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Graça Targino

Suzano e munto mais...

Maria das Graças Targino - [email protected]

10/04/2019 06:04h

Nada escrevi sobre a tragédia de Suzano, Grande São Paulo – SP. Aguardei transcorrer um mês, próximo dia 13 de abril. Aguardei um pouco mais de calmaria coletiva diante do incrível atentado ocorrido nas instalações da Escola Estadual Professor Raul Brasil, perpetrado por dois jovens (um dos quais, menor de idade) contra seus antigos professores e colegas, utilizando um manancial de armas, algumas das quais, inusitadas, a exemplo de pequena machada, arco comum e flechas, além de uma “besta”, versão de armamento bastante antigo, oriundo da China e da Europa mediterrânea há 2,5 mil anos. Dentre as oito vítimas fatais, cinco adolescentes, uma funcionária, a Coordenadora Pedagógica e, fora do recinto da Escola, o tio do homicida mais jovem. Com a chegada da polícia ao local, os jovens se suicidaram, deixando para trás um rastro de terror. 

O porquê de minha espera é simples. Cansaço diante da falta de memória nossa, de nossa gente, de nossas autoridades, de nossa mídia e de cada um em particular. Os meios de comunicação trataram o massacre como se fora o primeiro acontecido numa escola brasileira ou como se fora o primeiro registrado no âmbito escolar... Ledo engano. Estamos deixando para trás, e muito rapidamente, momentos terríveis vivenciados nos pátios e nas salas de aula de nossas escolas, em momentos anteriores. Vamos relembrar somente mais três episódios bem próximos, embora haja muito mais. Precisamos relembrar para que não olvidemos daqui a um ano, ou menos, ou um pouco mais, as vítimas de Suzano. 

O vigia Damião Soares dos Santos, em plena consciência de seu ato, planejou cuidadosamente, 5 de outubro de 2017, massacre à creche municipal “Gente inocente”, que abrigava em suas acomodações simples e pobres, crianças entre três e seis anos de idade, no pequeno município de Janaúba, norte de Minas Gerais. Ateou combustível que deu início a um incêndio em sala de aula. O registro dá conta da morte de 10 crianças e de três professoras, além de 37 feridos. Novamente, o agressor também se suicidou. “Motivo” declarado pela família: distúrbios mentais depois da morte do pai, três anos antes do atentado.

O massacre do Colégio Goyases, Goiânia (Goiás), 20 de outubro de 2017, refere-se à chacina sob o comando de um aluno de 14 anos, matriculado no oitavo ano do ensino fundamental, que abriu fogo contra os colegas, utilizando uma pistola calibre 40, pertencente à sua mãe. Ambos os pais, policiais. Saldo: dois mortos e quatro feridos. Dentre estes, uma menina ficou paraplégica. O menor cumpre três anos de medida socioeducativa, tempo máximo previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente para atos infracionais. “Motivo” declarado: bullying.

Em Realengo, bairro pobre e extenso do Rio de Janeiro capital, no dia 7 de abril de 2011, um ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira, 23 anos, portando dois revólveres, às 8:30 horas da manhã, invadiu salas de aula lotadas. Total de mortos: 12 adolescentes entre 12 e 14 anos mais o atirador-suicida. “Motivo” registrado em vídeo: vítima de bullying. 

São muitos e muitos casos similares, no Brasil, no Paquistão e por aí afora. Basta pesquisar. Não se trata de situação singular deste ou daquele país, embora nos Estados Unidos aconteçam com maior frequência. Em nossa realidade, o que mais chama atenção é o descumprimento das medidas de segurança anunciadas pelos administradores municipais e estaduais, logo após cada ocorrência. Não tarda muito para que as promessas sejam esquecidas e engavetadas até suceder nova tragédia. A violência nas escolas entre alunos e contra professores, a venda de drogas nas áreas circunvizinhas continuam à luz do dia. Outro fato angustiante é a busca de justificativas para os agressores. Eles não mataram por participar de games violentos em vídeos ou frequentar lan houses. Eles não mataram por encontrar um colega que, eventualmente, participou dos planejamentos, como se fosse mera brincadeira. Eles não mataram por omissão dos educadores e supervisores. Eles não mataram porque o porte de arma é um dos projetos do Governo Bolsonaro. Eles não mataram por conta da prática de bullying, que não é nova como se dizem... Sempre existiu, sem a supervalorização de agora...

O que ocorre é que famílias e lares estão cada vez mais silenciosos. As tecnologias substituem a conversa em família. O acompanhamento dos pais diante das alegrias, tristezas e mudanças de comportamento é considerado “mico.” Cada um, incluindo os próprios progenitores, se mantém num casulo com seu smartphone ou celular baratinho. Presentes caros (ou não) substituem a presença, o aconchego e o colo. A conversa em volta da mesa dá lugar a um sossego constrangedor. Os amigos virtuais substituem o abraço carinhoso dos amigos... O ensinamento de boas ações e da valorização do outro é simplesmente esquecido. E assim vai... até nos surpreendermos com os filhos-estranhos-monstros que habitam a nosso lado!

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.


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