'Filhos do Bolsa Família vão viver na marginalidade', diz presidente do Ipea

Segundo Ernesto Lozardo, os 'filhos do Bolsa Família' não têm qualificação para o mercado de trabalho.

16/07/2017 09:30h - Atualizado em 16/07/2017 10:54h

Compartilhar no

Nomeado pelo presidente Michel Temer (PMDB) em junho de 2016 para comandar o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o economista Ernesto Lozardo afirmou que não há um futuro promissor para os descendentes dos beneficiários do Bolsa Família. O argumento foi utilizado em para defender as reformas trabalhista e previdenciária, em uma entrevista concedida ao Portal O DIA.

Segundo Lozardo, os “filhos do Bolsa Família” não têm qualificação para o mercado de trabalho. “A China está preparando 60 milhões de jovens para competir no mercado global. Agora, me diz, o que será dos filhos do Bolsa Família? Eu não tenho resposta. Eles vão estar desatualizados, vão viver às custas do Estado, vão estar na marginalidade”, declarou.

Mestre em economia pela Columbia University, Lozardo concluiu MBA na New York University. Ele já foi secretário de Planejamento, Economia e Gestão do Estado de São Paulo e é professor na Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, onde dá aulas de economia internacional e brasileira, macroeconomia, moedas e bancos.

O economista Ernesto Lozardo

Alçado à presidência do Instituto, em parte devido à relação de amizade que possui com o presidente Michel Temer, o economista tem sido um conselheiro do peemedebista. O cargo que ocupa serve como base e endossa o discurso de que o Brasil precisa das reformas para se desenvolver.

Na entrevista, o presidente do Ipea falou também sobre a reforma da previdência. “Nós estamos mal acostumados. A população em geral está muito preocupada em quando vai se aposentar. Eu acho pouco 25 anos de contribuição. Tem muito benefício que precisa ser removido”, afirmou.

Lozardo ainda falou sobre a proposta “Desafios da Nação”, que deverá ser apresentada em setembro como Projeto de Lei para estimular o desenvolvimento do Brasil. A pretensão é dobrar a renda per capita em 20 anos. No entanto, ele ressalta que a proposta só é viável com as reformas trabalhista e previdenciária aprovadas ainda este ano.

Confira a entrevista na íntegra:

Fala-se muito sobre benefícios da reforma da previdência pelo ponto de vista econômico, mas quais os ganhos do ponto de vista social?

Nós estamos mal acostumados. A população em geral está muito preocupada em quando vai se aposentar, achando que o Estado iria poder pagar essa conta. O Brasil tem um dos sistemas previdenciários mais benevolentes do mundo. Para manter o sistema como está hoje, nós precisamos de dois “Brasis”.

Precisamos promover uma justiça social grande para que os jovens possam ter um futuro mais assegurado. Sem a reforma da previdência, nós vamos pagar as aposentadorias com dinheiro público, às custas do aumento dos impostos. Vou tirar mais do teu salário e você vai ter menos pra viver.

Ou então, vamos ter que aumentar a dívida pública, que significa aumentar os juros. Isso vai dificultar para quem for comprar bens a longo prazo, pra financiar a casa própria ou um veículo para o seu conforto no futuro.

Os juros elevados também dificultam que os estrangeiros possam investir na economia brasileira, ou seja, não há crescimento. Então, o custo social da não-reforma, é o nosso empobrecimento. E quem vai pagar essa conta são os pobres, mas eles não vão ter como pagar.

Tanto a reforma trabalhista como a reforma previdenciária são importantes.

E qual o lado bom da reforma trabalhista?

Eu vou te dar um dado que eu fiquei impressionado quando soube. A China está preparando 60 milhões de jovens para competir no mercado de trabalho global. Agora, me diz, o que será do jovem do Bolsa Família? Eu não tenho resposta. Eles vão estar desatualizados, vão viver às custas do Estado, vão estar na marginalidade. Isso que nós não podemos aceitar.

A reforma trabalhista garante empregabilidade porque torna a legislação flexível com o trabalho intermitente e a terceirização. Ela cria entre o empregado e o patrão um compartilhamento de responsabilidade. O empregador pode empregar segundo a sua demanda, por tempo parcial, mas os empregados passam a ter um papel nessa relação participativa. Muda o caráter da relação patrão-empregado.

Atualmente, você não permite uma flexibilidade de emprego, que é fundamental. Toda uma faixa de renda e de educação, que poderia ser empregada, não consegue. São 30% de jovens desempregados. É desalentador.

Flexibilizando o mercado de trabalho, os jovens poderão ter emprego durante a sua fase de escolaridade, vão se aprimorando paulatinamente e se qualificando para o mercado quando se formarem.

O senhor acredita que a reforma da previdência vai passar?

Precisa de acordo político, do entendimento político. Nós estávamos caminhando para uma trajetória muito boa, sem modificar muito a ideia original. Agora nós estamos só falando em idade mínima e em tempo de contribuição. É alguma coisa, mas nós não vamos manter a solvência da previdência só com essas regras.

Por exemplo, você tem 65 anos pra homem e 63 pra mulher, com 25 anos de contribuição. Na aposentadoria rural é 60 pro homem, 55 pra mulher, com 15 anos de contribuição. É o que se pode fazer, mas não é o ideal.

Acredito que a reforma da previdência passe, se não integralmente, mas parcialmente. Pelo menos idade mínima e tempo de contribuição. Daqui a seis anos vamos ter outra reforma, outro ajuste. Vamos adaptando e reformulando durante um tempo, como a economia chinesa, que foram 30 anos reformando para chegar ao que é hoje.

O senhor acha que será necessário aumentar o tempo de contribuição para se aposentar?

Eu acho pouco 25 anos de contribuição. Eu estou com 68 anos, ainda ativo. Não quero parar de trabalhar. Eu nunca pensei em me aposentar e vou continuar dessa maneira. Então, quando você estimula a aposentadoria, você para de ser uma pessoa laboral ativa. Não vai se formar, não vai se preocupar com sua educação.

Hoje a sociedade está preocupada com a educação “padrão Fifa” porque sabe que o futuro não está certo pra ela. A sociedade vai entender esse jogo. É como se pensasse: ‘Eu tenho o risco. Ninguém me assegura o futuro se eu não tiver uma educação melhor’. Então, hoje, toda a população brasileira está buscando ser melhor qualificada para enfrentar o futuro.

Tem muito benefício que precisa ser removido, como por exemplo, o Benefício de Prestação Continuada. Você pode se encostar nele sem ter um acidente grave, porque ninguém vai fazer fiscalização. Não tem fiscal de saúde pública para avaliar se você realmente quebrou o pé, se não pode mais andar e realmente não pode trabalhar. Não tem fiscal suficiente para toda essa multidão de gente.

O senhor falou sobre parceria entre empregado e empregador, mas temos milhares de denúncias trabalhistas atualmente. Como a reforma trabalhista vai garantir mais equidade na relação entre patrão e funcionário?

A legislação trabalhista atual não permite parceria. É uma relação frágil, que não tem apoio jurídico para isso. O trabalho temporal ou intermitente não existe, então o empresário acaba pagando por fora, trata informalmente. Aí o trabalhador entra com uma denúncia contra você e prova que trabalhou. É muito frágil porque o empregador fez uma coisa fora da lei, fora do contrato de trabalho. Sem regra, o patrão está vulnerável.

Em que consiste o projeto Desafios da Nação, que o Ipea pretende transformar em lei?

O eixo central do projeto de desenvolvimento da nação é aumentar a produtividade brasileira, ou seja, melhorar a qualidade de mão de obra. A partir disso, criar emprego é uma decorrência. Por exemplo, eu tenho estabilidade, uma base segura, tenho juros baixos, inflação baixa. Então, é crescer com oportunidade.

Existem 18 temas e cada um tem 10 ou 15 proposições. Se essas propostas forem implementadas, eu asseguro dobrar a renda per capita, absorver tecnologias estruturantes e a inclusão da sociedade nesse processo.

Não é um projeto do governo Temer. Ele está inaugurando e vai transformar em uma lei nacional. Os próximos governos já terão um plano para voar.

O projeto funciona sem a aprovação das reformas?

Não. O chão disso tudo são as reformas. Sem elas, é apenas um sonho porque eu não tenho plataforma para esse projeto decolar.

Para ter estabilidade de capital, eu preciso da reforma da previdência. E para diminuir o custo de produção, eu preciso da reforma tributária e da reforma trabalhista. Sem esses custos caírem, eu não tenho como me tornar produtivo, competitivo.

O plano de desenvolvimento da nação está vinculado à velocidade do crescimento. Crescer por crescer não nos garante nada. Sem as reformas, eu só cresço, mas não tenho velocidade. Na situação atual, será possível dobrar a renda per capita daqui a 60, 80 anos. Com as reformas, eu posso dobrar a renda per capita em 20 anos.

Quando esse projeto vai ser apresentado?

Eu disse para o presidente que isso não é um projeto do Temer. É um projeto de Estado. Então, considerando que até setembro as reformas estarão aprovadas, já apresentamos a primeira parte. 

É permitida a reprodução deste conteúdo (matéria) desde que um link seja apontado para a fonte!

Compartilhar no
Por: Nayara Felizardo

Deixe seu comentário