Graça Targino

Campanhas publicitárias como alvo

Maria das Graças Targino - [email protected]

03/05/2019 10:39h

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Em meio à surpresa generalizada, até mesmo dentre os bolsonaristas, Jair Messias Bolsonaro, que é messias (mas não faz milagres), repetindo palavras suas diante do incêndio que afetou nosso patrimônio cultural com a quase total destruição do Museu do Rio de Janeiro, setembro de 2018, age, mais uma vez, de forma inesperada e ridícula. Ciente de que os problemas mais sérios da nação podem esperar, Bolsonaro, confirmando sua natureza de ser humano preconceituoso, homofóbico e alheio à diversidade que caracteriza a realidade brasileira, veta comercial do Banco do Brasil, o qual prima pelo encanto da mescla do povo brasileiro e pela beleza subjacente aos jovens, sejam eles convencionais ou descolados. 

Em 30 segundos, a campanha publicitária divulgava, desde o início de abril, os eventuais benefícios do serviço de abertura de conta corrente junto ao BB por aplicativo no telefone móvel, sem trazer à tona qualquer cena ambígua ou chocante. Nada, além da diversidade; nada, além da descontração própria dos mais novos, independentemente de raça, faixa etária, credo ou orientação sexual. Cidadãos brancos, negros e mestiços representavam a diversidade racial e a orientação sexual vigente em nosso Brasil, em veiculação na tevê e no espaço virtual.

É evidente que homogeneizar campanhas publicitárias, além de estimular abertamente preconceito contra grupos minoritários, os quais, ao longo da história, permaneceram, sempre e sempre, fora do circuito da publicidade e propaganda, em sua lastimável condição de invisíveis, é um ato ditatorial e perigoso ao regime democrata. Afinal, a democracia prevê condição política em que todos os cidadãos de um país participam de forma igualitária da vida em sociedade em quaisquer segmentos. 

E o que também causa espanto é o apego ao poder.  Suspensa mais ou menos no dia 14 último, depois que Bolsonaro assistiu à peça publicitária e entrou em contato com o Presidente do BB, Rubem Novaes, este, ao invés de argumentar e reiterar junto ao militar as mudanças do mercado, em evidente amor ao status, decidiu pela saída do diretor de Comunicação e Marketing do BB, Delano Valentim, para não  contrariar o “El Señor Comandante” ou “El Grand Chief”, uns dos muitos apodos atribuídos ao ditador cubano, Fidel Castro, até sua morte! E pior, ninguém apresentou razões convincentes (ou não) para o fato em si, que, na verdade, envergonha nosso país e nossa gente. Ao contrário, de forma covarde, o porta-voz do Palácio do Planalto limitou-se a afirmar que não comentaria a ocorrência. É claro, por falta de argumentos. 

Não é a primeira vez que Bolsonaro envolve-se com a cadeia de comunicação. Além de tolamente proibir via decreto presidencial o uso da expressão Vossa Excelência e similares, incluindo Doutor(a), por parte de servidores e integrantes do Governo Federal em comunicados, atos e cerimônias públicas, com o pretenso intuito de desburocratizar o tratamento e romper barreiras distintivas entre os agentes públicos na esfera do Poder Executivo Federal, ainda em janeiro deste ano, determinou a suspensão da divulgação de cartilha voltada para mulheres trans. O documento estava no ar há seis meses. Neste caso, o argumento era a presença de incorreções técnicas! Pobre país! Pobre democracia! Nem as campanhas publicitárias escapam dos caprichos de Bolsonaro! 


Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

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