comportamento desproporcional? Provavelmente porque temos na nossa história de vida situações que não foram bem resolvidas. Esse garoto já vinha apresentando reações de que não sabia lidar com aquele cenário, a reação veio para descarregar nos colegas, mas poderia ter sido nele mesmo”, considera.
A especialista lembra que o bullying, apesar de não poder ser entendido como prática aceitável, sempre existiu, e é preciso que os jovens entendam que, ao trabalhar suas emoções, é possível lidar com as mais adversas situações.