Graça Targino

Nossa Senhora do Amparo

Maria das Graças Targino - ([email protected])

22/05/2019 06:39h

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Semana passada, confessei ao meu público a devoção infinita que dedico às lendas populares. Exultei de felicidade quando descobri em Portobelo (Panamá), a história do Cristo Negro, que se assemelha à de “nossa” Nossa Senhora do Amparo. Aliás, ele esteve presente há pouco tempo, no Brasil, carnaval de 2019, na escola de samba carioca, a festejada Estácio de Sá, que trouxe às passarelas “O Negrito” com o enredo “A fé que emerge das águas!” Ambos – Cristo e Santa – mantêm algo em comum: caprichosos e birrentos, estão sempre às turras com párocos e fiéis.

No caso de Nossa Senhora do Amparo, a busca de informações no espaço virtual aponta contradições, ditos e ritos. É difícil imaginar sua chegada à capital Teresina. Por este motivo, recorro a Maria Cecília Mendes, tanto por sua vocação como historiadora quanto por sua religiosidade e por seu amor ao universo de lendas, tradições, crenças e costumes do povo piauiense. Nesse momento, ela menciona a obra original do escritor Celso Pinheiro, possivelmente o primeiro registro escrito publicado sobre a voluntariosa Nossa Senhora, quando da edição comemorativa do cinquentenário da Capital, 1902, na antiga e extinta Revista Litericultura, que circulou de 1912 a 1913, período de mudanças significativas de cunho político, econômico e social no Estado do Piauí, quando os autores da Revista buscavam a consolidação da identidade literária piauiense.

As lendas representam a memória coletiva de um povo, refletindo um passado cultural, paradoxalmente, presente. Povoam o imaginário social das coletividades, tentando explicar o inexplicável. José Antônio Saraiva, Conselheiro Saraiva, advogado e político baiano, responsável pela transferência da sede administrativa da província do Piauí de Oeiras para Teresina, em 16 de agosto de 1852, visualiza em sua proposta a chance maior do crescimento econômico da Província face à nova localização geográfica, no então bairro Poti Velho. O nome escolhido é nítida homenagem à Imperatriz Teresa Cristina de Bourbon, esposa de D. Pedro II. Homem influente e destemido, Saraiva inicia, à época, a construção de uma série de repartições públicas e, decerto, para agradar o clero, sua primeira obra é a edificação da Igreja Nossa Senhora do Amparo, no centro da cidade, em frente da Praça Marechal Deodoro da Fonseca, em dimensão menor do que a atual, com o término tão somente da capela-mor.

O que se deu? É provável que tenha sido o próprio Saraiva quem encomendou uma imagem da Nossa Senhora do Amparo. Não se sabe ao certo. O certo é que a Santa, em sua santa pressa, chegou antes da conclusão da Igreja, cuja pedra fundamental foi lançada em 25 de dezembro de 1850 até sua inauguração, Natal do ano de 1852, quando foi elevada à categoria de Matriz da cidade. Desde então, Nossa Senhora do Amparo figura como a padroeira da capital, cujo dia de celebrações recai a cada 16 de agosto, aniversário de Teresina.

O influente e jovem Padre Mamede Antônio de Lima, recém-ordenado no Seminário de Olinda (Pernambuco), após iniciar sua vida religiosa na paróquia de Sobral (Ceará), foi designado para a Freguesia de Nossa Senhora do Amparo, além de exercer o Bispado no Maranhão. Em apuros pela chegada da Santa antes de a Igreja estar pronta, o Padre decide enviar a imagem para a Capela de Nossa Senhora do Amparo, no Poti. Finalizada a Igreja, em cortejo fervoroso para trazer a imagem, os fiéis seguiram do bairro até a nova Igreja. Não deu outra. No dia seguinte, eis a Santa arisca no Poti. No dia seguinte, nova procissão. Ela não hesitou. Voltou para a Capelinha. Dizem, mais algumas vezes.

Em conluio com o sacristão, o Padre astuto idealizou um plano para enganar a Santa fujona. Esperou uma noite de lua nova. Envolvida com uma alva toalha de linho bordada em labirinto, colocou a imagem num caixãozinho de imburana perfumada fortemente lacrado. Desta vez, nada de procissão. Ela veio, no fundo de uma canoa de pesca bem cuidada e ornada, seguindo para a Igreja Nossa Senhora do Amparo pelo caminho do rio Parnaíba. Enquanto a canoa cruzava as águas movimentadas do Parnaíba, elas se aquietavam pouco a pouco e quando a embarcação atingiu o Porto das Cajazeiras, o céu estava vestido de estrelas cintilantes. Enfim, foi posta na capela-mor da Igreja, onde um nicho repleto de flores perfumadas e velas de todos os tamanhos e cores a esperavam. Sem saber como voltar, Nossa Senhora do Amparo por lá ficou, deixando dentre os potienses um sentimento de orfandade e perda!

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