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Notícias Graça Targino

19 de junho de 2019

Jeitinho brasileiro

Maria das Graças Targino - [email protected]

Salvo raríssimas exceções, tendemos a rotular populações. Lançamos mão de estereótipos. Alguns agradáveis aos ouvidos: mulher brasileira, morena e bela, sensual e lasciva; japonês, disciplinado e trabalhador; inglês, polido e pontual. Outros são ofensivos em sua essência: francês, malcheiroso; alemão, grosseiro; brasileiro, propenso a trambiques; catalão, mal-educado. Esses rótulos tendem a ser injustos. Alguns cômicos: mulher baixinha é sinônimo de frescor, porque nos pequenos frascos de perfume, está o melhor aroma; mulher altinha não sofre dificuldades para enxergar em meio à multidão a figura do exótica Lady Gaga. E outras tolices deste porte... 

Na realidade, viajar proporciona nova visão: as pessoas são o que são, independentemente de sua nacionalidade. Há pessoas boas e más, sensuais ou “sem sal”, espertas ou desonestas, limpas ou sujas, delicadas ou indelicadas, trabalhadoras ou preguiçosas, por toda a parte. Verdade que o meio cultural interfere na visão de mundo, mas sempre é possível encontrar espécimes distintos, num mesmo rincão.

Nada, porém, impede que carreguemos, nós, brasileiros, o estigma de ser esperto em excesso, burlando normas e parâmetros sociais e/ou coletivos, sempre, com o intuito de se dar bem. Verdade que a expressão – esperto – possui conotação positiva. É quando nos referimos a alguém dotado de inteligência, arguto e vigoroso. No caso, porém, o espertinho aplicado ao povo brasileiro tem a acepção de espertalhão. Esperteza em demasia corresponde ao hábito nada salutar de ocultar erros, malandragens, omissões e falhas no convívio com familiares, companheiros e amigos, recorrendo a justificativas levianas, e, portanto, aéticas. É o jeitinho decantado do brasileiro como alguém que, com frequência, recorre a atalhos, mesmo quando estes levam a caminhos cinzas ou rotos, cujos buracos ocultam subterfúgios e maledicências.

“O auto da compadecida”, peça do grande paraibano Ariano Suassuna, em 1955, que se transformou em minissérie e, também, em filme, sob a direção do pernambucano Guel Arraes, explora de forma bastante criativa os causos de Chicó (vivido por Selton Mello) e os trambiques incríveis de João Grilo (Matheus Nachtergaele), nas brenhas do Estado da Paraíba e até no além, ante Deus e o diabo. Desde o início da obra, juntos, eles reforçam a premissa de que “a esperteza é a coragem do pobre.” Com a maior cara de pau e primando pelo jeitinho brasileiro, eles atraem plateia para o filme “A paixão de Cristo.” Dizem num determinado trecho: 

“Hoje à noite, na paróquia de Taperoá, vai passá (sic) ‘A paixão de Cristo!’” (João)

“Um filme de aventura! Que mostra um cabra sozinho e disarmado (sic), enfrentando o Império Romano todinho!” (Chicó)

“Não percam! A história de um vidente que é Deus e homem ao mesmo tempo!” (João)

“Um filme de mistério! Cheio de milagres e acontecimentos do outro mundo!” (Chicó)

“A paixão de Cristo! Filme mais arretado do mundo!” (João).

Depois desta, podemos nos perguntar se o jeitinho brasileiro está impregnado nas peças publicitárias dos nordestinos “da pesada” de “O auto da compadecida.” Vemos, ainda, quão tênue é o comportamento moral, amoral e imoral, até porque os dois malandros precisavam vender o filme de uma forma bem original para garantir “o seu!” Os fins justificam os meios? Até que ponto vale a pena primar pela verdade? Até que ponto a verdade pode ser convincente ou conveniente? Restam dúvidas e, por falta de opção, sobrevive o jeitinho brasileiro! Afinal, ao longo da história mal contada do país, tornamo-nos especialistas em afrontar e enfrentar adversidades com sorriso torto nos lábios e jeitinho malandro que cabe em qualquer lugar, até na compilação de capas de livros de autores com o pretexto de que se trata de traço característico (e limitado) de um capista e não o caráter duvidoso de ambos – capista e autor-compilador!   


Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

13 de junho de 2019

Paixões à luz do dia ou velhas paixões proibidas...*

Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Este olhar é o da alma. (Nilton Bonder, 1998)

Maria das Graças Targino**

A cada ano, no dia 12 de junho, eis um rebuliço maior em restaurantes, lojas, casas, motéis e alcovas. Alguns vivenciam o romantismo que nunca lhes abandonou, com mais força, como se possível fora. Outros retomam a fantasia, nem que seja por um dia. Há quem se negue a sucumbir ao apelo comercial do Dia dos Namorados. Circulam flores, bilhetes de amor, caixas de chocolate, mensagens carinhosas via WhatsApp ou declarações públicas no facebook ou fotos luminosas no instagram, e, quem sabe, para os mais afortunados financeiramente, joias, relógios e até um belo carro. Tudo vale para lembrar que sempre é época de brindar ao amor. Paixões à luz do dia ou velhas paixões proibidas. Amores eternos ou amores passageiros, transitórios e efêmeros, mas não necessariamente insignificantes... 

E o que dizer dos que não se importam com a data porque não têm a quem amar? Dentre eles, há os que ridicularizam as comemorações. Alegam que se trata de puro comércio e ponto final... Invenção ultrapassada e brega. Coraçõezinhos em gestos, papel, papelão, alumínio, não importa, tudo muito cafona. Bilhetinhos, sempre inúteis. Irão para o cesto de lixo e ponto final... Do outro lado, há trabalho, viagens, dinheiro e sucesso. Isto, sim, combina com a rotina do século XXI, que cobra, principalmente das mulheres, além de inteligência brilhante e bagagem cultural sempre à prova, beleza, esbelteza, eficiência no trato das funções que a vida lhe impõe, dentre as quais podem estar a maternidade, o voluntariado, o exercício de um hobby, um pet, a academia de ginástica, as sessões de terapia (e, agora, de hipnose), o comparecimento sistemático a reuniões sociais que rendam notícias no jornal de amanhã. 

Nesse intervalo, eis que alguém recebe a seu lado um buquê de rosas vermelhas. A curiosidade dá voltas e meias-voltas: quem será que ainda manda flores? Meio cômico, sobretudo, quando as rosas exalam cheiro de amor e encantamento no ambiente imaculado do trabalho. Pessoas assim jamais confessarão que choram num pranto silencioso os amores não vividos, os sonhos não realizados, as fantasias não alcançadas, até porque duvidam de quem diz: “enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança.” Não admitem jamais que dariam seu reino por uma única rosa vermelha. E ponto final...

Mas, dentre os não têm a quem amar, há os que exaltam o amor, como eu. Destino, mistérios e fantasmas que teimam em aparecer e desaparecer. É a certeza de que o dia 12 de junho é tão somente mais um dia no calendário cinza do ano que voa. É apenas mais um dia e ponto final... Falta a mim e a você o dia a dia que fortalece a cumplicidade, a conversa na intimidade do lar, a música no ar, um presente, um anel que legitime nosso bem-querer que há muito se foi. Mas sempre é tempo de lembrar os risos soltos, os abraços apertados, os beijos molhados ao Sol ou ao luar, os corpos desnudos. E ponto final...

*Texto do livro recém-lançado “Amar, viver, escrever”

**Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

29 de maio de 2019

Teclado responsável

Maria das Graças Targino - ([email protected])

No decorrer dos tempos, verdade e mentira, realidade e fantasia, lendas e fatos, boatos e ilusões sempre conviveram lado a lado. Em tempos de nossos avós, bisavós e tataravós, em grandes cidades ou em pequenos vilarejos, em metrópoles ou em aldeias, a verdade sempre conviveu com fofocas e boatos numa sucessão de intrigas, falatórios, disse me disse, disse não disse, disse que disse, diz que diz, diz que diz que, diz que me diz que, e assim sucessivamente.

Com a posse de Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos, no dia 20 de janeiro de 2017, ou melhor, desde sua candidatura ao cargo, a expressão fake news passou a ser usada a torto e a direito, sem discernir o bem do mal, de forma irrefletida e a esmo. Ele se posiciona como o criador da expressão, como se fora possível identificar, com precisão, quem a adotou pela primeira vez ou quem a disseminou. Afinal, trata-se de designação, em sua essência, para lá de errônea: se é fake (falso) não é news (notícias). A notícia é um gênero textual jornalístico presente no cotidiano dos indivíduos. Para ser categorizada como tal, demanda uma série de requisitos, tais como: informar por meio de textos descritivos e veiculados na mídia, mediante linguagem formal, clara e objetiva, conteúdos credíveis, ou seja, em que possamos ou devamos acreditar. Eis, pois, a principal característica da notícia = fato / verdade / dia a dia. Essa perspectiva aliada à capacidade de discernimento deve nos conduzir ao teclado (particípio passado do verbo teclar e não dispositivo periférico do computador ou celular) responsável para emitir nossa opinião a respeito de uma informação em circulação nas redes sociais, da mesma forma que deve nos guiar até as urnas para expressar nosso voto.

Sob esta concepção, a expressão fake news é por si mesma um desvario, mas que veio para ficar graças às inovações tecnológicas e às redes sociais, que comportam não um mundo intrigante, na acepção de surpreendente, mas, sim, um mundo de intrigas. É muito fácil destruir reputações; enlamear a vida de famílias e indivíduos; propagar informações propositadamente distorcidas; pregar o ódio irracional a grupos minoritários; criar imagens falsas, transmutando sapos em príncipes ou príncipes em sapos; ou gerando “fatos” novos no lamaçal da política brasileira.

Mesmo assim, à revelia de Trump (ou não), desde 2017, o respeitado dicionário britânico Oxford Dictionaries, edição da Oxford University, acresceu o verbete fake news, para designar a geração de informações inverídicas, como expressão de sentido que se relaciona, fundamentalmente, a “[...] histórias falsas que parecem ser notícias, que se espalham pela internet ou por meio de outras mídias, geralmente criadas para influenciar pontos de vista políticos ou de qualquer outra natureza.”

Portanto, tudo isto significa que somos, todos nós, responsáveis por um mundo melhor, em que o respeito ao outro seja prática cotidiana, o que corresponde não apenas a uma vida de orações, mas de ações que se iniciem com a adoção do teclado responsável, haja vista que, na conjuntura contemporânea, as notícias falsas arvoram-se entre nós com acentuado relevo, velocidade e alcance, causando dores e inquietações ao outro, ao tempo em que nos distancia anos-luz do comportamento ético ideal e idealizado.

22 de maio de 2019

Nossa Senhora do Amparo

Maria das Graças Targino - ([email protected])

Semana passada, confessei ao meu público a devoção infinita que dedico às lendas populares. Exultei de felicidade quando descobri em Portobelo (Panamá), a história do Cristo Negro, que se assemelha à de “nossa” Nossa Senhora do Amparo. Aliás, ele esteve presente há pouco tempo, no Brasil, carnaval de 2019, na escola de samba carioca, a festejada Estácio de Sá, que trouxe às passarelas “O Negrito” com o enredo “A fé que emerge das águas!” Ambos – Cristo e Santa – mantêm algo em comum: caprichosos e birrentos, estão sempre às turras com párocos e fiéis.

No caso de Nossa Senhora do Amparo, a busca de informações no espaço virtual aponta contradições, ditos e ritos. É difícil imaginar sua chegada à capital Teresina. Por este motivo, recorro a Maria Cecília Mendes, tanto por sua vocação como historiadora quanto por sua religiosidade e por seu amor ao universo de lendas, tradições, crenças e costumes do povo piauiense. Nesse momento, ela menciona a obra original do escritor Celso Pinheiro, possivelmente o primeiro registro escrito publicado sobre a voluntariosa Nossa Senhora, quando da edição comemorativa do cinquentenário da Capital, 1902, na antiga e extinta Revista Litericultura, que circulou de 1912 a 1913, período de mudanças significativas de cunho político, econômico e social no Estado do Piauí, quando os autores da Revista buscavam a consolidação da identidade literária piauiense.

As lendas representam a memória coletiva de um povo, refletindo um passado cultural, paradoxalmente, presente. Povoam o imaginário social das coletividades, tentando explicar o inexplicável. José Antônio Saraiva, Conselheiro Saraiva, advogado e político baiano, responsável pela transferência da sede administrativa da província do Piauí de Oeiras para Teresina, em 16 de agosto de 1852, visualiza em sua proposta a chance maior do crescimento econômico da Província face à nova localização geográfica, no então bairro Poti Velho. O nome escolhido é nítida homenagem à Imperatriz Teresa Cristina de Bourbon, esposa de D. Pedro II. Homem influente e destemido, Saraiva inicia, à época, a construção de uma série de repartições públicas e, decerto, para agradar o clero, sua primeira obra é a edificação da Igreja Nossa Senhora do Amparo, no centro da cidade, em frente da Praça Marechal Deodoro da Fonseca, em dimensão menor do que a atual, com o término tão somente da capela-mor.

O que se deu? É provável que tenha sido o próprio Saraiva quem encomendou uma imagem da Nossa Senhora do Amparo. Não se sabe ao certo. O certo é que a Santa, em sua santa pressa, chegou antes da conclusão da Igreja, cuja pedra fundamental foi lançada em 25 de dezembro de 1850 até sua inauguração, Natal do ano de 1852, quando foi elevada à categoria de Matriz da cidade. Desde então, Nossa Senhora do Amparo figura como a padroeira da capital, cujo dia de celebrações recai a cada 16 de agosto, aniversário de Teresina.

O influente e jovem Padre Mamede Antônio de Lima, recém-ordenado no Seminário de Olinda (Pernambuco), após iniciar sua vida religiosa na paróquia de Sobral (Ceará), foi designado para a Freguesia de Nossa Senhora do Amparo, além de exercer o Bispado no Maranhão. Em apuros pela chegada da Santa antes de a Igreja estar pronta, o Padre decide enviar a imagem para a Capela de Nossa Senhora do Amparo, no Poti. Finalizada a Igreja, em cortejo fervoroso para trazer a imagem, os fiéis seguiram do bairro até a nova Igreja. Não deu outra. No dia seguinte, eis a Santa arisca no Poti. No dia seguinte, nova procissão. Ela não hesitou. Voltou para a Capelinha. Dizem, mais algumas vezes.

Em conluio com o sacristão, o Padre astuto idealizou um plano para enganar a Santa fujona. Esperou uma noite de lua nova. Envolvida com uma alva toalha de linho bordada em labirinto, colocou a imagem num caixãozinho de imburana perfumada fortemente lacrado. Desta vez, nada de procissão. Ela veio, no fundo de uma canoa de pesca bem cuidada e ornada, seguindo para a Igreja Nossa Senhora do Amparo pelo caminho do rio Parnaíba. Enquanto a canoa cruzava as águas movimentadas do Parnaíba, elas se aquietavam pouco a pouco e quando a embarcação atingiu o Porto das Cajazeiras, o céu estava vestido de estrelas cintilantes. Enfim, foi posta na capela-mor da Igreja, onde um nicho repleto de flores perfumadas e velas de todos os tamanhos e cores a esperavam. Sem saber como voltar, Nossa Senhora do Amparo por lá ficou, deixando dentre os potienses um sentimento de orfandade e perda!

17 de maio de 2019

Cristo Negro: do Panamá para a Estácio de Sá

Maria das Graças Targino - [email protected]

Todos nós guardamos conosco singularidades que não se explicam. Simplesmente são nossas. Por exemplo, sempre confessei meu encantamento perante artistas de rua, a exemplo dos que trazem música à vida dos que passam velozes e preocupados, às vezes, por meio de

instrumentos musicais variados; às vezes, com sua voz, treinada ou não. Há as estátuas vivas que se postam horas a fio nas calçadas das grandes cidades turísticas. Há os malabaristas que se

esforçam em distrair transeuntes e motoristas, quiçá, sonhando com o apogeu dos grandes circos. Nada importa. Eles estão por aí, clamando por um pouco de atenção ou por oportunidade!

Todo este preâmbulo apenas para lhes falar de meu fascínio por lendas populares, brasileiras ou não, muitas das quais trazem subjacentes crenças, fé e devoção. No caso específico, o foco é o Cristo Negro, cujo aparecimento ocorreu entre os anos de 1800 e 1830

d.C., momento histórico em que o Caribe registrou vertiginoso sincretismo religioso. Na atualidade, o Cristo Negro é cultuado, sobretudo, na Guatemala, nas Filipinas e no Panamá, guardando em cada nação suas especificidades. Na Guatemala, está cercado por mulheres

brancas e há certa fusão entre religião católica e vodu, culto que conjuga elementos de possessão e magia. Nas Filipinas, a Procissão do “Nazareno Negro” constitui uma das celebrações

religiosas mais populares.

São muitas as denominações a ELE atribuídas, como “Nazareno”, “Naza”, “O Negro”, “O Negrito”, “O Cristo” e “O Santo.” No caso específico, visitamos o Cristo Negro exposto na

Igreja São Felipe, em Portobelo, pequena cidade portuária (244,7 km²) panamenha da província de Cólon, distante 96,5 km da Capital, numa hora e meia de percurso em carro próprio. A estátua

de madeira boiava às margens do porto nas águas do oceano Atlântico, de forma imprecisa, em torno de 1658. Sua origem é cercada de histórias e de mistérios. Nada nem ninguém sabe como

ali chegou. Chovem especulações e ditos e não ditos. Indo adiante, dizem que o Cristo – óbvio que não importa sua cor (se branco ou amarelo ou marrom) – foi levado muitas e muitas vezes a

outras províncias. Surpreendentemente, quando menos se esperava, lá estava ELE de volta: no mesmo altar, na mesma posição. Para os mais crédulos, ostentava no rosto um doce e maroto

sorriso. Eis o momento em que a lenda de “O Negro” assemelha-se às manifestações em torno de Nossa Senhora do Amparo, em Teresina – PI, tema da próxima coluna!

Diante da insistência de “Naza”, a Paróquia de Portobelo decidiu atendê-lo. A Igreja simples, mas aconchegante, foi construída em 1814 e sua torre, concluída em 1945. Pouco a

pouco, os fiéis foram chegando e se avolumando. Nos dias de hoje, adornado com um manto, a cada 21 de outubro, lá vai ELE em Procissão. O manto sagrado é mudado tão somente duas

vezes por ano: durante a Semana Santa (cor roxa); durante o Festival do Cristo Negro (cor de vinho tinto). É usado uma única vez e é sempre doação de anônimos, o que resulta em alguns

bastante simples e outros luxuosos em demasia.

A efígie, representando Cristo carregando uma pesada cruz, permanece num pódio à esquerda do altar principal, mas é transportada para o centro da Igreja, quando do Festival, que

figura como o maior evento de Portobelo. Reúne cerca de 60.000 peregrinos vindos não só do Panamá, mas de outros recantos distantes, como do continente europeu, dos Estados Unidos e de

outras nações latino-americanas. De fato, a particularidade do Festival do Cristo Negro é que, de acordo com a fala dos nativos, em sua maioria, os devotos são ex-presidiários, entre assaltantes,

ladrões e traficantes de drogas. Juram ter se livrado das terríveis grades das fétidas cadeias, graças à intervenção do bondoso Cristo. Seguem de joelhos pelas ruelas de pedregulhos. Com

certa frequência, além do sangue que jorra dos joelhos, são açoitados por familiares ou amigos para que não voltem a infringir as leis... Há quem siga rastejando com mãos e joelhos...

Isto justifica o apodo do Cristo Negro, no Panamá, como “O Padroeiro dos Criminosos.” E ELE prossegue com seus caprichos: deve ser devolvido à Igreja exatamente à meia-noite. Nem

antes. Nem depois. Torna-se extremamente pesado para ser carregado! E mais! Poucos sabem que uma das principais escolas de samba de nosso Rio de Janeiro, Estácio de Sá, agora, carnaval

2019, homenageou o Cristo Negro de Portobelo com o enredo “A fé que emerge das águas!”

08 de maio de 2019

Emberás: fotografia retocada

Maria das Graças Targino, [email protected]

O Panamá abriga em seu território comunidades indígenas dispersas, fundamentais à sua instalação como nação, uma vez que, em tempos remotos, até o início da colonização espanhola, ali viviam tão somente índios chibchas, caribes, cholos e chocóes. Em 1501, Rodrigo de Bastidas percorre as costas caribenhas e Cristóvão Colombo, explorador italiano, responsável pela frota que alcançou o continente americano em 1492, sob as ordens dos reis católicos de Espanha, ancora na baía de Portobelo (assim, com um só L, Panamá), 1502. 

Quer dizer, tal como no Brasil, são eles, os indígenas, parte intrínseca da história do país. Após longo processo de colonização a cargo da Espanha, é a vez da Colômbia e mais adiante dos Estados Unidos. Eis, então, um povo que incorpora, a olho nu, interessante mescla de “brancos”, negros, mestiços e indígenas. Como nosso interesse maior, hoje, aqui e agora, é discorrer um pouco sobre os emberás, só acrescentamos que, dentre a população global do Panamá de cerca de 3,6 milhões de habitantes, com PIB per capita de US$ 24.300 (ano 2017) e, segundo dados do PNUD, Índice de Pobreza Extrema de 14,2%, os indígenas estão entre os que mais convivem com a extrema pobreza.

Isto significa que, em pleno século XXI, proporção significativa dos povos aborígines panamenhos (como no caso brasileiro) prossegue em situação de marginalização e exclusão social, não obstante o fato de que, pouco a pouco, seus direitos comecem a ser contemplados na Constituição da República do Panamá e em outros dispositivos legais, graças a formas de resistência por eles desenvolvidos diante de eventuais ataques e ameaças à sua sobrevivência. Uma das conquistas mais significativas refere-se à instalação de cinco regiões indígenas, cujas leis constitutivas legitimam a estrutura administrativa-política original ao lado da autonomia e da conservação da cultura genuína dessa gente como parte integrante do sistema nacional. 

Estamos nos referindo, em termos genéricos aos sete povos indígenas que somam, ano 2019, mais de 300.000 indivíduos. A grande maioria pertence aos grupos bri, corneta, emberá, kuna, naso tjerdi, ngäbe (ou ngöbe) e wounaan. Há dúvidas sobre a origem dos 993 bokota, considerados por alguns antropólogos como integrantes do povo ngöbe. Enquanto grande parcela dessas comunidades está “fechada” à interveniência do homem branco ou ao turismo, os emberás vêm se tornando bastante conhecidos, face à abertura à visitação de turistas. 

Oriundos da região Choco da Colômbia moderna, parte da tribo seguiu para o Panamá, ao final do século XVIII. Hoje, os emberás estão assentados no Parque Nacional Chagres, à beira do rio homônimo. Mantêm três aldeias no Parque, ainda que somente a terceira esteja aberta ao homem branco, onde chegamos depois de travessia ao longo do rio por cerca de uns 40 minutos, em lanche rústica, mas aconchegante. Eis um dia único! Eis uma experiência única! Como eles vivem de forma sustentável em meio à floresta e ao rio Chagres, sobretudo os mais velhos resistem à modernização, embora, extremo paradoxo, muitos deles já tenham sucumbido à pregação da Igreja Evangélica. 

Suas casas, em geral, estão edificadas sobre palafitas à beira do rio, e agrupadas numa pequena comunidade com uma casa comunal ao centro, o que facilita a manutenção de rígidas “estruturas governamentais / administrativas” e familiares. Observamos a preocupação em conservar cultura e costumes, incluindo dialeto, culinária, belas pinturas ou tatuagens de cores fortes e com motivo singulares, cantos e danças, das quais os visitantes podem participar com a coletividade. A comida preparada diante de nossos olhos foi servida em cabaças (como as brasileiras), incluindo peixe delicioso acompanhado de banana também frita, desta vez, de forma bem panamenha: cozinha-se a banana verde em pedaços por pouco tempo. Escorre-se o óleo. Amassa-se com um pisador específico para isso, à semelhança de nosso batedor de carne, e, então, se dá a fritura final. Aliás, peixe, mandioca e frutas fazem parte do dia a dia dos emberás por conta da própria localização. 

A decepção diante do artesanato produzido por crianças, jovens e mulheres emberás ganha proporção bem menor diante das precárias condições de saúde, sem calendário previsto de visitas médicas; dos baixos níveis de escolaridade, com a presença de uma escola (a qual nem vimos nem tivemos acesso) e de sua inserção em ocupações de baixa remuneração (quando isto ocorre)! Por exemplo, em termos de saúde, a mortalidade infantil dentre as crianças indígenas é três vezes maior do que a dos não silvícolas. O nível de fecundidade das mulheres é similar ao das panamenhas não indígenas há 50 anos. Por sua vez, o analfabetismo é elevado, sobretudo, dentre as mulheres, alcançando o índice de até 48%, salvo exceções, quando indígenas panamenhos têm conseguido ingresso no ensino superior. 

Decerto, este não é o retrato do cotidiano “real” dos emberás, até porque há, desde nossa chegada, a orientação de que apenas o chefe (a quem não mais chamam de cacique) pode responder a eventuais questões. Quer dizer, trata-se de uma fotografia devidamente retocada. De qualquer forma, o convívio, em especial, com crianças e mulheres nos dá alento para conviver com um mundo de menos expectativas do que aquele nos quais vivemos o estertor de dias corridos e horas contadas e recontadas. 

Postscriptum: que falta fazem as imagens em textos como este! 

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

03 de maio de 2019

Campanhas publicitárias como alvo

Maria das Graças Targino - [email protected]

Em meio à surpresa generalizada, até mesmo dentre os bolsonaristas, Jair Messias Bolsonaro, que é messias (mas não faz milagres), repetindo palavras suas diante do incêndio que afetou nosso patrimônio cultural com a quase total destruição do Museu do Rio de Janeiro, setembro de 2018, age, mais uma vez, de forma inesperada e ridícula. Ciente de que os problemas mais sérios da nação podem esperar, Bolsonaro, confirmando sua natureza de ser humano preconceituoso, homofóbico e alheio à diversidade que caracteriza a realidade brasileira, veta comercial do Banco do Brasil, o qual prima pelo encanto da mescla do povo brasileiro e pela beleza subjacente aos jovens, sejam eles convencionais ou descolados. 

Em 30 segundos, a campanha publicitária divulgava, desde o início de abril, os eventuais benefícios do serviço de abertura de conta corrente junto ao BB por aplicativo no telefone móvel, sem trazer à tona qualquer cena ambígua ou chocante. Nada, além da diversidade; nada, além da descontração própria dos mais novos, independentemente de raça, faixa etária, credo ou orientação sexual. Cidadãos brancos, negros e mestiços representavam a diversidade racial e a orientação sexual vigente em nosso Brasil, em veiculação na tevê e no espaço virtual.

É evidente que homogeneizar campanhas publicitárias, além de estimular abertamente preconceito contra grupos minoritários, os quais, ao longo da história, permaneceram, sempre e sempre, fora do circuito da publicidade e propaganda, em sua lastimável condição de invisíveis, é um ato ditatorial e perigoso ao regime democrata. Afinal, a democracia prevê condição política em que todos os cidadãos de um país participam de forma igualitária da vida em sociedade em quaisquer segmentos. 

E o que também causa espanto é o apego ao poder.  Suspensa mais ou menos no dia 14 último, depois que Bolsonaro assistiu à peça publicitária e entrou em contato com o Presidente do BB, Rubem Novaes, este, ao invés de argumentar e reiterar junto ao militar as mudanças do mercado, em evidente amor ao status, decidiu pela saída do diretor de Comunicação e Marketing do BB, Delano Valentim, para não  contrariar o “El Señor Comandante” ou “El Grand Chief”, uns dos muitos apodos atribuídos ao ditador cubano, Fidel Castro, até sua morte! E pior, ninguém apresentou razões convincentes (ou não) para o fato em si, que, na verdade, envergonha nosso país e nossa gente. Ao contrário, de forma covarde, o porta-voz do Palácio do Planalto limitou-se a afirmar que não comentaria a ocorrência. É claro, por falta de argumentos. 

Não é a primeira vez que Bolsonaro envolve-se com a cadeia de comunicação. Além de tolamente proibir via decreto presidencial o uso da expressão Vossa Excelência e similares, incluindo Doutor(a), por parte de servidores e integrantes do Governo Federal em comunicados, atos e cerimônias públicas, com o pretenso intuito de desburocratizar o tratamento e romper barreiras distintivas entre os agentes públicos na esfera do Poder Executivo Federal, ainda em janeiro deste ano, determinou a suspensão da divulgação de cartilha voltada para mulheres trans. O documento estava no ar há seis meses. Neste caso, o argumento era a presença de incorreções técnicas! Pobre país! Pobre democracia! Nem as campanhas publicitárias escapam dos caprichos de Bolsonaro! 


Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

24 de abril de 2019

Catedral de Notre-Dame e Museu Nacional

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica

Umberto Eco, escritor italiano de renome internacional, ao longo de sua trajetória, 84 anos intensamente vividos, circulou por áreas distintas sempre com competência e racionalidade. Ao contrário dos acadêmicos de nossa geração, seu distanciamento de qualquer tipo de casulo sempre me encantou. Por exemplo, enquanto todos se sentem compelidos a enaltecer as potencialidades das tecnologias, veio a público, em diferentes ocasiões, para declarar o que muitos pensam e poucos confessam. Para ele, ao lado das benesses das inovações tecnológicas, está o malefício imensurável de a internet “dar voz a uma multidão de imbecis. Multidões de imbecis têm agora como divulgar suas opiniões. Não estou falando ofensivamente quanto ao caráter das pessoas. O sujeito pode ser excelente funcionário ou pai de família, mas ser um completo imbecil em diversos assuntos. Com a internet e as redes sociais, o imbecil passa a opinar a respeito de temas que não entende.”

Diante da tragédia de repercussão mundial pelo simbolismo da Catedral Notre-Dame, localizada na Île de la Cité, no centro de Paris, rodeada pelo rio Sena e nas proximidades do marco zero da capital, enquanto as chamas a atingiam, por volta de 18:50h da segunda-feira (horário local), 15 de abril, mobilizando mais de 500 bombeiros-heróis para controle do fogo, nas redes sociais circulavam aos borbotões comentários os mais insanos possíveis. Alguém, num grupo de discussão, afirma que a reconstrução vai ser rápida, porque, afinal de contas, “ela já é uma réplica!” Outros atribuem o fato nefasto às forças zodiacais ou a forças do mal, sem contar os que falam em ação terrorista. São colocações que reforçam as duras palavras de Eco.

Com frequência ainda maior choveram comparações entre nossa perda irreparável com o incêndio que atingiu o Museu Nacional na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro, no dia 2 de setembro de 2018. Na condição de detentor do maior acervo de história natural e de antropologia da América Latina, possuía mais de 20 milhões de itens catalogados, distribuídos em coleções de ciências naturais e antropológicas. Transcorridos mais de sete meses, os recursos exatos para a reconstrução e/ou restauração do prédio histórico e de parte do acervo ainda constituem uma incógnita para a população brasileira. As palavras do Presidente Jair Messias Bolsonaro, constantes de vídeo divulgado pelo G1 e disponível a qualquer são realmente inacreditáveis: “'Já está feito, já pegou fogo, quer que faça o quê? Sou Messias, mas não sei fazer milagres!”

Do outro lado, sem esconder sua emoção, o presidente da França, Emmanuel Macron, assegura seu empenho em devolver a Catedral Notre-Dame à humanidade. De imediato, lança movimento nacional de arrecadação de fundos. Em poucas horas, a campanha “Notre-Dame de Paris, je t'aime” e outras mais, além de diferentes iniciativas da administração pública da região Île de la Cité e de grandes empresas, a exemplo do grupos LVMH (marcas Louis Vuitton e Dior) e Kering (Saint-Laurent e Gucci), arrecadaram a soma incrível de mais de 600 milhões de euros. E tudo isso num prazo mínimo de quatro dias! Sem contar o fato de que líderes de vários países e de organizações internacionais já se colocaram à disposição para ajudar. E aí vai em tom de pergunta e não de acusação: o que nós, brasileiros, fizemos EFETIVAMENTE em território nacional em prol do Museu?

Ainda em sua primeira fala ao povo francês, impregnada pela intenção de transformar dor em esperança, Macron continua: “nós a reconstruiremos todos juntos. É sem dúvida uma parte do destino francês e estará no projeto que teremos para os próximos anos. A Catedral de Notre-Dame [cuja construção iniciou em 1163, por ordem de Maurice de Sully, bispo de Paris e durou 180 anos] é nossa história, nossa literatura. É o epicentro de nossa vida [...] Trata-se da Catedral de todos os franceses.” Eu acrescento: de todos os povos, da religiosidade cristã e ocidental e de toda a humanidade, o que justifica a mobilização de orações, cânticos e lamentações de pessoas do mundo inteiro, reiterando que é ela Patrimônio Mundial da Humanidade, título outorgado pela UNESCO desde 1991.

O fogo começou na parte superior da estrutura gótica, que estava em plena restauração. Para se ter ideia, o prédio estava envolvido por gigantesca estrutura de andaimes, instalada a 100 metros de altura. Parte do telhado foi destruída. Parte da abóbada também desmoronou, como aconteceu com a torre chamada de flecha ou agulha (por seu formato), com 93 metros de altura e edificada com toneladas de madeira e chumbo. A estrutura de pedra da fachada e de suas duas torres com campanários resistiu ao incêndio. Dentre quadros, esculturas, peças sacras e três imensos vitrais do século XII e XIII de cerca de 13 metros de diâmetro (as chamadas rosáceas) recuperados intactos, chamam atenção a integridade da cruz do altar central, do sacrário, e, em especial, da Santa Coroa. Acredita-se ter sido ela usada ao longo do Calvário de Cristo, além de um pedaço da cruz e um dos pregos usados em sua crucificação.

De fato, para quem visitou a Catedral uma ou mais vezes, a sensação de paz e de contemplação é algo que não se descreve. Nessa tragédia inteira, tal como na destruição de nosso Museu Nacional, fica a certeza de que não se reconstroem histórias, e, sim, prédios e instalações. Isto porque, as histórias que ambos encerravam em seus muros, as lágrimas derramadas por pessoas que ali estiveram, o suor derramado por cada trabalhador, nada disso é possível de ser restaurado! Porém, sem dúvida, a distinção mais visível entre os dois casos – Catedral e Museu – refere-se ao comportamento de governantes e povo! 


17 de abril de 2019

80 tiros esclarecem dúvidas

Maria das Graças Targino - ([email protected])

Dentre dias corridos de trabalho, em meio a obrigações, compromissos e pouco lazer, refletir sobre o caos que vem assolando o território nacional é o pouco que podemos fazer em prol de nossa coletividade, nossa família e nossa vida. Dar de cara com dados da pesquisa efetuada, agora, primeiros dias de abril, pelo reconhecido Datafolha, segundo os quais 51% dos brasileiros têm mais medo do que confiança na Polícia Militar (PM), é, no mínimo, estarrecedor, sobretudo, quando se pensa numa nação em pleno desenvolvimento. Do ponto de vista da Constituição Federal, o Artigo 144 define os tipos de polícias e, em especial, as duas funções centrais da PM (Parágrafo 5º), quais sejam, levar a cabo o policiamento ostensivo e preservar a ordem pública. Isto é, são agentes de segurança pública e, ainda, como prescrito no Parágrafo 6o, são forças auxiliares do Exército. Ou seja, em estado de emergência, estado de sítio e/ou situação bélica, os policiais militares podem ser requisitados pelo Exército para exercerem novos encargos no campo da segurança pública.

O Exército Brasileiro, por sua vez, uma das três Forças Armadas do Brasil, ao lado da Marinha e da Força Aérea, é responsável pela defesa do território em operações terrestres e, também, pela suprema garantia da lei, da ordem e dos poderes constitucionais. No entanto, em que pesem funções tão relevantes sempre em prol da população, Exército e Polícia Militar, não obstante seus profissionais honrados, ao longo dos anos, vêm se envolvendo, de forma crescente, em delitos de todas as naturezas. Casos e mais casos, quase sempre impunes, atestam a morte de inocentes pela PM e pelo próprio Exército, podemos dizer, em todos os Estados da União.

O último delito de grande repercussão (logo cairá no esquecimento) perpetrado pelo Exército refere-se ao cerco de carro que abrigava uma honrada família brasileira: marido; mulher e seu pai; o filho do casal de sete anos e uma amiga da família. Falar em cerco é pouco. O carro foi simplesmente fuzilado: nada mais, nada menos do que 80 tiros! Objetivo: permitir aos militares esclarecer dúvidas sobre a identidade dos passageiros. Milagrosamente, um único morto, Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos, músico e segurança, além do sogro ferido. O ato insensato e leviano prosseguiu, mesmo quando a esposa, em desespero total, esclareceu quem eles eram e que seguiam para um chá de bebê, tarde do domingo 7 de abril! E o pior: de imediato, o porta-voz da Corporação no Rio de Janeiro veio a público esclarecer que a patrulha se deparou com um assalto em que dois marginais atiraram. Os representantes do Exército apenas reagiram à agressão.

Número elevado de testemunhas e gravações (louvados sejam os smartphones, nessas horas de dor) atesta que os militares nem tentaram parar o carro nem conversar, mas, sim, começaram a disparar contra o veículo. Diante da verdade irreversível, o Exército voltou atrás e promete justiça... Será? Justiça tardia? Justiça cor-de-rosa? Justiça azul-bebê? Como Fátima Rios colocou nas redes sociais, “confundiu carro da família com o de bandidos. Confundiu o guarda-chuva com fuzil. Confundiu a furadeira com uma arma, mas a cor vocês nunca confundem. Sempre preto, sempre!” Por Deus, se são necessários 80 tiros como tira-teima, sem trégua ainda que rápida (tal qual o voo do falcão-peregrino, capaz de atingir 320 km/h) para refletir, olhar e enxergar as vítimas como cidadãos, é evidente que o Exército (como a PM) está impregnado por racismo odioso e truculência mortal. Ninguém duvida que o veículo não teria sido fuzilado se seus ocupantes fossem brancos, com ar de poderosos e ricos.

Por fim, ainda segundo o Datafolha, para 81% dos brasileiros, Polícia (e Exército) não devem ter o direito de atirar em suspeitos sob o risco de atingir inocentes, o que contraria a postura do Presidente Jair M. Bolsonaro e dos Governadores de São Paulo, João Doria e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. Haja incentivo à violência! Viva a insegurança das ruas e das vielas!

Mero adendo: Na madrugada de sexta-feira, 5 de abril, antes de ação com 80 tiros, o Exército também matou no Rio, pelas costas, o jovem Christian Felipe Santana de Almeida Alves, 19 anos, durante blitz na Estrada Pedro de Alcântara, em Realengo.

10 de abril de 2019

Suzano e munto mais...

Maria das Graças Targino - [email protected]

Nada escrevi sobre a tragédia de Suzano, Grande São Paulo – SP. Aguardei transcorrer um mês, próximo dia 13 de abril. Aguardei um pouco mais de calmaria coletiva diante do incrível atentado ocorrido nas instalações da Escola Estadual Professor Raul Brasil, perpetrado por dois jovens (um dos quais, menor de idade) contra seus antigos professores e colegas, utilizando um manancial de armas, algumas das quais, inusitadas, a exemplo de pequena machada, arco comum e flechas, além de uma “besta”, versão de armamento bastante antigo, oriundo da China e da Europa mediterrânea há 2,5 mil anos. Dentre as oito vítimas fatais, cinco adolescentes, uma funcionária, a Coordenadora Pedagógica e, fora do recinto da Escola, o tio do homicida mais jovem. Com a chegada da polícia ao local, os jovens se suicidaram, deixando para trás um rastro de terror. 

O porquê de minha espera é simples. Cansaço diante da falta de memória nossa, de nossa gente, de nossas autoridades, de nossa mídia e de cada um em particular. Os meios de comunicação trataram o massacre como se fora o primeiro acontecido numa escola brasileira ou como se fora o primeiro registrado no âmbito escolar... Ledo engano. Estamos deixando para trás, e muito rapidamente, momentos terríveis vivenciados nos pátios e nas salas de aula de nossas escolas, em momentos anteriores. Vamos relembrar somente mais três episódios bem próximos, embora haja muito mais. Precisamos relembrar para que não olvidemos daqui a um ano, ou menos, ou um pouco mais, as vítimas de Suzano. 

O vigia Damião Soares dos Santos, em plena consciência de seu ato, planejou cuidadosamente, 5 de outubro de 2017, massacre à creche municipal “Gente inocente”, que abrigava em suas acomodações simples e pobres, crianças entre três e seis anos de idade, no pequeno município de Janaúba, norte de Minas Gerais. Ateou combustível que deu início a um incêndio em sala de aula. O registro dá conta da morte de 10 crianças e de três professoras, além de 37 feridos. Novamente, o agressor também se suicidou. “Motivo” declarado pela família: distúrbios mentais depois da morte do pai, três anos antes do atentado.

O massacre do Colégio Goyases, Goiânia (Goiás), 20 de outubro de 2017, refere-se à chacina sob o comando de um aluno de 14 anos, matriculado no oitavo ano do ensino fundamental, que abriu fogo contra os colegas, utilizando uma pistola calibre 40, pertencente à sua mãe. Ambos os pais, policiais. Saldo: dois mortos e quatro feridos. Dentre estes, uma menina ficou paraplégica. O menor cumpre três anos de medida socioeducativa, tempo máximo previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente para atos infracionais. “Motivo” declarado: bullying.

Em Realengo, bairro pobre e extenso do Rio de Janeiro capital, no dia 7 de abril de 2011, um ex-aluno da Escola Municipal Tasso da Silveira, 23 anos, portando dois revólveres, às 8:30 horas da manhã, invadiu salas de aula lotadas. Total de mortos: 12 adolescentes entre 12 e 14 anos mais o atirador-suicida. “Motivo” registrado em vídeo: vítima de bullying. 

São muitos e muitos casos similares, no Brasil, no Paquistão e por aí afora. Basta pesquisar. Não se trata de situação singular deste ou daquele país, embora nos Estados Unidos aconteçam com maior frequência. Em nossa realidade, o que mais chama atenção é o descumprimento das medidas de segurança anunciadas pelos administradores municipais e estaduais, logo após cada ocorrência. Não tarda muito para que as promessas sejam esquecidas e engavetadas até suceder nova tragédia. A violência nas escolas entre alunos e contra professores, a venda de drogas nas áreas circunvizinhas continuam à luz do dia. Outro fato angustiante é a busca de justificativas para os agressores. Eles não mataram por participar de games violentos em vídeos ou frequentar lan houses. Eles não mataram por encontrar um colega que, eventualmente, participou dos planejamentos, como se fosse mera brincadeira. Eles não mataram por omissão dos educadores e supervisores. Eles não mataram porque o porte de arma é um dos projetos do Governo Bolsonaro. Eles não mataram por conta da prática de bullying, que não é nova como se dizem... Sempre existiu, sem a supervalorização de agora...

O que ocorre é que famílias e lares estão cada vez mais silenciosos. As tecnologias substituem a conversa em família. O acompanhamento dos pais diante das alegrias, tristezas e mudanças de comportamento é considerado “mico.” Cada um, incluindo os próprios progenitores, se mantém num casulo com seu smartphone ou celular baratinho. Presentes caros (ou não) substituem a presença, o aconchego e o colo. A conversa em volta da mesa dá lugar a um sossego constrangedor. Os amigos virtuais substituem o abraço carinhoso dos amigos... O ensinamento de boas ações e da valorização do outro é simplesmente esquecido. E assim vai... até nos surpreendermos com os filhos-estranhos-monstros que habitam a nosso lado!

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

03 de abril de 2019

Afagos ou farpas X regimes ditatoriais

Maria das Graças Targino - "[email protected]"

"Quando perdemos a capacidade de nos indignar com as atrocidades praticadas contra outros, perdemos também o direito de nos considerar seres humanos civilizados". Vladimir Herzog, uma das vítimas da Ditadura Militar.

Há algo difícil de se conseguir como ser humano: a coerência, como ausência de contradição e compatibilidade entre pensamento expresso e nossas ações. Ora, desde antes de assumir a Presidência da República Federativa do Brasil, Jair Messias Bolsonaro soltava (e solta) farpas contra os regimes ditatoriais mais próximos de nosso contexto, com ênfase para Cuba e Venezuela.

Em meio a intensas intrigas, mexericos e bisbilhotices dignas de qualquer compadrio ou de quaisquer comadres, entre “Filhos Primeiros Cavalheiros” / Presidente, de um lado; e o Poder Legislativo, de outro, em vez de amenizar o ânimo de senadores e deputados, e, em especial, da sociedade civil, eis que “o Trump dos Trópicos” decide, num gesto para lá de bizarro, desenterrar o 31 de Março. Em suas palavras, a intenção é “rememorar para ver o que existiu de bom ou não” na Ditadura Militar que perdurou 21 anos no país, de 1 de abril de 1964 a 15 de março de 1985, sob o comando de sucessivos Governos militares. De caráter essencialmente autoritário, seu início se deu mediante Golpe Militar que derrubou o então Presidente João Belchior Marques Goulart (ou Jango), que ficou no Poder de 1961 a 1964.

Em vez de desfiles públicos ou discursos em palanques, Bolsonaro optou por uma forma para lá de “discreta”: a leitura do que chamou de Ordem do Dia, elaborada pelo Ministério da Defesa para ser lida e, quiçá, assimilada pelos jovens militares em sua mente e em seu coração, nos mais diferentes quartéis do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, até a sexta-feira, dia 29 de março, em referência ao famigerado 31 de março. Além de assinado pelo ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e pelos três comandantes das Forças Armadas, o documento, com ampla circulação na mídia, não classifica o Regime Militar como Ditadura advindo de um Golpe.

Em algum trecho, afirma, literalmente, que as Forças Armadas “[...] participam da história de nossa gente, sempre alinhadas com suas legítimas aspirações. O 31 de março de 1964 foi um episódio simbólico dessa identificação.” O documento ainda argumenta que a data estava fincada no ambiente da Guerra Fria, período histórico de disputas acirradas entre os Estados Unidos e a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (União Soviética), de tal modo que a intervenção militar contou com o apoio irrestrito de parcela majoritária da população e da

imprensa da época. Alarmadas com o que acontecia, as famílias brasileiras “[...] colocaram-se em marcha. Diante de um cenário de graves convulsões, foi interrompida a escalada em direção ao totalitarismo. As Forças Armadas, atendendo ao clamor da ampla maioria da população e da imprensa brasileira, assumiram o papel de estabilização daquele processo.”

Por fim, os comandantes militares complementam: “55 anos passados. Marinha, Exército e Aeronáutica reconhecem o papel desempenhado por aqueles que, ao se depararem com os desafios próprios da época, agiram conforme os anseios da nação brasileira. Mais que isso, reafirmam o compromisso com a liberdade e a democracia, pelas quais têm lutado ao longo da história.” É cômico, se não fosse irracional. Parecemos todos tão exauridos do desgoverno em que o Brasil se meteu há tantos anos, que os manifestos contrários à Ordem do Dia nos parecem poucos. A Defensoria Pública da União, o Instituto Vladimir Herzog (para quem não lembra, Vladimir foi um jornalista barbaramente assassinado nos porões da Ditadura) e seis parentes de vítimas da fase ditatorial entraram com ações na Justiça Federal e no Supremo Tribunal Federal tentando impedir o Governo Bolsonaro (e não o conseguiram) de festejar a data.

Verdade, tudo nos soa irrisório e simplório. Verdade que há uma infinidade de livros que, hoje, denunciam os horrores da Ditadura. Dentre eles, um ocupa lugar de destaque. Trata-se da obra “Brasil Nunca Mais”, sério trabalho de pesquisa que conseguiu denunciar muitos dos torturadores do Regime Militar, desta vez, com a ajuda da Igreja Católica sob a liderança de Dom Paulo Evaristo Arns, que lutou, ao longo de toda sua vida, não só contra os militares, mas, também, pelos direitos humanos.

Onde estão os mortos? Em que espaço e em que tempo vagam perdidos os sofrimentos dos exilados por anos a fio? Onde estão as famílias que não conseguiram sepultar os restos mortais de seus entes queridos? Onde está o registro das torturas para lá de infames e atrozes? Onde está a censura à imprensa, à edição de livros, jornais e revistas, ao pensamento livre, leve e solto? Onde está tudo que restou da sensação arrepiante de medo daqueles 21 anos?

A Bolsonaro resta decidir: afagos ou farpas em direção aos regimes ditatoriais? Afinal, “ninguém pode servir a dois senhores: odiará um e amará o outro; será leal a um e desprezará o outro.” (Mateus 6:24). A ele cabe louvar a democracia e relegar a ditadura ou, quem sabe, a ele cabe louvar a ditadura e relegar a democracia!

28 de março de 2019

Espelho d’alma

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica

Sobre a matemática da vida: feliz daquele que mantém por perto os que somam e longe os que diminuem.

Tati Zanell, 2017

Anos a fio que nos víamos. Anos a fio que não mais nos olhávamos e, pior, nem sequer percebíamos que não mais nos olhávamos. Por temor, ao longo desses 14 anos de separação, estivemos muitas e muitas vezes juntos e, ao mesmo tempo, separados por um muro insondável que não permitia nos tocar nem de leve nem nos olhar: olho no olho em gesto de contemplação e envolvimento d’alma. Medo de nossa sombra. Sempre preferi nem analisar nem pensar. Nada de “papo cabeça.” Discutir a relação ficara para trás há muito tempo. Naquele dia, não sei bem o porquê, olhei dentro de seus olhos como outrora – outrora, palavra que cheira a mofo, mas que cabe aqui e agora. Olhei seu rosto devastado. Cansado. Cravado por rugas. Vi meu rosto no espelho de seu rosto. Vi meu rosto destruído em seu rosto. Eu estava ali em você. Você não era você. Você era eu. Eu era você. Você tomou a forma do espelho do quarto que compartilhamos juntos por tanto tempo. 

As rugas que vi em seu rosto, de repente, eram minhas. Cicatrizes de tempos vividos e desvividos por mim e por você. Marcas de esperanças e desesperanças minhas e suas. Saudades de nossas infâncias e adolescências em separado, compartilhadas em conversas trilhadas de risos atados e desatados e de devaneios floridos e desfloridos de ilusões e desilusões. 

Encontramo-nos no pôr do Sol de nossas vidas.  Mesmo assim, acreditamos que havia muito tempo antes do crepúsculo jogar seu véu obscuro sobre nossos sonhos e marcar nossos rostos com tanta força. Ledo engano. Após 19 anos de convivência, o Sol nascente se foi para nunca mais voltar. Avançou para muito longe. Assim foi. Roubou o brilho de nosso olhar. Levou nossas esperanças. Deixou no lugar de amantes e amados, fantasmas de quem ou do que fomos um dia. Espectros. Figuras imateriais ou imaginárias. Sombras ou fantasmas esquálidos. Velhos que sorriem para não chorar. Cantam para não dormir. 

Como agradeço e abençoo aquele dia quando voltei a olhar dentro de seus olhos e me redescobri. Reencontrei a mim mesma. Verdade que vi o que não queria ver. Mas agora sei o que sou. Sei como estou. Sei que estou refletida em suas cicatrizes, nas marcas de seu rosto, no escárnio de seu eterno sorriso zombeteiro que sempre escondeu seus tormentos mais profundos e suas dores mais invisíveis. Obrigada, espelho meu! Espelho partido, torcido, remendado aqui e ali, mas ainda meu! Espelho de prazer e desprazer! De amor e desamor! De ventura e desventura! De encanto e desencanto! De sossego e desassossego! De temor e destemor!


1. Texto do livro no prelo “Sobre amar, viver, escrever.”

13 de março de 2019

Marielle presente. Anderson ausente

Maria das Graças Targino - ([email protected])

A grande homenageada do carnaval 2019, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo, em escolas de sambas e em blocos de rua, além de manifestação que saiu da Candelária rumo à Cinelândia, com certeza, foi a vereadora Marielle Franco (PSOL). Seu assassinato completa um ano exatamente amanhã, 14 de março de 2019, quando faria tão somente 39 anos. Um ano de plena escuridão. Boatos espocam aqui e ali, mas os culpados e/ou mandantes continuam livres para agirem impunemente contra quaisquer pessoas que façam sombra em seu território.

Reconhecemos quão oportunas e justas são tais protestos de respeito a quem lutou arduamente em prol de segmentos marginalizados – mulheres, negros, homossexuais e favelados. Pertencente também a essas alas, além de esquerdista (seja lá o que esta expressão signifique nos dias atuais), Marielle sempre se opôs à ferocidade e à crueldade dos representantes do universo policial aliados a milícias, na condição de grupos símbolos da criminalidade. Isto é, conseguiu romper as barreiras sociais rumo à autorrealização, e, sobretudo, em direção à luta por condições de vida dignas para as coletividades onde marcava presença.

Dentre as escolas de samba que lembraram Marielle, destaque para a Estação Primeira de Mangueira e a Escola de Samba Unidos de Vila Isabel (Rio de Janeiro) e, também, para a Escola de Samba Vai-Vai (São Paulo). A grande vitoriosa do carnaval do Rio, a Mangueira, em sua última ala, lembrou homens e mulheres provenientes de morros, favelas e das chamadas comunidades, mas que, apesar do enfrentamento diante de mil dificuldades vivenciadas, conseguiram notoriedade por seus feitos. A viúva de Marielle, Mônica Benício, e parte de seus familiares lá estavam. Em gesto de solidariedade ou em busca de visibilidade (é sempre uma incógnita), políticos do PSOL, o deputado federal Marcelo Freixo e o vereador Tarcísio Motta também desfilaram na Marquês de Sapucaí.

Tudo perfeito! Mas, onde estava Anderson? Lembram de Anderson? Anderson Gomes, motorista de Marielle durante o período de mais de um ano! Também jovem! Também com família! Também um trabalhador sobrevivente neste Brasil de tantas injustiças e desigualdades sociais! Também executado, sem dó nem piedade, da forma a mais covarde possível, à noite do dia 14 de março de 2018! A omissão por completo do nome do motorista nos incomodou. Foi ele morto, quando conduzia a vereadora, mesmo sem ser o alvo dos homicidas. Partiu silenciosamente no cumprimento de sua função. Se não se destacou como líder comunitário, é mais uma vítima da violência de nosso país. Portanto, não pode se transformar em mais um anônimo no universo das injustiças sociais!

A supressão do nome de Anderson Gomes em tantas homenagens carnavalescas e em muitas outras no decorrer desse ano de luto reforça nosso argumento de que os crimes têm relação direta com a representatividade da vítima, com destaque para o poderio econômico e político, na contramão da Declaração Universal dos Direitos Humanos, instituída pela Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura das Nações Unidas, Unesco. Ao completar 70 anos, ao final do ano de 2018, o documento reforça o lema de que nós todos somos iguais em dignidade e direitos, na vida e, decerto, na morte, embora seja impossível calcular, com precisão, a proporção de assassinatos e execuções que acontecem a cada momento em território nacional e que, quando muito, merecem uma notícia veiculada em segundos no universo televisivo ou brevemente mencionada na mídia em geral.

Por fim, basta analisar o extremo paradoxo! A Verde e Rosa levou para a Sapucaí o enredo “História para ninar gente grande” com a promessa de contar a história do Brasil que os livros apagaram, fazendo ressurgir os heróis anônimos e que deixaram de integrar a memória das instituições e do país como um todo. No entanto, ao trazer no enredo trecho que diz “Brasil, chegou a vez de ouvir as marias, mahins, marielles, malês. Mangueira, tira a poeira dos porões. Ô, abre alas pros teus heróis de barracões. Dos brasis que se faz um país de Lecis, jamelões. São verde e rosa as multidões”, esqueceu que há andersons, joaquins e joãos que não podem ser esquecidos no meio do caminho, como a própria escola de samba vencedora o fez!

07 de março de 2019

Mulher espancada no primeiro encontro

Maria das Graças Targino - [email protected]

Lugar comum admitir que a expansão das redes eletrônicas de informação e de comunicação, ênfase para a internet, vem transformando, mais e mais, o cotidiano do ser humano. As inovações tecnológicas estão em qualquer parte e por todos os lados, embora, paradoxalmente, sem consolidar o acesso universal, deixando de fora muita gente.

São os “novos tempos.” É o crescimento de crimes cometidos em família. São enfermidades que se expandem, a cada dia, como as síndromes de Diógenes, de Münchausen e da alienação parental, sem contar o fantasma da AIDS. São jovens que circulam com as calças milimetricamente colocadas para expor a cueca colorida. É a liberdade sexual. É a mulher presente em segmentos antes restritos aos homens. São livros construídos a centenas de mãos e de corações no espaço cibernético. É o mundo de redes sociais que viralizam verdades ou mentiras, como espaço onde qualquer um pode expor alegrias e mazelas. É o uso crescente do smartphone, com o qual o cidadão grava seu cotidiano ou qualquer “coisa”, sob a forma de fotos, vídeos, textos e áudios. É o incremento da xenofobia, pedofilia, prostituição e do terrorismo.

São aspectos bons ou ruins ou simplesmente incolores dos “novos tempos.” São tantas as transformações sociais, que é impossível nomeá-las ou numerá-las. Nas redes sociais, ganham destaque os sites de relacionamento. Algumas vezes, permitem o encontro de um grande amor e desenham um belo conto de fadas, mesmo quando os amados amantes estão em continentes distantes. Há casos de horror. Perfis construídos à base de mentiras escancaradas. Encontros marcados. Desilusões. Dores. Agressões. Roubos. Tentativas de estupro. Quer dizer, trata-se de verdadeira roleta-russa, quando alguém, em plena demonstração de coragem insensata, coloca uma única bala no tambor do revólver, gira, puxa o gatilho, e, portanto, corre o risco de ser atingido ou sair vitorioso e, então, cheio de orgulho insano da façanha.

No entanto, se encontros com desconhecidos representam, sempre, um gesto de temeridade, não importa o gênero dos envolvidos, é preciso reforçar que a violência do homem contra a mulher não se dá tão somente via redes sociais. Há mulheres agredidas por companheiros de casamentos celebrados em ritos religiosos retumbantes e que seguem há anos. Há mulheres agredidas porque saíram de casa para visitar os pais sem a devida autorização do “homem da casa.” Há mulheres agredidas porque deixaram os cabelos longos mais curtos. Há mulheres agredidas porque uma das crianças do casal caiu. Há mulheres agredidas porque romperam uma relação conturbada ou simplesmente disseram – não – a um relacionamento abusivo. Há mulheres agredidas porque... São tantos os porquês. Difícil enumerá-los. São sempre justificativas simplesmente injustificáveis.

São mulheres jovens ou não tão jovens. São mulheres pobres, de classe média ou ricas; moradoras de rua ou proprietárias de belas mansões; drogadas ou não; lindas ou não; letradas ou iletradas; famosas ou anônimas. Mesmo assim, quando o caso de Elaine Caparroz, 55, veio à tona, 2019, após ser agredida pelo estudante de Direito, Vinícius Batista Serra, 27, as críticas contra a vítima alcançaram o nível de absurdo. Os dois se conheceram pela internet, conversaram durante oito meses até que, por fim, marcaram um primeiro encontro no próprio apartamento da paisagista, momento em que preparara um jantar regado a vinho ou a champanhe. Após ser despertada com agressões físicas, como socos, mordidas, dentre muitos outros atos de violência, por quatro horas ininterruptas, a reconstrução de seu rosto demandará, no mínimo, seis meses, incluindo correção de fraturas múltiplas, da ruptura do septo nasal e do assoalho da órbita, e, em fase posterior, necessárias correções estéticas.

Porém, os ataques continuaram. Desta vez, não mais físicos, mas, morais. Doidivana. Leviana. Imprudente. Louca. Mulher de vida fácil. Inconsequente. As mulheres (as acusadoras mais cruéis) que jogaram pedras de chumbo em Elaine desconhecem as razões de sua decisão em receber o algoz em casa. Ninguém sabe a dor da solidão do outro, da mesma forma, que ninguém sabe a intensidade da esperança vivenciada por ela, mesmo que fugazmente e agora, sob a cobrança de uma fatura tão alta.

Isto é, culpar as vítimas do machismo desmente os movimentos numerosos em prol da mulher, a exemplo do “Mexeu com uma, mexeu com todas”, quando as atrizes globais se juntaram contra o assédio sexual na tevê, depois de denúncia da figurinista Su Tonani contra o ator José Mayer. É somente lembrar que, deixando de lado a falta de padronização e as não notificações, as quais impedem o monitoramento efetivo de feminicídios no país, de acordo com levantamento do G1, com base em dados oficiais dos Estados, ano 2017, 12 mulheres são assassinadas todos os dias ou uma mulher é morta a cada duas horas, em média, no Brasil. São 4.473 homicídios dolosos, dos quais 946 caracterizam-se como feminicídios. Atenção: poucos com a intervenção da internet!

27 de fevereiro de 2019

A onda do politicamente (in) correto

Maria das Graças Targino - ([email protected])

“40 anos.” Texto do jornalista brasileiro, Alexandre Eggers Garcia, publicado em diferentes meios de comunicação com expansão inacreditável nas redes sociais de comunicação, trata da diferença entre gerações e épocas, tomando como parâmetro de comparação os anos 1971 e 2011, a partir da menção de casos modelares. Por exemplo, em 1971, um meninote, por pura folia, quebra o farol de um carro estacionado próximo à casa da família. Como consequência, punição severa do pai. Mais adiante, 2011, o filho do tal adolescente repete a travessura. A mesma penalidade. Só que, desta vez, o filho não hesita. Após a surra, denuncia o pai. Este é condenado à prestação de serviços comunitários. O autor segue. Uma criança, na hora do recreio escolar, cai e se machuca um pouco. A professora o assiste com carinho. Afaga-o. Abraça-o. O menino volta a brincar, como se nada ocorrera. Em 2011, acontecimento com características idênticas ganha proporção gigantesca e chega à mídia. A escola é acusada de descuido. A diretora torna-se vítima de mil afrontas. Pouco a pouco, perde a alegria de ensinar. Aposenta-se prematuramente. Cai em depressão e enfrenta a tristeza d’alma.

Noutro caso, Alexandre Garcia faz menção à “cantada” (sem desrespeito e com humor) de um jovem a uma colega de trabalho. Ano 1971. Ela reclama, mas, ao final, aceita sair para jantar a fim de “discutir a relação.” Desde então, estão casados e, aparentemente, felizes. Em 2011, também em ambiente de trabalho, um homem elogia as belas pernas de uma colega. É acusado de assédio, demitido e obrigado a pagar indenização à “vitimada.” Sozinha, com suas pernas fatais e fatídicas, a não mais jovem mulher segue a vida... São vários causos... Muitos dos quais vivenciados ou assistidos por nós ou por alguém de nosso convívio, no passado ou no dia de hoje. Em 1971 ou 2011 ou 2019. É a estratégia utilizada por A. Garcia para alertar sobre a tirania da expressão – politicamente correto. Antes dos anos 90, de uso esporádico, ganha destaque, a partir dos Estados Unidos, depois de ser tema de uma série de artigos do prestigiado jornal “The New York Times.” Daí, segue para outras nações. E ao ser adotada, com exagero, de forma ridícula e infundada, termina por erguer barreiras e muros elevados entre as pessoas, o que não evita a onda de muito sexo sem amor; muito casamento sem afeto; muita amizade sem cumplicidade; muito camarote de carnaval sem “parças”, na acepção de parceiro e amigo verdadeiro em todas as horas. Quer dizer, politicamente correto indica algo ou alguém que segue as normas impostas por grupos e instituições sociais, de forma explícita ou implícita. É a adaptação do linguajar e do agir habitual ao contexto, de forma a evitar o uso de estereótipos ou de referências às variadas formas de discriminação existentes, como racismo, sexismo, homofobia, gordofobia, tecnofobia, automatonofobia (fobia de anões), etc. Do outro lado, está o politicamente incorreto. A precaução em evitar termos que denigram a imagem de determinados grupos sociais é

considerada estúpida e, por conseguinte, é ignorada. Por exemplo, no Brasil, os programas humorísticos, salvo honrosas exceções, exploram temáticas delicadas e tendem a desconsiderar princípios clássicos do respeito ao outro.

O que ocorre, porém, é que, na prática, as duas posições mesclam-se e se confundem, de maneira que o politicamente incorreto ganha dimensão desproporcional. A expressão que deveria indicar e denunciar o uso de linguagem e atos que tentam marginalizar, insultar e afrontar grupos sociais minoritários, como os desfavorecidos economicamente (haja vista o sofrimento dos moradores de rua, de vez em quando, mortos a pauladas em vias públicas); os homoafetivos em sua ampla categorização; os negros e / ou pardos; os gordos; etc. assume tom excessivo e disforme. Como consequência, o politicamente incorreto é, agora, adotado, mais e mais, em tom pejorativo, para indicar que essas políticas estão alcançando o ridículo. É como se perdêssemos a noção de certo e errado, indicando que conhecemos o valor material (preço) de tudo ou quase tudo, mas somos incapazes de avaliar o valor (a importância) dos sentimentos que aproximam os seres humanos.

O excesso prossegue. Recentemente, após apresentação de uma cantora e dançarina obesa num palco qualquer, alguém posta no Facebook observação cheia de humor acerca da potência do tablado ao suportar o peso. Isto foi o bastante para gerar polêmicas infinitas e forçá-lo a se desculpar ante a acusação de difundir a gordofobia. Pior ainda. Muito mais grave. Postamos “40 anos”, como forma de reflexão, numa página eletrônica de uma universidade pública qualquer. Seu final diz: “[...] o que deu em nós, nesses 40 anos, para nos tornarmos tão idiotas, jogando fora a vida como ela é? [...] É a ditadura da hipocrisia imbecil do politicamente correto!” Fomos solicitados a retirar o texto, sob o argumento de estímulo ao politicamente incorreto. A censura num ambiente de geração de novos saberes e de discussão das mudanças contemporâneas é uma das provas evidentes da decadência intelectual nacional!