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Sebastião Nery

Histórias de JK

Juscelino Kubitschek, José Maria Alkmin e Odilon Behrens saíram juntos do seminário de Diamantina

15/04/2019 09:00h

RIO – Juscelino Kubitschek, José Maria Alkmin e Odilon Behrens saíram juntos do seminário de Diamantina, continuaram estudando juntos, farreando juntos. Uma noite, havia uma festa na cidade, entrada paga. As namoradas iam, precisavam ir. Mas não tinham um tostão. Alkmin resolveu o problema:

- Vamos vender a alguém uma de nossa camisas.

Encontraram o comprador, mandaram passar uma camisa de

Juscelino, enrolaram, disseram que era nova, pegaram o dinheiro, foram para a festa. No dia seguinte, o comprador chegou uma fera:

- A camisa não era nova, estava gasta, rasgou logo.

Juscelino tomou a palavra:

- Meu amigo, aonde você foi?

- A um baile.

- Dançou o quê?

- Tudo. Bolero, samba.

- Então a culpa foi sua. Esta camisa é muito fina, só para dançar valsa.

Candidato a presidente, JK saiu pelo país visitando o PSD. Desceu na

Bahia. Antonio Balbino, governador do PSD, ainda estava em cima do muro:

- Qual é a verdadeira posição do Café?

- Qual deles, Balbino? O vegetal ou o animal?

Foi para Pernambuco. Etelvino insistia:

- Juscelino, vamos rever o assunto e fazer uma união nacional.

- Etelvino, já sei que você está contra mim. Quando você fala em união

Nacional, na verdade está pensando em União Democrática Nacional.

- Então você não quer a união?

- Ora, Etelvino, candidato não faz união. Candidato disputa. Quem faz união é governo, depois de empossado.

E voltou para Minas. Em 31 de dezembro, o chefe da Casa Militar da Presidência da República, Juarez Távora (depois candidato da UDN, derrotado por Juscelino), entregou a Café Filho um documento que “as altas autoridades militares apelavam para uma colaboração interpartidária, um candidato único e civil”.

O documento só foi divulgado no dia 27 de janeiro, em “A Voz do Brasil”. Juscelino respondeu com um discurso duro, escrito por Augusto Frederico Schmidt, que terminava com a frase magistral:

- Deus me poupou o sentimento do medo.

No avião, Juscelino era um personagem de romance: um “piloto de guerra”. Suas histórias aéreas matavam de medo os companheiros da campanha e, depois, do governo. Para ele, avião era para voar e acabou-se.

Uma noite, na campanha, ia descer o interior do Rio Grande do Sul.

As luzes da cidade apagaram-se, o campo não tinha pista iluminada, o piloto quis voltar para Porto Alegre. Juscelino ordenou:

- Pode descer. Deus é juscelinista.

Desceram. Era.

Outra vez, voaram sobre a Amazônia. Pegaram uma tempestade terrível.

Raios, trovões. O avião pinoteando no ar, como pipa, os líderes do PSD e PTB apavorados, de olhos fechados, duros, rezavam, suavam. JK sorriu:

- Vou dormir um pouco.

Ninguém acreditou. Um mais incrédulo levantou-se, foi lá atrás, puxou a

cortina da pequena cabine presidencial privativa, Juscelino dormia e roncava.

Outra tarde, voltava de Salvador, anoiteceu sobre Caravelas, mas queria, precisava chegar ao Rio. O piloto avisou:

- Governador, o combustível está acabando. Pode ser que não dê para chegar ao Rio.

Vieira de Melo, Getúlio Moura, Alkmin, João Goulart, apavorados, queriam descer em Caravelas. JK insistiu:

- Vamos. Lá a gente vê se deu.

Deu.

Exilado em Paris pela violência gratuita e histérica do golpe de 1964,

Juscelino saiu uma tarde dirigindo seu carro e curtindo saudades do Brasil, numa conversa longa com seu velho amigo e secretario Olavo Drummond.

Chega à Place Vandômme, estaciona em um lugar proibido. O guarda logo aparece, alto e posudo, com seu bonezinho à De Gaulle:

- A licença (carteira) de motorista, por favor.

Entregou. O guarda posudo e alto confere:

- Oh, senhor Kubitschek? Parente do grande presidente Kubitschek, do

Brasil?

- Sou eu.

- O senhor, o próprio presidente Kubitscheck?

Já estava abrindo a porta:

- Presidente, por favor, dê-me a chave do seu carro. Eu mesmo vou

estacioná-lo. É uma honra para a França ter o senhor como seu hóspede. Aqui, apesar de exilado, o senhor continua presidente como sei que continua presidente lá.

Juscelino entregou a chave, pôs a mão no ombro de Olavo e chorou.


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