Graça Targino

Afagos ou farpas X regimes ditatoriais

Maria das Graças Targino - "[email protected]"

03/04/2019 05:23h

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"Quando perdemos a capacidade de nos indignar com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerar seres humanos civilizados". Vladimir Herzog, uma das vítimas da Ditadura Militar.

Há algo difícil de se conseguir como ser humano: a coerência, como ausência de contradição e compatibilidade entre pensamento expresso e nossas ações. Ora, desde antes de assumir a Presidência da República Federativa do Brasil, Jair Messias Bolsonaro soltava (e solta) farpas contra os regimes ditatoriais mais próximos de nosso contexto, com ênfase para Cuba e Venezuela.

Em meio a intensas intrigas, mexericos e bisbilhotices dignas de qualquer compadrio ou de quaisquer comadres, entre “Filhos Primeiros Cavalheiros” / Presidente, de um lado; e o Poder Legislativo, de outro, em vez de amenizar o ânimo de senadores e deputados, e, em especial, da sociedade civil, eis que “o Trump dos Trópicos” decide, num gesto para lá de bizarro, desenterrar o 31 de Março. Em suas palavras, a intenção é “rememorar para ver o que existiu de bom ou não” na Ditadura Militar que perdurou 21 anos no país, de 1 de abril de 1964 a 15 de março de 1985, sob o comando de sucessivos Governos militares. De caráter essencialmente autoritário, seu início se deu mediante Golpe Militar que derrubou o então Presidente João Belchior Marques Goulart (ou Jango), que ficou no Poder de 1961 a 1964.

Em vez de desfiles públicos ou discursos em palanques, Bolsonaro optou por uma forma para lá de “discreta”: a leitura do que chamou de Ordem do Dia, elaborada pelo Ministério da Defesa para ser lida e, quiçá, assimilada pelos jovens militares em sua mente e em seu coração, nos mais diferentes quartéis do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, até a sexta-feira, dia 29 de março, em referência ao famigerado 31 de março. Além de assinado pelo ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e pelos três comandantes das Forças Armadas, o documento, com ampla circulação na mídia, não classifica o Regime Militar como Ditadura advindo de um Golpe.

Em algum trecho, afirma, literalmente, que as Forças Armadas “[...] participam da história de nossa gente, sempre alinhadas com suas legítimas aspirações. O 31 de março de 1964 foi um episódio simbólico dessa identificação.” O documento ainda argumenta que a data estava fincada no ambiente da Guerra Fria, período histórico de disputas acirradas entre os Estados Unidos e a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (União Soviética), de tal modo que a intervenção militar contou com o apoio irrestrito de parcela majoritária da população e da

imprensa da época. Alarmadas com o que acontecia, as famílias brasileiras “[...] colocaram-se em marcha. Diante de um cenário de graves convulsões, foi interrompida a escalada em direção ao totalitarismo. As Forças Armadas, atendendo ao clamor da ampla maioria da população e da imprensa brasileira, assumiram o papel de estabilização daquele processo.”

Por fim, os comandantes militares complementam: “55 anos passados. Marinha, Exército e Aeronáutica reconhecem o papel desempenhado por aqueles que, ao se depararem com os desafios próprios da época, agiram conforme os anseios da nação brasileira. Mais que isso, reafirmam o compromisso com a liberdade e a democracia, pelas quais têm lutado ao longo da história.” É cômico, se não fosse irracional. Parecemos todos tão exauridos do desgoverno em que o Brasil se meteu há tantos anos, que os manifestos contrários à Ordem do Dia nos parecem poucos. A Defensoria Pública da União, o Instituto Vladimir Herzog (para quem não lembra, Vladimir foi um jornalista barbaramente assassinado nos porões da Ditadura) e seis parentes de vítimas da fase ditatorial entraram com ações na Justiça Federal e no Supremo Tribunal Federal tentando impedir o Governo Bolsonaro (e não o conseguiram) de festejar a data.

Verdade, tudo nos soa irrisório e simplório. Verdade que há uma infinidade de livros que, hoje, denunciam os horrores da Ditadura. Dentre eles, um ocupa lugar de destaque. Trata-se da obra “Brasil Nunca Mais”, sério trabalho de pesquisa que conseguiu denunciar muitos dos torturadores do Regime Militar, desta vez, com a ajuda da Igreja Católica sob a liderança de Dom Paulo Evaristo Arns, que lutou, ao longo de toda sua vida, não só contra os militares, mas, também, pelos direitos humanos.

Onde estão os mortos? Em que espaço e em que tempo vagam perdidos os sofrimentos dos exilados por anos a fio? Onde estão as famílias que não conseguiram sepultar os restos mortais de seus entes queridos? Onde está o registro das torturas para lá de infames e atrozes? Onde está a censura à imprensa, à edição de livros, jornais e revistas, ao pensamento livre, leve e solto? Onde está tudo que restou da sensação arrepiante de medo daqueles 21 anos?

A Bolsonaro resta decidir: afagos ou farpas em direção aos regimes ditatoriais? Afinal, “ninguém pode servir a dois senhores: odiará um e amará o outro; será leal a um e desprezará o outro.” (Mateus 6:24). A ele cabe louvar a democracia e relegar a ditadura ou, quem sabe, a ele cabe louvar a ditadura e relegar a democracia!

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