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Graça Targino

Universidade Federal do Piauí e muros

Maria das Graças Targino - Jornalista e pós-doutora em jornalismo ([email protected])

10/02/2020 11:31h

As discussões desencontradas e não confirmadas de que a Universidade Federal do Piauí pretende ou já iniciou o processo de erguer muros entre a Instituição e as coletividades adjacentes não nos espantam, até porque há um motivo inquestionável – a falta de segurança intramuros, com casos reincidentes de assaltos e similares. Mais do que muralhas físicas, o que assusta é o distanciamento entre UFPI e sociedade. Paira isolacionismo crescente e visível. Há paralisia. Há contemplação. Inexiste discussão sistemática em torno das questões internas da Instituição e do país, pautada por respeito às diferenças ideológicas. As universidades públicas não deveriam estar vinculadas à luta pelo poder lideradas por grupos com motivações escusas. Elas possuem um DNA social, o qual se esvai, pouco a pouco, no âmago da UFPI, não obstante a existência teórica e, com frequência, inconsistente e frágil da representação universitária. 

Criada em 21 de novembro de 1968, mediante a Lei n. 5.528 e instalada no Campus Universitário Bairro Ininga adiante, em 1971, hoje mantém cinco campi espalhados pelo Estado do Piauí, a saber: Teresina; Parnaíba; Picos; Bom Jesus e Floriano. Estes comportam grandes centros de ensino, que incorporam unidades departamentais. A título de exemplo, o Campus Ministro Petrônio Portella (Teresina) possui 10 centros e mantém 62 cursos presenciais de graduação, os quais ofertam 3. 456 vagas. Ainda em termos estruturais, além do órgão supremo de deliberação da UFPI, o Conselho Universitário (CONSUN), há outros dois conselhos presididos pelo Reitor, além de colegiados de cursos, assembleias departamentais e instâncias representativas dos alunos. Quer dizer, teoricamente, a premissa é de que sobra espaço para discussões internas e consistentes pautadas na maturidade institucional e na realidade nacional. A verdade, porém, contradiz tal pressuposição.   

Aliás, sentimo-nos livres para falar sobre as universidades públicas brasileiras, em especial, sobre a UFPI, como docente, aluna, administradora, e, por que não? Como espectadora. Afinal, aos 17 anos, começamos nossa primeira graduação numa dessas instituições, e nunca mais partimos. Aos 20, iniciamos trajetória acadêmica, que inclui “passeios” em entidades das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste. Ingressamos na UFPI, por concurso público, em setembro de 1972, carregando nos ombros todos os sonhos do mundo que se perdiam nos galpões temporários, cuja provisoriedade permaneceu por anos e décadas. Era a época em que os administradores geriam circulando nos recintos da Universidade, distantes do trancafiamento ostensivo em luxuosos gabinetes. Sabiam o que aconteciam. Conheciam a realidade.

 A política partidária existia como leme para combater a alienação da comunidade acadêmica, mas não como elemento determinante. Os cargos eram ocupados pela competência de docentes e/ou servidores técnico-científicos, ao contrário do que se passa hoje, quando a inadequação dos “chefes”, salvo exceções, soa hilariante. Até a concessão de títulos honoris causa segue diretrizes politiqueiras em meio a conchavos nunca em prol do processo de ensino-aprendizagem. Sempre, a favor de grupos políticos partidários espúrios. No caso específico (nada contra ou a favor do Partido dos Trabalhadores), qual a justificativa para a UFPI conceder, em 2017, o título de Doutor honoris causa ao então já ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, mediante aprovação unânime dos membros do CONSUN? Mero exemplo. Há outros...

Estamos sempre atentas à realidade que nos circunda nos distintos e variados papéis que, inevitavelmente, exercemos em diferentes circunstâncias e segmentos. E é exatamente a atenção que dedicamos aos fatos circunvizinhos, que nos tornam autorreferentes em se tratando das questões educacionais brasileiras. Afinal, me fiz jovem, mulher madura, em meio aos campi das universidades brasileiras e estrangeiras. No caso nacional, confessamos com rubor na face envelhecida, que vivemos seu apogeu e assistimos, agora, seu triste e inequívoco desmoronar.

Falamos da decadência quase generalizada de nossas universidades públicas, ênfase para a UFPI. Assistimos ao esvaziamento das salas de professores. Assistimos ao declínio no nível de cobrança dos alunos. Assistimos ao favorecimento de docentes e funcionários. Assistimos ao sucateamento de laboratórios, bibliotecas, hemerotecas e restaurantes. Assistimos a muito mais, incluindo o alvoroço publicitário que ronda uma ou outra iniciativa, como um posto de Tribunal Regional Eleitoral neste período no campus de Teresina para facilitar a vida da comunidade universitária. Mas há casos flagrantes e inadmissíveis: o Hospital Universitário não atende a essa comunidade. Campanhas de vacinação não fazem parte de seu dia a dia. Os cursos de idiomas estrangeiros direcionados ao grande público, desde os anos de 70, hoje, não mais existem! 

Dedicamos uma vida inteira à UFPI. Nos dias atuais, não conseguimos contato nem sequer com a secretária da chefia de gabinete. Estão todos em suas frágeis torres de marfim. Isto porque, se na maioria dos segmentos sociais, assumir postura pedante é vergonhoso, no mundo acadêmico, coalhado de doutores, cujas credenciais, às vezes, podem ser questionadas por sua inércia social, o formalismo e o distanciamento do conhecimento acessível ao grande público integram armadura de proteção às questões que podem lhes ser direcionadas. 

Por tudo isto, para quem enxerga a educação como elemento prioritário para a formação integral do indivíduo, a qual envolve atuação ética, profissional, humana, social e política, muros físicos em torno da UFPI, representem verdade ou fake news, são bem menos importantes do que o desmoronar dos valores pedagógicos e do compromisso social. Este, sim, constitui ameaça perigosa e atroz! 


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