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Graça Targino

Livros na mira dos incautos

Maria das Graças Targino - Jornalista e pós-doutora em jornalismo ([email protected])

13/02/2020 18:28h

Machado de Assis, consensualmente, um dos grandes escritores brasileiros, faz parte da formação de gerações e gerações de brasileiros. Euclides da Cunha, após dois meses, observando como jornalista, ano 1987, o conflito de Canudos, se antes acusara o movimento como monarquista com o intuito de derrubar a República, revê sua posição depois de conhecer de muito perto as condições de vida dos sertanejos e a organização da comunidade liderada por Antônio Conselheiro e edita, então, “Os sertões”, 1902, o primeiro livro-reportagem nacional, no qual denuncia, com maestria, um dos maiores massacres da história do Brasil. 

Aurélio de Buarque de Holanda Ferreira (isto mesmo, você não está lendo errado), com sua coletânea “Mar de histórias” e por incrível que pareça, o maranhense Ferreira Gullar, com seus “Poemas escolhidos” estão dentre as 43 obras de 13 autores nacionais e dois internacionais, censurados pelo Secretaria de Estado da Educação do Governo de Rondônia, mediante o memorando circular n. 04/2020 encaminhado às Coordenações Regionais de Educação do Estado, no dia seis deste mês, cujo assunto é identificado como “recolhimento de livros”. 

Face à reação imediata da população, com repercussão na imprensa nacional e internacional, e num ato de covardia, o Secretário Suamy Vivecananda Lacerda Abreu tentou identificar a notícia como fake news, mas o ato foi confirmado por áudio da gerente de Educação Básica de Rondônia, Rosane Seitz Magalhães, que, por meio de WhatsApp, afirma que a retirada dos livros das escolas é uma solicitação de “nosso secretário”. 

O inacreditável Index Librorum Prohibitorum do Governo de Marcos Rocha, ex coronel da Polícia Militar ultradireitista e filiado ao Partido Social Liberal (PSL), legenda com a qual o então candidato Jair Bolsonaro se elegeu, revela o conservadorismo das eleições nacionais de 2018. O que nos dá orgulho, porém, é o comportamento ágil de diferentes órgãos contra a tentativa frustrada, a exemplo do Supremo Tribunal Federal, da Academia Brasileira de Letras e da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Rondônia. O desrespeito à Constituição de 1988 foi o item mencionado com maior destaque. 

Afinal, do Index constam nomes consagrados, como do tcheco Franz Kafka, um dos escritores mais influentes do século XX, com obras que se eternizaram em vários idiomas, como “O processo” e “A metamorfose”, além do autor, poeta, editor e crítico literário estadunidense Edgar Allan Poe. Antes, a formação em língua inglesa incluía, inevitavelmente, suas histórias, quase sempre, coalhadas de mistério e certa dose do macabro, figurando ele como inventor da ficção policial e colaborador do gênero de ficção científica. 

Ademais, dentre nossos clássicos censurados, estão outros nomes representativos, a exemplo de Carlos Heitor Cony, Mário de Andrade, Rubem Fonseca e o até hoje polêmico dramaturgo Nelson Rodrigues. Em que pese sua morte ocorrida há 40 anos, sua obra ainda é estudada, citada, compilada e contestada, seja por suas longas tiradas de humor negro, por sua irreverência incontida, mas, sobretudo, por sua adesão a um realismo deslavado, no momento em que expressa os traços mais representativos do cotidiano.

O intuito de vetar a leitura de obras aclamadas, sem qualquer debate com a sociedade, demonstra o desprezo pelo diálogo e a incapacidade de respeitar a diversidade de pensamentos, em harmonia com a linha de ação do mandatário Bolsonaro. Recentemente, por exemplo, diante da indicação de “Democracia em vertigem” ao Oscar 2020, na categoria Melhor Documentário, de Petra Costa, cineasta brasileira e membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas desde 2018, mesmo admitindo não ter assistido ao longa-metragem, para não “perder tempo com uma porcaria dessas”, vai além e com a deselegância e incoerência descabida que lhe são peculiares, acrescenta: “para quem gosta do que urubu come, é um bom filme”.     

Numa demonstração clara de que o ex coronel rondoniense não está só, mas apenas segue a escola do desrespeito à cultura nacional, ainda há pouco, com a conquista do Prêmio Camões 2019, maior distinção em literatura da escrita portuguesa, pelo grande Chico Buarque, o presidente se recusou a assinar o documento, em meio à ironia de que o faria em 31 de dezembro de 2026. Em rara declaração em redes sociais, o compositor respondeu que a “não assinatura do Bolsonaro no diploma [concedido pelos governos do Brasil e de Portugal] é para mim um segundo prêmio Camões”. 

Por fim, vale a pena rememorar que a censura a livros durante a Ditadura Militar (1964 a 1985) ou em 2020 assemelha-se a uma modalidade de “terrorismo cultural”, expressão cunhada por Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde). É preciso denunciar o cerco aos livros ou às expressões livres de pensamento, arte e cultura por incautos que teimam em embrutecer e tornar estúpida a população brasileira! 


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