• credshop
  • TV O Dia - fullbanner
  • ExpoTeresina
  • drogarias globo
  • Unifsa
  • Sinhá
  • HOFV
  • rr mi
  • onix
  • predial
  • Itacor 310518
  • Marcas Inesquecíveis 2018 26/03

Notícias Nosso Filhos

21 de junho de 2018

Quando vou parar de sentir medo?

Quando?

Na semana que passou, ouvi de uma de minhas pacientes a pergunta angustiada: “Quando vou parar de sentir medo de não saber?”. Ela se referia aos primeiros meses de uma maternidade planejada, comemorada e ainda assim… Assustadora.

Penso que essa pergunta que é tão linda e profunda pode (como todas as outras) ser dividida em muitas:

Quando vou parar?

Quando vou parar de sentir medo?

Quando vou sentir medo?

Quando vou saber?

Quando vou parar de saber?

Para todas uma só resposta: nunca e sempre, todos os dias e em dia nenhum. Parece, mas não é má notícia. Tanto no início da maternidade quanto em qualquer outra fase da vida, o movimento, o medo e os não saberes podem ser aliados poderosos.

Me parece que o desafio está em aprender a viver com e não em tentar livrar-se deles. A mesma paciente que menciono no início do texto (e que topou ter o seu exemplo citado aqui) está em um processo de análise via Skype. Dizia que tinha pavor de tecnologia, que não conseguia se virar no computador e quando a notícia de uma mudança de cidade bateu a sua porta, propôs (antes que eu propusesse) continuar suas sessões a distância.

Chama-se elasticidade. E alguma elasticidade pode ser resultado do próprio processo analítico. Assim como a capacidade de nomear de dar sentido ao que nos angustia. Medo de que? Parar com o que?

Estar diante do que nos parece um caminho sem volta, do que nos parece insuportável, é uma oportunidade de criar novas saídas. Ainda que com medo, com não saberes e com movimento, foi possível para minha paciente manter a análise da qual ela não queria abrir mão. A hipótese do Skype jamais teria se apresentado se não pelo impasse. Acompanhada do mesmo trio (medo, dúvidas e movimento) que representam se não o todo, muito do que é a maternidade, ela vai poder também criar uma nova pessoa. Uma mulher que é também mãe. Que já não é a mesma. Recém-nascida exatamente como o bebezinho que ela carrega no colo.

18 de junho de 2018

Todos os santos

Filhos estão sob risco o tempo inteiro. Estão vivos. E tudo pode acontecer a quem está.


“E é bom dormir consciente

De que estás viva e agitada

Nadando contra a corrente

Nesse teu mar camarada”

Vinicius de Moraes em 

Estâncias à minha filha


“Tudo bem com as crianças? Notícias?”

Foi a mensagem que apitou no grupo de WhatsApp das mães na última segunda-feira à tarde. Explico. As crianças da sala da minha filha mais velha partiram, na manhã daquele dia, para uma viagem a Santos. Passariam as próximas 72 horas em um trabalho de campo que, naturalmente, envolve alguma aventura escolar e social e que – também naturalmente – é aguardado com ansiedade pelos alunos. 

Daqui, do meu lugar de mãe, assisti à delícia das combinações. Como vão ser formados os grupos de estudo? Quem vai ficar comigo no alojamento? Será que vai dar praia? Vale levar uma guloseimazinha escondida na mala. Liga para um, liga para a outra. Bonito ver as memórias sendo construídas. Até que...

“Tudo bem com as crianças? Notícias?”

Não havia em minha imaginação espaço para nada que não fosse “tudo bem”. E a partir de então, houve. Espaço grande, frio, feio e escuro para toda e qualquer possibilidade de finais infelizes. Durou pouco. Mas o suficiente para me pôr para pensar.

Filhos estão sob risco o tempo inteiro. Estão vivos. E tudo pode acontecer a quem está. É um exercício poderoso de conviver com essas ameaças sem entregar todos os pensamentos a elas. É um exercício desafiador conviver com quem não se furta de despertar o medo alheio. É uma exercício comovente conviver com quem acolhe a mensagem e conforta o mensageiro.

Para além do perigo, penso que parte do que provoca essa pergunta é a agonia de suportar não estar presente em todos os momentos da vida das crianças. O pedido de fotos da viagem para a escola, a investigação para saber quem levou o celular, quem postou o resultado das atividades dizem sobre nós, sobre o nosso tempo.

Deixemos nossos filhos correr o risco de viver. Não são santos (que bom), mas têm a companhia de todos eles. 

Ps: Em tempo, chegaram bem.

A imagem que ilustra este texto é de  Bella Tchicourel 

05 de junho de 2018

Faltou? Jura?

Avizinhados ao caos, falimos antes que o encontro com ele se desse de fato

Tive – como vocês também devem ter tido – dias atípicos na última semana. Notícias e análises amplamente repercutidas em nossas casas, nos jornais,  nas redes sociais, nos cafés dos escritórios (para quem conseguiu chegar aos escritórios, claro). Estive atenta às reações mais diversas, mais apaixonadas e tensas, pendendo ora para um lado e ora para o outro. Uma riqueza a oportunidade de nos escutar na falta. A falta.

A começar pela possibilidade dela. Digo possibilidade, porque antes que acabassem a gasolina nos tanques e os produtos nas prateleiras, sofremos todos com a fantasia de como seriam os próximos dias. Avizinhados ao caos, falimos antes que o encontro com ele se desse de fato.

Até que o encontro chegou, até que os postos fecharam, até que faltou. Falidos, incrédulos e exaustos seguimos. Seguimos faltantes.

E quando foi diferente? Proponho um exercício. Tente pensar em um boa fase da sua vida, o nascimento de um filho, a notícia da cura de um familiar doente, a promoção no trabalho, o encontro de um amor, por exemplo. Estava tudo lá? Houve algum momento em que você se sentiu 100% nutrido, sem nenhuma questão pendente? Satisfeito nos afetos, intelectualmente preenchido, leitura em dia, seguro, saudável, com dinheiro, boletos pagos, filhos amáveis e promissores, espírito elevado, exercícios feitos, certezas sobre seu futuro e o futuro do mundo, sem arrependimentos, dores nas costas, saudades, contatos pendentes, sede, fome, calor ou frio?

Eu aposto que não. Por que? Porque se você está lendo este texto, você está vivo. E viver é administrar faltas, administrar buracos. Dos mais concretos aos mais complexos, sabemos lidar com eles, pode ficar tranquilo. Se faltar, seguiremos faltantes. É o que sempre fomos. Boa semana queridos.


A imagem que ilustra este texto é de Jens Kristian Balle 

21 de maio de 2018

Ouvir crescer

Longe dos olhos, as crianças mudam mesmo rápido demais. Dos nossos filhos, com os quais acordamos e dormimos todos os dias, é mais difícil ver o ‘crescer’.

Reencontrei amigos que já não via há alguns anos e repeti inúmeras vezes sobre seus filhos: Como estão grandes! Como cresceram! De meu lado, ouvi os mesmos comentários sobre minhas meninas que me acompanhavam.

Longe dos olhos, as crianças mudam mesmo rápido demais. Dos nossos filhos, com os quais acordamos e dormimos todos os dias, é mais difícil ver o ‘crescer’. Percebe-se, é claro, quando alguma marca  é atingida, quando riscamos a altura na parede, quando revemos as fotografias, quando no primeiro dia frio do ano não há nenhum casaco que caiba.

Essa semana, com esse assunto em mente, tive a impressão de que ouvi a Sofia, minha filha mais nova, mudar. Ouvi Sofia crescer. Aconteceu assim: nós tomávamos café da manhã no sábado, um desses cafés que se arrastam até quase a hora do almoço. Ela levantou-se e sentou-se ao piano, tocou uma, duas, três músicas. Cantou enquanto tocava, encheu a sala com o volume das teclas. Soava segura, divertia-se, passava páginas de partitura. 

Entre ela e eu, uma habilidade, um fazer que não pertence a nós. É só dela. Entre ela e eu, uma música apresentada a nossa casa via sua caixinha de som. Melodia que não é nossa, é só dela. Entre ela e eu, símbolos (notas, escalas) que não sei ler, um idioma que não compartilhamos, que é só dela. Entre ela e eu, uma extroversão, um ocupar sem reservas seu lugar no mundo, um volume alto na voz, uma cabeça que sacode sem medo de tontura, um rodopiar pela sala quando a música termina, um pedido sincero e merecido de aplauso que é tão... tão dela. 

Um viva a Sofia que é outra música. Que é grande. Como cresceu!


A imagem que ilustra este texto é de BrianNash

14 de maio de 2018

O poder da espera

Estar junto, conversar e escutar (escutar sempre!) são mesmo o melhor caminho para quase tudo.

Foi lançado no último sábado, em São Paulo, Pré-adolescente – Um guia para entender o seu filho (Principium). O livro da jornalista Daniela Tófoli é muito mais do que um manual. São 144 páginas de uma reportagem completa e competente sobre a fase que, segundo a autora, vai dos 8 aos 12 anos. 

Entrevistas, pesquisas e indicações de leitura dão suporte ao volume que passa pelas principais dúvidas de quem tem filhos entre a infância e a adolescência: as questões das transformações do corpo, a montanha russa emocional  e o uso da tecnologia  são algumas delas. 

Estive no lançamento do livro com minha filha mais velha que, aos 12 , está a caminho de deixar essa fase. Lara vinha de uma semana difícil de compromissos na escola. Tinha dormido tarde na noite anterior e acordado cedo para  fazer uma prova de História. Passou os últimos dias entre o Império Romano e a Idade Média. Não imaginei que aceitaria o convite para me acompanhar em uma programação que não incluiria amigos, música, telas ou slimes (que praga!). Disse que sim, iria.

Dividi a fila de autógrafos com Lara por exatos 40 minutos. Conversamos sobre a prova, sobre o livro que começamos a ler ali mesmo, sobre outros que estavam expostos na livraria, sobre a receita que ela planejava fazer mais tarde, os convidados “Esse vai tomar o vinho, aposto”, “Aquela lá tem cara de quem vai de água”, brincava. 

Esperar revelou-se um programa maravilhoso de sábado. Éramos nós duas atentas uma a outra. Relembrei ali da certeza de que estar junto, conversar e escutar (escutar sempre!) são mesmo o melhor caminho para quase tudo, tanto para os filhos quanto para as mães. Maturidade envolve disponibilidade. Maternidade é pura disponibilidade.

E quando esse trio poderoso não resolver (sozinho), na infância, pré-adolescência, adolescência ou em qualquer outro momento da vida, quando as mudanças de fase abalarem as estruturas, lembremos de procurar ajuda e informação. Meu desejo para nós mães e também para nossos filhos, é que tenhamos todos uma prateleira sempre cheia (de livros, amigos, profissionais de confiança e família a quem recorrer). 


A imagem que ilustra este texto é de Courtney Miller Bellairs 

07 de maio de 2018

Esquecidas

Há seis meses, foi encontrada em Nova York uma caixa que esteve perdida pelos últimos quarenta anos. Eram 2.924 fotografias feitas em parques da cidade no verão de 1978. Quarenta anos!

Há seis meses, foi encontrada em Nova York uma caixa que esteve perdida pelos últimos quarenta anos. Eram 2.924 fotografias feitas em parques da cidade no verão de 1978. Quarenta anos! Foi o tempo que ficaram esquecidas, ou melhor, que permaneceram distante dos olhos de qualquer pessoa. O que não significa que estavam esquecidas. As fotos? Sim, são lindas, comoventes. Comoventes como os verões.

Não há época do ano, para mim, que cheire mais a esperança. Especialmente, para nós, que crescemos no hemisfério sul que experimentamos as viradas de ano durante a estação. É como se a partir do sol e do calor tudo pudesse mudar. 

Penso em minhas recordações da infância, nas imagens de minha infância e as que estão mais nítidas em minha memória se concentram nos meses de calor. Há sempre um biquíni de babados, um picolé derretido na mão, um mar ao fundo, um banho de mangueira. 

No entanto, de todas as fotografias que vi a que mais me comoveu foi a de um grupo de jovens adultos pulando corda. Brincavam em um parque, não havia crianças por perto, não o faziam para entreter ninguém, nem para acompanhar filhos ou alunos. Pareciam levar a brincadeira a sério. Divertiam-se, uns descalços, outras com saltos de plataforma baixa, havia algo de competição em seus olhares, sorrisos espertos experimentavam a sensação de se aproximar e se afastar do chão por prazer. Pulavam para eles.

Nasci no mesmo verão de 1978. Desde que vi a fotografia do grupo tenho pensado que há de pular cordas. Sejam elas quais forem. Há de fazer por nós, há de fabricar deliberadamente as próximas recordações. Tenho pensado que vale investir no que não está esquecido, ainda que esteja distante dos olhos. No que nos faz verão. Bora?

Ps: as fotos estão expostas desde o último dia 3 até 14 de junho, na Arsenal Gallery, no Central Park, e no site  do The New York Times.


A imagem que ilstra este texto é de Daniele Romeobelli 


23 de abril de 2018

Sobre formar-se

Nada pode definir melhor a formatura. Permitir-se outras formas. Permitir-se a transformação.

Na terça-feira passada, observei comovida minha mãe, beca, maquiagem e sorrisos, subir segura três degraus que a separavam dos colegas da faculdade que frequentou nos últimos anos. Andou a passos firmes no palco iluminado, cumprimentou convidados e professores e se fez ouvir sem uma única titubeada na voz, enchendo o auditório com sua presença. Jurou honrar a sua formação. Jurou agir de forma ética. Jurou ser constante ao zelar pela segurança e saúde da sociedade. O que estava posto na fala, na cena, na noite, era a potência dessa mulher, sua esperança no futuro – e a minha também.

Formava-se em gastronomia, depois de décadas de medicina. Deu forma a um desejo antigo. Um caminho que ultrapassa a validação de uma nova profissão, o que diz muito sobre ela e sua relação com o tempo. Penso que estamos permanentemente nos construindo ao longo da vida, seja uma reforma de contenção de danos, seja uma manutenção ou uma mudança na decoração. Mas quando se toma coragem para derrubar uma parede e levantar outra é que moldamos quem somos/seremos de fato.

Quando criança, imaginava que minha mãe tinha nascido médica. Era como se para mim jamais tivesse existido uma Ana Maria jovem, menina e muito menos bebê. Tinha chegado ao mundo a partir do momento que colocou um estetoscópio em volta do pescoço. Não era uma sensação descabida, foi uma pediatra brilhante. Verbo no passado por sua própria vontade. Trabalhou, trabalhou e um dia acordou decidida a parar com a medicina. Deixou para trás a posição de autoridade em um assunto e abraçou livros, cadernos, dúvidas, trabalhos e provas para recomeçar. 

Nada pode definir melhor a formatura. Permitir-se outras formas. Permitir-se a transformação. Nem precisava ter jurado nada. Honra, ética, zelo e constância são os seus ingredientes principais minha mãe. Viva tu!

A imagem que ilustra este texto é de Tina Kostadinova 

16 de abril de 2018

Quando a vida estiver meio chata: festa baile

Comemorar é preciso

Vivi minha infância cercada por rituais de celebração, a maioria deles era um oferecimento cheio de doçura de minha mãe. Ela acreditava, e acredita até hoje, que a vida pode ser mais leve. Tenho me observado criando por aqui também, alguns rituais para as meninas.

Para as meninas não, para nós todos. Começou por acaso em um dia de confusão entre elas, um dia que as duas estavam brigando por qualquer coisa e por coisa nenhuma. No auge de minha irritação, mandei todo mundo para o banho, quase como quem manda para um castigo. Enquanto elas estavam lá, acendi uma vela, liguei o som e fui pouco a pouco voltando ao meu estado normal.

Um tantinho arrependida pela bronca que distribuí, um tantinho animada pela minha playlist, mandei as meninas se vestirem formalmente: íamos a uma festa. Enquanto elas obedeciam aborrecidas, acendi um tanto de luzes de natal, aumentei o som, pus a mesa com a louça guardada que ganhei de minha mãe e o baile estava pronto. Dançamos as lenta e as soltinhas, cantamos juntos, trocamos de DJ umas 500 vezes, é certo que foi preciso ouvir uns Justin Biebers aqui, umas Taylor Swifts ali, mas nos divertimos como uma turma. Dormimos roucos e cansados. E é esse tipo de cansaço que me interessa ultimamente.

Nem é preciso dizer que repetimos esse expediente muitas e muitas vezes. Semana passada, quando estávamos em mais uma dessas farrinhas, fiquei comovida. Por um segundo, tive a sensação de estar vivendo em uma dessas fotografias do passado. Senti ali, uma alegria verdadeira e uma saudadezinha antecipada dessa turma. Enquanto as meninas cantavam alto e dançavam abraçadinhas, pensei no tempo em que elas vão preferir outros pares, outras celebrações, outras músicas, outros.

Quero pensar que quando esse dia chegar, minhas meninas terão aprendido comigo (e com minha mãe, meu marido e minha família deliciosa e barulhenta) que comemorar é preciso. Fico feliz por saber que mostramos a elas a importância dos rituais, a necessidade de dançar, gritar o refrão, acender as velas, os pisca-piscas. O valor de se vestir a altura do que quer que seja, de comer com gosto, de pular, bater palmas com força, suar e dormir cansado.

É um feito, não é? Feito digno de… uma festa baile!

A imagem que ilustra este texto é de Deborah Stevenson 

09 de abril de 2018

Há momentos em que é preciso dizer/ouvir o óbvio

"É possível dizer não”. Temos sido honestas com os nossos haveres? Ou solícitas e rápidas com os quereres, os likes, as “parcerias”, e os “só hoje” alheios?

Assisti a uma aula na semana passada cheia de informações. O lápis, coitado, quase não desgrudava do papel. Foi como se as três horas de explanação da professora tivessem passado em 15 minutos, ainda que tenha ficado com a sensação de que ela dividiu conhecimento equivalente a um dia inteiro de curso.

Lindo e revigorante. Para além da sorte de testemunhá-la, para além de todo conteúdo que anotei, todas as indicações de leitura e os esclarecimentos dados, duas coisas simples me voltaram a mente hoje cedo:

1. Há momentos em que é preciso dizer/ouvir o óbvio.

2. Há momentos em que gosto de presenciar o incontestável.

Simples assim.

A professora a qual me refiro é uma senhora encostando nos seus oitenta anos. Firme, calma, culta, generosa em suas respostas, ela encheu a sala de saber. Impossível ignorar a elegância mantida quando o celular dela tocou e a surpreendeu no meio da aula, o pedido simples de desculpa, os movimentos das mãos já cheias de veias aparentes, o tempo que levou para ouvir pacientemente cada um dos alunos. O tempo. Estar na presença dela foi testemunhar as benesses do tempo. É incontestável que precisamos dele para ler, aprender, moldar, aprimorar, viver o que deve/pode/quer ser lido, aprendido, moldado, aprimorado e vivido. Uma confirmação de que podemos dar certo em cabelos brancos, conjunto de linho cru, sapatos baixos com sola de borracha e caneta dourada. Quero ficar velha assim. Quero crescer assim.

Ao responder os questionamentos feitos por um colega, dedicou sua fala à pressa com que costumamos atender às demandas do mundo. “É possível dizer que não se sabe, que não se quer, que não se pode atentar a esta ou aquela questão agora (ou mesmo para sempre). É possível dizer não”, ela nos lembrou. É óbvio que é possível. No entanto, sinto que temos praticado pouco, que temos sido pouco honestas com os nossos haveres, e talvez, solícitas e rápidas demais com os quereres, os likes, as “parcerias”, os “só hoje” dos outros. Uma lição de casa para lá de urgente, principalmente, para nós, mães. Vamos ficar velhas assim. Vamos crescer assim.

A imagem que ilustra este texto é de Fred Belaubre 

02 de abril de 2018

Longe e perto

Quão significativo é o gesto das mãos dadas. Um abraço em miniatura.

Dez minutos esperando minha filha no portão da escola. As vozes das crianças que acabam de sair da aula de canto aquecem a noite chuvosa de São Paulo, elas descem a rampinha vermelha carregando na mochila o cansaço do dia. Já são quase nove da noite. Lara é uma das últimas a cruzar o portão, engatou uma conversa que de onde a observo parece interessante o suficiente para lhe fazer ignorar minha presença. Passa direto, beija e abraça a amiga despedindo-se, e já na rua olha para trás. “Vem mãe!”. 

Alguns metros de silêncio depois, ela segura a minha mão e segue o monólogo sobre o coral, o lanche, o trabalho de inglês, os amigos. “Cantamos aquela música que você gosta”. “A fila hoje estava gigantesca”. “Parece que não fui tão bem”. “Fulano isso, fulana aquilo”. 

Fiquei enternecida. Desde que tinha uns 10 anos não é afeita a mãos dadas. Nunca chegou a verbalizar, mas se eu me distraio e a seguro, ela arranja algum cabelo para ser posto atrás da orelha, alguma coceirinha no rosto ou qualquer coisa que valha para livra-se do entrelaçar de dedos.

Até que assim, numa noite de coral, 12 anos recém-completados como se nada fosse... Penso que o crescimento é feito dessas pequenas idas e vindas. Saber que posso ir para só então querer voltar. E quão significativo é o gesto das mãos dadas. Um abraço em miniatura.

Um quilômetro separa a escola de nossa casa. Duas quadras, um shopping atravessado no meio do caminho, mais três quadras. Foi só o tempo de contar as novidades e o aconchego já era o suficiente para a minha menina. Passada a primeira vitrine do shopping, já soltou a mão, mexeu no cabelo. De lá até em casa reassumiu a postura adolescente, aquela que guarda uma certa distância de qualquer pessoa que já tenha passado dos 18. 

Segui observando-a até o elevador de nosso prédio (como está grande a minha filha), quando ela apertou minha bochecha e disse estar morta de fome. Entrou e seguiu direto para quarto, celular na mão. 

“Mãe, tu faz um ovinho pra mim?” 

“Eu não, o jantar já está pronto”

“Por favor, te dou um abraço”

Faço, claro que faço. E sim, sigo aqui, mãos disponíveis sempre que você procurar.

A imagem que ilustra este texto é de Janice Sztabnik 

27 de março de 2018

Calma aí!

Textos se repetem por uma razão, certo? Minha aposta é que alguém não está disposto a escutar.

Tenho ouvido muitos pedidos como este do título ultimamente. Para cada “é hora do banho”, “vamos dormir”, “a lição já está pronta?” A resposta é um “calma aí” diferente. Ora manso, ora irritado é um texto que se repete (e cansa).

E textos se repetem por uma razão, certo? Minha aposta é que alguém não está disposto a escutar. 

Sustentei por um bom tempo a hipótese de que não era eu esse alguém. Para ser sincera, não cheguei a cogitar nenhuma outra possibilidade. Até perceber que nas noites em que preciso chegar tarde a casa, banhos são tomados, lições são feitas e as crianças dormem sem que ninguém precise lembrá-las o que deve ser feito. 

Parece-me que o incômodo do pedido ultrapassa a falta de disciplina (do lado delas), assim como extrapola o cuidado materno (do meu lado). Trata-se de pressa. A minha pressa.

Em seu livro The Available Parent, o psicólogo John Duffy incentiva mães e pais a olharem seus filhos, assistirem de verdade suas brincadeiras, o jeito como sentam e seguram o lápis para escrever, os gestos que fazem ao contar uma história. É um exercício. Uma tentativa de nos tirar do modo diretor de cinema (“faça isso, agora aquilo”) da vida das crianças. 

Gosto da ideia de Duffy. Tem funcionado para mim como uma musculação de minha capacidade de estar tranquila com as meninas. Um treino para fazer as pazes com o tempo (e com elas, claro).


A imagem que ilusrta este texto é de Teal N Buehler

19 de março de 2018

Nesta data querida

Essa semana minha filha mais velha faz 12 anos e a vida nos deu de presente uma coincidência para lá de significativa.

Essa semana minha filha mais velha faz 12 anos e a vida nos deu de presente uma coincidência para lá de significativa: pela primeira vez, ela não estará em casa conosco. Nada sério (mentira!). Vai comemorar na companhia dos amigos no acampamento da escola. A exatos 51,9 km do café da manhã na cama, dos cartazes de felicitações, do tradicional jantar no japonês. 

Uma confirmação de que grande parte do que é ‘tradicional’ em nossa casa migra agora do campo das certezas para o território do “vamos ver o que acontece”. E que movimento desafiador esse de abrir mão do script, do confortável, não?

Que poderoso/difícil é ver, de maneira tão nítida, que de coadjuvantes estamos a um estalar de dedos dos figurantes desta narrativa que é a adolescência  dos filhos. Outra validação do acaso do calendário. 

É um tempo novo  que se apresenta em fastfoward, com intensidade de fim de últimos capítulos de seriado americano. Um tempo instigante onde o que está posto é o inédito e todas as suas possibilidades. Para ele, aposto em coragem, consistência, paciência e curiosidade (para todos, adultos e ‘crianças’). E está decidido. No dia 21, vou ao japonês. Celebrar a minha filha, brindar as próximas temporadas. É tradição. Feliz aniversário, Lalá!


A imagem que ilustra este texto é de Christina Yunako 


12 de março de 2018

Qual é a sua prioridade?

Semana passada completei quarenta anos. Estas datas nos fazem pensar e, na carona das reflexões de aniversário, uma pergunta não saiu da minha cabeça: o que de fato quero para mim?

Por muito tempo acumulei uma lista longa de prioridades. Na primeira linha, estavam meu desejo de ver minhas filhas crescerem, de ser uma mãe boa, o suficiente (viva Winnicott!) para elas, de criar um ambiente agradável em nossa casa, de estar presente e inteira para o Henri, meus pais, sobrinhos, minha família e amigos, de estar satisfeita com o meu trabalho, de manter a leitura em dia, de isso e de aquilo...

Semana passada completei quarenta anos. Estas datas nos fazem pensar e, na carona das reflexões de aniversário, uma pergunta não saiu da minha cabeça: o que de fato quero para mim? 

Meu desafio era responder com um só item. Unzinho. Decidi que quero estar saudável. Saudável para poder escolher. Saudável para trabalhar e amar. Saudável para me aproximar dos meus desejos. Inclusive da lista que acabei de compartilhar acima.

Arrumei as malas das meninas, as minhas e convidei, de supetão, todos para uma temporada em um spa. Sempre tive essa vontade. Uma semana para comer leve, descansar, fazer exercício, dormir e acordar cedo. Uma viagem sem compras, sem agenda, sem ingressos, sem pontos turísticos, sem planejamento, sem aeroporto. Um passeio para nós quatro. Toparam. Fomos. Foi lindo. 

Escolhemos o Spa Med Sorocaba , pertinho de São Paulo (90 km) e com todo o suporte que precisávamos. De fato cumprimos o plano de cama, mesa e tapetinho de ioga. Mas enxerguei a cada dia que passava, que a saúde é um conceito mesmo muito amplo.

Fui testemunha da saúde estampada nos olhos da minha filha mais nova que experimentou a liberdade de pegar a chave de nosso quarto pela manhã e sair livre pelas áreas verdes do local, vivenciando a possibilidade de decidir quando e aonde ir. A delícia de sentir-se segura e livre.

Observei as intermináveis partidas de pingue-pongue entre minha filha mais velha e seu pai que, entre risos e provocações, mantiveram o equilíbrio do ir e vir da bolinha, ajustaram velocidade e força para fazer o jogo durar. Transpiravam os dois a alegria de sustentar uma parceria.

Vi de perto o bem que me faz estar também um pouco sozinha e quieta entregue ao sol, à leitura ou às braçadas. Nadei a vida inteira e ainda não tinha me dado conta que na natação o que me atrai de verdade é a minha companhia e o silêncio. Entendi que perdi o medo de gostar de mim.

Foi uma temporada de calmaria ainda que tenha sido, talvez, uma viagem das mais intensas. Noves fora, a saúde ainda reina (e me parece que reinará por muito tempo) sendo o desejo pelo qual lutarei. A saúde ampla que nos assegura a liberdade, o amor e a honestidade de ser quem somos. É também o meu desejo para vocês e para os meus.

A imagem que ilustra este texto é de Reuven Dattner 

Leia mais: Seu filho está viciado no celular? 

E também: Do que você tem medo? 


05 de março de 2018

Seu filho está viciado no celular?

Faça o teste de 6 perguntas e pense sobre essa relação crianças-eletrônicos

Nunca me esqueci dessa pergunta que iniciava o artigo de Ana Homayoun para o New York Times. Encontrei-o quando tentava decidir se faria sentido aceitar o presente que minha mãe oferecia à minha filha mais velha — um celular. A batalha por um telefone para chamar de seu finalmente se aproximava da conclusão vitoriosa para ela. 

Nem preciso dizer que nós, pais, lutamos bravamente. Vocês já conhecem o roteiro. Negamos o pedido diversas vezes, negociamos um tablet sem chip como um primeiro passo mais seguro, argumentamos, adiamos e, por fim, aceitamos a respeitosa consulta da avó. De lá até aqui, nós (os adultos) e o telefone da pré-adolescente mantemos um relacionamento ora próximo, ora distante ainda que sempre cerimonioso. 

Voltei ao artigo hoje porque estamos analisando agora a possibilidade de colocar um chip no celular de nossa filha mais nova – a pedidos, claro. Esta sim anda um tantinho mais assídua do que gostaríamos no uso do aparelho ainda ligado ao wi-fi de casa. A ideia era consultar o questionário proposto por Homayoun em seu texto e investigar quão saudável (ou não) anda seu convívio com a tecnologia.

Eis a lista que eu procurava:

1.O humor do seu filho muda rapidamente (fica irritado, ansioso, com raiva ou até mesmo violento) quando o telefone está indisponível para o uso?

2.Seu filho prefere faltar ou desmarcar programações para passar mais tempo nos aplicativos e redes sociais?

3.O tempo que ele dedica ao celular atrapalha seus cuidados com o corpo (sono, alimentação e higiene)?

4.Sente-se pressionado a responder ou ter suas solicitações respondidas imediatamente?

5.Consegue ignorar notificações, ou corre com urgência ao ouvir qualquer som emitido pelo telefone? 

6.É acometido pelo FOMO – fear of missing out – (medo de perder o que está acontecendo)?

Tendo a menina de nove anos como alvo de minha pesquisa, respondi negativamente com um certo alívio até a pergunta 3. Mas será que o tempo gasto com eletrônicos não atrapalha mesmo o sono da criança? As questões 4, 5 e 6 me colocaram igualmente na dúvida. Tentei responder por mim e talvez tenha tirado uma nota ainda menor do que a dela. É só pensar na primeira pergunta: quantas vezes o finzinho da bateria anunciado sem dó de cinco em cinco por cento já nos tira do sério? 

Penso que, cientificamente falando, o buraco é mais embaixo. Estamos todos precisando revisar o uso que fazemos do celular. Crianças e adultos. Que exemplo estamos dando a nossos filhos? Duas conclusões para a questão aqui em casa, pelo menos por agora. Primeiro, o chip vai precisar esperar – desculpa Sofi. E depois, o olhar de questionamento para as nossas atitudes, os adultos, sai dessa reflexão mais forte. Algumas perguntas precisam ser feitas e refeitas de tempos em tempos.

Seu filho está viciado no celular? E você?

Ps: essa conversa dá panos pras mangas. 

Leituras recomendadas:

O detox digital , da Contente

A vida secreta dos seus filhos na internet 

O manual do primeiro celular , de Rachel Campello

Intoxicações eletrônicas na primeira infância , de Julieta Jerusalinsky



26 de fevereiro de 2018

Os filhos e as diferenças salariais entre homens e mulheres

Que oportunidades uma empresa joga fora ao desencorajar a maternidade?

Uma recente pesquisa divulgada no último dia 19 pela Vox  mostra que na Dinamarca, país exemplo de boas políticas de licença parental, a diferença salarial entre gêneros – que é em média 20% a mais para os homens, como era de se esperar – está diretamente ligada à maternidade. 

Henrik Kleven, economista da Universidade de Princeton, compara salários de homens e mulheres antes e depois dos filhos, e de mulheres com ou sem filhos. As que não os têm já estão muito próximas ao ganho masculino, já as mães... O estudo conduzido por ela, também levanta dados curiosos. Na Dinamarca, a licença parental pode ser dividida da maneira que for mais conveniente para o casal; no entanto, a média de tempo usada pelos homens do país é de apenas 10%. 

A Dinamarca não opera essa lógica sozinha. Nos Estados Unidos, o gap de salários começa a partir dos 30 anos, idade média para a primeira gravidez do grupo de mulheres escolhido para a pesquisa de Marianne Bertrand, da Universidade de Chicago. Nesse período da vida, a diferença é de aproximadamente 15%. No mesmo grupo, a diferença passa dos 60% depois de nove anos de carreira. 

Aos gestores que inacreditavelmente não enxergam o ganho subjetivo que a chegada de uma criança pode representar, listo outros ganhos (objetivos) que mães recentes, certamente, acrescentam ao currículo. Estou certa de que, para além de todos os outros benefícios, a maternidade é o melhor, mais rápido e mais intenso MBA disponível no mercado. Com ela se aprende: 

1. Liderança

Filhos transformam famílias em equipes. A chegada de um bebê abre o espaço para colaboradores externos (babás, professores, pediatras) e internos (avós, tios, amigos). Uma oportunidade para desenvolver a capacidade de treinar staff, fornecer feedbacks, formar sucessores (ainda que temporários).

2. Foco no desempenho da tarefa

Com uma criança pequena em casa, é preciso ter atenção seletiva, estar focada nos cuidados com ela, mesmo tendo muitos outros estímulos a sua volta. Da temperatura da água do banho até a escolha da creche, tudo adquire importância. É um exercício constante entre a big picture e o mínimo detalhe.

3. Gerenciamento do tempo

Filhos demandam uma reengenharia de tempo. Como o recurso é escasso, aprende-se a fazer uma vez só e bem feito.

4. Capacidade de antecipar problemas e prever soluções 

Casas com um bebês pequenos demandam logística e planejamento de grandes empresas. Basta imaginar que uma criança se alimenta de três em três horas (em média), no intervalo entre mamadas é preciso fazer caber a troca de fraldas, os banhos e o sono, além dos banhos, sono e alimentação da prórpia mãe. Quando se opta pela livre demanda o planejamento precisa ser ainda maior. Soman-se a essa agenda o reabastecimento, limpeza e organização da casa, o preparo das refeições e caso você tenha filhos mais velhos... Cansei só de pensar

5. Networking

A chegada dos filhos expande a rede de relacionamentos da família. Entram no roteiro os pais de amigos da escola, do inglês, da natação, do parquinho... a lista é infinita. É um momento em que estamos atentos a outras trajetórias e desenvolvemos naturalmente a capacidade de criar e cultivar novos vínculos. 

6. Mentoria (da clássica à reversa)

Mães estão sob um exercício constante de orientação. Tanto ouvindo as experiências de outras mulheres (seja para se inspirar positivamente, seja para resolver como não fazer) como perseguindo uma escuta mais sensível para as necessidades e os desejos do bebê. Como chora quando está com fome, com sono, como gosta disso ou daquilo.

7. Jogo de cintura e damage control 

Assim como o networking, expande-se também a exposição a situações potencializadoras de conflitos. Você já esteve em uma reunião da escola onde a pauta é uma criança que bate nos coleguinhas? Já se viu obrigado a intervir em uma lista de convidados para um aniversário do segundo ano, do qual somente um aluno (seu filho) não foi chamado? Já precisou consolar uma criança que acaba de ter seu balão estourado? Se não, querida, você não sabe o que significa contenção de danos de verdade.

As empresas que não reconhecerem este MBA estarão perdendo grandes oportunidades. Não é à toa o número crescente de mulheres empreendedoras no Brasil, criando novos mercados, novas lógicas de trabalho, acrescentando dígitos às suas contas bancárias. Certas! 






Enquete

Depois de perder por 3 a 0 para a Croácia, a Argentina é a última colocada do grupo D. Qual você acha que é o mais provável futuro dos 'hermanos' na Copa da Rússia?

ver resultado