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A dimensão pré-ideológica da disputa política no Brasil

Antonio José Medeiros - Sociólogo, professor aposentado da UFPI

04/02/2020 12:16h

Em 1994, cinco anos após a queda do Muro de Berlim e três após o colapso da União Soviética, Norberto Bobbio lançou na Itália o livro “Direita e Esquerda - Razões e Significado de uma distinção Política”. O próprio autor se surpreendeu, pois o livro virou best-seller; ainda havia portanto bastante gente interessada no tema.

É que desde os anos 1960 se falava no “fim da ideologia”. Para uns, como Daniel Bell, havia uma decepção dos intelectuais com os descaminhos das ideologias à direita e à esquerda. Para outros, como Marcuse, o avanço da tecnocracia tinha esvaziado o papel de ideólogos (intelectuais ou líderes de massa). Mais recentemente, se considerava que os novos movimentos sociais (mulheres, negros, LGBT, ecologistas) levantavam questões que sempre foram subestimadas pelas ideologias de Direita e de Esquerda. O colapso do comunismo seria, então, o “golpe final” no peso que as ideologias tiveram na disputa política. Era o clima de 30 anos atrás. Nos últimos 10 anos, a Nova Direita terminou ressuscitando a “velha” Esquerda.

O livro de Bobbio, com sua lucidez de sempre, chamava a atenção para “as razões e o significado” da distinção Direita X Esquerda. Bobbio dialoga com uma imensa literatura, sobretudo italiana, que tem como foco essa distinção, para negá-la, reafirmá-la ou melhor qualifica-la. E assume a tese clássica: o que distingue direita e esquerda é “a diversa valorização (apprezzamento, em italiano) da ideia de igualdade” (p.118). A Esquerda defende a igualdade; a Direita não a considera um problema central ou a considera um fenômeno normal ou mesmo “natural”. A distinção político-ideológico tem como referência, portanto, o regime econômico-social e não as especificidades da disputa política; por isso é um fenômeno das sociedades urbano-industriais modernas. Logo, enquanto existir desigualdade sobretudo de classe, haverá espaço para a Esquerda na disputa política.

Para descrever a dinâmica própria da disputa política, Bobbio apela para outras distinções: democracia X autoritarismo e moderação X radicalismo. E com base nos três critérios, assume a classificação convencional do espectro “das doutrinas e movimentos políticos”: a) extrema esquerda: igualdade + autoritarismo + radicalismo; b) centro-esquerda: igualdade + democracia + moderação; c) centro-direita: desigualdade + democracia (liberal) + moderação; d) extrema direita: desigualdade + autoritarismo + radicalismo.

Embora passível de crítica, a diversidade de critérios combinados por Bobbio, ajuda a entender as características e as contradições da disputa política no Brasil, nos últimos anos, pois as diferentes forças políticas que se aliaram privilegiam ou uma ou outra das dimensões da política. Atenção: e isso faz diferença!

Se a política econômica é de direita, pois o neoliberalismo “não valoriza a igualdade”, seus defensores nem sempre têm entusiasmo com o exercício do poder pelo governo que é claramente autoritário, pois não respeita a liberdade de disputa e o diálogo. Maior ainda são as hesitações em relação ao radicalismo expresso na guerrilha virtual, nos ensaios de apelo à mobilização de massa e, no limite, no apelo ás milícias, atropelando com frequência as instituições.

É preciso considerar uma característica do atual autoritarismo no mundo todo: vem assumindo bandeiras que antes eram marcas do conservadorismo moral: a chamada “política dos costumes”, de conotação religiosa, que não aceita a diversidade e alimenta preconceitos diversos, embora essa política, em alguns momentos, tenha sido marca tanto do nazismo como do stalinismo.

Essas distinções são importantes, pois elas é que permitem refazer alianças na dinâmica da disputa política.

Quase sempre, o Autoritarismo de Direita precisa de uma Esquerda para ser combatida; no Brasil de hoje não é diferente. É que o autoritarismo de direita como anti-humanista e antidemocrático, ou seja, como negação do “imaginário social moderno” (Charles Taylor) precisa se justificar como “único recurso” contra uma ameaça real ou imaginada.

Mas, os movimentos de direita mais consistentes procuram articular tolerância com a desigualdade+autoritarismo+radicalismo num projeto ideológico. Assim foi o fascismo e o nazismo. E pode-se vislumbrar essa perspectiva no Brasil de hoje, na tentativa de organizar um “partido de perfil ideológico” como a Aliança Pelo Brasil.

E é sobre esse ponto que quero chamar a atenção. Ressurge, depois do Integralismo dos anos 1930, um partido ideológico assumidamente de direita no Brasil. E isso num momento em que os partidos ideológico-programáticos de esquerda e centro-esquerda se tornaram muito parecidos com os partidos tradicionais não-programáticos. Isso é explorado pelo Autoritarismo de Direita, ao se apresentar como a “Nova Política” contra a “Velha Política”. A Direita toma uma bandeira que foi da Esquerda nos anos 1980: uma “Política Diferente” contra a “Política Tradicional”.

É verdade que há muita hipocrisia nesse discurso; e os fatos, envolvendo figuras-chave do governo e a própria família do Presidente, desqualificam a proposta. Mas as verossimilhanças existem e funcionam. O “toma lá, dá cá”, o eleitoralismo e fisiologismo, o clientelismo como distribuição de favores e compra de votos – a meu raiz, a principal raiz da corrupção – são percebidos pela população. Ou avançamos na reforma política, ou a população continuará desacreditando nela. E o financiamento público de campanha com voto em lista partidária escolhida em votação direta de todos os filiados é o caminho. Só o aumento de fundo eleitoral pode ter efeito contrário.

Digo quer essa questão é “pré-ideológica”; é uma herança de nossa formação histórica. Sempre foi marca da política oligárquica, essa Direita sem Ideologia elaborada. Ultimamente, contaminou a Esquerda. O que está em jogo é o Tradicional versus o Moderno. Vencida essa etapa, a disputa será mais claramente ideológica e programática. E a Esquerda estará no páreo, espero eu, como Esquerda Democrática e Moderada.


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