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Graça Targino

Guerras, amores e paixões

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15/01/2020 11:31h

Durante as festividades de passagem do ano, incluindo o fim do ano velho e início do ano novo, apesar dos conflitos entre Estados Unidos e Irã, que trazem à tona a palavra – guerra – a palavra – amor – ganha em ritmo disparado. Aliás, amor e paixão confundem-se, embora as distinções entre eles existam. Quantos escritores ou literatos, amantes ou amados escreveram sobre o tema até então? No meu caso, diante das expressões tão plenas de significado – amor / paixão – desagrado a muitos quando afirmo: amores e paixões passam; mas, paradoxalmente, ambos podem se eternizar. Ou seja, não vejo como único ponto de divergência a pretensa eternidade dos grandes amores e as cinzas quase instantâneas das paixões. 

Amores perpetuam-se quando se transmutam em companheirismo, cumplicidade, silêncios plenos de palavras ou palavras coalhadas de silêncio graças à compreensão que transcende o dito e o não dito. Em sentido oposto, podem ir esmaecendo, quando se distanciam do sentimento original, deixando espaços vazios n’alma e no coração. As paixões eternizam-se quando se transmutam em idealização do ser amado, o qual toma a forma de belo e inconfessado sonho. A gente passa a amar a miragem que nós próprios construímos e, decerto, fantasias e ilusões não comportam críticas ou olhos ávidos em busca de imperfeições. Se assim não for, o esquecimento vem a cavalo em galope veloz. 

A este respeito, o filme “História de um casamento”, escrito e dirigido por Noah Baumbach, ano 2019, é impecável ao discutir o fim de uma união aparentemente sólida que dura 10 anos. Inicia com uma listagem elaborada pelo casal Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson), sob a orientação de um terapeuta de casal, em que cada um elenca as qualidades do outro, numa tentativa de recuperar o que se perdeu no meio do caminho. Nem tudo se perdeu, mas há vácuos ocos de significado.

Portanto, inexistem regras de alforria para a liberdade de viver amores ou paixões. Ambos demandam ação ou ações. O amor não sobrevive sem cuidados mínimos ou, para os mais exagerados, sem cuidados máximos. Um bom dia com cheiro de café fresquinho. Um presente-surpresa. Uma florzinha aparentemente insignificante que, de repente, está lá nos cabelos da amada ou num singelo jarrinho roto pelos anos vividos. Um jantar surpresa para comemorar pequenas celebrações – dia do primeiro encontro; dia do primeiro beijo; dia sublime do casamento formal ou informal. São gestos corriqueiros, banais, mas constantes. Não há necessidade de grandes manifestações, de balões-falantes, de outdoors estridentes, até porque o sentimento amoroso e/ou apaixonado se mantém de pequenos gestos, de confissões em horas inimagináveis, da troca de segredos que nos entregam e, paradoxalmente, nos fragilizam. Tornamo-nos escravos dos que resvalam rumo ao subterrâneo mais profundo de nossa alma... 

A diferença, talvez, é que as paixões são puros desvarios. Amores impossíveis, proibidos ou platônicos confundem-se com paixões avassaladoras em sua pequenez ou em sua grandeza. Às vezes, mantêm-se numa caixinha guardada a sete chaves. Outras vezes, estão expostos ao luar ou ao sol causticante, sem qualquer pudor. Mas a paixão termina mais depressa do que se imagina diante da falta de um projeto de vida em comum e da ausência de perspectivas, ainda que possa se manter em lembranças coroadas de flores secas, confirmando a premissa de que tanto amores quanto paixões podem morrer ou se eternizar. 

Se, ainda mais, a paixão está fundamentada na contravenção das regras impostas socialmente e/ou na ansiedade do proibido, é interessante a fala da escritora catalã Maruja Torres, para quem a rotina do adultério se fragiliza diante da convenção dos casamentos. Ela afirma sem meias palavras: “um amante é como um franco-atirador”. A postos, “espera com infinita paciência que o alvo se ponha em seu ponto de mira”. Logo, porém, o alvo se converte numa figura ridícula e inútil, como um espectador ante sua própria impotência. Afinal, o casamento está integrado a um exército fortalecido e diabólico: as imposições sociais. 

O certo é que nenhum amor se acaba de repente. Nenhuma união se rompe como um relâmpago, que traz consigo luz intensa e rápida produzida pela descarga elétrica entre duas nuvens. O amor precisa manter a chama acesa... Nas paixões, a idealização basta e se está sempre à espera de um final! Há esperas inúteis. Mas doces esperas. São esperas em que os amantes, conscientemente ou não, sabem que há mais sonho e quimera do que realidade. Para o filósofo francês Voltaire [François-Marie Arouet], “as paixões são os ventos que enfunam as velas dos barcos, elas fazem-nos naufragar, por vezes, mas sem elas, eles não poderiam singrar”. Há quem diga com convicção: “amo você até a eternidade”, o que não deixa de ser uma boa data de (re) encontro! A eternidade! 

 Maria das Graças Targino é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica



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