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Pandemia: a emergência e o emergente

Ao meu mestre Padre Raimundo José Ayremorais Soares, profundo conhecedor do grego e do latim, que utilizava a etimologia para filosofar e brincar com as palavras.

25/03/2020 07:56h

A doença, por natureza, é individual. Ela incide sobre o corpo humano ou animal, que é “individualíssimo”; basta lembrar que nenhum indivíduo pode sentir a dor física do outro.

Quando uma doença se espalha sobre o povo temos a epidemia (do grego: epi = sobre e demos = povo). E quando uma epidemia atinge mais de uma região ou país temos a pandemia (do grego: pan = todo); em tempos de globalização, o “todo” é literalmente o globo, o mundo, o planeta.

A doença dos indivíduos é comum, normal; as epidemias e pandemias não fazem parte da normalidade. Elas são emergências porque surgem, aparecem acima do curso normal da vida. São exceções, são excepcionais e exigem, portanto, um cuidado especial.

Esse é o primeiro entendimento que todos nós devemos ter. Não estamos vivendo uma situação normal; precisamos mudar nossos hábitos pessoais: mais higiene, beber mais, etc., etc. E os especialistas têm dado muitas dicas.

Só ocorrem epidemias com doenças transmissíveis ou contagiosas. E este é o segundo entendimento que cada um deve ter: evitar o contato. As epidemias se propagam em progressão geométrica: um atinge 10, que atingem cada um mais 10 e assim por diante.

A Epidemiologia é o “ramo da medicina que estuda os diferentes fatores que intervêm na difusão e propagação de doenças, sua frequência, seu modo de distribuição, sua evolução e a colocação dos meios necessários a sua prevenção”. Em geral, como as medidas sempre são tomadas, a partir de um ponto (o pico), a curva de expansão da pandemia tende a declinar. Mas, sem a vacina, só a prevenção pode tornar esse pico mais baixo. É o que estamos tentando fazer no Brasil e que está sendo feito em vários países.

Palavras duras entram em nosso vocabulário: confinamento do afetado; isolamento social dos que podem ser afetados. A epidemia é uma “doença coletiva” e não pode ser tratada apenas pelos profissionais da saúde (que são decisivos e deles é solicitada uma dedicação admirável), mas precisa ser “tratada” por todo o povo.

Quanto tempo durará a prevenção? Acho que ninguém sabe, mas deve ser abreviado. Uma pessoa ou uma sociedade não suportam viver muito tempo em situação emergencial. Daí a dupla conotação que ganhou a palavra emergência: situação excepcional e situação passageira. Por isso precisamos ter cuidado para não tirar conclusões apressadas.

É o caso das eleições municipais de 2020. É prematuro querer tirar qualquer conclusão a mais de seis meses da eleição. Uma situação excepcional de mais de seis meses “quebra” economicamente o país e desestruturar a vida social. A pandemia se tornaria um caos total, um “pandemônio” (essa casa de todos os demônios, como imaginou John Milton em seu poema épico, O Paraíso Perdido). Por isso, vamos calibrando o calendário da volta ao normal, de maneira sensata. Pensar em cancelar eleições já agora tem mais a ver com oportunismo dos que querem uma brecha para prorrogar mandatos do que com o enfrentamento sério da pandemia.

Mas, vamos pensar a emergência para além da excepcionalidade. E esse é outro sentido que a palavra tem: a emergência-novidade. E aqui as coisas se ligam: será que comportamentos diferentes da emergência-excepcionalidade não devem se tornar novos costumes, nova cultura?

Nesse momento, estamos usando com mais intensidade os recursos da telemática, da comunicação à distância. A educação à distância, o teletrabalho (chamado também de home-office), o skype e as vídeos-conferências vão entrar cada vez mais na normalidade da vida. Com a saudável combinação com os momentos de contato presencial. Essa é a sociedade em rede de que fala Manuel Castells.

Há algum tempo, o movimento ecológico tem chamado a atenção para o custo humano das grandes aglomerações em megalópoles: o engarrafamento do trânsito, a duração da ida diária para o trabalho ou eventual para qualquer atividade; o tratamento do lixo e do esgotamento sanitário, etc. Ainda bem que Teresina não tem conseguido realizar seu sonho de chegar a um milhão de habitantes. A descentralização para cidades médias e pequenas, com uma boa rede de comunicação viária, parece a saída.

As moradias em prédios de mais de dez andares que aumentam a concentração interna nos espaços urbanos também deve ser repensada. E conseguiremos mudar o arraigado hábito brasileiro do uso do transporte individual por cada membro da família? Ricardo Paes e Barros, em entrevista ao jornal Valor Econômico, defende horários diferenciados de trabalho para evitar os momentos de congestionamento.

Por fim, a pandemia nos faz pensar grande sobre duas questões que têm sido tratadas ultimamente, numa perspectiva ideológica estreita: o papel do estado na gestão de serviços públicos e a importância da cooperação supranacional na gestão da regulação e na implementação de políticas públicas, não só na área ambiental, mas também nas áreas econômica, sanitária, educacional, social e outras.

As pandemias e outras emergências como enchentes e incêndios florestais, por exemplo, exigem medidas normativas de caráter público, inspiradas na garantia da vida da população, na proteção social do nível mínimo ou razoável de bem estar, enfim inspiradas na solidariedade que o mercado não garante.

E não é suficiente apenas cada país se proteger, fechando fronteiras. É preciso articular ações comuns. Os fóruns internacionais precisam cada vez mais se tornar supranacionais, definindo democraticamente normas de convivência. E os organismos internacionais também devem seguir o mesmo caminho, tendo mecanismos e recursos para uma gestão eficiente de políticas públicas.


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