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Graça Targino

Futuro do Gênero Humano

Maria das Graças Targino

26/03/2020 10:50h

No momento atual, mundo afora, as expressões coronavírus e COVID-19 estão em primeiro lugar. É um momento único de nossa geração no enfrentamento de uma pandemia desse porte. São informações e desinformações por toda parte, salpicadas por lorotas e piadas, que se expandem nas redes sociais, sob a liderança de quem consegue manter o humor e trazer algum riso em meio ao caos e à incerteza do amanhã. Coincidentemente, em obra lançada ao final de dezembro de 2019, os autores Hamilton Viana Chaves e Osterne Nonato Maia Filho discutem o futuro humano. Apoiados em formação interdisciplinar – psicologia e educação – descrevem, com propriedade, a relevância do fluxo de informações no avanço da ciência e tecnologia (C&T), na obra intitulada “Sociedade e conhecimento: acerca do futuro do gênero humano”, sob encargo editorial da Lisbon International Press. 

A princípio, destacam a força da informação e do conhecimento, como palavras reincidentes em nosso dia a dia. Não as poupamos e as repetimos, com euforia e, de vez em quando, com certo desconhecimento de que vivemos na chamada sociedade da informação, a qual recebe uma série de outras denominações, a exemplo de modernidade tardia, pós-modernidade, sociedade do ócio, modernidade líquida e outros cognomes, a depender da linha teórica em voga. Por exemplo, na visão do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a sociedade líquida caracteriza-se pela fragilidade ou dissolução das forças que garantiriam os padrões sociais de referência, hoje, liquefeitos e voláteis, face ao intenso fluxo informacional, o qual impacta e dilui, com frequência, as relações sociais.

A informação associa-se às demais necessidades humanas de sobrevivência – fisiológicas, afetivas e cognitivas – uma vez que é ela função básica que permite aos seres vivos reconhecerem a realidade a fim de suprir as condições de vida e a perpetuação da espécie. Todos os seres vivos se informam. A busca e a apreensão da informação independem da capacidade de percepção, reflexão e raciocínio. A semente que trata de descobrir  elementos químicos para a germinação e/ou a planta que rompe a crosta da terra em busca da luz do sol estão se informando, tal como o cão que fareja um rastro, um gato que “sente” a presença de outro, um bebê recém-nascido que reage instintivamente à claridade etc. 

Porém, há visível distinção entre as modalidades de informação. Exemplificando: a informação presente numa molécula de DNA e aquela que vai além do instinto inato de sobrevivência ao ser “construída” pelo homem para agir como fator de integração individual e social, estão em níveis distintos, reiterando os autores, para quem: “conhecimento não é uma coisa. É uma dimensão do ser humano: ele não existe sem o conhecimento. Na natureza, há informação, mas não conhecimento, assim como na natureza há troca de informações, mas não comunicação: uma árvore troca informações com o solo, mas os dois não se comunicam” (p. 11). 

Dizendo de outra forma, o conhecimento é um corpo sistemático de informações adquiridas e, então, não mais encapsuladas, que permite ao indivíduo compreender a natureza. É através da apreensão que o ser humano transmuta informação em conhecimento. E é a partir dessa visão, que Hamilton Chaves e Osterne Maia refletem acerca do futuro da Humanidade, tratando do incremento da construção de novos saberes via C&T, haja vista que as tecnologias exercem forte efeito, sem nenhuma exceção, sobre todos os segmentos da vida do homem contemporâneo, gerando novos cenários e consolidando uma “nova” sociedade, cujo eixo da economia passa a ser a produção, distribuição e difusão da informação. A sociedade é submetida a uma avalanche de dados advindos de meios tradicionais, como livro, revista, jornal, rádio, tevê ou sofisticados recursos eletrônicos, tendo quem afirme que tudo é informação e que as ações humanas se reduzem a ela, haja vista que até o desconhecido pode ser informação em potencial.

Em tom ensaístico, distante do academicismo exacerbado, os autores discorrem, ao longo de 94 páginas, sobre a trajetória que marca a formação da sociedade da informação em suas diferentes facetas, em meio à profunda reflexão acerca de nosso futuro. Para tanto, consideram a evolução sistemática e contínua da atividade cognitiva e social (inerente ao indivíduo), confirmando aspectos racionais ou não. 

É evidente que Hamilton Chaves e Osterne defendem a ideia de que a análise mais completa e acurada acerca do que está por vir não se restringe à racionalidade. Se assim fosse, ao enaltecer ostensivamente a sociedade digital, haveria o risco de eliminar os sustentáculos da cultura humana, irreversivelmente dinâmica e aberta. O exacerbamento dessa nova cultura conduziria ao “[...] eterno retorno de repetidos pensamentos, como na compulsão traumática à repetição”. Pergunta-se, então: “em que isto contribui para a sustentabilidade do gênero humano?” (p. 85). Qual será o futuro do gênero humano? Eis uma questão que persiste sem respostas unívocas ou conclusivas, mas que requer reflexões diante de tragédias que afetam a Humanidade, com surtos, endemias, epidemias e pandemias, em níveis distintos e imprevisíveis, a exemplo do temível coronavírus! 

Maria das Graças Targino é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica, [email protected]


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