Barragem de Castelo inundará sítios arqueológicos da região

A segunda maior obra hídrica do Estado esperada há mais de duas décadas causará impactos ambientais e históricos irreparáveis para o Piauí

19/05/2013 08:42h - Atualizado em 19/05/2013 11:02h

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A maior obra hídrica do Piauí, depois da construção da Barragem de Boa Esperança, em Guadalupe, já está autorizada. Em fase de licitação, a Barragem de Castelo, que será o segundo maior lago a ser formado no estado, cujas instalações irão abranger os municípios de Castelo do Piauí e Juazeiro, trará benefícios para pelo menos oito municípios. Entretanto, a construção além de impactar o meio ambiente, fauna e flora características da região, também ocasionará a perda de sítios arqueológicos. 

A informação já foi constatada há alguns anos, quando o Núcleo de Antropologia Pré-Histórica da Universidade Federal do Piauí (NAP-Ufpi) constatou que a obra iria deixar submerso inúmeros sítios arqueológicos de pinturas e gravuras rupestres, que sequer foram datados. O estudo, realizado há mais de cinco anos, já discutia a construção da barragem. 

De acordo com a pesquisadora Conceição Lage, existem pelo menos 200 sítios arqueológicos na região de Castelo do Piauí, Juazeiro e Buriti dos Montes, sem falar no cânion do Rio Poti e de inúmeras cachoeiras e formações rochosas que ficaram submersas. €œSão pinturas e gravuras rupestres que ainda não foram estudadas mais profundamente e nem datadas, apenas cadastradas. Mas algumas teses de mestrados já estão recaindo seus olhares sobre a região€, disse. 

‰ fato que com a construção da barragem, boa parte desses sítios vai ficar submersa. €œIsto representa uma perda para Arqueologia muito grande e para a sociedade de um modo geral, sem falar que o estudo apontou que até a Pedra de Castelo poderia ficar ilhada. Mas eu acredito que dá para equilibrar a obra à preservação da história, o que não é possível é que se destrua antes de se estudar, porque são dados irrecuperáveis€, pondera Lage. 

Para a pesquisadora, há a necessidade de um estudo exaustivo na área, a fim de que se possa adaptar ao máximo o projeto da Barragem de Castelo à preservação dos sítios arqueológicos e riquezas naturais. €œNão são apenas sítios que serão perdidos, têm-se muitas cachoeiras e formações rochosas que serão submersas, o que é uma pena, pois a região tem potencial para a criação de parques municipais, estaduais e até mesmo nacional€, avalia. 

Gravuras: Covão do Jaburu ficará submerso

A equipe de reportagem do Jornal O DIA foi até os municípios de Castelo do Piauí e Juazeiro para conhecer a área onde será construída a mais nova barragem do estado. Acompanhados do coordenador de Turismo de Castelo, Robson Lima, e do assessor municipal de Juazeiro, Ezequiel Lima, o O DIA visitou o sítio arqueológico batizado de Covão do Jaburu, situado no povoado Aroeira,município de Juazeiro. Este sítio, que fica as margens de um riacho com quedas d€™água, ficará submerso após as obras da barragem. 

No Covão do Jaburu é possível observar inúmeras gravuras rupestres. São imagens que estão ao alcance das mãos, sem nenhum equipamento de proteção para preservá-las, expostas ao sol e à chuva, mas que ainda estão nítidas e apresentam parte da história do povo piauiense. As gravuras mais recorrentes assemelham-se com bolinhas, dispostas lado a lado e uma embaixo da outra. €œTalvez fosse um sistema de contagem deles€, especula Robson Lima.

O coordenador de Turismo de Castelo explica a diferença entre gravuras rupestres, como as encontradas no Covão do Jaburu, e as pinturas dispostas, por exemplo, na própria Pedra de Castelo. €œAs gravuras são encontradas em terrenos de baixo relevo, próximas a rios e riachos, cujas gravações foram feitas com ferramentas de pedra mais resistentes que aquelas em que foram gravadas. Já as pinturas utilizam pigmentos e óleos vegetais e são mais facilmente encontradas dentro de cavernas e em estruturas rochosas€, diferencia. 

De acordo com Robson Lima, parte da área física do Parque Municipal da Pedra do Castelo, que compreende em sua totalidade mais de 260 hectares, também ficará submersa. €œApesar dessa cessão, o acesso a Pedra não será prejudicado€, garante o coordenador de Turismo acrescentando que a construção da barragem deve €œdar vida nova ao parque e incrementar ainda mais a visitação€.

População dividida sobre aspectos positivos e negativos da obra

Conceição Lage afirma que pelo menos 200 sítios arqueológicos da região, cânion do Poti e cachoeiras podem ficar submersos

Nas formações rochosas é possível perceber gravuras rupestres que se assemelham a bolinhas, dispostas lado a lado e uma embaixo da outra; região pode desaparecer


Confira a reportagem na íntegra na edição do Jornal O DIA deste domingo (19). 

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Por: Virgiane Passos - Jornal O DIA

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