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Boston: mescla do histórico e do moderno

Capital do Estado de Massachusetts figura como a maior cidade da zona de Nova Inglaterra como extenso centro financeiro, comercial, industrial e universitário

25/11/2018 08:00h - Atualizado em 27/11/2018 10:15h

Retornar aos Estados Unidos da América para conhecer mais um pedacinho de seu território e um pouquinho mais de sua gente é sempre revigorante. Nenhuma exaltação aos EUA. Visitar ou revisitar a América (como insiste uma amiga querida em nomear esse país) permite acreditar que o povo norte-americano ainda consegue viver sem o medo como companheiro contumaz. Sem que represente eldorado, devido à onda crescente do terrorismo, com facetas imprevisíveis, como a recente entrega de 14 cartas-bombas endereçadas a autoridades e personalidades do país; atentados sistemáticos, como o ocorrido ao final deste outubro numa sinagoga, com o saldo de 11 mortos; e a ação de serial killers, incluindo assassinatos em escolas, colleges e universidades; nos EUA, a justiça é cercada por credibilidade e há a certeza quase inabalável de que os aparatos policiais existem em prol da população. 

Desta vez, meu “alvo” é Boston, capital do Estado de Massachusetts. Com área total de 232,16 km², a 22ª cidade mais populosa dos EUA, localizada no Condado de Suffolk, do qual é sede, possui quase 650 mil habitantes, com a região metropolitana, Greater Boston, 11,683 km², abrigando mais de sete milhões de cidadãos. Apesar da tentativa anunciada e insistente do “atípico” presidente norte-americano, Donald Trump, em erguer um muro entre os EUA e México para salvaguardar “suas” terras, indiferente ao desespero dos bandos de imigrantes que clamam por uma acolhida e uma pátria para chamar de “sua”, Boston é uma sociedade notadamente multicultural, sem que o nacionalismo exacerbado do povo norte-americano fique atrás. Além dos mexicanos, do grande bairro italiano de North End (ou Little Italy) e da Chinatown, há gente de toda parte por quaisquer de seus recantos, como japoneses, coreanos e sul-americanos, incluindo muitos brasileiros. 

Sem intuito de explorar sua evolução, ainda que dados históricos apareçam aqui e ali, acresço que Boston foi fundada por imigrantes puritanos (ingleses), que chegam à Baía de Massachusetts, no ano 1630. Hoje, figura como a maior cidade da zona de Nova Inglaterra como extenso centro financeiro, comercial, industrial e universitário e, portanto, como principal centro cultural da América Anglo-Saxônica. Consiste num dos principais polos educacionais do país, com instituições de ensino superior, tais como os famosos Massachusetts Institute of Technology e Harvard University, ambos situados na vizinha Cambridge, distante um pouco mais de cinco mil quilômetros do centro de Boston. São fatos que envaidecem os nativos, trazendo para a cidade cognomes, dentre muitos outros, como The hub of the universe (O núcleo do universo) e The Athens of America (A Atenas da América), sugerindo, nos dois casos, a supremacia da cultura elevada de Boston, desde sempre, com vida literária e artística intensas.


Pontos de visitação

É simplesmente encantador caminhar por suas centenas de parques, praças, jardins (Boston Public Garden, por exemplo), templos de diferentes credos, monumentos, prédios históricos, bibliotecas e museus durante o Boston outonal, em meio a árvores coloridas do vermelho-alaranjado-amarelado de ferrugem, o que justifica o apodo The walking city (A cidade andante), em meio à invejável segurança pública, em que pese a presença constante dos chamados homeless. Dentre os museus, destaque para o Museum of Fine Arts; Harvard Museum of Natural History; e Isabella Stewart Gardner Museum. Este está no charmoso bairro Fenway-Kenmore e preserva preciosa coleção de arte, com exemplares de pinturas, esculturas, tapeçarias, peças decorativas, etc., de origem europeia, asiática e norte-americana. Em se tratando das igrejas, é impossível não notar sua atuação para defender os animais e abrigar imigrantes e fortalecer minorias, como moradores de rua, negros e gays, com banners de acolhimento e de amor estendidos em suas fachadas. 

Além da faixa de terra de 125,04 km², há a presença de águas maravilhosas (107,12 km²): tão prazeroso quanto sentar num dia de sol nos gramados da cidade é dar uma volta ao longo do Harbor Walk. Seguindo o percurso do Charles River e do Porto de Boston, a pista apresenta incríveis cenários. O trecho conhecido como Long Wharf, atrás do Faneuil Hall, oferece trajetos em barcos e, ao entardecer, chegar ao Porto de Boston é algo realmente incrível.


Turista ou viageiro

É recomendável visitar os 18 pontos turísticos centrais, totalmente a pé, num ritmo tranquilo, de mais ou menos um dia, o que não impede o retorno aos lugares mais atraentes ou o uso do excelente transporte público, com ônibus e metrôs seguros e limpos. Na realidade, o turismo a pé é “oficial”. Criado no ano de 1950, o percurso conhecido como Freedom Trail inicia-se no Boston Common, o parque público mais antigo do país, de onde saem excursões guiadas e grátis, que levam os visitantes aos 18 marcos, a maioria deles de feição histórica e decisiva para a Revolução Americana.

Surpreende frequentar os lugares onde Benjamin Franklin (um dos líderes da Revolução Americana e cujas epígrafes rodam o mundo até hoje); Samuel Adams (um dos fundadores dos EUA e, também, Governador de Massachusetts); e Paul Revere, um dos patriotas da Guerra da Independência, se organizaram para conquistar a independência das 13 colônias e darem origem à potência americana. Tais fatos justificam novas alcunhas, como The cradle of liberty (O berço da liberdade) ou The cradle of Modern America (O Berço da América Moderna). Ao longo de visitas e revisitas, o indivíduo é guiado por uma trilha vermelha no chão, que percorre grande parte da cidade. Às vezes, a linha demarcada da Trilha da Liberdade, mais ou menos quatro quilômetros, apresenta-se em tijolos; noutras, é tão somente uma pintura no asfalto. Cada ponto histórico é identificado por meio de uma insígnia no chão. 

Tudo em Boston é interessante e instigante, face à versatilidade da capital, que mistura o histórico e o moderno. Neste caso, está a audaciosa construção do Big Dig, concluído em 2016, após 12 anos: são várias interestaduais transferidas de vias expressas de superfície para túneis de até 10 pistas. Por outro lado, cada um dos pontos de visitação requer informações prévias para que você deixe o status de mero turista (alheio ao pulsar da sociedade local) para se trasvestir em viageiro, termo que uso, com frequência, para nomear quem anseia vivenciar as experiências da gente local. 


A riqueza do multiculturalismo

Em minha opinião, tão somente enfrentar novas ondas climáticas e vagar por recantos antes nunca vistos ajuda a vencer a melancolia que nos engole dia a dia. No entanto, a quem insiste em me perguntar qual a nação que mais me fascina, respondo sem titubear: não visito simplesmente territórios ou fronteiras. Tento conhecer civilizações diferentes. Tento estabelecer alguma forma de interação com os nativos, mediante excessiva curiosidade, observação cuidadosa, andar lento e perguntas plenas e longas. Por tudo isso, não consigo eleger o país preferido (meu Brasil segue à frente), mas tento explorar e guardar na memória a beleza natural do local e as excentricidades dos povos. Acredito ser vital para qualquer um conviver com outras tradições como estratégia para compreender o outro e aprender a respeitar e a viver em meio às diversidades subjacentes às coletividades. Deliciam-me as singularidades das tribos, embora, paradoxalmente, o homem, onde quer que esteja, assemelhe-se em sua essência: alegria e tristeza; alento e desalento; altruísmo e egoísmo; bondade e maldade; amor e desamor. 


A beleza de Salem

Resta-me, portanto, enaltecer o amor, a tolerância e a complacência que deveriam pairar entre as pessoas perdidas na vastidão dos continentes, ciente de que há chances de sobrevivência e de vivência para todos, sem que seja necessário adotar o Halloween como festa nacional brasileira. Refiro-me à charmosa Salem (ou Cidade das bruxas), a 25 quilômetros de Boston, que está no patamar dos lugares afamados dos EUA quando, no longínquo janeiro de 1692, 19 assassinatos de inocentes acusados de bruxaria, deram origem à “caça às bruxas” na cidade. Se quase nada resta desse período, apenas um museu da época – The Witch House – e alguns outros, instalados para rota turística, andar a pé em suas ruas permite reviver o ano todo a magia do Halloween, oficialmente, celebrado, em 31 de outubro. Trata-se de data que naquele país constitui verdadeira “febre.” São bruxas, porções mágicas, caveiras, dragões, múmias por toda parte, o que fazem de Halem um lugar mágico, misterioso e sedutor! 




*Maria das Graças Targino é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

Por: Maria das Graças Targino

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