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Escritores e colegas lamentam a morte de Carlos Heitor Cony

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Marco Lucchesi, presidente da Academia Brasileira de Letras, afirmou que "nós perdemos uma escola e eu perco um amigo".

06/01/2018 13:42h - Atualizado em 06/01/2018 13:55h

O escritor Carlos Heitor Cony morreu nesta sexta-feira (5) às 23h, aos 91 anos. Ele estava internado no Hospital Samaritano e morreu após falência de múltiplos órgãos.

Escritores e colegas lamentaram a sua morte.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, Marco Lucchesi, presidente da Academia Brasileira de Letras, afirmou que "nós perdemos uma escola e eu perco um amigo".

O jornalista e escritor Carlos Heitor Cony (Foto: Mauro Pimentel / Arquivo Folhapress)

Para Lucchesi, "Cony era corajoso e livre, que é o que precisamos no Brasil de hoje. Era um homem incapturável, de uma liberdade intensa na escrita e na visão do país. Não havia tendência que o capturasse. A literatura de Cony é, em si mesmo, um continente: são muitas geografias e climas que habitam a obra dele. Vai fazer muita falta, porque não ficou preso a sua própria geração."

Arnaldo Niskier, membro da ABL, lembrou um episódio em que o cardeal Dom Lucas Moreira Neves tentou convencer Cony a recuperar sua fé cristã.

"Estávamos num almoço com o cardeal numa visita ao Vaticano, quando Dom Lucas Neves me pediu para conversar a sós com Cony. Depois ele me contou que o cardeal queria que ele voltasse para a igreja, recuperasse a fé, coisa que ele tinha perdido completamente", afirmou Niskier.

Niskier, que o recebeu na ABL em 2000, afirmou que o livro "Quase memória" é "uma lição de literatura". "É um exemplo de como se deve fazer um romance, num espaço reduzido. Ele [o livro] diz tudo", afirmou.

Nelida Piñon, escritora e integrante da ABL, acredita que o escritor "deixa a marca de seu talento da generosidade".

"Ao longo de sua ascensional trajetória, houve um hiato muito grande durante o qual ele deixou a literatura, repudiou a literatura, disse que nunca mais ia escrever. Mas quando ele volta com o "Quase Memória", ele tem o privilégio de completar um ciclo. Quando se completa um ciclo, há uma avaliação mais complexa. Hoje nós o vemos como um brasileiro participante, um enorme jornalista, mas sobretudo um grande escritor"

Para a crítica literária, Beatriz Resende, classifica o escritor como "homem muito valente" que deixa "grandes romances" que "marcam momentos da literatura brasileira".

"Seus primeiros livros marcaram uma vertente existencialista que não havia até então no Brasil: era uma coisa muito europeia. São livros muito bonitos. Em 'Quase Memória', ele volta com uma força muito grande, é um livro muito original", disse.

"Além de grande escritor, ele foi um intelectual importante para várias gerações. Era um polemista, mas que sempre buscava muito diálogo. Não tinha medo da política, e sofreu muito. Foi extremamente perseguido e preso várias vezes."

"Um dos autores que realmente faz a literatura brasileira contemporânea", disse Domício Proença Filho, membro da ABL.

"A academia vai sentir falta de Cony e o Brasil também. Há duas semanas estávamos juntos em um almoço em homenagem a ele, ele estava muito bem. É sempre dolorido, a gente nunca se conforma e sente saudade do amigo", lamentou.

O cartunista brasileiro Jaguar relembrou a época em que trabalhava com Cony.

"Quando houve prisão dos 14 do "Pasquim", o Henfil, o Millor e os jornalistas que ficaram de fora ficaram lá fazendo o jornal durante nossa ausência. Achei ótimo, foi o período mais tranquilo da minha vida. Não fomos torturados e não tive que fechar o jornal! Ele falava algo que eu também dizia: 'A única tortura que a gente teve foi ter que conversar com aqueles caras e conviver forçadamente com eles'."

"Era uma pessoa muito curiosa de se lidar porque, embora dissesse que era um pessimista, ele era um otimista", contou o ensaísta e membro da ABL à Folha de S.Paulo.

"Ele costumava dizer na sessão da ABL quando estávamos conversando, durante o chá: 'Eu sou um acadêmico terminal, podem contar com a minha vaga'. Por anos ele fez essa brincadeira conosco. Ele não foi apenas um grande escritor: ele deixou um livro ["Quase Memória"] cuja eternidade está garantida e que é uma obra-prima. É um dos livros mais brilhantes, profundos e bem escritos da língua portuguesa. A concepção dele, sua mistura de romance e autobiografia é admirável"

Nas redes sociais, colegas também lamentaram a perda de Cony. Fafá de Belem postou na conta oficial do seu Instagram uma foto do escritor e escreveu "Grande jornalista, cronista, romancista e brasileiro".

Sérgio Augusto, jornalista e escritor brasileiro, disse: "Velho companheiro de redação e um dos maiores escritores brasileiros da segunda metade do século passado. Já seria um dos grandes se tivesse escrito apenas 'Pessach' e 'Quase Memória'."

No Facebook, Fabrício Carpinejar, poeta e cronista brasileiro prestou homenagem a Cony. "'Amanhã farei grandes coisas', é assim que o jornalista Ernesto pai se despedia do seu filho Carlos Heitor Cony, na hora de dormir, depois de um dia de trabalho. Você fez grandes coisas, escritor Cony, maravilhosos romances, crônicas límpidas, assim você se despede da gente, com a esperança bem vivida."

Marcelo Rubens Paiva se despediu do escritor.

"Arrivedderci, Cony. Muito bom ter te lido, te conhecido, papeado longamente. Nosso ultimo encontro ano passado foi tao frutifero, que te fiz personagem do roteiro que escrevi. Você é eterno como Pompeia."

Fonte: Folhapress

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