Mochileiros do Piauí

Uma odisséia pelo Rio Parnaíba

Os Mochileiros do Piauí fazem uma expedição de caiaque pelo Rio Parnaíba mostrando suas comunidades ribeirinhas, as belezas naturais e a importância desse rio genuinamente nordestino.

09/12/2013 09:40h - Atualizado em 03/01/2014 17:13h

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Texto e Fotos: Samuel Brandão

              

Em nossa primeira aventura pelas águas, foi uníssona a escolha do caminho a se percorrer, o Parnaíba, o rio de nossa terra, que permeou grande parte de nossa infância com suas histórias, encantos e seu belo leito, seria nosso sábio e gigante companheiro durante 5 dias de viagem, numa expedição de caiaque entre os municípios de Amarante, centro-sul do Estado, e Teresina, a capital do Piauí, percorrendo ao todo 180 Km pela via fluvial, vivenciando na pele sua grandeza e conhecendo um pouco de suas comunidades ribeirinhas, sua riqueza natural e a calmaria de suas tardes, isso claro, sempre guiados pelo seu curso natural.

O Rio Parnaíba nasce na Chapada das Mangabeiras, na Serra do Jalapão, divisa entre os estados do Tocantins e Piauí, numa altitude de aproximadamente 709 metros. É o maior rio genuinamente nordestino e ao todo,  percorre 1.485 Km até desaguar no Oceano Atlântico onde forma um espetáculo natural com 73 ilhas fluviais, cheias de mangues e dunas, um verdadeiro paraíso que leva o nome de Delta do Parnaíba, ou seja, o nosso Velho Monge nasce e termina em dois lugares paradisíacos e nesse interstício é o principal meio de subsistência e essencial para a vida de diversas famílias piauienses e maranhenses.

O começo da jornada

Nossa viagem teve como ponto de partida o município de Amarante, que fica numa região conhecida como o Médio Parnaíba. Ao chegarmos lá, por volta das 6 da manhã, depois de arrumar os caiaques e tomar aquele café “aprumado”, o cais já contava com a presença de vários curiosos que perguntavam para onde estávamos indo, os mais velhos nos chamavam de “cientistas”. Depois dos ajustes finais e de pedir benção para o rio, às 8 h da manhã colocamos os três caiaques na água e partimos para nossa longa e sábia jornada.

O clima estava perfeito para as remadas, o céu aberto com uma refinada luz matutina perpassava as nuvens, a correnteza um pouco forte nos levava por debaixo da copa das árvores. Num primeiro contato que tivemos com o rio, a natureza nos agraciou com suas belas paisagens naturais, o leito do rio no Médio Parnaíba é cheio de brejos e riachos e o fundo da paisagem sempre revela formações rochosas como serras, morros e serrotes com formatos bem peculiares como o Morro da Pedra do Rosto(MA), o Morro do Garrafão(MA), o Morro do Frade(PI) e sem dúvida o mais emocionante de toda a viagem, o Morro da Arara(MA), a uns 16 Km de Amarante, que se encontra na beira do rio e consiste num paredão de uns 100 metros de altura. Diante desse lugar exuberante resolvemos fazer nossa primeira parada para o almoço, numa pequena caverna encravada na pedra e aproveitamos para tirar algumas fotos.





Depois do descanso merecido, é hora de se apressar pois ainda faltavam 30 Km até o município de Palmeiras onde passaríamos a nossa primeira noite. No meio do caminho, uma breve parada no povoado de Chumbado(MA) e em Penêdo(MA) onde vimos a primeira das quatro grandes balsas, que atravessam diariamente veículos e pessoas entre os dois estados. O céu já escurecia, quando o pôr do sol nos mostrou seu espetáculo, espelhando o lusco-fusco nas águas do Velho Monge e ao ponto que o sol esmaecia as estrelas apareciam, logo milhares delas se juntaram no céu, formando uma nebulosa em meio ao silêncio do universo. Diante desse espetáculo, clipamos os caiaques e chegamos em Palmeirais por volta das 7 e meia da noite, onde os irmãos Zimmermann e dona Zeudmann nos acolheram muito bem, no seu bar e restaurante Tibungo, aí foi, comer, montar o acampamento e dormir igual pedra.

Entre Inhumas e Capivaras

Pela manhã, toda uma sorte de cantos de pássaros nos acordou, mas um em especial chamou bem a atenção, parecia o grito de um jumento de tão alto e ainda se encontrava na margem oposta, era a Inhuma, uma ave grande e bem esquisita, muito conhecida na região, na verdade, um casal delas. Hora do desjejum, novamente bem reforçado, depois fomos passear pela cidade e comprar algumas frutas no mercado velho, aproveitamos para tocar um pífano em meio aos populares que nos receberam com muita simpatia e curiosidade.  Palmeirais é uma cidade bem organizada e charmosa. Depois de tirar umas fotos da cidade, nos arrumamos e caímos novamente no rio, agora em direção a cidade de Parnarama no Maranhão.

No meio do caminho para Parnarama demos de cara com uma grande capivara, que emergiu bem perto de nós, o Clébert,  da equipe, quase vira o caiaque pensando ser uma Sucuiuiu. Nos diversos povoados que passamos sempre éramos recebidos com carinho e curiosidade, foi assim em Ribeirão Azul(PI), Barra do Saco(MA), Araçás(MA), Castelândia(PI) e Almecegas(MA), onde demos uma breve pausa para o almoço e descanso na casa do seu Haroldo, numa tarde daquelas de calmaria, longe da correria do mundo, só ouvindo o cacarejar de uma galinha choca e pintinhos ciscando, bem ao fundo. Depois do descanso, novamente caímos no rio e esticamos até Parnarama, mas como já estava escuro e não tínhamos experiência em navegar à noite ficamos no povoado  Coquinho(MA), na casa de seu José Mundica, Dona Dominga e seus 8 filhos.

Sem lenço, sem documento

Nossa próxima parada é a cidade de Parnarama no Maranhão, ao chegarmos lá de manhãzinha encontramos um pequeno cais cheio daquelas barcas características do Parnaíba e outra das grandes balsas atravessadoras. Parnarama é um cidade grande e bem agitada, tem diversos comércios e carros com alto falante vendendo mercadorias, aproveitamos para tomar um belo banho numa hospedaria e conhecer um pouco da cidade. Depois de quase 3 dias comendo enlatados e “Nissin”, era a hora de um belo “rango” em um restaurante popular, saciados com o almoço servido, aí bateu aquele cansaço que só combina com rede na sombra, mas como não tinha rede muito menos numa sombra, aproveitamos para deitar numa calçada perto da praça principal, ao relento, sem lenço sem documento. Foi aí que uma viatura estacionou do outro lado da rua e desceram uns 5 policiais com escopeta e ficaram observando a nossa situação, acho que aconteceu algum assalto lá recentemente, mas por conta de nossas humildes vestimentas e nossas atitudes nada suspeitas, afugentaram qualquer impressão ruim que eles tiveram, simplicidade é tudo.

Quando saímos de Parnarama, o sol desestimulou totalmente nossas braçadas, eram por vota das 12:30 da tarde e ainda faltavam 55 Km até a cidade mais próxima,  Nazária(PI), o trecho mais longo de toda a viagem, a noite seria de acampamento na beira do rio ou em alguma “corôa”, remamos ainda 15 Km por lugares muitos belos até enfim encontrar o lugar perfeito para o nosso descanso no povoado de Barreiro(MA). Aí foi montar o acampamento na beira do rio e curtir a tarde que repousava, num silêncio único, distante do novo mundo, o céu esmaecia num dourado fenecer, o rio invadiu nossa alma.

Conselhos do Velho Monge

Agora, depois de uma boa noite de sono e com um forte vigor percorremos 30 Km com facilidade, centrado nas braçadas, cortando as curvas pela tangente interna, andando sempre pelas margens onde tem um pouco de correnteza. É, tínhamos aprendido direitinho o ofício de canoeiro, passamos por Bom Futuro(PI), Caititu(PI), Caieiras(PI), até chegar em Nazária, um município recentemente emancipado de Teresina. O dia tinha sido muito corrido mas já estávamos bem perto de casa, mais uma bela noite de sono na beira do rio para esperar o dia do retorno.

Aqui dentro mora um grande rio

O sol desponta no caminho, é hora de voltar pra casa, com pouco mais de 5 h de viagem e 35 Km percorridos, eis que surge as primeiras fábricas de Teresina. A  imagem aqui também é fantástica, ver nossa cidade de um ângulo diferente, passando por debaixo de suas pontes e admirá-la como uma vitrine que se exibe para o rio, nos fez rememorar parte de sua boa história, que acontecia ali no velho cais. As antigas lavadeiras “acocadas” com seus cantos “bateno” e “troceno” pano, os carroceiros, canoeiros, mascates e toda aquela gente humilde e cheias de histórias pra contar, iguais as que vimos no decorrer de toda a viagem, o pôr do sol na ponte metálica, é, a cidade cresceu e deu as costas para sua frente. Também vimos, diferentemente das outras cidades, os vários bueiros silenciosos e incessantes despejando no rio o que não deveria ser. É preciso preservar e valorizar essa artéria da “Mãe Terra” que é o Rio Parnaíba, ele não tem voz na sociedade, aliás, seu canto é suave e modesto, no entanto é essencial para a nossa vida, das futuras gerações e de todo o equilíbrio da vida natural presente.

Depois de muitas e muitas braçadas, moldados a muito sol, terra, vento e água, a recompensa estava encravada no nosso espírito, a partir de agora a imensidão do Velho Monge com suas tardes envolvidas no silêncio de céus irados, os sons, as formas e cores de sua natureza, a simplicidade e gentileza de seus homens e mulheres nos mercados públicos e povoados, o curso manso desse gigante gentil que leva vida por diversos horizontes, perpassavam nossa memória e espírito, essa é a verdadeira recompensa.

Confira também o relato da galera do Clube de Canoagem Punaré:

http://clubedecanoagempunare.blogspot.com.br/ 

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