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Piauí 2017: o meu boi morreu, a minha cabra nasceu

Antonio José Medeiros - Sociólogo, professor aposentado da UFPI

21/05/2019 05:31h

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O Censo Agropecuário nos alerta: no Piauí, o rebanho bovino diminuiu nos últimos dez anos. Estão morrendo ou sendo abatidos mais bois do que os que estão nascendo. Mas, as cabras e ovelhas estão aumentando, bem como as aves (incluindo frangos); os suínos também estão diminuindo.

Em 2006, o rebanho bovino era de 1.667.456 cabeças; em 2017, diminuiu para 1.428.093. Um número menor que em 1995 (1.704.389 cabeças) e em 1985 e 1980 (em torno de 1.500.000). A tendência é antiga, portanto. 

O rebanho de caprinos cresceu de 1 457 394 para 1 847 919 cabeças, nos últimos dez anos; e o de ovinos (carneiros e ovelhas) cresceu de 1 317 508 cabeças para 1.565.125, no mesmo período. E as aves (galinhas, galos, frangas e frangos) cresceu 8.032.000 para 10.483.00.

Há evidências de que o crescimento da produção de aves se deve a empreendimentos de médio e de grande porte. Já o crescimento do rebanho caprino e ovino é fruto do incentivo e assistência técnica a pequenos criadores; os grandes criadores têm se preocupado mais com as “raças nobres” para leilões. 

O rebanho suíno cresceu apenas de 966.924 cabeças pata 1.053.046. Apesar do pequeno crescimento na década, vem decrescendo desde 1975, quando o efetivo era de 1.861.079, e em 1995 era de 1.394.406. Tem aumentado a criação por produtores “empresariais”, mas tem diminuído a produção pelos pequenos criadores.

A situação da pecuária merece análise mais detida, na terra do meu boi morreu... que será de mim? Comecemos pela contemplação da paisagem...

Segundo o Censo de 2017, a utilização das terras, no total de 9.996.869 hectares, é a seguinte: lavouras permanentes – 1,66%; lavouras temporárias – 14,32%; matas naturais – 57,49%; florestas plantadas – 0,52% e pastagens naturais - 12,98% e pastagens plantadas – 8,42%.

Mas é bom interpretarmos alguns desses dados baseados em informações dos próprios produtores/criadores.

As “matas naturais” cresceram de 2.732.613 hectares em 1975 para 4.663.837 hectares em 2006, e 5.747.873 em 2017 (57,4%). Trata-se, de fato, de uma reclassificação do uso, para atender a exigências legais. Muito do que era considerado “pastagem natural”, agora é considerado “mata” para atender às exigências da legislação ambiental (¨reserva legal”). Por outro lado, cresceu bastante o tamanho das áreas de parques e outras áreas de preservação.

Assim, ao crescimento das “matas naturais” corresponde o decréscimo das antes consideradas “pastagens naturais”. Essas eram 3.527.964 hectares em 1975, 2.064.410 hectares em 2006, e 1.297.619 (12,98%) em 2017. O mais significativo é que as “pastagens plantadas” vem crescendo a cada Censo: apenas 171.871 hectares em 1975, 360.946 hectares em 1995, 626.160 em 2006 e agora 842.587 (8,42%) hectares. 

Pode haver alguma correlação entre a redução das pastagens com a redução do rebanho bovino, mesmo com o crescimento das pastagens plantadas.

Mas, a redução do rebanho tem a ver com a dizimação em anos de seca, e sobretudo com a crise da pecuária extensiva tradicional baseada no latifúndio. Não foi apenas o impacto da reforma agrária, que tende a reduzir o criatório de gado nas novas pequenas propriedades. Foi a incapacidade dos grandes proprietários tradicionais de modernizar os métodos de criação e melhoramento dos rebanhos e de assumir uma postura nitidamente empresarial. Desde o início do século XX, perdemos espaço para outros estados.

As iniciativas governamentais lideradas pelo General Gayoso e Almendra nos anos 1950, com a criação do FRIPISA, não produziu o resultado esperado para estimular o aumento da produção e o beneficiamento industrial das carne (pecuária de corte).

Atualmente, pode ser mais promissora a expansão da pecuária leiteira, porque pode associar em torno de empresas-âncoras de leite longa vida e de laticínios em geral, uma grande rede de pequenos e médios produtores de leite. Estamos atrasados nesse processo, embora existam tentativas nesse sentido.

Uma política intensiva para o setor é urgente. A produção de leite cresceu de 29.314.000 de litros anuais em 1975 para 50.621.00 em 1980 e 73.459.000 em 1995. Entretanto entre 2006 e 2017 caiu de 85.933.000 de litros para 62.183.000.

Política de desenvolvimento, por um lado, deve associar pequenos, médios e grandes produtores, e por outro, governo, entidades profissionais e universidades. E precisa haver prioridades e focos setoriais. Caprinos, ovinos, suínos, aves e pecuária de leite sejam o foco. Com a palavra as Câmaras Setoriais.

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