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Graça Targino

Emberás: fotografia retocada

Maria das Graças Targino, [email protected]

08/05/2019 05:57h

O Panamá abriga em seu território comunidades indígenas dispersas, fundamentais à sua instalação como nação, uma vez que, em tempos remotos, até o início da colonização espanhola, ali viviam tão somente índios chibchas, caribes, cholos e chocóes. Em 1501, Rodrigo de Bastidas percorre as costas caribenhas e Cristóvão Colombo, explorador italiano, responsável pela frota que alcançou o continente americano em 1492, sob as ordens dos reis católicos de Espanha, ancora na baía de Portobelo (assim, com um só L, Panamá), 1502. 

Quer dizer, tal como no Brasil, são eles, os indígenas, parte intrínseca da história do país. Após longo processo de colonização a cargo da Espanha, é a vez da Colômbia e mais adiante dos Estados Unidos. Eis, então, um povo que incorpora, a olho nu, interessante mescla de “brancos”, negros, mestiços e indígenas. Como nosso interesse maior, hoje, aqui e agora, é discorrer um pouco sobre os emberás, só acrescentamos que, dentre a população global do Panamá de cerca de 3,6 milhões de habitantes, com PIB per capita de US$ 24.300 (ano 2017) e, segundo dados do PNUD, Índice de Pobreza Extrema de 14,2%, os indígenas estão entre os que mais convivem com a extrema pobreza.

Isto significa que, em pleno século XXI, proporção significativa dos povos aborígines panamenhos (como no caso brasileiro) prossegue em situação de marginalização e exclusão social, não obstante o fato de que, pouco a pouco, seus direitos comecem a ser contemplados na Constituição da República do Panamá e em outros dispositivos legais, graças a formas de resistência por eles desenvolvidos diante de eventuais ataques e ameaças à sua sobrevivência. Uma das conquistas mais significativas refere-se à instalação de cinco regiões indígenas, cujas leis constitutivas legitimam a estrutura administrativa-política original ao lado da autonomia e da conservação da cultura genuína dessa gente como parte integrante do sistema nacional. 

Estamos nos referindo, em termos genéricos aos sete povos indígenas que somam, ano 2019, mais de 300.000 indivíduos. A grande maioria pertence aos grupos bri, corneta, emberá, kuna, naso tjerdi, ngäbe (ou ngöbe) e wounaan. Há dúvidas sobre a origem dos 993 bokota, considerados por alguns antropólogos como integrantes do povo ngöbe. Enquanto grande parcela dessas comunidades está “fechada” à interveniência do homem branco ou ao turismo, os emberás vêm se tornando bastante conhecidos, face à abertura à visitação de turistas. 

Oriundos da região Choco da Colômbia moderna, parte da tribo seguiu para o Panamá, ao final do século XVIII. Hoje, os emberás estão assentados no Parque Nacional Chagres, à beira do rio homônimo. Mantêm três aldeias no Parque, ainda que somente a terceira esteja aberta ao homem branco, onde chegamos depois de travessia ao longo do rio por cerca de uns 40 minutos, em lanche rústica, mas aconchegante. Eis um dia único! Eis uma experiência única! Como eles vivem de forma sustentável em meio à floresta e ao rio Chagres, sobretudo os mais velhos resistem à modernização, embora, extremo paradoxo, muitos deles já tenham sucumbido à pregação da Igreja Evangélica. 

Suas casas, em geral, estão edificadas sobre palafitas à beira do rio, e agrupadas numa pequena comunidade com uma casa comunal ao centro, o que facilita a manutenção de rígidas “estruturas governamentais / administrativas” e familiares. Observamos a preocupação em conservar cultura e costumes, incluindo dialeto, culinária, belas pinturas ou tatuagens de cores fortes e com motivo singulares, cantos e danças, das quais os visitantes podem participar com a coletividade. A comida preparada diante de nossos olhos foi servida em cabaças (como as brasileiras), incluindo peixe delicioso acompanhado de banana também frita, desta vez, de forma bem panamenha: cozinha-se a banana verde em pedaços por pouco tempo. Escorre-se o óleo. Amassa-se com um pisador específico para isso, à semelhança de nosso batedor de carne, e, então, se dá a fritura final. Aliás, peixe, mandioca e frutas fazem parte do dia a dia dos emberás por conta da própria localização. 

A decepção diante do artesanato produzido por crianças, jovens e mulheres emberás ganha proporção bem menor diante das precárias condições de saúde, sem calendário previsto de visitas médicas; dos baixos níveis de escolaridade, com a presença de uma escola (a qual nem vimos nem tivemos acesso) e de sua inserção em ocupações de baixa remuneração (quando isto ocorre)! Por exemplo, em termos de saúde, a mortalidade infantil dentre as crianças indígenas é três vezes maior do que a dos não silvícolas. O nível de fecundidade das mulheres é similar ao das panamenhas não indígenas há 50 anos. Por sua vez, o analfabetismo é elevado, sobretudo, dentre as mulheres, alcançando o índice de até 48%, salvo exceções, quando indígenas panamenhos têm conseguido ingresso no ensino superior. 

Decerto, este não é o retrato do cotidiano “real” dos emberás, até porque há, desde nossa chegada, a orientação de que apenas o chefe (a quem não mais chamam de cacique) pode responder a eventuais questões. Quer dizer, trata-se de uma fotografia devidamente retocada. De qualquer forma, o convívio, em especial, com crianças e mulheres nos dá alento para conviver com um mundo de menos expectativas do que aquele nos quais vivemos o estertor de dias corridos e horas contadas e recontadas. 

Postscriptum: que falta fazem as imagens em textos como este! 

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.


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