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Notícias Nosso Filhos

13 de agosto de 2018

Em casa

O convite para agosto que marca a metade do ano, a metade de um caminho é fazer do meio começo

Você abre a porta, tira os sapatos, ainda no corredor, senta no sofá na pior de suas posturas e suspira aliviado. Está em casa. É ali, que é possível desabotoar a calça depois do jantar, tomar banho com a porta destrancada e seguir de pijamas até o meio dia de sábado. Se não é, deveria.

É preciso que se tenha esse lugar. Um lugar para ser em versão completa, sem filtros. O exercício de fazer da casa um intervalo na agonia do mundo, nos sinais quebrados, nos dias de chuva quando se esquece o guarda-chuva é grande, importante. Repõe o fôlego para o programar e desprogramar do despertador. Embora a psicanálise nos ensine que aquela outra muito engraçada, que não tem teto, não tem nada é a casa que deveria estar na nossa mira. 

Obstáculos para conquistá-la não nos faltam a começar pelo maior deles: ela não tem chão. Ainda assim com dois nãos na frase que sugere entrada, a casa sem paredes merece visita. A casa sem parede somos nós. E sem parede não significa sem limites com o mundo, mas com a possibilidade de ser versão completa até na agonia do mundo. Somos um lugar. E é preciso que se ocupe esse lugar. Mala, cuia, fotos na parede, cachorro e gato. 

O convite para agosto que marca a metade do ano, a metade de um caminho é fazer do meio começo. Abrir a porta, entra e ficar. Cada vez mais presente, cada vez mais calça desabotoada, cada vez mais em casa. 


Leia mais: Um canto todo seu 

E também: Salve-se como 

A imagem que ilustra este texto é de Michael Vincent Manalo

30 de julho de 2018

Estamos prontos para desaprender?

É tempo de questionar, de falar, de se fazer presente, de parar de ‘se comportar bonitinho’.

Tive a alegria de ouvir, na última sexta-feira, Bárbara Esmenia recitar um poema do seu último livro publicado pela Padê Editorial. Um experiência presenciar a força dessa mulher assim de tão de pertinho, assim ao vivo.

Em um momento de sua fala, Bárbara nos lembrou a imagem que guardamos dos poetas: homens, europeus, já mortos, de uma outra época, de um outro lugar. Não estava posta ali a defesa para que eles deixassem de ser lidos, mas o convite para visitar também o que é nosso, o que nos diz respeito, o que nos aproxima das nossas vivências ou ainda melhor, que nos apresenta a vivências outras. Dos nossas, das nossas. 

O poema que comentei no início deste texto me soou também como um chamado. Quero me juntar ao “Nós” que fala em “Desaprenderam Vocês”, busco também desaprender. Questionar o que é certeza. Refazer o que está pronto. Manter o olhar crítico. Ouvir e falar.

Saí de lá com a certeza de que precisamos mesmo ouvir mais, sempre. Mas que também é tempo de falar, de se fazer presente, de parar de ‘se comportar bonitinho’. Estendo o convite a você leitora: qual é o significado do que vem sendo silenciado em você? Quando falta a voz, qual é o nome do que te mantem calada? O que deixou de ser dito na reunião de trabalho, no jantar de família, na conversa com os amigos? Para quando guardamos o que queremos comunicar? Para quê? E para quem? Falemos. 

Viva a poeta viva!

A imagem que ilustra este texto é de Lim Miryang

17 de julho de 2018

Doce de jaca

Memórias construídas não a cimento e tijolo, mas a jaca, açúcar, coco e jogos de talheres incompletos

Pai, mãe e duas filhas tinham o desejo de ter uma casa na praia. Moravam pertíssimo do mar, morariam quase na areia alguns anos depois dos dias da “faca de se jogar fora”, e ainda assim nutriam a fantasia da casinha avarandada, com uma rede para cada um, um terraço cheio de vento quente, uma padaria para comprar pão doce de goiabada ruim (mas bom), um carro com o porta-malas cheio às sextas-feiras, um domingo de volta para a cidade. Tinham os quatro o sonho de construir memórias de veraneio.

Nunca compraram a casa, chegaram a ter um terreno e um desenho na mão, mas venderam o lugar antes do primeiro tijolo. Vez por outra, separavam um janeiro para testar o litoral. Como se comprometer sem antes experimentar a geografia? Tamandaré, Carneiros, Serrambi. Voltavam cheios de promessas e braços marcados de sol e muriçoca. Mas bastava março encostar em fevereiro e os planos das férias de julho se avizinharem para biquínis e projetos encontrarem espaço no fundo da gaveta.

Ontem, depois de um almoço no inverno paulistano gelado, tive a certeza de que mesmo sem a casa, vivemos uma infância de rede e vento quente. Veraneamos. Estávamos, meu companheiro e eu, em um restaurante nordestino, entregues a carne de sol, cuscuz e macaxeira molinha, queijo coalho e manteiga de garrafa. Já certa de negar a sobremesa e partir para o café coado, na vontade de desabotoar a calça tamanha a devoção gastronômica, ouvi dele o pedido. Queria quebra-queixo e doce de jaca. Pelo menos uns vinte anos me separavam da última vez que comi jaca. 

Já na primeira colherada do doce, lembrei-me de meu pai que a cada uma das casas de temporada alugadas, emprestadas, visitadas, resmungava aos risos que a faca que descascara a jaca para o doce era agora de se jogar fora de tão grudenda. Minha mãe levava os bagos da fruta para o fogo com água e açúcar e precisava de menos de meia hora para transformar os três ingredientes na melhor sobremesa do mundo. Lembrei-me de minha irmã me levando pelo braço enquanto perseguíamos o barulho do sininho do vendedor de quebra-queixo, patrimônio imaterial das tardes do litoral pernambucano. 

Memórias construídas não a cimento e tijolo, mas a jaca, açúcar, coco e jogos de talheres incompletos. Viva Ana Maria, João e Poly: minhas férias, meus doces, o sol nordestino que carrego sempre comigo. 


A imagem que ilustra este texto é de Diana Nicholette Jeon

03 de julho de 2018

Um canto todo seu

Importante pensar em que lugar estivemos, estamos e queremos estar. Desde o coletivo até as decisões individuais.

Mudo meu consultório de endereço esta semana depois de um período memorável de rua Itambé. Um espaço pensado em cada milímetro, sonhado em cada taco, planejado em cada xícara de café. Paquero o prédio há muitos anos, desde o primeiro dia da formação em psicanálise e a partir de agora, é de lá que escutarei meus analisandos – os presenciais e os via Skype –, que escreverei meus textos, que me sentirei próxima de cada um de meus leitores (são 14 colunas semanais no Brasil, no Canadá e nos Estados Unidos). Será também de lá que cultivarei a delícia do silêncio. 

A semana da mudança coincide (!) com a leitura que concluí hoje: Um teto todo seu de Virginia Woolf, um livro que recomendo com força, que reli algumas vezes, que me faz muitíssimo sentido. O texto é resultado de uma palestra dada pela autora em 1928 sobre a produção literária feminina, a posição da mulher na sociedade de então e suas consequências para a expressão e a escrita da época.

Importante pensar em que lugar estivemos, estamos e queremos estar. Desde o coletivo até as decisões individuais. Me peguei pensando no valor que venho dando a meus desejos e confesso um certo orgulho pela semana que começa. Esta coluna é uma tentativa de incentivo. Uma lembrança para que você, que me lê agora, esteja atento às suas paqueras. Pode ser um consultório, uma viagem, uma mudança de carreira, um amor. Se há algo que te povoa a cabeça por um tempo, que vai e volta com uma certa frequência, que vez por outra surge em um sonho, invista. Tempo, energia, recursos. Ponha mais de você, na sua vida, se implique. Procure um teto todo seu. Tenho certeza que você merece.


A imagem que ilustra este texto é de Jackie Weisberg

25 de junho de 2018

E era uma alegria, era uma esperança, era dança e dança

Como que hipnotizados pela sanfona a zabumba e o triângulo, batemos palmas, cantamos, fotografamos, alguns de nós (eu) chegam a chorar assistindo o tempo passar forte, doce, saltitante, sorridente e cheio de ritmo

Acordamos atrasados para o que muito provavelmente é, para mim, o melhor fim de semana do ano. Café da manhã, banho, tranças, bochechas rosas e o mix de estampas mais despreocupado de qualquer guarda-roupa, foram rapidamente empilhados nas crianças para que pudéssemos chegar a tempo na festa junina da escola. 

Do momento em que cruzamos o portão até a última dança da tarde (3 horas depois) perdi de vista minhas meninas. Marcamos que o ponto de encontro seria a quadra e que se precisassem, eu estaria lá. Correram para dentro como se a pescaria, a boca do palhaço, o bingo e a maçã do amor esperassem impacientes desde junho passado. Não precisaram.

E eu que tinha prometido estar na quadra, lá fiquei. E por ficar, assisti a todas as danças. Foram muitas, foram lindas. Parada no mesmo lugar, pude observar a concentração para a quadrilha, a folia, a ciranda... Tão comovente ver as crianças, das menorzinhas até as maiores, atentas ao chamado dos professores, arrumando os cabelos, as roupinhas, segurando o chapéu um do outro. Até que solta a música. Trinta segundos no esforço de acertar a cadência, os passos, os pares. Trinta segundos para cruzar o primeiro olhar com os pais e, como em um estalar de dedos, relaxar. Tornam-se juntos, ao mesmo tempo, um mar de gente entregue a se entregar.

Da arquibancada, fazemos o mesmo. Como que hipnotizados pela sanfona a zabumba e o triângulo, batemos palmas, cantamos, fotografamos, alguns de nós (eu) chegam a chorar assistindo o tempo passar forte, doce, saltitante, sorridente e cheio de ritmo.

Parece bobagem, mas não é não.


A imagem que ilustra este texto é de Randy Nutt 

21 de junho de 2018

Quando vou parar de sentir medo?

Quando?

Na semana que passou, ouvi de uma de minhas pacientes a pergunta angustiada: “Quando vou parar de sentir medo de não saber?”. Ela se referia aos primeiros meses de uma maternidade planejada, comemorada e ainda assim… Assustadora.

Penso que essa pergunta que é tão linda e profunda pode (como todas as outras) ser dividida em muitas:

Quando vou parar?

Quando vou parar de sentir medo?

Quando vou sentir medo?

Quando vou saber?

Quando vou parar de saber?

Para todas uma só resposta: nunca e sempre, todos os dias e em dia nenhum. Parece, mas não é má notícia. Tanto no início da maternidade quanto em qualquer outra fase da vida, o movimento, o medo e os não saberes podem ser aliados poderosos.

Me parece que o desafio está em aprender a viver com e não em tentar livrar-se deles. A mesma paciente que menciono no início do texto (e que topou ter o seu exemplo citado aqui) está em um processo de análise via Skype. Dizia que tinha pavor de tecnologia, que não conseguia se virar no computador e quando a notícia de uma mudança de cidade bateu a sua porta, propôs (antes que eu propusesse) continuar suas sessões a distância.

Chama-se elasticidade. E alguma elasticidade pode ser resultado do próprio processo analítico. Assim como a capacidade de nomear de dar sentido ao que nos angustia. Medo de que? Parar com o que?

Estar diante do que nos parece um caminho sem volta, do que nos parece insuportável, é uma oportunidade de criar novas saídas. Ainda que com medo, com não saberes e com movimento, foi possível para minha paciente manter a análise da qual ela não queria abrir mão. A hipótese do Skype jamais teria se apresentado se não pelo impasse. Acompanhada do mesmo trio (medo, dúvidas e movimento) que representam se não o todo, muito do que é a maternidade, ela vai poder também criar uma nova pessoa. Uma mulher que é também mãe. Que já não é a mesma. Recém-nascida exatamente como o bebezinho que ela carrega no colo.

18 de junho de 2018

Todos os santos

Filhos estão sob risco o tempo inteiro. Estão vivos. E tudo pode acontecer a quem está.


“E é bom dormir consciente

De que estás viva e agitada

Nadando contra a corrente

Nesse teu mar camarada”

Vinicius de Moraes em 

Estâncias à minha filha


“Tudo bem com as crianças? Notícias?”

Foi a mensagem que apitou no grupo de WhatsApp das mães na última segunda-feira à tarde. Explico. As crianças da sala da minha filha mais velha partiram, na manhã daquele dia, para uma viagem a Santos. Passariam as próximas 72 horas em um trabalho de campo que, naturalmente, envolve alguma aventura escolar e social e que – também naturalmente – é aguardado com ansiedade pelos alunos. 

Daqui, do meu lugar de mãe, assisti à delícia das combinações. Como vão ser formados os grupos de estudo? Quem vai ficar comigo no alojamento? Será que vai dar praia? Vale levar uma guloseimazinha escondida na mala. Liga para um, liga para a outra. Bonito ver as memórias sendo construídas. Até que...

“Tudo bem com as crianças? Notícias?”

Não havia em minha imaginação espaço para nada que não fosse “tudo bem”. E a partir de então, houve. Espaço grande, frio, feio e escuro para toda e qualquer possibilidade de finais infelizes. Durou pouco. Mas o suficiente para me pôr para pensar.

Filhos estão sob risco o tempo inteiro. Estão vivos. E tudo pode acontecer a quem está. É um exercício poderoso de conviver com essas ameaças sem entregar todos os pensamentos a elas. É um exercício desafiador conviver com quem não se furta de despertar o medo alheio. É uma exercício comovente conviver com quem acolhe a mensagem e conforta o mensageiro.

Para além do perigo, penso que parte do que provoca essa pergunta é a agonia de suportar não estar presente em todos os momentos da vida das crianças. O pedido de fotos da viagem para a escola, a investigação para saber quem levou o celular, quem postou o resultado das atividades dizem sobre nós, sobre o nosso tempo.

Deixemos nossos filhos correr o risco de viver. Não são santos (que bom), mas têm a companhia de todos eles. 

Ps: Em tempo, chegaram bem.

A imagem que ilustra este texto é de  Bella Tchicourel 

05 de junho de 2018

Faltou? Jura?

Avizinhados ao caos, falimos antes que o encontro com ele se desse de fato

Tive – como vocês também devem ter tido – dias atípicos na última semana. Notícias e análises amplamente repercutidas em nossas casas, nos jornais,  nas redes sociais, nos cafés dos escritórios (para quem conseguiu chegar aos escritórios, claro). Estive atenta às reações mais diversas, mais apaixonadas e tensas, pendendo ora para um lado e ora para o outro. Uma riqueza a oportunidade de nos escutar na falta. A falta.

A começar pela possibilidade dela. Digo possibilidade, porque antes que acabassem a gasolina nos tanques e os produtos nas prateleiras, sofremos todos com a fantasia de como seriam os próximos dias. Avizinhados ao caos, falimos antes que o encontro com ele se desse de fato.

Até que o encontro chegou, até que os postos fecharam, até que faltou. Falidos, incrédulos e exaustos seguimos. Seguimos faltantes.

E quando foi diferente? Proponho um exercício. Tente pensar em um boa fase da sua vida, o nascimento de um filho, a notícia da cura de um familiar doente, a promoção no trabalho, o encontro de um amor, por exemplo. Estava tudo lá? Houve algum momento em que você se sentiu 100% nutrido, sem nenhuma questão pendente? Satisfeito nos afetos, intelectualmente preenchido, leitura em dia, seguro, saudável, com dinheiro, boletos pagos, filhos amáveis e promissores, espírito elevado, exercícios feitos, certezas sobre seu futuro e o futuro do mundo, sem arrependimentos, dores nas costas, saudades, contatos pendentes, sede, fome, calor ou frio?

Eu aposto que não. Por que? Porque se você está lendo este texto, você está vivo. E viver é administrar faltas, administrar buracos. Dos mais concretos aos mais complexos, sabemos lidar com eles, pode ficar tranquilo. Se faltar, seguiremos faltantes. É o que sempre fomos. Boa semana queridos.


A imagem que ilustra este texto é de Jens Kristian Balle 

21 de maio de 2018

Ouvir crescer

Longe dos olhos, as crianças mudam mesmo rápido demais. Dos nossos filhos, com os quais acordamos e dormimos todos os dias, é mais difícil ver o ‘crescer’.

Reencontrei amigos que já não via há alguns anos e repeti inúmeras vezes sobre seus filhos: Como estão grandes! Como cresceram! De meu lado, ouvi os mesmos comentários sobre minhas meninas que me acompanhavam.

Longe dos olhos, as crianças mudam mesmo rápido demais. Dos nossos filhos, com os quais acordamos e dormimos todos os dias, é mais difícil ver o ‘crescer’. Percebe-se, é claro, quando alguma marca  é atingida, quando riscamos a altura na parede, quando revemos as fotografias, quando no primeiro dia frio do ano não há nenhum casaco que caiba.

Essa semana, com esse assunto em mente, tive a impressão de que ouvi a Sofia, minha filha mais nova, mudar. Ouvi Sofia crescer. Aconteceu assim: nós tomávamos café da manhã no sábado, um desses cafés que se arrastam até quase a hora do almoço. Ela levantou-se e sentou-se ao piano, tocou uma, duas, três músicas. Cantou enquanto tocava, encheu a sala com o volume das teclas. Soava segura, divertia-se, passava páginas de partitura. 

Entre ela e eu, uma habilidade, um fazer que não pertence a nós. É só dela. Entre ela e eu, uma música apresentada a nossa casa via sua caixinha de som. Melodia que não é nossa, é só dela. Entre ela e eu, símbolos (notas, escalas) que não sei ler, um idioma que não compartilhamos, que é só dela. Entre ela e eu, uma extroversão, um ocupar sem reservas seu lugar no mundo, um volume alto na voz, uma cabeça que sacode sem medo de tontura, um rodopiar pela sala quando a música termina, um pedido sincero e merecido de aplauso que é tão... tão dela. 

Um viva a Sofia que é outra música. Que é grande. Como cresceu!


A imagem que ilustra este texto é de BrianNash

14 de maio de 2018

O poder da espera

Estar junto, conversar e escutar (escutar sempre!) são mesmo o melhor caminho para quase tudo.

Foi lançado no último sábado, em São Paulo, Pré-adolescente – Um guia para entender o seu filho (Principium). O livro da jornalista Daniela Tófoli é muito mais do que um manual. São 144 páginas de uma reportagem completa e competente sobre a fase que, segundo a autora, vai dos 8 aos 12 anos. 

Entrevistas, pesquisas e indicações de leitura dão suporte ao volume que passa pelas principais dúvidas de quem tem filhos entre a infância e a adolescência: as questões das transformações do corpo, a montanha russa emocional  e o uso da tecnologia  são algumas delas. 

Estive no lançamento do livro com minha filha mais velha que, aos 12 , está a caminho de deixar essa fase. Lara vinha de uma semana difícil de compromissos na escola. Tinha dormido tarde na noite anterior e acordado cedo para  fazer uma prova de História. Passou os últimos dias entre o Império Romano e a Idade Média. Não imaginei que aceitaria o convite para me acompanhar em uma programação que não incluiria amigos, música, telas ou slimes (que praga!). Disse que sim, iria.

Dividi a fila de autógrafos com Lara por exatos 40 minutos. Conversamos sobre a prova, sobre o livro que começamos a ler ali mesmo, sobre outros que estavam expostos na livraria, sobre a receita que ela planejava fazer mais tarde, os convidados “Esse vai tomar o vinho, aposto”, “Aquela lá tem cara de quem vai de água”, brincava. 

Esperar revelou-se um programa maravilhoso de sábado. Éramos nós duas atentas uma a outra. Relembrei ali da certeza de que estar junto, conversar e escutar (escutar sempre!) são mesmo o melhor caminho para quase tudo, tanto para os filhos quanto para as mães. Maturidade envolve disponibilidade. Maternidade é pura disponibilidade.

E quando esse trio poderoso não resolver (sozinho), na infância, pré-adolescência, adolescência ou em qualquer outro momento da vida, quando as mudanças de fase abalarem as estruturas, lembremos de procurar ajuda e informação. Meu desejo para nós mães e também para nossos filhos, é que tenhamos todos uma prateleira sempre cheia (de livros, amigos, profissionais de confiança e família a quem recorrer). 


A imagem que ilustra este texto é de Courtney Miller Bellairs 

07 de maio de 2018

Esquecidas

Há seis meses, foi encontrada em Nova York uma caixa que esteve perdida pelos últimos quarenta anos. Eram 2.924 fotografias feitas em parques da cidade no verão de 1978. Quarenta anos!

Há seis meses, foi encontrada em Nova York uma caixa que esteve perdida pelos últimos quarenta anos. Eram 2.924 fotografias feitas em parques da cidade no verão de 1978. Quarenta anos! Foi o tempo que ficaram esquecidas, ou melhor, que permaneceram distante dos olhos de qualquer pessoa. O que não significa que estavam esquecidas. As fotos? Sim, são lindas, comoventes. Comoventes como os verões.

Não há época do ano, para mim, que cheire mais a esperança. Especialmente, para nós, que crescemos no hemisfério sul que experimentamos as viradas de ano durante a estação. É como se a partir do sol e do calor tudo pudesse mudar. 

Penso em minhas recordações da infância, nas imagens de minha infância e as que estão mais nítidas em minha memória se concentram nos meses de calor. Há sempre um biquíni de babados, um picolé derretido na mão, um mar ao fundo, um banho de mangueira. 

No entanto, de todas as fotografias que vi a que mais me comoveu foi a de um grupo de jovens adultos pulando corda. Brincavam em um parque, não havia crianças por perto, não o faziam para entreter ninguém, nem para acompanhar filhos ou alunos. Pareciam levar a brincadeira a sério. Divertiam-se, uns descalços, outras com saltos de plataforma baixa, havia algo de competição em seus olhares, sorrisos espertos experimentavam a sensação de se aproximar e se afastar do chão por prazer. Pulavam para eles.

Nasci no mesmo verão de 1978. Desde que vi a fotografia do grupo tenho pensado que há de pular cordas. Sejam elas quais forem. Há de fazer por nós, há de fabricar deliberadamente as próximas recordações. Tenho pensado que vale investir no que não está esquecido, ainda que esteja distante dos olhos. No que nos faz verão. Bora?

Ps: as fotos estão expostas desde o último dia 3 até 14 de junho, na Arsenal Gallery, no Central Park, e no site  do The New York Times.


A imagem que ilstra este texto é de Daniele Romeobelli 


23 de abril de 2018

Sobre formar-se

Nada pode definir melhor a formatura. Permitir-se outras formas. Permitir-se a transformação.

Na terça-feira passada, observei comovida minha mãe, beca, maquiagem e sorrisos, subir segura três degraus que a separavam dos colegas da faculdade que frequentou nos últimos anos. Andou a passos firmes no palco iluminado, cumprimentou convidados e professores e se fez ouvir sem uma única titubeada na voz, enchendo o auditório com sua presença. Jurou honrar a sua formação. Jurou agir de forma ética. Jurou ser constante ao zelar pela segurança e saúde da sociedade. O que estava posto na fala, na cena, na noite, era a potência dessa mulher, sua esperança no futuro – e a minha também.

Formava-se em gastronomia, depois de décadas de medicina. Deu forma a um desejo antigo. Um caminho que ultrapassa a validação de uma nova profissão, o que diz muito sobre ela e sua relação com o tempo. Penso que estamos permanentemente nos construindo ao longo da vida, seja uma reforma de contenção de danos, seja uma manutenção ou uma mudança na decoração. Mas quando se toma coragem para derrubar uma parede e levantar outra é que moldamos quem somos/seremos de fato.

Quando criança, imaginava que minha mãe tinha nascido médica. Era como se para mim jamais tivesse existido uma Ana Maria jovem, menina e muito menos bebê. Tinha chegado ao mundo a partir do momento que colocou um estetoscópio em volta do pescoço. Não era uma sensação descabida, foi uma pediatra brilhante. Verbo no passado por sua própria vontade. Trabalhou, trabalhou e um dia acordou decidida a parar com a medicina. Deixou para trás a posição de autoridade em um assunto e abraçou livros, cadernos, dúvidas, trabalhos e provas para recomeçar. 

Nada pode definir melhor a formatura. Permitir-se outras formas. Permitir-se a transformação. Nem precisava ter jurado nada. Honra, ética, zelo e constância são os seus ingredientes principais minha mãe. Viva tu!

A imagem que ilustra este texto é de Tina Kostadinova 

16 de abril de 2018

Quando a vida estiver meio chata: festa baile

Comemorar é preciso

Vivi minha infância cercada por rituais de celebração, a maioria deles era um oferecimento cheio de doçura de minha mãe. Ela acreditava, e acredita até hoje, que a vida pode ser mais leve. Tenho me observado criando por aqui também, alguns rituais para as meninas.

Para as meninas não, para nós todos. Começou por acaso em um dia de confusão entre elas, um dia que as duas estavam brigando por qualquer coisa e por coisa nenhuma. No auge de minha irritação, mandei todo mundo para o banho, quase como quem manda para um castigo. Enquanto elas estavam lá, acendi uma vela, liguei o som e fui pouco a pouco voltando ao meu estado normal.

Um tantinho arrependida pela bronca que distribuí, um tantinho animada pela minha playlist, mandei as meninas se vestirem formalmente: íamos a uma festa. Enquanto elas obedeciam aborrecidas, acendi um tanto de luzes de natal, aumentei o som, pus a mesa com a louça guardada que ganhei de minha mãe e o baile estava pronto. Dançamos as lenta e as soltinhas, cantamos juntos, trocamos de DJ umas 500 vezes, é certo que foi preciso ouvir uns Justin Biebers aqui, umas Taylor Swifts ali, mas nos divertimos como uma turma. Dormimos roucos e cansados. E é esse tipo de cansaço que me interessa ultimamente.

Nem é preciso dizer que repetimos esse expediente muitas e muitas vezes. Semana passada, quando estávamos em mais uma dessas farrinhas, fiquei comovida. Por um segundo, tive a sensação de estar vivendo em uma dessas fotografias do passado. Senti ali, uma alegria verdadeira e uma saudadezinha antecipada dessa turma. Enquanto as meninas cantavam alto e dançavam abraçadinhas, pensei no tempo em que elas vão preferir outros pares, outras celebrações, outras músicas, outros.

Quero pensar que quando esse dia chegar, minhas meninas terão aprendido comigo (e com minha mãe, meu marido e minha família deliciosa e barulhenta) que comemorar é preciso. Fico feliz por saber que mostramos a elas a importância dos rituais, a necessidade de dançar, gritar o refrão, acender as velas, os pisca-piscas. O valor de se vestir a altura do que quer que seja, de comer com gosto, de pular, bater palmas com força, suar e dormir cansado.

É um feito, não é? Feito digno de… uma festa baile!

A imagem que ilustra este texto é de Deborah Stevenson 

09 de abril de 2018

Há momentos em que é preciso dizer/ouvir o óbvio

"É possível dizer não”. Temos sido honestas com os nossos haveres? Ou solícitas e rápidas com os quereres, os likes, as “parcerias”, e os “só hoje” alheios?

Assisti a uma aula na semana passada cheia de informações. O lápis, coitado, quase não desgrudava do papel. Foi como se as três horas de explanação da professora tivessem passado em 15 minutos, ainda que tenha ficado com a sensação de que ela dividiu conhecimento equivalente a um dia inteiro de curso.

Lindo e revigorante. Para além da sorte de testemunhá-la, para além de todo conteúdo que anotei, todas as indicações de leitura e os esclarecimentos dados, duas coisas simples me voltaram a mente hoje cedo:

1. Há momentos em que é preciso dizer/ouvir o óbvio.

2. Há momentos em que gosto de presenciar o incontestável.

Simples assim.

A professora a qual me refiro é uma senhora encostando nos seus oitenta anos. Firme, calma, culta, generosa em suas respostas, ela encheu a sala de saber. Impossível ignorar a elegância mantida quando o celular dela tocou e a surpreendeu no meio da aula, o pedido simples de desculpa, os movimentos das mãos já cheias de veias aparentes, o tempo que levou para ouvir pacientemente cada um dos alunos. O tempo. Estar na presença dela foi testemunhar as benesses do tempo. É incontestável que precisamos dele para ler, aprender, moldar, aprimorar, viver o que deve/pode/quer ser lido, aprendido, moldado, aprimorado e vivido. Uma confirmação de que podemos dar certo em cabelos brancos, conjunto de linho cru, sapatos baixos com sola de borracha e caneta dourada. Quero ficar velha assim. Quero crescer assim.

Ao responder os questionamentos feitos por um colega, dedicou sua fala à pressa com que costumamos atender às demandas do mundo. “É possível dizer que não se sabe, que não se quer, que não se pode atentar a esta ou aquela questão agora (ou mesmo para sempre). É possível dizer não”, ela nos lembrou. É óbvio que é possível. No entanto, sinto que temos praticado pouco, que temos sido pouco honestas com os nossos haveres, e talvez, solícitas e rápidas demais com os quereres, os likes, as “parcerias”, os “só hoje” dos outros. Uma lição de casa para lá de urgente, principalmente, para nós, mães. Vamos ficar velhas assim. Vamos crescer assim.

A imagem que ilustra este texto é de Fred Belaubre 





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