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Graça Targino

Marielle presente. Anderson ausente

Maria das Graças Targino - ([email protected])

13/03/2019 06:16h

A grande homenageada do carnaval 2019, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo, em escolas de sambas e em blocos de rua, além de manifestação que saiu da Candelária rumo à Cinelândia, com certeza, foi a vereadora Marielle Franco (PSOL). Seu assassinato completa um ano exatamente amanhã, 14 de março de 2019, quando faria tão somente 39 anos. Um ano de plena escuridão. Boatos espocam aqui e ali, mas os culpados e/ou mandantes continuam livres para agirem impunemente contra quaisquer pessoas que façam sombra em seu território.

Reconhecemos quão oportunas e justas são tais protestos de respeito a quem lutou arduamente em prol de segmentos marginalizados – mulheres, negros, homossexuais e favelados. Pertencente também a essas alas, além de esquerdista (seja lá o que esta expressão signifique nos dias atuais), Marielle sempre se opôs à ferocidade e à crueldade dos representantes do universo policial aliados a milícias, na condição de grupos símbolos da criminalidade. Isto é, conseguiu romper as barreiras sociais rumo à autorrealização, e, sobretudo, em direção à luta por condições de vida dignas para as coletividades onde marcava presença.

Dentre as escolas de samba que lembraram Marielle, destaque para a Estação Primeira de Mangueira e a Escola de Samba Unidos de Vila Isabel (Rio de Janeiro) e, também, para a Escola de Samba Vai-Vai (São Paulo). A grande vitoriosa do carnaval do Rio, a Mangueira, em sua última ala, lembrou homens e mulheres provenientes de morros, favelas e das chamadas comunidades, mas que, apesar do enfrentamento diante de mil dificuldades vivenciadas, conseguiram notoriedade por seus feitos. A viúva de Marielle, Mônica Benício, e parte de seus familiares lá estavam. Em gesto de solidariedade ou em busca de visibilidade (é sempre uma incógnita), políticos do PSOL, o deputado federal Marcelo Freixo e o vereador Tarcísio Motta também desfilaram na Marquês de Sapucaí.

Tudo perfeito! Mas, onde estava Anderson? Lembram de Anderson? Anderson Gomes, motorista de Marielle durante o período de mais de um ano! Também jovem! Também com família! Também um trabalhador sobrevivente neste Brasil de tantas injustiças e desigualdades sociais! Também executado, sem dó nem piedade, da forma a mais covarde possível, à noite do dia 14 de março de 2018! A omissão por completo do nome do motorista nos incomodou. Foi ele morto, quando conduzia a vereadora, mesmo sem ser o alvo dos homicidas. Partiu silenciosamente no cumprimento de sua função. Se não se destacou como líder comunitário, é mais uma vítima da violência de nosso país. Portanto, não pode se transformar em mais um anônimo no universo das injustiças sociais!

A supressão do nome de Anderson Gomes em tantas homenagens carnavalescas e em muitas outras no decorrer desse ano de luto reforça nosso argumento de que os crimes têm relação direta com a representatividade da vítima, com destaque para o poderio econômico e político, na contramão da Declaração Universal dos Direitos Humanos, instituída pela Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas, Unesco. Ao completar 70 anos, ao final do ano de 2018, o documento reforça o lema de que nós todos somos iguais em dignidade e direitos, na vida e, decerto, na morte, embora seja impossível calcular, com precisão, a proporção de assassinatos e execuções que acontecem a cada momento em território nacional e que, quando muito, merecem uma notícia veiculada em segundos no universo televisivo ou brevemente mencionada na mídia em geral.

Por fim, basta analisar o extremo paradoxo! A Verde e Rosa levou para a Sapucaí o enredo “História para ninar gente grande” com a promessa de contar a história do Brasil que os livros apagaram, fazendo ressurgir os heróis anônimos e que deixaram de integrar a memória das instituições e do país como um todo. No entanto, ao trazer no enredo trecho que diz “Brasil, chegou a vez de ouvir as marias, mahins, marielles, malês. Mangueira, tira a poeira dos porões. Ô, abre alas pros teus heróis de barracões. Dos brasis que se faz um país de Lecis, jamelões. São verde e rosa as multidões”, esqueceu que há andersons, joaquins e joãos que não podem ser esquecidos no meio do caminho, como a própria escola de samba vencedora o fez!


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