• Curta Doar
  • Teresina 167 anos
  • Casa dos salgados
  • Novo app Jornal O Dia

Notícias Sebastião Nery

29 de abril de 2019

O vice exemplar

O vice exemplar

Sebastião Nery - Jornalista

Era um rapaz magricela, calva longa e olhar triste de seminarista de castigo, as mãos soltas  na ponta dos punhos, como balões vazios, e um pescoço longo, muito longo entre Modigliani e o gogó da ema da praia de Pajuçara em Maceió. Duas vezes vi Marco Maciel, presidente da Câmara, em pânico, na crise de abril de 1977. Quando Francelino Pereira chegou ao Planalto dizendo que a situação era gravíssima, foi ao gabinete dele, trancaram-se. Lá de fora, pela vidraça, vi Marco Maciel bater as mãos na mesa, esmurrar os joelhos, pular na cadeira como numa sela de potro bravo. Depois, foi na volta do encontro com o Presidente, quando lhe foi comunicado o recesso do Congresso, estava pálido, lívido, o rosto como cera, e o suor correndo fino pelas têmporas. Quando Célio Borja, sibilino e cortês, lhe passou a presidência da Câmara, abraçou-o:

Eu quero que Deus o preteja. Marco.

E tem protegido!

Mendes de Barros, ex-deputado, candidato do MDB ao Senado em 1970 e Richelieu da oposição de Alagoas, organizou na Assembleia Legislativa um Círculo de Estudos Políticos com Teotônio Vilela, Marco Maciel, Divaldo Suruagy, Marcos Freire Carlos Castelo Branco, Carlos Chagas e outros.

No dia em que Marco Maciel chegou a Maceió, Mendes de Barros estava doente. Guilherme Palmeira, candidato da Arena ao Governo e amigo dos dois, levou Marco para visitar Mendes. Tocam a campainha, o filho de Mendes, Antonio, vê Marco com seus quase dois metros de magreza e finura, corre até o quarto:

Painho, o mapa do Chile está aí com o Guilherme.

Marco Maciel, Guilherme Palmeira e Jorge Bornhausen, senadores do PDS, começaram a reunir-se, em 1984, para organizar a Frente Liberal, uma dissidência do  PDS destinada a apoiar a candidatura de Tancredo  Neves a presidente da República, contra Paulo Maluf. 

Aureliano Chaves, vice-presidente de Figueiredo, logo assumiu a liderança do grupo. Um dia, marcaram uma reunião com Ulysses Guimarães para discutirem a formação da Ação Democrática, a aliança do PMDB com a Frente Liberal. Quando Ulysses chegou, tomou um susto. Aureliano tinha levado um gravador e posto sobre a mesa, ligado. Era o Juruna mineiro.

Mais no fim do ano, antes de o Colégio Eleitoral reunir-se, em janeiro, a Frente Liberal, já formada, fez uma reunião para acertar quem iriam propor a Tancredo como vice-presidente e quais ministérios iriam reivindicar.

Marco Maciel, o primeiro sugerido pelo grupo, dizia que não queria ser vice. Não convencia muito, Sarney, o segundo, também dizia, mas não convencia nada. Resolveram tratar antes dos ministérios. Marco Maciel propôs pedirem primeiro o da Educação. Sarney foi contra. Era um “abacaxi”, cheio de armadilhas, professores reivindicando e estudantes fazendo greves.

Preferia o da Previdência, que “tinha recursos e bandeiras sociais”. Marco não concordava, o debate continuava.

De repente, Sarney saiu para ir ao banheiro. Palmeira foi atrás. Enquanto Sarney fazia xixi, Palmeira encostado na porta, catequizava:

Sarney, o Marco quer a Educação para ele, é o sonho dele. E é a única maneira de você ser o vice.

Sarney voltou rápido e defendeu o ministério da Educação. Para Marco Maciel. E a vice caiu sobre a cabeça de Sarney como uma tonsura. Sarney saiu para vice, Marco Maciel para a Educação e Aureliano para Minas e Energia. Sarney foi feito vice-presidente em um xixi do PFL.


Foto: Roosevelt Pinheiro / Agência Senado

22 de abril de 2019

Orgulho mineiro

Augusto de Lima Júnior, historiador e filho de avenida em Belo Horizonte, criou a Medalha da Inconfidência, e Juscelino o nomeou Chanceler perpétuo

RIO – Augusto de Lima Júnior, historiador e filho de avenida em Belo Horizonte (o pai foi um dos patriarcas mineiros), criou a Medalha da Inconfidência, e Juscelino o nomeou Chanceler perpétuo. O governador só dava a medalha a quem Liminha aprovava.

Bias Fortes chegou ao governo, queria dar a Medalha de Tiradentes à sogra. Augusto de Lima Júnior protestou, não adiantou nada. Bias assinou o ato, Liminha pediu demissão e no dia seguinte O Estado de

Minas publicava longa carta do chanceler demissionário, com o seguinte título: “Parir mulher de governador não dá direito a medalha”.

Morreu a mulher de Augusto de Lima Júnior. Alkmin não foi ao enterro, não telefonou, não telegrafou, não foi à missa de sétimo dia, não deu sinal de vida. E eram amigos íntimo de longa data. Liminha ficou indignado, nunca mais procurou Alkmin.

Uma tarde, encontram-se em Belo Horizonte, rua da Bahia, na Livraria Itatiaia.

- Como vai, meu caríssimo Lima?

- Vou bem. Até logo.

- Espere. Por que a pressa? Noto que você esta triste. O que é que significa essa gravata preta? Morreu alguém próximo?

- Morreu sim, Alkmin. Morreu minha mulher.

- Não me diga. Eu não sabia. Meus pêsames.

- Ela deixou essa vida com nojo dos homens, cada dia mais canalhas. Cada dia mais canalhas, Alkmin, até logo.

- É isso mesmo, Lima. A vida não está mais para gente como nós. A vida hoje é só mesmo para os canalhas. Gente como nós já não tem por que viver.

E abraçou Liminha, lágrimas nos olhos.

Augusto de Lima Júnior gostava muito de fazer discurso. Em 40, Getúlio o nomeou ministro Plenipotenciário do Brasil durante as solenidades de mais um centenário da independência de Portugal.

Liminha chegou lá de discurso no bolso, feliz com a história e a retórica. No dia seguinte, chega João Neves da Fontoura, ministro do Exterior, acompanhado de ilustre comitiva, e anuncia que vai falar em nome do Brasil. Liminha enlouqueceu. À noite, poucos instantes antes da solenidade, telefona para o hotel, diz a João Neves que chegou à embaixada um telegrama urgente do Brasil para ele.

João Neves corre para lá, tranca-se numa sala com Liminha para ler o telegrama, não havia telegrama nenhum. Quando João Neves começa a reclamar da brincadeira, Liminha sai, fecha a sala por fora. Os

funcionários haviam saído, João Neves fica preso. Liminha vai à solenidade, lê seu discurso, tranquilo e orgulhoso.

Mal acaba, chega João Neves, suado, zangado, indignado, e, por cima, mentindo, pedindo desculpas às autoridades portuguesas pelo equívoco quanto ao horário, que o fez atrasar-se.

Voltou ao Rio, foi queixar-se a Getúlio. Getúlio caiu na gargalhada:

- E você não sabia que o Liminha é maluco?

Artur Bernardes, que governou Minas e sitiou o País durante quatro anos, cunhou a frase clássica: “Para os correligionários, tudo. Para os adversários, a lei, quando possível”.

Em 1918, Bernardes assumiu o governo mineiro e começou a demitir o outro lado. Era diretor da Imprensa Oficial o velho Augusto de Lima, adversário de Bernardes. Bernardes não quis demiti-lo logo e

mandou um amigo conversar, para que ele pedisse demissão. O homem chegou lá sem jeito:

- Dr. Augusto de Lima, como o senhor sabe, o Dr. Artur Bernardes...

- Já sei, já sei.

- Vou falar logo, Dr. Augusto de Lima. O Dr. Artur Bernardes mandou sugerir que o senhor peça demissão.

- Alto lá. Ao adversário, não peço nada. Nem demissão.

No dia seguinte, Bernardes demitiu Augusto de Lima.

15 de abril de 2019

Histórias de JK

Juscelino Kubitschek, José Maria Alkmin e Odilon Behrens saíram juntos do seminário de Diamantina

RIO – Juscelino Kubitschek, José Maria Alkmin e Odilon Behrens saíram juntos do seminário de Diamantina, continuaram estudando juntos, farreando juntos. Uma noite, havia uma festa na cidade, entrada paga. As namoradas iam, precisavam ir. Mas não tinham um tostão. Alkmin resolveu o problema:

- Vamos vender a alguém uma de nossa camisas.

Encontraram o comprador, mandaram passar uma camisa de

Juscelino, enrolaram, disseram que era nova, pegaram o dinheiro, foram para a festa. No dia seguinte, o comprador chegou uma fera:

- A camisa não era nova, estava gasta, rasgou logo.

Juscelino tomou a palavra:

- Meu amigo, aonde você foi?

- A um baile.

- Dançou o quê?

- Tudo. Bolero, samba.

- Então a culpa foi sua. Esta camisa é muito fina, só para dançar valsa.

Candidato a presidente, JK saiu pelo país visitando o PSD. Desceu na

Bahia. Antonio Balbino, governador do PSD, ainda estava em cima do muro:

- Qual é a verdadeira posição do Café?

- Qual deles, Balbino? O vegetal ou o animal?

Foi para Pernambuco. Etelvino insistia:

- Juscelino, vamos rever o assunto e fazer uma união nacional.

- Etelvino, já sei que você está contra mim. Quando você fala em união

Nacional, na verdade está pensando em União Democrática Nacional.

- Então você não quer a união?

- Ora, Etelvino, candidato não faz união. Candidato disputa. Quem faz união é governo, depois de empossado.

E voltou para Minas. Em 31 de dezembro, o chefe da Casa Militar da Presidência da República, Juarez Távora (depois candidato da UDN, derrotado por Juscelino), entregou a Café Filho um documento que “as altas autoridades militares apelavam para uma colaboração interpartidária, um candidato único e civil”.

O documento só foi divulgado no dia 27 de janeiro, em “A Voz do Brasil”. Juscelino respondeu com um discurso duro, escrito por Augusto Frederico Schmidt, que terminava com a frase magistral:

- Deus me poupou o sentimento do medo.

No avião, Juscelino era um personagem de romance: um “piloto de guerra”. Suas histórias aéreas matavam de medo os companheiros da campanha e, depois, do governo. Para ele, avião era para voar e acabou-se.

Uma noite, na campanha, ia descer o interior do Rio Grande do Sul.

As luzes da cidade apagaram-se, o campo não tinha pista iluminada, o piloto quis voltar para Porto Alegre. Juscelino ordenou:

- Pode descer. Deus é juscelinista.

Desceram. Era.

Outra vez, voaram sobre a Amazônia. Pegaram uma tempestade terrível.

Raios, trovões. O avião pinoteando no ar, como pipa, os líderes do PSD e PTB apavorados, de olhos fechados, duros, rezavam, suavam. JK sorriu:

- Vou dormir um pouco.

Ninguém acreditou. Um mais incrédulo levantou-se, foi lá atrás, puxou a

cortina da pequena cabine presidencial privativa, Juscelino dormia e roncava.

Outra tarde, voltava de Salvador, anoiteceu sobre Caravelas, mas queria, precisava chegar ao Rio. O piloto avisou:

- Governador, o combustível está acabando. Pode ser que não dê para chegar ao Rio.

Vieira de Melo, Getúlio Moura, Alkmin, João Goulart, apavorados, queriam descer em Caravelas. JK insistiu:

- Vamos. Lá a gente vê se deu.

Deu.

Exilado em Paris pela violência gratuita e histérica do golpe de 1964,

Juscelino saiu uma tarde dirigindo seu carro e curtindo saudades do Brasil, numa conversa longa com seu velho amigo e secretario Olavo Drummond.

Chega à Place Vandômme, estaciona em um lugar proibido. O guarda logo aparece, alto e posudo, com seu bonezinho à De Gaulle:

- A licença (carteira) de motorista, por favor.

Entregou. O guarda posudo e alto confere:

- Oh, senhor Kubitschek? Parente do grande presidente Kubitschek, do

Brasil?

- Sou eu.

- O senhor, o próprio presidente Kubitscheck?

Já estava abrindo a porta:

- Presidente, por favor, dê-me a chave do seu carro. Eu mesmo vou

estacioná-lo. É uma honra para a França ter o senhor como seu hóspede. Aqui, apesar de exilado, o senhor continua presidente como sei que continua presidente lá.

Juscelino entregou a chave, pôs a mão no ombro de Olavo e chorou.

01 de abril de 2019

Mão cheinha

Quando Jimmy Carter esteve no Brasil, em 1972, passou alguns dias em Recife com a mulher, em casa do casal Camilo Steiner

Rio – Quando Jimmy Carter esteve no Brasil, em 1972, passou alguns dias em Recife com a mulher, em casa do casal Camilo Steiner, na praia da Piedade. A mulher de Steiner, americana da Georgia, foi colega de colégio da mulher de Carter e continuaram amigas pela vida a fora. O filho de Steiner estudou nos EUA, morando na casa de Carter.

Em Recife, o governador Eraldo Gueiros ofereceu um almoço a Jimmy Carter, no Palácio. Saudou-o o vice-governador Barreto Guimarães, gordo e barroco, lançando a candidatura de Carter à Presidência dos Estados Unidos:

- Vossa Excelência, senhor governador da Georgia, tem a marca do estadista e estamos certos de que será o próximo ocupante da Casa Branca.

Carter apenas sorriu. No dia seguinte, Camilo Steiner convidou alguns jornalistas pernambucanos para uma peixada e uma conversa com Carter. Anchieta Hélcias, secretario de Industria e Comércio de Pernambuco, perguntou a Carter se ele tinha condições de sair candidato pelo Partido Democrata em 1976. Carter respondeu com outra pergunta:

* Qual é o estado mais pobre do Brasil?

* O Piauí.

* Pois a Georgia é o Piauí de lá. O senhor acha que o governador

do Piauí tem condições de ser Presidente do Brasil?

Anchieta também achava que não. Acontece que o povo americano achava que sim.

George Pires Chaves, advogado e cônsul do Piauí no Rio de Janeiro, voltou a Teresina para visitar um cliente, Miguel Faria. Encontrou-o louco, internado no Sanatório Meduna, dirigido pelo psiquiatra, ex-presidente do IPASE e deputado cassado Clidenor de Freitas.

Miguel recebeu doutor George em sua tranquila e chestertoneana loucura. Mas não queria saber nada de negócios. Só de política:

* Dr. George, o Piauí precisa de sua ajuda. Nós estamos cansados

de eleger governadores sãos. Nenhum deles prestou. Agora queremos um doido para o governo do Estado.

* E quem é o candidato, Miguel?

* É aqui o nosso colega doutor Clidenor.

Mão Cheinha era louco no Ceará. Levaram-no para o Sanatório Meduna, de Clidenor de Freitas, em Teresina. Com o tempo, Mão Cheinha virou louco-chefe. Tomava conta dos outros. Há sempre um louco cuidando dos bons.

No sanatório, havia uma mangueira que nunca dava manga. Mão Cheinha não entendia aquilo. Um dia, chamou oito loucos:

* Olha, minha gente, vocês são mangas maduras. Vão lá para

cima. Quando eu gritar, as mangas caem, porque manga madura cai. Uma a uma.

Os oito subiram. Mão Cheinha, cá de baixo, gritou:

* Manga um!

Poff. E um louco se esborrachou no chão.

* Manga dois! Manga três! Manga quatro!

E eles iam se largando lá de cima e arrebentando-se cá embaixo.

Mão Cheinha gritou:

* Manga sete!

O sete respondeu:

* Mão Cheinha, chama a manga oito, que eu ainda estou verde. 

26 de março de 2019

Os bodes pretos

www.sebastiaonery.com - [email protected]

Quando o Senado e a Câmara Federal reabriram em março de 1970,senadores e deputados governistas foram ao Alvorada para uma visita sabuja de cortesia ao novo ditador, o general Médici. Chagas Freitas, então deputado, foi apresentado pela primeira vez ao presidente, que lhe disse:

- Preciso falar com o senhor.

Chagas ficou como uma vela de óculos. Puxou pelo braço o deputado Rubem Medina, da Guanabara, e um deputado da Arena de São Paulo, que tinha ouvido a conversa, e lhes perguntou, todo perturbado:

- Vocês imaginam o que seja?

- A sucessão carioca, evidentemente – disse Medina.

Mas o deputado paulista resolveu fazer uma brincadeira:

- Não é nada disso, e eu estou bem informado. Sua situação não está boa. Não quer dizer que você vai ser cassado. A Arena do Rio já foi avisada de que em hipótese alguma o governador será você. Problemas de organização do diretório, excessivo controle do partido. O presidente não quer uma solução do tipo PSP (o ex-partido de Ademar) para a Guanabara.

Chagas saiu do Alvorada em pânico. No dia seguinte, voltou para o Rio e chamou seu staff para uma reunião em casa: Erasmo Martins Pedro, Miro Teixeira, Rossini Lopes, presidente da Assembleia, e outros. Contou a história e suspirou, olhando para o teto, por cima do aro dos óculos:

- Preciso tomar providência urgente. Já tinham me avisado que, se eu não fizer trabalhos seguros, o azar superará as possibilidades. Só uma força superior para enfrentar os “serviços” que estão fazendo contra mim.

Erasmo, evangélico, sorriu mole, não disse nada. Rossini resolveu:

- Sou “cambono” (acólito, ajudante de sessões de Umbanda) de “Seu 7 da Lira”. Dona Cacilda sabe de tudo e tem força para desmanchar.

Tocaram para o Terreiro de “Seu 7”, em Santíssimo. A comitiva tinha oito carros, um oficial, os demais particulares.

Chegaram exatamente à meia-noite, no meio da sessão. Chagas ficou no carro, Rossini entrou sozinho, falou com dona Cacilda. Ela interrompeu a sessão, recebeu Chagas reservadamente, para ele não ser visto pela gente toda que estava lá. “Seu 7” fez uma cara de horror:

- A situação é negra. Há muita gente convocando espíritos maus contra o senhor. Preciso fazer, e fazer logo, um trabalho pesado com 3 bodes pretos. Nem cabra nem carneiro servem. Só bode.

Onde encontrar, naquela hora, 3 bodes pretos?

Os 9 carros saíram em direção a Campo Grande. Pararam à beira da estrada, cabra tinha muita, mas bode nenhum. Chagas ficou com Erasmo dentro do Galaxie oficial e Rossini saiu comandando o pelotão dos caçadores de bode preto, todos agachados dentro do mato.

De repente, dentro da noite, vinda lá do matagal, ouviu-se a voz de comando de Rossini, gritando como um possesso:

- Vamos berrar que eles aparecem! Todo mundo berrando! E começaram todos a berrar:

- Béééé! Béééé! Béééé!

Pelo berro ou pela sorte, às 4 da manhã três bodes pretos tinham sido capturados entre Santíssimo e Campo Grande, subúrbios do Rio. Chagas, aflito, suava como um cão de caça. E Erasmo, todo encabulado, pensava certamente na palavra de Deus, sagrada na Bíblia, que desde o Antigo Testamento proibiu adorar bodes e bezerros, mesmo quando de ouro.

Voltaram. “Seu 7” abriu os três bodes a facão, pegou as vísceras e passou, ensanguentadas, no corpo inteiro de Chagas, da cabeça aos pés. A roupa branca de Chagas parecia véu de Verônica. Foi um banho de sangue.

Um ano depois, Chagas tomava posse no governo da Guanabara. Nunca mais sobrou bode preto entre Santíssimo e Campo Grande.

Haja bode preto.


19 de março de 2019

Alberto Silva, um estadista

“O difícil a gente faz hoje. O impossível faz-se amanhã.” Esta frase, lapidar, é a abertura do livro “Alberto Silva Uma Biografia” do brilhante jornalista piauiense Zózimo Tavares.

“Nenhum político piauiense mexeu tanto com o imaginário de uma geração, na segunda metade do século 20, quanto o engenheiro Alberto Silva. Ao governar o Piauí pela primeira vez, entre  1971 e 1975, consagrou um etilo de gestão que o transformaria em um mito da política estadual.

Com engenhosidade e capacidade incomuns de construir sonhos, tornou-se o político piauiense mais popular de sua época.

Em sua longa e intensa trajetória política, venceu e perdeu eleições; nunca, porém, perdeu a compostura. Mesmo nos momentos mais críticos e mais tensos das campanhas eleitorais, ou nas crises mais agudas da administração, portou-se com altivez e manteve a determinação para enfrentar e resolver os problemas.

Alberto Silva foi um dos mais impiedosamente atacados da história do Piauí, contudo, ninguém jamais ouviu dele um destempero verbal.

Fora do governo, amargou o ostracismo e a censura do poder, sem direito sequer de responder aos ataques desferidos pelos adversários, por meio da imprensa.

Um otimista por natureza. Para alguns, um megalomaníaco, com ideias mirabolantes e sonhos irrealizáveis. O tempo, senhor de todas as verdades, mostrou que seus sonhos de fazer um Piauí diferente não eram devaneios. Eram, antes de tudo, necessários.

O tempo também calou seus críticos, fazendo-os reconhecer a grandiosidade de suas ideias. Embora de um jeito meio disfarçado, deram o braço a torcer: Alberto era governante para um Estado como São Paulo, dono de condições econômico-financeiras e estruturais que permitem a realização de coisas grandiosas; não para o Piauí, pobre, atrasado e miseravelmente dependente da boa vontade de Brasília.

A importância de Alberto Silva para o Piauí esta de tal forma gravada na cabeça do piauiense que, quando alguém quer demonstrar, do modo mais simples, a magnitude de sua obra, observa, apenas: “Tire as obras que Alberto Silva fez no Piauí e veja o que sobra”.

Ele foi o único governador do Piauí a ser entrevistado nas “Páginas Amarelas” da Revista Veja, que se impressionou com as proezas de sua gestão! Só outros dois piauienses ocupariam o mesmo e prestigiado espaço, ainda assim porque exerciam destacadas posições no plano nacional: Petrônio Portella, como presidente do Congresso (1971/1973 e 1977/1979), Reis Velloso, como ministro do Planejamento (1969/1979).

Pouco, muito pouco, se escreveu sobre Alberto Silva sem objetivos e interesses políticos imediatos. Chega a ser curioso que uma figura pública tão expressiva e múltipla não tenha chamado a atenção dos historiadores e pesquisadores.

Em livros, existem poucas obras sobre ele. O jornalista Tomaz Teixeira, seu fiel escudeiro, lançou A Outra Face da Oligarquia do Piauí, em 1979; e Alberto Silva – O Mito e o Político, em 2010. São dois depoimentos sobre o ídolo político e o seu tempo.

Na academia, a obra mais consistente – e talvez a única – sobre Alberto Silva foi produzida pela professora Cláudia Cristina da Silva Fontineles, da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Trata-se de O Recito do Elogio e da Crítica – Maneiras de Durar de Alberto Silva na Memória e na História do Piauí.

A obra é fruto de sua tese de Doutorado em História. Foi publicada em 2015, pela Editora da UFPI, e lançada na Academia Piauiense de Letras (APL). É uma densa e criteriosa pesquisa sobre o político Alberto Silva, seu objeto de estudo, à luz de um vasto aporte teórico e metodológico.

Este livro não esgota o rico manancial sobre a vasta contribuição política e administrativa de Alberto Silva. No máximo, procura assimilar o essencial do homem público que ele foi, e de sua obra, para que sua história seja conhecida também por novas e futuras gerações.

O professor e acadêmico M. Paulo Nunes, um dos luminares de nossa Academia Piauiense de Letras, costuma repetir que se dizia do educador Anísio Teixeira que ele era um homem que sonhava com as mãos. Isto é, um homem que pensava e realizava.

O mesmo se pode dizer de Alberto Silva – um homem que pensava grande e realizava, igualmente, obras grandiosas.”

www.sebastiaonery.com     [email protected]

11 de março de 2019

Futebol e política

Sergio Porto, nosso saudoso Stanislaw, dizia que “no futebol a cabeça é o terceiro pé”

Rio - Sergio Porto, nosso saudoso Stanislaw, dizia que “no futebol a cabeça é o terceiro pé”. Os bretões o inventaram achando que aquilo era só uma brincadeira sem pé nem cabeça. E no entanto metade da humanidade continua em frente a uma TV.

Até macacos jogam. É clássica, e já contei aqui, a historia do Adalardo de Alegrete, no Rio Grande do Sul. A cidade estava em festa. O Cruzeiro de Porto Alegre tinha chegado para jogar contra o Alegrete Esporte Clube. Banda de música, bombacha e chimarrão. Um furor cívico.

Na hora do jogo, a tragédia. O goleiro tinha tomado um porre de vinho e roncava no canto do vestiário. O primeiro reserva caíra do cavalo, quebrou a perna. O outro reserva fugira na véspera com a sobrinha.

A solução era o circo. Foram buscar o “Adalardo”, o macaco prodígio, que pegava coco jogado dos quatro cantos do picadeiro.

Adalardo não negou fogo. Camisa número um, piscando o olho e coçando a cabeça debaixo da trave, pegou tudo quanto foi bola. E ainda cuspia no centroavante. Foi um delírio. Acostumado aos aplausos, fazia pontes e defesas sensacionais. Alegrete cantava a trave fechada e a vitória.

Mas houve um pênalti contra o Alegrete. Adalardo achou que tinha havido uma sujeira. A cidade inteira olhava para ele calada. Por que não batiam palmas? Por que não aplaudiam? A culpa era certamente daquele homem todo de preto que tinha botado a bola ali na frente dele e mandara outro chutar. Antes do chute do pênalti, Adalardo enlouqueceu.

Saiu da trave aos pinotes, deu urros no meio do campo, avançou no juiz e lhe mordeu o dedo, quase arrancando. O jogo acabou empatado.

Zico

O deputado Antonio Moraes, do MDB do Ceará, professor, radialista, arranjou uma maneira de aproveitar uma Copa do Mundo para continuar a campanha contra a Arena. Ia para o rádio, pegava o microfone, começava a irradiar uma hipotética partida de futebol:

- O Coronel Virgílio passa para o coronel Bezerra, o coronel Bezerra passa para o coronel César Cals, o coronel Cals avança, dribla, chuta ..... “Gooolll. Goooollll contra o Ceará”!

E pedia voto para o senador Mauro Benevides,“o Zico de Iracema”.

Osório

Osório Vilas-Boas, vereador, presidente da Câmara Municipal de Salvador, candidato a prefeito, deputado do MDB, acabou cassado pelo AI-5 em 1969. Em maio de 64, era presidente do Esporte Clube Bahia, o maior do Estado. Ia embarcar para os EUA com seu time para um torneio em Nova York, recebeu ofício do consulado americano : -

“Consulado Americano, Salvador, Bahia, Brasil, 19 de maio de 64.

“Ilmo. Sr. Osório Vilas-Boas, Rua Aurelino Leal, 36, nesta.

Prezado Senhor: este escritório lamenta informar que está impossibilitado de dar o visto a V.Sa., porque se verificou que V. Sa. é inelegível (sic) para visto, sob a seguinte seção da “Lei de Imigração e Nacionalidade”:

- “Seção 212 (a) (28) (3), a qual proíbe a concessão de vistos a qualquer pessoa que advogue, ou pertença ou seja filiada a grupos que advoguem a doutrina do comunismo mundial. No entanto, poderemos dar maiores considerações ao seu requerimento para visto se V. Sa. Obtiver e apresentar a este escritório os seguintes documentos: atestado assinado pela polícia e pelas autoridades militares em como V. Sa. não advogou ou foi filiado a grupos que advogam a doutrina do comunismo mundial.

“Atenciosamente, pelo cônsul, Roberto E. Service – vice-cônsul”.

Osório acabou indo e o Bahia se vingou do consulado idiota.

Bahia

Osório Vilas Boas, presidente do clube Bahia por longos anos, era deputado talentoso e bom orador. Na Assembléia, o deputado Durval Gama, médico, não tinha condições de discutir com ele, apelou:

- V. Exa. é um analfabeto, não pode transformar esta casa em uma Assembleia de terceira categoria.

- Sou quase analfabeto, sim, mas tenho vivência. Conheço o mundo inteiro viajando com o Bahia. V. Exa. sabe qual é a capital da Escócia?

- Não sei não.

- Pois eu sei. Glasgow. E estive lá.

Durval Gama desistiu.

Negrão

No bar de Ipanema, no Rio, um grupo de rapazes bebia e papeava. Um deles começou a desancar o Negrão:

- Nosso mal é esse Negrão. Vocês vão ver, vamos nos enterrar por causa dele. Não tem mais jeito. O Negrão está velho, cansado, preguiçoso. Não é mais aquele. Por que insistir nele? O negócio era tirar e mandar descansar. Tem muita gente melhor para o lugar do Negrão.

Do lado, um policial ouvia e esperava. Quando o garoto parou para tomar fôlego, estava seguro:

- Vamos, está preso. Está aí pregando a derrubada do governador.

- O senhor está é maluco. Será que neste país a gente não pode mais falar mal nem do Pelé?

Ele estava falando mal era mesmo do Negrão de Lima, governador da Guanabara. Mas Pelé, o outro Negrão, salvou mais uma jogada.

25 de fevereiro de 2019

Faroeste em família

“Se me aborrecerem o pau canta e não pára mais”

São Miguel dos Milagres – 1. “Se me aborrecerem o pau canta e não pára mais”.

2. – “O governador é quem manda em Alagoas e o que ele faz há de ser respeitado, custe o que custar, haja o que houver”.

3. – “O governador me perguntou (a um deputado da oposição,preso) se eu estava armado. Respondi-lhe que não era habituado a usar armas. Sacou então de um punhal ou faca e me ofereceu para que o matasse. Repeli. Tirou da cintura um revolver e me ofereceu para que eu o matasse”.

4. – “A Assembléia está cheia de ladrões públicos. Eu vos afirmo com a responsabilidade de primeiro magistrado das Alagoas que haveremos de esmagar esses canalhas a pontapés e bofetões”.

5. – “Aqui quem resolve sou eu. Você acha que eu vá deixar alguém meter o bedelho em Alagoas? Tenho a faca e o queijo na mão. O meu sucessor tem que sair dessa cachola.Aqui em Alagoas quem manda sou eu” 6. – “Um repórter me perguntou se eu ia indicar o futuro governador. Ora, se eu sou o dono de Alagoas, como é que eu ia aceitar essa coisa de indicar? Quem vai fazer o governador que me sucederá sou eu. Se o general Góis me der apoio, terei 90% dos votos. Se ficar neutro, terei 70% ou 80%. Mas se o general ficar contra, pode escrever que ele apanha”.

7. – “A Policia Militar está pronta para cumprir e fazer cumprir a lei e até viola-la para que não seja embaraçado o programa do governo. As fraquezas do regime não podem beneficiar os inimigos”.

Isso aí não era conversa de Herodes, de nenhum sátrapa do mundo antigo ou qualquer sultão enlouquecido. Eram entrevistas de um general brasileiro, Silvestre Péricles de Goes Monteiro, governador de Alagoas entre 1947 e 1950, aos jornais do Estado, à ”Agencia Meridional” dos “Diários Associados de Assis Chateaubriand, à “Folha da Manhã” (de São Paulo), ao “Correio da Manhã”, à “Tribuna da Imprensa”.

O espanto nacional era tanto que seu irmão, também militar, o senador Ismar Góis Monteiro, do PSD, ex-interventor de Alagoas, reagiu :

- “Alagoas está vivendo sob o regime do crer ou morrer. Já esperava a saída do PSD do governador Silvestre Péricles. O seu partido é o do ego e qualquer rótulo serve. O demônio anda solto em Alagoas. Não pára, não cansa, enlutando lares, ceifando vidas. Não sai o cheiro de enxofre, mas o cheio da pólvora homicida, o odor do sangue de suas vitimas”.

Na Assembleia, a oposição pediu impeachment ou intervenção:

8. “Já disse que impeachment é palavra inglesa. E intervenção é um termo empregado em cirurgia. Se houvesse impeachment ou intervenção em Alagoas, quem poderia aplica-las era exatamente eu, porque tenho autoridade moral e patriótica para faze-lo. Assassinos e roubadores estão a zombar. Aqui há muitas lagoas para afoga-los”

9. - “Estou aqui eleito pelo povo,não existe força capaz de abalar-me. Repito a frase de Floriano Peixoto : - “Desta cadeira, só a lei ou a morte me tiram”. E se existe alguma duvida sobre a minha ação, que se apressem no processo de impeachment ou intervenção, para sentir as conseqüências”.

O general Aurélio Góis Monteiro,também senador do PSD, declarou:

- “Não me envolverei mais na política partidária de Alagoas, tradicionalmente dissolvente, e, sob certos aspectos, sórdida”.

Mas deu entrevista solidário com o irmão (e contra os outros dois):

- “Ou acabo com o PSD alagoano ou o PSD acaba comigo. Lutei durante um ano para obter um entendimento. Edgard (mais um Góis, irmão deles) tudo fez para acalmar os ânimos. Não há ameaças de massacre aos deputados. Ainda (sic) não há necessidade disso. Se isso vier a ser necessário, quem comandará o massacre sou eu em pessoa”.

19 de fevereiro de 2019

Paes de Andrade, o político, o jurídico, o militante democrático

Sebastião Nery - Jornalista

Um político exemplar

Paes de Andrade, sempre que retornava a Fortaleza, reunia em sua casa os amigos para um convescote. Chegávamos – uns vinte – para o almoço de carneiro e  para todas aquelas relembranças da história política do Ceará, em que o Filho de Mombaça havia sido personagem marcante por mais de meio século.

O carneiro do Paes, preparado pelas mãos competentes da cozinheira Francinete e apresentado em várias modalidades culinárias, fazia o regalo dos convidados e a inveja posterior dos que, por viagem ou distração, haviam se ausentado daquela mesa farta de sabor sertanejo e prosaica convivência.

Quando o nosso líder morreu, naquele malfadado 17 de junho de 2015, em Brasília, resolvemos, na semana seguinte, reunir em Fortaleza, naquele mesmo endereço da Praia de Iracema, os frequentadores do almoço do Paes para a última carneirada.

Nesse dia todos compareceram. Eram uns trinta. Dona Zildinha, ainda muito abalada, não veio, mas ficou, de Brasília, acompanhando em tempo real toda a reunião. Estavam ali muitos familiares, filhas, genros e netos. Antigos companheiros das jornadas políticas e várias gerações de admiradores reprisavam passagens épicas ou simplesmente hilárias daquele cavaleiro andante, que por décadas exercera mandatos legislativos e missões públicas com desenvoltura lhaneza e afilada competência.

Eu havia pintado um retrato do ilustre personagem, que, belamente emoldurado por providência de Carlos Castelo, deveria ser solenemente entronizado naquela sala em que ele costumeiramente nos recebia.

Houve discursos e relatos memoriais. E, quando foi descerrado o pano, declamei o poema composto de madrugada, sob forte impacto emocional e justificada dor: Cantiga de Saudade para Paes de Andrade.

Juarez Leitão, poeta, historiador, membro da academia Cearense de Letras e do Instituto do Ceará, com o brilho dos poetas relembrou Paes de Andrade.

Em Roma e Paris, como Adido Cultural, fui testemunha e participante do respeito com que era recebido pelas lideranças políticas e culturais, como o professor da Universidade de Coimbra, José Joaquim Gomes Canotilho, professor Diamantino Durão, Reitor da Universidade Lusíada de Lisboa a direção da Mason da l’Amérique Latine e tantos outros.

Paes de Andrade, o político, o jurídico, o militante democrático – editado pela Câmara dos Deputados, é o caloroso depoimento sobre uma época.

  www.sebastiaonery.com  [email protected]

11 de fevereiro de 2019

Piando macuco

Depois do golpe militar, o presidente Castelo Branco mandou Adhemar indicar o ministro da Agricultura

Oscar Thompson era secretário da Agricultura do governo de Adhemar em São Paulo, em 1964. Depois do golpe militar, o presidente Castelo Branco mandou Adhemar indicar o ministro da Agricultura. Adhemar fez uma vasta lista. Castello vetou todos. Até que aceitou Oscar Thompson, formado pela Escola Agrícola Luiz de Queiróz, em Piracicaba.

Assumiu em 14 de abril. Em 16 de junho, Castello lhe telefonou mandando fazer uma demissão no ministério. Oscar Thompson respondeu:

- Tudo bem, Presidente. Mas antes vou comunicar ao governador.

- Quer dizer que o senhor vai comunicar antes ao Adhemar? Pois não vai ter tempo de comunicar nada. Já está demitido.

Bateu o telefone e o substituiu por Hugo Leme, diretor da Escola Agrícola Luiz de Queiroz de Piracicaba. Só durou seis meses, até o AI-2 de outubro de 1965, porque Castelo precisou do cargo para dar a Ney Braga, que deixava com sucesso o governo do Paraná.

Em 15 se março de 1967, o general Costa e Silva assumiu a presidência da República. Ivo Arzua, ex-prefeito de Curitiba, foi indicado para presidente do BNH (Banco Nacional de Habitação), mas Mário Trindade, o presidente, não queria sair e conseguiu ficar. O jeito foi Costa e Silva convidar Ivo Arzua para Agricultura.

Mas Ivo Arzua não distinguia um morango de um mamão. Desesperado, internou-se 30 dias na Copamar (Cooperativa Agrícola de Maringá), onde fez um curso concentrado de agricultura. E assumiu.

Nereu Ramos assumiu a presidência da República em 1955, para garantir a posse de Juscelino, e pediu a Antonio Balbino, governador da Bahia, um nome para o Ministério da Agricultura. Balbino mandou chamar o deputado baiano Eduardo Catalão, fazendeiro de cacau, elegante e britânico, depois seu suplente no Senado:

- Catalão, indiquei seu nome para representar a Bahia no Ministério. Já dei seu nome ao presidente Nereu, que quer conversar com você hoje.

- Não, Balbino, de maneira alguma. Não posso aceitar. A Bahia tem homens experientes e mais bem preparados para a função do que eu.Não é justo que seja eu o ministro. E você sabe que não tenho ambições políticas.

- Não é nada disso, Catalão. Você está é com medo da situação nacional. Você sabe que este é um governo eventual, de crise. Se fosse em período normal, um governo tranquilo, você aceitaria. Mas como poderá sair do gabinete ministerial para ser fuzilado em praça pública, não aceita.

Catalão levantou-se, inteiramente surpreendido com a veemência do amigo, bateu a mão na mesa e encerrou a conversa:

- Pois se é para ser fuzilado, aceito.

Foi ministro da Agricultura. Não foi fuzilado.

No governo Castelo Branco, o saudoso Severo Gomes era ministro da Agricultura. Em Feira de Santana, na Bahia, presidiu uma solenidade. Depois, pediu uma cachacinha. Trouxeram sem rótulo, com o desafio:

- Queremos ver se o senhor diz de onde ela é.

Severo provou, gostou, arriscou:

- Esta cachaça é de Januária.

Era. Ao lado, sorriso mole e olhos vidrados, escarrapachado numa cadeirinha de vime, um puxa-saco gordo, muito gordo, não se conteve:

- Vá entender de agricultura na puta que o pariu.

Ministro da Industria e Comercio de Geisel,Severo foi caçar macuco, um fim de semana, em sua fazenda perto de Parati. Macuco se caça piando, para chamar. O ministro estava piando mato adentro, veio um puxa-saco: - Dr. Severo, o senhor pia macuco melhor do que muito macuco. 

www.sebastiaonery.com [email protected]

31 de dezembro de 2018

Começo de ano é tempo de festa

Há séculos os irlandeses nos ensinam esta lição.

Nosso eterno poeta, o Paulo Mendes Campos, traduziu em versos de luz: 

“UMA VELHA BENÇÃO IRLANDESA

Que a benção da luz

seja contigo, a luz exterior e a luz interior.

A Santa luz do Sol

brilhe sobre ti e aqueça teu coração até que ele

resplandeça como um grande fogo de turfa, e assim

o forasteiro possa vir e nele se aquecer, como também o amigo.

A luz brilhe

 de dentro de teus olhos, como a candeia colocada na 

janela de uma casa, oferecendo ao peregrino um refúgio

à tormenta.

E a benção da 

chuva, a chuva suave e boa, seja contigo. Que ela

tombe sobre tua alma para que as pequenas flores

todas possam surgir e derramar suavidade na brisa.

A benção das grandes chuvas seja contigo,

caindo em tua alma para lavá-la bem lavada,

e nela deixando muitas poças reluzentes, onde o azul

do céu possa brilhar, e às vezes uma estrela.

E a benção da 

terra, a grande terra redonda, seja contigo; sempre

tenhas uma saudação amiga aos que passam por ti

ao longo dos caminhos. A terra seja macia debaixo

de ti quando nela repousares, cansado ao fim do

dia, e leve ela descanse sobre ti, quando no fim te 

deitares debaixo dela.

Tão leve ela descanse sobre ti, que a tua alma cedo 

se liberte de seu peso. livre e leve, no caminho de Deus.

E agora o Senhor 

te abençoe, com toda a bondade te abençoe.”

Mas também há instantes de dor. O Anjo Azul foi um bar de Salvador por onde passaram gerações de poetas ou de boêmios. No golpe militar de 1964, há meio século,  alguém não gostou de um pequeno poema meu pendurado na parede. Sua ira explodiu em um tiro que perturbou a madrugada. Eram apenas versos tristes de um sonolento jornalista:

NO ANJO AZUL

Há um hálito de dor nestas paredes

Há arcanjos ensanguentados arrastando sombras neste chão.

Aqui o teto escuro escancara a boca em vigas tortas

E vai pingando, babando, gotas de solidão em minha’alma.

Aqui meus fracassos como cobras escorregam mágoas no cimento cansado e mulheres de olhos mortos choram crianças que eu não fui.

Aqui a vida explode

o tempo não anda

a morte não mata.

Você não é o meu amor.


17 de dezembro de 2018

Rubens e Eunice

Era 20 de janeiro de 1971, feriado, dia de São Sebastião, padroeiro do Rio e meu.

 Antes das dez da manhã, a caminho da praia, parei o carro em frente à casa do deputado do PTB paulista, cassado, Rubens Paiva, na Avenida Delfim Moreira, Leblon, Rio. Minha filha, colega da filha dele, desceu para pegar a amiga. Mandei um recado:

- Diga ao Rubens que não entramos porque estamos todos com roupa de praia. Quando voltarmos, passaremos aqui para dar-lhe um abraço. Ela subiu, demorou um pouco, desceu com a Malu e me perguntou: 

- Você brigou com o tio Rubens?  Ele estava no quarto, calçando o sapato, com três homens de paletó e gravata. - Foi melhor assim.

Fiquei calado. Vi quatro suspeitas kombis brancas em torno da casa, com varias pessoas dentro, olhando estranhamente para nós. Quando chegamos à praia, disse à minha mulher:

- Estão prendendo o Rubens. Aquelas kombis estão sem placas.

Não fiquei tranquilo. Apressamos o banho de mar e na volta já ninguém chegava mais perto da casa cercada, com a avenida fechada. Parei mais adiante e o porteiro de um prédio próximo me contou: 

- É a Aeronáutica prendendo um cara daquela casa.

Voltei rápido e aflito. Era preciso espalhar urgente a noticia. Mal entramos em casa, ali perto, na Marquês de São Vicente, toca o telefone:

- Minha filha está com vocês?

- Está, sim. O que aconteceu?

- Cuidem dela.

E desligou. Era Eunice, mulher do Rubens, que seria presa a seguir. 

Peguei o carro, fui correndo à casa do José Aparecido. Na véspera, havíamos jantado lá com o Rubens. Entre outros, lá estava o Bocaiúva Cunha, também cassado e sócio de Rubens numa empresa de engenharia. Na saída do jantar, Rubens pegou um cartão (“Rubens Paiva, engenheiro civil”), escreveu dois números de telefone  (“223.1512  e  227.5362”), me entregou (guardo até hoje):

- Você anda sumido, acompanho pela “Tribuna” e o “Politika”. Vamos conversar. Passe lá amanhã para um uísque. É dia de seu padroeiro. 

Eu o conhecia desde 1953.Em 1962, nos elegemos, ele deputado federal por São Paulo, eu estadual pela Bahia. E nos encontrávamos nas lutas do governo Jango. Ele foi diretor do “Jornal de Debates” e cassado na primeira lista do golpe militar de 1964, por ter feito parte da CPI do IBAD, que denunciou inclusive o farsante do Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos no Brasil. Em 1965, Rubens assumiu a direção da “Ultima Hora” de São Paulo, onde vivi um ano clandestino e trabalhei escrevendo anonimamente.

Foi uma noite desesperadora. Com Aparecido, tomando todos os cuidados, fomos à casa de Bocaiúva e também à de Waldir Pires. Ninguém devia falar ao telefone, naqueles sinistros anos do governo Médici. Mas era preciso avisar aos amigos, sobretudo de São Paulo e Brasília, fazer um cerco antes do pior.

Não adiantou. No dia 21, soubemos que fora levado para o notório Brigadeiro Bournier, da Aeronáutica, e de lá entregue ao DOI-CODI do Exercito, na Barão de Mesquita.

Já no dia 23, a certeza de que tinha sido assassinado. O jornal “O Dia”, do Chagas Freitas, em manchete fraudada, com a foto de um carro queimado, dizia que “o carro que o transportava do comando da 3ª Zona Aérea da Aeronáutica para o DOI-CODI do Exercito tinha sido interceptado por desconhecidos, que o teriam sequestrado”.

Eunice Paiva, presa com uma filha e incomunicável durante 15 dias, quando saiu lutou como uma leoa. Morreu esta semana.

www.sebastiaonery.com   [email protected]

10 de dezembro de 2018

A educação e o PIB

A educação de qualidade é o fator determinante para o crescimento da economia e, por consequência, do desenvolvimento

A educação de qualidade é o fator determinante para o crescimento da economia e, por consequência, do desenvolvimento. Sua ausência determina baixíssima qualificação da mão de obra resultando na baixa produtividade. Educação e economia estão integradas na ordem direta de um país responsável que almeje pela elevação da renda à inclusão social. Sem priorizar a educação torna-se impossível a construção de uma nação desenvolvida. Buscar um padrão educacional moderno a exemplo de países como a Finlândia, Coréia do Sul, Japão e vários outros que construíram modelos educacionais que mudaram a realidade do seu povo deve ser o grande objetivo de um Ministro da Educação comprometido com a modernização.

“Qualquer candidato a cuidar da educação brasileira deveria estar preparado para enfrentar pelo menos as seguintes questões: 

1) Por que os alunos brasileiros vão tão mal no Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes? 

2) Como melhorar os níveis fundamental e médio do ensino brasileiro, obviamente em condições muito más? 

3) Como adaptar o ensino às condições impostas (sim, impostas) pela chamada revolução 4.0? 

4) Como preparar professores para formar alunos capazes de atuar com sucesso na economia do século 21? 

5) Que experiências bem sucedidas no exterior poderiam proporcionar elementos a um programa de modernização educacional?”

Oportuna e lúcida indagação feita pelo excelente analista Rolf Kuntz, em “O Estado de S.Paulo” (25-11-2018). Destacando que padrões ideológicos ou religiosos não podem prevalecer na condução da educação brasileira. A ineficiência da educação brasileira tem várias causas e uma delas não é decorrente de o Brasil investir pouco na formação educacional. A baixíssima qualidade da educação nacional não tem como responsável a insuficiência de recursos. Sua origem está na inexistência de uma política educacional séria, competente e realista. Educação é política de Estado e pauta suprapartidária. A incompetência e irresponsabilidade na gestão dos recursos públicos pela União, Estados e Municípios alimentam e agravam o caos educacional.

O economista, engenheiro eletrônico pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica e professor Ricardo Paes de Barros, ante essa realidade indaga: “Como você coloca 6% do PIB na educação e eles dizem que não sabem como garantir resultados?” Em 2017, o governo da União aplicou R$ 117,2 bilhões em educação. Sendo R$ 75,4 bilhões no ensino superior e R$ 34,6 bilhões na educação básica. O governo federal nos ensinos básicos e fundamental tem papel supletivo em relação aos Estados e Municípios. A diferença do montante de recursos exemplifica o porquê de o ensino básico e fundamental sofre de déficit educacional histórico. Exatamente as áreas que deveriam ter prioridade maior no recebimento de recursos públicos.

A síntese disso tudo pode ser resumida em uma estrutura educacional viciada, envolvendo União, Estados e Municípios. Prioridades erradas na administração dos recursos destinados à formação das novas gerações é realidade inquestionável. A deficiência no aprendizado, fruto de uma educação sofrível no ensino básico, é agravada pela elevada evasão no ensino médio, travando a construção do futuro de novas gerações e aprofundando a desigualdade da renda e a pobreza para milhões de brasileiros. Todos vítimas de uma péssima educação, como mostra o professor Hélio Duque, autor de vários livros sobre economia brasileira e  três vezes deputado federal pelo Paraná.

03 de dezembro de 2018

Herança maldita

Ao ignorar o limite de 54% para as despesas de pessoal, os Estados brasileiros geraram a falta de liquidez do crescimento da dívida pública

Ao ignorar o limite de 54% para as despesas de pessoal, os Estados brasileiros geraram a falta de liquidez do crescimento da dívida pública, bloqueando investimentos e atingindo a população na prestação de serviços públicos. Os novos governadores vão receber uma herança maldita: a crise fiscal, buscando urgência no ajuste das contas públicas. Adiar essa questão levará à insolvência muitas unidades federativas. É gravíssima a situação fiscal na maioria dos Estados. Os governadores que assumirão o poder herdarão a falta de prudência das administrações passadas, elevação de despesas sem a contrapartida na capacidade de arrecadação.

A carência de investimentos dos Estados está se refletindo na ausência de recursos nas áreas de educação, saúde, segurança pública e infraestrutura. O descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal gerou a dramática realidade. A alternativa é buscar disciplinada política fiscal, e reformas profundas. Vai exigir coragem de estadistas, não temendo a impopularidade momentânea, implantando corajosa reforma no aparelho estatal para evitar o colapso dos serviços públicos. Um exemplo é a extrapolação das despesas com salários e aposentadorias que vem estourando o limite de gastos com pessoal.

Recente relatório do Tesouro Nacional atesta que essa questão vem se agravando, e 16 Estados podem vir a ser declarados insolventes. É um grande desafio para os novos governadores. Muitos dos seus antecessores desrespeitaram a Lei de Responsabilidade Fiscal que fixa o teto máximo de 60% da Receita Corrente Líquida para a folha de pessoal. O Tesouro Nacional constatou que em cinco Estados, o gasto com pessoal ultrapassou 75% da receita corrente líquida: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Acima de 60% da receita estão: Distrito Federal, Piauí, Tocantins, Mato Grosso, Acre, Sergipe, Paraíba, Roraima, Alagoas, Bahia, Paraná e Santa Catarina.

O alerta de Ana Carla Abrão Costa, ex-secretária da Fazenda de Goiás é oportuno: “Todos os Estados estão na mesma correnteza, com uma grande queda à frente na qual alguns já foram tragados. É trajetória insustentável. Se os Estados não fizerem ajustes, as despesas com pessoal vão consumir toda a receita, determinando o colapso dos serviços públicos”. O economista Raul Velloso na mesma direção lembra que a principal fonte de desequilíbrio está na folha de pagamento dos aposentados e inativos.

O Anuário Estatístico da Previdência Social traduz em números essa realidade: em Minas Gerais os servidores ativos são 217.034; os inativos e pensionistas, 319.043. No Rio Grande do Sul, os ativos são 117.934 e os inativos e pensionistas, 205.835. No Rio de Janeiro são ativos 215.265 contra 253.009 inativos e pensionistas. Em Santa Catarina, são ativos 65.112 e 66.557 inativos e pensionistas. Nos demais Estados, o número de servidores ativos ainda é maior com diferenças mínimas, mas tendente ao crescimento de inativos e pensionistas ao longo dos próximos anos.

Alguns governos estaduais esconderam a fragilidade das contas públicas pela maquiagem contábil. A finalidade era demonstrar que estavam nos limites fixados pela Lei de Responsabilidade Fiscal, para a política de gastos com pessoal. A artificialidade fiscal agora cobra o preço da falsificação dos números. Desequilíbrio orçamentário é caminho seguro para o insucesso de qualquer administração.

         

Herança maldita

Ao ignorar o limite de 54% para as despesas de pessoal, os Estados brasileiros geraram a falta de liquidez do crescimento da dívida pública

Ao ignorar o limite de 54% para as despesas de pessoal, os Estados brasileiros geraram a falta de liquidez do crescimento da dívida pública, bloqueando investimentos e atingindo a população na prestação de serviços públicos. Os novos governadores vão receber uma herança maldita: a crise fiscal, buscando urgência no ajuste das contas públicas. Adiar essa questão levará à insolvência muitas unidades federativas. É gravíssima a situação fiscal na maioria dos Estados. Os governadores que assumirão o poder herdarão a falta de prudência das administrações passadas, elevação de despesas sem a contrapartida na capacidade de arrecadação.

A carência de investimentos dos Estados está se refletindo na ausência de recursos nas áreas de educação, saúde, segurança pública e infraestrutura. O descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal gerou a dramática realidade. A alternativa é buscar disciplinada política fiscal, e reformas profundas. Vai exigir coragem de estadistas, não temendo a impopularidade momentânea, implantando corajosa reforma no aparelho estatal para evitar o colapso dos serviços públicos. Um exemplo é a extrapolação das despesas com salários e aposentadorias que vem estourando o limite de gastos com pessoal.

Recente relatório do Tesouro Nacional atesta que essa questão vem se agravando, e 16 Estados podem vir a ser declarados insolventes. É um grande desafio para os novos governadores. Muitos dos seus antecessores desrespeitaram a Lei de Responsabilidade Fiscal que fixa o teto máximo de 60% da Receita Corrente Líquida para a folha de pessoal. O Tesouro Nacional constatou que em cinco Estados, o gasto com pessoal ultrapassou 75% da receita corrente líquida: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. Acima de 60% da receita estão: Distrito Federal, Piauí, Tocantins, Mato Grosso, Acre, Sergipe, Paraíba, Roraima, Alagoas, Bahia, Paraná e Santa Catarina.

O alerta de Ana Carla Abrão Costa, ex-secretária da Fazenda de Goiás é oportuno: “Todos os Estados estão na mesma correnteza, com uma grande queda à frente na qual alguns já foram tragados. É trajetória insustentável. Se os Estados não fizerem ajustes, as despesas com pessoal vão consumir toda a receita, determinando o colapso dos serviços públicos”. O economista Raul Velloso na mesma direção lembra que a principal fonte de desequilíbrio está na folha de pagamento dos aposentados e inativos.

O Anuário Estatístico da Previdência Social traduz em números essa realidade: em Minas Gerais os servidores ativos são 217.034; os inativos e pensionistas, 319.043. No Rio Grande do Sul, os ativos são 117.934 e os inativos e pensionistas, 205.835. No Rio de Janeiro são ativos 215.265 contra 253.009 inativos e pensionistas. Em Santa Catarina, são ativos 65.112 e 66.557 inativos e pensionistas. Nos demais Estados, o número de servidores ativos ainda é maior com diferenças mínimas, mas tendente ao crescimento de inativos e pensionistas ao longo dos próximos anos.

Alguns governos estaduais esconderam a fragilidade das contas públicas pela maquiagem contábil. A finalidade era demonstrar que estavam nos limites fixados pela Lei de Responsabilidade Fiscal, para a política de gastos com pessoal. A artificialidade fiscal agora cobra o preço da falsificação dos números. Desequilíbrio orçamentário é caminho seguro para o insucesso de qualquer administração.