'RoboCop' de Padilha tem herói sem empatia

Robô policial deixa máquina de lado e se foca em tipo 'Homem de ferro'. Novo 'RoboCop' estreia no Brasil no dia 21.

14/02/2014 17:32h

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Cena de 'RoboCop' (Foto: Divulgação)

O novo "RoboCop", filme dirigido pelo brasileiro José Padilha ("Tropa de elite") que estreia no Brasil no dia 21, traz um robô policial diferente daquele popularizado na década de 1980. Sai a máquina com lapsos (sinceros) de humanidade, mesmo que em um cenário satírico e "demodé", e entra um oficial consciente do seu aspecto robótico, mas que parece mais um supersoldado do tipo "Homem de ferro". O resultado é um filme de ação com um ciborgue pouco inspirado, e que insiste em uma crise armamentícia mundial talvez exagerada.

Quando foi lançado em 1987, o "RoboCop" original vislumbrava uma Detroit tomada pelo crime e com sua força policial sucateada. É nessa perspectiva de desespero que surge o robô policial, o alento de uma cidade sitiada. Trazido de volta à vida, Alex Murphy encarna um ciborgue de movimentos rígidos, que chega a ter ares de pastelão, mas que ganha força na cena do seu sonho, quando memórias de sua vida passada são relembradas intensamente.

Já em 2014, Murphy (Joel Kinnaman) não morreu e é integrado a um corpo moderno, com habilidades que o primeiro RoboCop nunca imaginaria ter. Desde o princípio consciente de sua simbiose, porém, o policial não passa de um subterfúgio da megacorporação Omnicorp, um dos aspectos remanescentes da série original, e sofre com a falta de carisma.

A empresa produz robôs militares para o mundo todo com exceção dos Estados Unidos, curiosamente retratados como um país pacífico e regido por uma lei anti-máquinas. CEO da Omnicorp, Raymond Sellars – interpretado por um Michael Keaton assemelhado a Steve Jobs, cofundador da Apple – decide então produzir um robô que tenha a aparência de um ser humano. Surge RoboCop.

No entanto, essa necessidade de contextualizar o filme em uma temática político-militar – prática cada vez mais comum em "reboots" – atrapalha seu desempenho. Assim como na refilmagem de "O vingador do futuro" (2012), outra película do diretor holandês Paul Verhoeven, "RoboCop" é vagoroso e acaba devendo em personalidade quando precisa prestar contas a grandes problemáticas. Talvez o personagem não tenha de carregar a responsabilidade de falar sobre drones, organismos cibernéticos e paramilitarismo, apesar da importância dos assuntos.

Enquanto o robô original não tinha mais nada a perder e apresentava apenas resquícios de sua antiga vida, o RoboCop de 2014 sustenta família, emoções, desejos, medo. Nenhum dos pontos ganha aprofundamento suficiente já que, assim como no primeiro filme, a versão humana de Murphy tem pouco tempo de tela, o que torna vagoroso o ritmo da produção até cerca de uma hora de exibição.

Só quando o Doutor Dennett Norton (Gary Oldman) está prestes a apresentar sua criação ao mundo – logo depois de ele descontruir "ipsis litteris" o corpo de RoboCop, uma das poucas cenas de apelo dramático – é que o filme ganha mais chão.

A humanidade do robô é interrompida bruscamente, e o público consegue tomar ciência das implicações da fusão entre homem e máquina. Kinnaman, que até então vacilava em um RoboCop "artificial" demais, finalmente se vê livre dos clichês de um mocinho injustiçado e se transforma em um aparato de guerra descerebrada, o suprassumo da eficácia.

Sem grandes ambições, o "RoboCop" de 1987 parodiava a realidade consumista dos EUA e brincava com a possibilidade assustadora, mas na época ainda distante, de existirem robôs vigilantes. Já o filme deste ano, interessado em discussões mais atuais, acaba querendo falar demais em pouco tempo. 

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Fonte: Globo.com

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