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Graça Targino

Glória aos céus

Maria das Graças Targino é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica -E-mail para contato: [email protected]

31/01/2020 11:02h

Glória Maria [Matta da Silva] destaca-se no cenário nacional e internacional como jornalista, repórter e apresentadora da TV Globo, numa época em que o universo televisivo como um todo não possuía referências negras significativas. No caso, Glória Maria confessa sem qualquer preocupação de ser politicamente correta que, desde seu ingresso na tevê, ainda em 1971, buscou se destacar por seu talento: “não pela cor. Não fui educada para isso. Não tive cota. Preta ou branca, eu tinha que ser boa”, diz ela. 

Carisma e impecável trajetória profissional são inquestionáveis desde sempre. Fora isto, ao longo do tempo, alimentou certo mistério em torno de sua vida privada, com ênfase para a questão da idade. Por exemplo, há pouco tempo, revelou em entrevista à revista semanal “Veja”, seção “Páginas Amarelas”, que se opõe a declarar a quantidade de anos vividos, por acreditar que quando você “[...] fala muito em idade e no tempo, atrai o tempo contra você. Para evitar problema, esqueço que ele existe.” Agora, os curiosos já sabem que a apresentadora carioca nasceu no dia 15 de agosto de 1949 e tomam conhecimento de muito mais... 

Isto porque, em novembro de 2019, de repente, o inesperado. A descoberta de um tumor maligno no cérebro. Tratamento imediato e eficiente no CopaStar, hospital da cidade do Rio de Janeiro. Recuperação rápida. E eis uma Glória renovada, após o que chama de experiência mais transformadora de sua vida. Ela que até então nunca permitia abordagem de cunho pessoal, fala de amores, eventuais ou especiais, e de um casamento fracassado; da adoção das duas filhas, por sinal, irmãs biológicas. E mais, confessa com palavras ipsis litteris: “eu fui e saí transformada. Comecei a ver máscaras caindo, uma a uma. Pessoas que pensei que estivessem do meu lado, não estão. E outras, que nunca imaginei, se prontificaram em ajudar. Teve gente da minha família perguntando: ‘quem está administrando os bens da Glória? Ela é uma incompetente com dinheiro.’ Mas também houve [...] verdadeiros anjos da guarda.”

Em depoimento à também jornalista Marina Caruso, o qual circula nas redes sociais, fãs ou meros bisbilhoteiros acompanham no texto bastante completo informações sobre a saga de Glória Maria nesse momento: o diagnóstico; a fragilidade avassaladora que vem à tona; a cirurgia em sua complexidade; o doce milagre; as mudanças que inundaram sua vida; as inevitáveis sequelas; a força das mulheres de sua família; a sensação inusitada de libertação; e, ainda, seus heróis. Dentre estes, destaque para Eldrige Cleaver, líder dos Panteras Negras e que se descobriu racista na prisão. Ao retornar de um banho de sol, descobre que o guarda retirara todas as fotos de mulheres nuas da cela. Indignado, ele diz ao homem: “Você é racista. Todos os outros presos têm fotos de mulheres nuas. Você tirou as minhas porque sou negro.” O guarda, então, responde: “Racista é você, porque as fotos eram todas de mulheres brancas. Por que não havia imagens de negras?”. É quando Eldrige percebe que o racismo de verdade é aquele que começa na gente, não no outro”, ideia com a qual a jornalista negra concorda integralmente.

Porém, ao contrário do que se pode pensar, o intuito central do texto não é relatar a cura de nossa Glória Maria e dar glória aos céus por sua possibilidade de prosseguir. É mais. Muito mais. É lamentar, em nome da maioria dos brasileiros sem a menor chance de recuperação e/ou renascimento, quando enfrenta uma enfermidade. É lembrar que bem próximo de cada um de nós, há quem espere por 90 dias (ou mais ou um pouco menos) para marcar uma consulta no Sistema Único de Saúde (SUS) ou por uma cirurgia por mais simples que seja. E o que dizer das filas dos que esperam para receber remédios? E o que falar de drogas vitais à sobrevivência de enfermos, como diabéticos, que precisam dos medicamentos cedidos pelo Poder Público (com nosso dinheiro), os quais faltam com surpreendente constância? 

Diante da crueldade da saúde pública do Brasil, a recuperação de Glória Maria (por mais que nos traga alegria), sob determinado ponto de vista, é um tapa no rosto de quem não consegue sequer os meios mais simples para tentar a superação. Afinal, ela não resulta de soluções mágicas, mas de recursos públicos, que se esvaem na correnteza da corrupção instalada no país. Minha alma sente-se cansada e esgotada frente a essa estarrecedora desigualdade de nosso país!


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