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Notícias Graça Targino

09 de janeiro de 2019

Michelle: mais do que um nome

Michelle surge em carro aberto ao lado do Presidente eleito e literalmente rouba a cena

Agressões mútuas e de baixo calão desagregaram o Brasil em três frações, a partir do segundo semestre de 2018, alcançando o ápice, quando dos dois turnos das eleições presidenciais, respectivamente, 7 e 28 de outubro desse ano. De um lado, os aliados do Partido dos Trabalhadores, representado pelo advogado Fernando Haddad, quando, por fim, o PT concluiu sobre a impossibilidade de emplacar o “candidato natural” do Partido, em que pese o rastro de lama à sua volta, Luís Inácio Lula da Silva, à frente da nação, entre 2003 e 2011.

 De outro lado, os adeptos do mais improvável Presidente da República até então, Jair Messias Bolsonaro, militar da reserva e político do Partido Social Liberal (PSL), por uma série de motivos. Praticamente, uma figura desconhecida de parcela significativa da população, apesar de sete mandatos entre 1991 e 2018, como deputado federal, “passeando” por mais oito diferentes partidos, o que atesta a fragilidade de suas convicções ideológicas. Aliada à sua atuação ínfima, atribui-se a ele uma série de tiradas ao longo de sua vida pública contra homossexuais, negros e mulheres, reiteradas, dizem, por três filhos e por um irmão, todos eles políticos e reeleitos, em 2018, para seus respectivos cargos.   

No meio do caminho, entre as frações mais numerosas, eis os indecisos e/ou indiferentes ao destino de sua nação, sob o argumento de que, num país cabisbaixo e sem rumo, tudo ou todos são “farinha do mesmo saco.” Raciocinam como se a situação calamitosa dos setores primordiais, como saúde, saneamento, educação e, sobretudo, corrupção e segurança pública, não atinja a todos. E é assim que os dias passam. Na disputa, muitas acusações, agressões, mentiras (glamourosamente, fake news), ataques pessoais e posturas aéticas, que constroem um profundo fosso entre coletividades, grupos de amigos, companheiros de trabalho, vizinhos, condôminos e até no seio das famílias.

Afinal, eis o dia 1 de janeiro de 2019, que marca a posse do “miliciano” ou “coiso”, algumas das denominações reles adotadas pelos adversários inconformados com a derrota. Chama atenção os preparativos prévios voltados à segurança, tanto pelo aparato de 12 mil policiais, agentes infiltrados no público e mísseis antiaéreos quanto por estratégias diversificadas e tecnologicamente avançadas, como o uso de drones, face ao ataque a faca sofrido por ele, em campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais, 6 de setembro de 2018. Há muita expectativa. Algumas pertinentes: sobre formação dos ministérios e escolha dos ministros; rumos da economia... Algumas bem fúteis: vestuário do casal presidencial; onde vão morar – como se o risco de “sem teto” os rondasse! 

No grande dia, como num conto de fada, Michelle surge em carro aberto ao lado do Presidente eleito. Porte elegante. Beleza não fabricada. Ternura infinda no olhar com que se dirige ao marido e aos “súditos”. Literalmente rouba a cena. Não o faz por sua postura impecável ou seu vestido convencional e adequado de uma estilista pouco conhecida. Rouba a cena, quando deixa evidente para todos, homens e mulheres, que não será nem uma boneca de porcelana nem tampouco uma peça decorativa para postagens eletrônicas, fotos e viagens. Se a liturgia do cargo exigir, assim o fará, mas, exercerá, sobretudo, sua função de companheira e cúmplice do primeiro mandatário do país, com vistas a lutar em prol das coletividades, com ênfase para o segmento tão esquecido de deficientes auditivos, o que justifica seu breve e significativo discurso em Língua Brasileira de Sinais [Libras], uma antiga e confessa paixão.

A Libras tem conquistado visibilidade mediante sua introdução em cursos de graduação e pós-graduação, presenciais e/ou a distância, sobretudo, com a promulgação da Lei n. 10.436, ano 2002, que a reconhece como a língua oficial dos surdos e a Lei n. 12.319, ano 2010, que regulamenta a profissão de intérprete de Libras. Afinal, dentre os deficientes auditivos, estão petistas e bolsonaristas; ricos e pobres; sulistas e nortistas; pessoas que se definem muito além dos gêneros masculino e feminino; negros, pardos e eventuais brancos (num país multirracial como o Brasil), o que demanda treinamento em Libras por parte da própria família.

Decerto, no decorrer da cerimônia e de todo o aparato que o Protocolo requer, a primeira-dama Michelle deve ter se atrapalhado, como qualquer mulher comum o faria. De origem humilde, sem formação superior, deixa claro para feministas e algozes, que a grandeza de alma e a vontade de acertar podem ser tão ou mais decisivos do que diplomas universitários obtidos ou adquiridos de forma arbitrária para mudar a triste realidade de tantas comunidades de forma genuína e não ideológica ou impregnada por credos, incluindo a Igreja Evangélica.

Eis nossa expectativa. O futuro e somente ele dirá se a doce e firme Michelle é o que pareceu ser aos meus olhos crédulos, além de ter entrado para a história como a primeira dama que usou a fala numa posse presidencial! E de que forma grandiosa o fez! Falou ao povo com a alma e tocou o coração de muitos, como eu, com carinho, desvelo, serenidade e beleza.

Pensando não em Michelle, mas no dia a dia de nossa gente, atordoada com a insegurança pública que ronda as capitais e seus bairros, periféricos ou não, a exemplo da vizinha Fortaleza, é o momento de deixar lutas partidárias e integrar o batalhão dos que lutam, de fato, por direitos humanos. Isto sim, é democracia: respeitar resultados. Reitero o dito anteriormente: resistir, sim, contra nossos problemas de saúde, saneamento, educação, corrupção e segurança pública.

 Contato: [email protected]

03 de janeiro de 2019

João-de-Barro

Maria das Graças Targino - Jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica

João. João Luís. João Batista. João Carlos, João Gilberto e assim vai. Afinal, João é um dos prenomes judeus mais comuns em todo o mundo desde a Antiguidade, passando, com o tempo, a ser adotado em diferentes países e idiomas, a exemplo do espanhol, italiano e irlandês. Sua popularidade é atribuída a dois personagens do Novo Testamento, ambos reverenciados e reconhecidos. O primeiro, João Batista, profeta filho de Zacarias, é considerado o antecessor de Jesus Cristo; o segundo, São João Evangelista, um dos 12 apóstolos de Cristo e autor do Evangelho Segundo João.

Num dia que se faz longínquo, 24 de junho de 1942, chega ao mundo mais um João. Na pequena Cachoeira de Goiás, nasce João Teixeira de Faria. Não seria, no entanto, um João qualquer. Pouco a pouco, sente-se privilegiado pela luz divina e descobre o poder da cura que carrega consigo. Não tarda a erguer um centro de atendimento, a Casa Dom Inácio Loyola, no meio do cerrado brasileiro, no até então pacato Município de Abadiânia, também no Estado de Goiás, ano 1976. De início, alguns poucos crentes o buscam. Mas, sua fama corre a passos largos. Atrai celebridades de diferentes segmentos do mundo político, artístico, empresarial, etc., tanto do Brasil quanto do exterior. Segue a serviço rumo aos Estados Unidos da América e a outras nações, como Alemanha, Áustria, Austrália, Nova Zelândia e Suíça. O jovem pobre e humilde torna-se referência na mediunidade mundial! 

Sua força espiritual exerce forte efeito sobre a vida dos que o buscam. São crianças, adolescentes, adultos e velhos. São homens e mulheres. São pobres, remediados e milionários. São pessoas crédulas que entregam nas mãos daquele homem sofrimentos, mágoas, pesares e aflições. Todos têm algo em comum: são sempre indivíduos em desespero por dores d’alma e/ou do corpo. Recorrendo à origem etimológica primitiva da palavra João, advinda do hebraico e que significa nada menos do que “Deus é propício”; “Graça divina”; “Deus é clemente”; “Deus é misericórdia”, etc., não tarda muito para que João Teixeira de Faria se auto-intitule João Curador. Mas é pouco: João de Deus é uma expressão mais impactante. Assim, ao tempo em que brinca de ser Deus, de forma paradoxalmente diabólica, consegue fazer muitos acreditarem que está a semear paz, generosidade, complacência, fé, perdão e misericórdia. 

A cobiça descabida toma conta de sua alma. Ao tempo em que diz nada cobrar por sua benevolência e clemência, instala na Casa Loyola verdadeiro centro comercial, onde água “benta” e medicamentos “milagrosos” são cobrados a preço de ouro, mediante o auxílio de um cortejo de séquitos que o cercam e o veneram. Como Abadiânia é dividida pela rodovia federal BR-060, de um lado, está o mundo dos espiritualizados; do outro, o mundo dos pagãos. Porém, é na lado santo que se expande, com força total, o comércio a serviço dos quase 300 mil peregrinos transbordantes de esperança, que chegam em caravanas ou às escondidas, a cada ano. Apesar da separação da cidade, por todos os recantos, a certeza de que o município possui um só dono: homem inclemente, que fere, pune e agride os não adeptos à expansão de seu império.

De fato, denúncias espocam desde as décadas de 70 e 80 (século XX). Incluem tráfico de drogas; contrabando de minérios; sessões de tortura; ameaças veladas ou explícitas. Agora, o escândalo traz à tona um patrimônio incalculável; uma fortuna suspeita para lá de protegida em suas propriedades; um surpreendente arsenal... Se a ambição de João de Deus já não passa desapercebida, sua luxúria demoníaca traz revelações de assédio sexual, abuso e estupro de meninas e mulheres vulneráveis, dentre as quais está uma das próprias filhas, Dalva, violentada a partir de 10 anos, e, hoje, aos 49 anos, ainda escrava dos momentos de terror vividos. 

O incrível é que tudo foi devidamente arquivado ou escondido pelas autoridades locais, incluindo eventuais prisões. A razão: suborno, extorsão. Sei lá o quê. O médium misericordioso confunde-se com o charlatão monstruoso, até que, em 16 de dezembro de 2018, depois de tantos anos de impunidade, João de Deus transforma-se, publicamente, em João-de-Barro. Com imenso respeito à linda ave, símbolo da vizinha Argentina e cuja característica é o belo ninho de barro em forma de forno, referimo-nos à fragilidade da argila e de sua aparência, às vezes, enganosa.

Acusações de todo tipo não param a cada dia. Os dados policiais falam em 500 mulheres. Ele está trancafiado num complexo prisional; elas, no universo de suas áridas lembranças, onde procuram paz, serenidade e coragem para um recomeço. Se João-de-Barro errou como homem, deve ser punido conforme a lei dos homens, que não exclui o amplo direito de defesa. Longe do linchamento inclemente, nós, cidadãos brasileiros, precisamos lutar para resgatar a crença na Justiça deste país, que se mostra tão cabisbaixa e envergonhada... 

Fazer o bem a anônimos ou famosos, graças ao dom que lhe foi concedido pelo bom Deus, não dá a João Teixeira de Faria o direito de fazer tanto mal, aproveitando-se da vulnerabilidade dos que padecem. Segundo sábias palavras do médium Christian Bittencourt, quando invocamos o nome de Deus “em nossas orações, estamos humildemente pedindo por sua intervenção e não assinando aquela demanda em seu nome. Não há um único ser humano [...] com procuração divina [...] embaixo do braço para falar e agir em nome da autoridade máxima de Deus.” Se não assimilarmos tal verdade, prosseguiremos vivenciando tremenda e dolorosa desilusão com religiosos de diferentes credos, que se travestem em ovelhas para explorarem a fragilidade humana. 

19 de dezembro de 2018

Feliz Natal, menino pobre

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica

Cerro os olhos e o vejo. Cabelos louros, longos e esvoaçantes à brisa da manhã. Vi seus cabelos num dia molhado de chuva e choroso de amor. Vi seus cabelos num dia de calor seco de brisa e sedento de amor. Talvez esses cabelos tão lindos, tocando os ombros, façam com que nós, os adultos, eternos classificadores e catalogadores dos seres humanos, das ações humanas, dos erros humanos, das aparências humanas, o classifiquemos de imediato – hippie, malandro ou qualquer coisa assim. Mas você não o é.

Hippies são os meninos ricos, os meninos classe-média cansados. Sim, cansados. Cansados da solidão de seus “lares”, enfastiados ante a falta de objetivos, enojados pela hipocrisia social dominante, desnorteados diante da possibilidade de “ser um ser integral.” E é este cansaço imenso, sufocante, pesado que nem chumbo, que os leva a outros caminhos. Caminhos estes, que mais tarde, às vezes, tarde demais, já não lhes bastam, pois na verdade, não sufocaram nunca sua angústia, não lhes deram amor, ternura, carinho, não lhes fizeram nunca menos sós.

Não, rapazola louro. Você não é hippie. Os meninos pobres nunca o são. Hippies e pobres arrastam chinelas, cultivam roupas surradas, carregam sacolas, ostentam colares multicoloridos. Mas o hippie, quase sempre, está impregnado daquele ar de quem pôde optar, aquele ar de quem conheceu mesas fartas, bebidas caras, escolas particulares. O pobre carrega dentro do olhar o ar de pobre.

Vejo você. De relance. E eis sua muleta. Ela expõe sua mutilação. Ela está lá. Tenta suprir a falta que a perna lhe faz. Denuncia sua dor. Denuncia sua luta. Denuncia, sobretudo, sua vontade de viver. Os jornais estão seguros em suas mãos magras e já calejadas. E você não os carrega apenas. É um abraço. É uma carícia. Você os protege tal qual uma mãe que soube ter coração de mãe. Eles são sua arma. Através deles, você se sente gente, você se sente útil, você se sente vivo. Eles são sua vida. E quem sabe, sua paz.

O sinal fechou. Paro o carro. Recebo o jornal de suas mãos. Meu gesto não é caridade. Mas amor. Meu gesto nem é filantropia nem tampouco assistencialismo natalino. Mas agradecimento. Sim, agradecimento. Eu preciso de você. Sinto imensa gratidão por você. É você, que nessa hora amarga, segura minha barra, me joga na cara uma lição de vida: coragem! É você que me fala silenciosamente de minha covardia.

Ah! Menino louro, gostaria de conhecê-lo. Conhecer seu mundo mais profundamente. Conhecer quem conhece como vencer a vontade de não viver. Você não transmite paz. Você é a própria paz. Paz que escorrega de seus olhos castanhos, paz que rodeia seu corpo cansado. Tanta paz você envia, que ela chega até meu corpo cansado.

Por tudo isto é que lhe agradeço. Assim de longe. Anonimamente. Não importa que jamais você leia o que escrevi para você nessa noite. Noite linda! A lua domina a noite. Seu reflexo sobre as ondas sugere às águas do mar um canto de amor. Os coqueiros também cantam. E eu dedico a você, toda a beleza dessa noite e desse canto, menino pobre! Feliz Natal, meu jornaleiro único sem ser só! 

12 de dezembro de 2018

Nevou no Rio de Janeiro, pela primeira vez na história!

Maria das Graças Targino - jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica

Eis um título plagiado na íntegra! Mas nada mais significativo, neste momento, para refletir sobre os exageros quase patológicos que tomam conta de nossa sociedade. Em nome da igualdade de gêneros, etnias, credos, faixas etárias, posturas, vestimentas ou nudes, estamos segmentando coletividades, grupos de trabalho, equipes de estudo, clubes sociais e por aí. É preciso rotular os companheiros para ver onde se encaixam. É fundamental posicioná-los em alguma tribo para que não se sintam excluídos. A partir daí, é só um pulo para apregoarmos o politicamente correto e tudo se transforma em politicamente incorreto. 

Há casos que beiram ao hilário. Muitas e muitas cidades nos diferentes continentes mantêm em algum lugar público uma frase-padrão, que diz, por exemplo, “eu amo Teresina.” Pois bem, recentemente, começam a clamar que estas exaltações exageradas diminuem a relevância ou a beleza de outras cidades. Um galanteio do “rei” Roberto Carlos dirigido a uma jovem atriz da Rede Globo de Televisão, agora, quando do espetáculo anual por ele elaborado para as festividades de final de ano nessa tevê, gera polêmicas tolas e um montão de cliques em sites de fofocas, insinuando a possibilidade de assédio sexual. 

Assim, xenofobia, preconceito, intolerância, ódio irracional, aversão às diferenças abrigam novos termos, a exemplo da gordofobia. Tipos de beleza produzidos na mídia conduzem jovens (ou não) a enfermidades, como bulimia ou anorexia. Ser feliz ou parecer feliz passa a ser um imperativo, com o risco de você ser enquadrado no amostra de pessoas “pesadas” e chatas. Ter alguém para chamar de seu é obrigatório, seja de que tipo for... 

Ao tempo em que palavras da moda – empoderamento, inclusão e /ou exclusão – são adotadas sem consciência do que significam e nos podam diante das relações especiais que podemos manter com o universo e com o outro, o texto de Fernando Lucas (https://www.linke din.com/pulse/nevou-rio-de-janeiro-pela-primeira-vez-na-hist%C3%B3ria-fernando-lucas) descreve a escravidão que ora vivenciamos como robôs. Ele resume, integralmente, sentimentos que também são meus: 

Nevou a noite toda. 

8:00h Eu fiz um boneco de neve.

8:10h Uma feminista passou e me perguntou porque eu não fiz uma mulher de neve.

8:15h Eu fiz uma mulher de neve.

8:17h Minha vizinha feminista reclamou do perfil voluptuoso da mulher de neve dizendo que ela ofende as mulheres de neve em todos os lugares.

8:20 O casal gay que mora nas proximidades teve um ataque de raiva e protestou, porque eles poderiam ter sido dois homens de neve.

8:22h O transgênero me perguntou porque não fazia um boneco com partes removíveis.

8:25h Os veganos no final da rua se queixaram do nariz de cenoura, já que os vegetais são comida e não decoração para bonecos da neve.

8:31h O muçulmano do outro lado da rua exige que a mulher de neve use uma burca.

8:40h A polícia chega dizendo que há uma denúncia anônima contra mim, de alguém que foi ofendido pelo meu racismo e discriminação, porque os bonecos são brancos.

8:42h A feminista vizinha reclamou novamente que a vassoura da mulher de neve deveria ser removida porque representa a mulher num papel doméstico.

8:45h A equipe de notícias da TV apareceu. Eles me perguntam se eu sei a diferença entre bonecos de neve e mulheres de neve. Eu respondo: as "bolas de neve" e agora elas me chamam de sexista.

9:02h Estou no noticiário como um terrorista suspeito, racista, delinquente com tendências homofóbicas, determinado a causar problemas durante o mau tempo. Quem me mandou fazer a p** dos bonecos de neve!!!”

9:10h Estão me perguntando se tenho cúmplice ou alguma organização me incentivou a fazer os bonecos nas redes sociais.

9:25h As feministas me xingam e pintam minha casa com a palavra “machista.”

9:45h Os católicos me acusam de querer imitar Deus, tendo criado um homem e uma mulher de neve, e querem que a Inquisição me queime por heresia. Eles dizem que eu realizei um ritual pagão.

9:55h Organizações ambientais me acusam de poluir a neve.”

A quem interessar possa: em locais distintos do Rio de Janeiro, constam nevascas nos anos de 1867, 1928, 1970, 1973, 1975, 1985, 1988, 1991, 1994, 1999, 2000,2001, 2004, 2006 e 2012, sem que os bonecos de neve de então mantivessem sabor amargo ou cor de sabão!

05 de dezembro de 2018

"Por escrito", a obra de Elvira Vigna

Elvira, escritora e desenhista carioca, 1947, formou-se em literatura pela Nancy-Université (Lorraine, França) e finalizou Mestrado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro

Elvira Vigna deixou assegurado espaço único como um grande nome da literatura brasileira. Há anos, escutamos seu nome. No meio de mil atividades, fomos deixando para trás o acesso à sua produção. Notícias de vez em quando, como na premiação das obras “Deixei ele lá e vim” (2006) e “O que deu para fazer em matéria de história de amor” (2012), além de outros romances, a exemplo de “Coisas que os homens não entendem” (2002); “Nada a dizer” (2010); “Por escrito” (2014); “Como se estivéssemos em palimpsesto de putas” (2016), referendado com o prêmio “Associação Paulista de Críticos de Arte”, e “A um passo”, publicado em 2018, após sua morte, ocorrida em 2017.

Elvira, escritora e desenhista carioca, 1947, formou-se em literatura pela Nancy-Université (Lorraine, França) e finalizou Mestrado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ao primar pelo não tradicional, desde os anos 80 / 90, com o lançamento de seus primeiros textos “Sete anos e um dia” (1985); “O assassinato de bebê Martê” (1997); e “Às seis em ponto” (1998), consegue imprimir um estilo próprio e um universo particular. Este comporta uma linguagem cortante e nada sentimental para expressar sua visão de mundo impregnada por desesperança, desencontros e muitas dor. 

Eis nossa descoberta imediata ao entrar no universo do belíssimo livro “Por escrito”, um dos vencedores do prêmio “Oceanos” de melhor romance. Ganhei como presente de um amigo. Feliz da vida, coloquei-o naquela prateleira que todos (ou quase todos) possuem – os livros que esperam. Observam nossos passos. Sonham com nossos olhos sobre suas letras. Pensam em nossas mãos lhes folheando. Até que enfim, me dei conta de que era chegada a hora. “Por escrito”, lançado em 2014, com 312 páginas e sob encargo editorial da Companhia das Letras, que se manteve fiel à autora ao longo de sua produção, saíra da prateleira para minha mesa de cabeceira. Confesso que não o li. Devorei-o. 

Suas personagens caminham trôpegas em meio à devastação afetiva e emocional ante a história de uma separação. No entanto, ao contrário do que podemos imaginar num primeiro momento, não há mulheres chorando ou chorosas perdidas nos recantos da casa. É o relato de cada personagem que, num vai e volta, entre o passado e o presente, se entrelaça o tempo todo. Em linhas gerais, “Por escrito” é uma carta redigida, ao longo de uma viagem a Paris para o casamento do irmão Pedro, pela narradora Valderez, a um homem, Paulo, que aparece como um amor antigo, desses que persistem em nossas vidas, quase sempre impregnado de impossibilidade e angústia, como a compositora e cantora Maria Betânia exalta na canção “Eu não existo sem você”: “[...] Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim, que nada nesse mundo levará você de mim. Eu sei e você sabe, a distância não existe. E todo grande amor só é bem grande se for triste [...]” Assim, é possível resumir: o cenário central de “Por escrito” é, em sua essência, o indefinido ou o indeterminado. 

Pois bem, como as demais personagens, a exemplo de Molly e Izildinha (Zizi), Paulo vai e volta, entremeando passado, presente e nenhuma ansiedade ante o futuro. Enquanto isto, Valderez passa grande parte de seus dias sentada no que chama de pré-moldados (rodoviárias, táxis, aeroportos e salas de espera) a dissecar a existência dos que a cercam. Veementemente, em distintos momentos de sua obra, expõe sua aversão a qualquer tipo de união formal. Por exemplo, diz literalmente, em nítida crítica sagaz e irônica à instituição casamento: “[...] quando eu voltar, venho de vez pra tua casa, largo as viagens e ficamos os dois, o dia todo, um de costas pro outro, cada um numa tela do facebook. Ô vida boa, né [...]” Na realidade, a vida da protagonista e das outras personagens exalam desassossego, carregando cada uma suas próprias pedras. São imprevisíveis tal como a autora. Nessa história de desencontros, as pessoas parecem não visualizar quem está à sua frente. Quem está presente vai sumindo, pouco a pouco. Ninguém percebe sua ausência. Mas, de repente, surge quem não era esperado. Trata-se de uma história de esperas, erros e de muita solidão, vivenciada pelas personagens.

No mínimo, trata-se de um romance que consegue diluir todas as relações mas sem imposição de verdades, até porque Elvira Vigna constrói suas obras em meio a ditos e não ditos, onde as palavras parecem fluir ou voar, deixando como herança para o leitor todas as inquietudes. Como decorrência, o texto favorece ao leitor ser ele mesmo um dos coautores da história, haja vista que inexistem certezas no enredo. Como decorrência, compete a ele explorar as possibilidades que o não explícito dos fatos narrados permite: é a troca da certeza absoluta ao fim da leitura por um leque de cogitações, senões e incertezas. É a chance de recriação!

30 de novembro de 2018

O adeus aos cubanos

O “Programa Mais Médicos” foi mais um golpe contra o povo brasileiro

Pouco a pouco, vem à tona o que quase toda a população brasileira já sabia desde sempre: o “Programa Mais Médicos”, inserido em território nacional no dia 8 de julho de 2013, no Governo Dilma Rousseff ou no de Luís Inácio Lula da Silva (dá igual), em sua essência, foi mais um golpe contra o povo brasileiro e uma forma escusa de ajudar uma ditadura algoz. Não vamos discutir números! Vamos discutir a essência: proclama-se mundo afora a excelência da educação e da saúde cubana a partir de publicidade e propaganda desde o início do poderio dos irmãos Fidel e prossegue até hoje por meio do mandatário-fantoche, o civil Miguel Díaz-Canel, à frente da Assembleia Nacional do Poder Popular da República de Cuba, desde 19 de abril de 2018.

Para se descobrir a excelência da educação cubana, a princípio, basta se matricular em curso de espanhol a preço de ouro voltado para estrangeiros e descobrir que os pobres docentes apagam a lousa (nosso quadro-negro) com as mãos e estão sempre atrasados ou bem adiantados, por conta da irregularidade dos transportes públicos. Também vale visitar o chamado Museo de la Alfabetización (capital Havana), antes Comissão Nacional de Alfabetização, onde estão as “provas contundentes” do fim do analfabetismo, quando a cada escolarizado cabia escrever uma carta ao El Comandante, hoje, devidamente arquivada. E só.... Instituído no dia 29 de dezembro de 1964, o Museu ocupa parte do complexo militar (Ciudad Libertad), ponto de encontro das Brigadas Conrado Benítez, após a Revolução Cubana. Esta, como movimento armado e sob a liderança de Fidel Castro, conseguiu destituir Fulgencio Batista de Cuba, em 1959, com flagrante apoio soviético visando alinhar a Ilha ao chamado bloco socialista. Num terceiro momento, visita às bibliotecas, às livrarias fantasmas e aos laboratórios de tecnologias para acesso ao alunado (em qualquer nível) complementa a visão de excelência ou decadência da educação no país.

Quanto ao quesito saúde, é possível que a formação prime pela excelência. Porém, e é muito lógico que isto seja sussurrado a pessoas de extrema confiança, de pouco vale a graduação esmerada, se tudo ou quase tudo, na rede hospitalar, está roto. Cuba não é um país em dificuldades. Por detrás do retrato vendido ao turista, há uma nação sofrida e plena de contradições. Apesar da beleza estonteante de seu território, com Varadero, Trinidad, Cienfuegos, Cayo Largo do Sul, Santiago de Cuba, Havana com seu El Malecón e sua Habana Vieja (tombada, como Trinidad, como Patrimônio da Humanidade), e seus poucos hotéis de luxo, como o Hotel Nacional, há um país literalmente roto (quebrado), para usar uma das palavras que muito cedo aprendi. Tudo está roto: telefones públicos; o serviço de abastecimento de água e luz; o sistema de transporte público; as companhias de aviação e até mesmo o que se pensa que Cuba tem de melhor: educação e saúde. 

Os médicos que estão indo de volta a Cuba, chegados ao Brasil mais ou menos em 2015, seguem com coração partido. Foram eles vitais às coletividades mais carentes e mais longínquas de nosso território, incluindo aldeias ribeirinhas e indígenas, como Macuxi, Ingaricó, Wapixana e Yanomami, dentre muitas outras, que até então nunca haviam contado com assistência médica, de tal forma que deixam por aqui muitas pessoas desnorteadas. Os cubanos são naturalmente generosos, salvo exceções. Afinal, precisam enfrentar, no dia a dia, a miséria que ronda sua gente, a exemplo dos velhos. Estão sempre nas ruas ou entradas das casas ou, ainda, nas sacadas dos prédios. Os primeiros vendem de tudo para sobreviver: guloseimas, jornais, cigarros, cafezinho fraco e requentado... Os que estão nas sacadas já não conseguem descer as escadas íngremes e permanecem a olhar a vida que se vai... Às vezes, seu ponto de contato com o mundo é o jaba, saco que fazem descer por uma corda para receber ou enviar coisas variadas. 

Enquanto, paradoxalmente, a expectativa de vida do povo cubano cresce para 77,5 anos (no caso da mulher) e 73,5, para os homens, a renda mensal média dessa parcela populacional é em torno de oito dólares e as condições de vida deploráveis. Não sei exatamente o salário de um médico, mas comprovo, ao longo dos seis períodos onde lá estive, que um professor universitário com cargo de chefia recebe menos de 20 dólares em meio ao conformismo de que há o auxílio da libreta. Com o mísero salário mensal, a cada família é possível comprar o mínimo do mínimo, como arroz, açúcar, feijão, sabão, sal, café, fósforo, azeite e algumas coisinhas mais. Tive acesso à libreta: para duas mulheres, um dentifrício, três meses; um pacote de absorventes higiênicos, quatro meses; um pacote de sal, quatro meses e por aí vai. 

Por tudo isto, é óbvio que todos estavam contentes por estar aqui. A Organização Pan-Americana da Saúde, na condição de organização internacional especializada em saúde, surpreendentemente, se permitiu intermediar o não intermediável – a entrega de 70% dos salários dos médicos cubanos que aqui estavam aos ditadores. Mesmo assim, os doutores estavam em júbilo pela oportunidade ímpar de vivência profissional, de manter moradia e alimentação dignas, advindas de municípios e distritos indígenas além de lanches fartos e atenção humana... Ao embarcarem de volta, sorrisos mesclados com infinita tristeza deixam à mostra o orgulho de carregar tevês e mil outros merecidos presentes para filhotes e parceiros. 

O incrível! Ainda há quem sustente, a exemplo da própria OPAS, que não havia proibição explícita de os cubanos trazerem consigo qualquer membro familiar! E mais, há quem creia que, em países pobres (não é caso do Brasil!), onde há médicos cubanos, tudo é custeado pelo Governo cubano, como em Nepal, Angola, Haiti e Congo. Está chegando o Natal! Vale a pena redobrar a crença em Papai Noel! 

14 de novembro de 2018

É a vez dos hondurenhos

A saga dos africanos persiste. Unem-se a eles muitos outros povos ou etnias.

Impossível precisar com exatidão quando centenas de africanos começaram a chegar (2008 a 2010, mais ou menos) como manadas em marcha, na condição de foragidos, às ilhas Canárias, mais ou menos a 115 km da costa africana ou às costas de Andaluzia. Vinham amontoados em canoas (cayucos) ou barcos (pateras), em condições cruelmente precárias.  Estamos nos referindo aos subsaarianos, vindos da região africana ao sul do deserto de Saara, sobretudo, de países do noroeste da África, com ênfase para Marrocos.

Amontoados no chão sujo e íngreme, a tevê espanhola, à época, deixava claro quão difícil é descrever os corpos esquálidos e encurvados sob o peso das dores do mundo. As palavras pareciam inadequadas para representar o sofrimento daquela gente. Não são criminosos em fuga. Crianças e jovens, homens e mulheres, de idades indefinidas, expõem sem pudor a agonia de uma média de quatro a cinco dias sem comer e sem beber. Fogem da falta de água e do solo seco. Fogem da falta de alimentos, da desesperança e da expiação. 

A saga dos africanos persiste. Unem-se a eles muitos outros povos ou etnias. Fogem de guerras e/ou de perseguições religiosas e étnicas, a exemplo dos rohingya, minoria muçulmana de Myanmar, antiga Birmânia. Não são eles reconhecidos pelo Governo local como cidadãos. Apesar de o país ser liderado por Aung San Suu Kyi, ironicamente detentora do Prêmio Nobel da Paz, 1991, há décadas, os budistas birmaneses submetem os rohingya a uma brutalidade ímpar. 

Indo além, desde que assumiu a Presidência dos Estados Unidos da América, em janeiro de 2017, Donald John Trump vem assumindo postura de intolerância e de perseguição contra os imigrantes. Além da promessa de campanha, que vai e vem à tona, de construir um muro separando “seu” país do México, dentre as arbitrariedades cometidas, está o encarceramento de imigrantes de diferentes nacionalidades, incluindo brasileiros, afastando-os dos filhos menores. Também declarou a intenção de alterar a Emenda Constitucional, que assegura o direito de cidadania americana a quem nasce no país, qualquer que seja a nacionalidade dos progenitores. Mais recentemente, vociferou que os ingressos em território estadunidense de forma ilegal estarão impossibilitados de solicitar asilo político.

No momento, seu olhar raivoso está direcionado aos hondurenhos. Uma multidão incontável atravessou a América Central e segue do território mexicano a pé rumo aos EUA em busca de melhor qualidade de vida, deixando para trás a violência e a pobreza de seu país. Além de enviar tropa de mais de cinco mil soldados para a região fronteiriça, com ameaça de ampliar o contingente para 15 mil, a princípio, Trump deu ordem para os soldados atirarem. Como sempre, voltou atrás: Trump desdiz Trump o tempo todo! Desta vez, afirmou que se os “intrusos” jogassem pedras contra os militares, seriam presos por um tempo longo, mas não mortos. É possível que sua atitude “benevolente” tenha decorrido do impacto das eleições ocorridas no último dia 6, para o Poder Legislativo e, em alguns Estados, para o Executivo, quando os republicanos perderam a maioria na Câmara, mantendo, porém, o controle no Senado.

A própria União Europeia parece perdida, como enunciamos numa das colunas anteriores, diante de quem chega de outros continentes ou dos que percorrem a UE. Mais do que nunca, a globalização econômica traz à tona o fosso que paira entre continentes, países, Estados e cidades, no momento em que expõe visceralmente o desequilíbrio entre eles. E, a bem da verdade, em termos de Brasil, não estamos muito atrás de Myanmar, UE ou EUA. Afinal, é um sentimento comum entre os seres humanos: tememos o diferente e quando de sua aproximação real, a primeira reação é responder de maneira defensiva. Nada se limita às barreiras físicas ou aos muros erguidos ou destruídos. Assistimos todos à agonia dos venezuelanos, quando começaram a chegar em revoadas ao Brasil, com fome, desnutridos e sem trabalho, sobretudo, na capital Boa Vista. Sobrevivem de forma deplorável ante os olhares hostis de parte significativa dos roraimenses, enquanto o Governo Federal dá andamento ao processo de interiorização, até porque Roraima está na rota dos Estados brasileiros com sérios problemas estruturais. 

Compreendemos a complexidade que cerca a migração. Há a obrigatoriedade de suprir condições dignas de vida aos que chegam: saúde, educação, seguridade social, emprego, etc. Para os venezuelanos, a questão vai além: não há pior fome do que a fome da liberdade – ir ou vir, contestar ou calar, concordar ou discordar. E isto não é poesia. Isto é vida. Isto é cotidiano. Isto é Brasil. Isto não é Estados Unidos ou Europa. Os imigrantes estão à mercê dos governos dos países. Nada têm como moeda de troca. Talvez, conservem seu passado e muitos sonhos no recôndito da alma. Talvez, alguns momentos fugidios de felicidade. Não têm presente. Seu futuro é um ponto de interrogação cercado de dolorosa expectativa...

08 de novembro de 2018

Ambição e desilusão

O aceite de Sérgio Moro para assumir o Ministério da Justiça e da Segurança Pública desvenda a alma de homem comum do magistrado

Tenho opiniões formadas acerca do universo da política, não como expert, mas, sobretudo, como cidadã. Não sou filiada a nenhum partido político, até porque, como tenho repetido ao longo da vida, eles se assemelham no que mantêm de mais negativo, em especial, a inconsistência ideológica que cerca seus adeptos e seguidores. Se assim não fora, não seria tão fácil “pular de galho em galho”, num atestado nítido de que os “legítimos representantes do povo” pouco se diferenciam em sua ambição de poder, de modo que o termo – ideologia – no campo da política, se esvazia no sentido de sistema de ideias consolidado como instrumento de luta em prol das coletividades e desmotiva a ida dos cidadãos às urnas. É um banho de desesperança e de desilusão. 

Como sempre falo, acredito que ninguém, em sã consciência, tem noção de quais são os partidos políticos que existem em território nacional e os mais atuantes. O Tribunal Superior Eleitoral reconhece 35, além de 73 (pasmem!) em processo de formação junto ao TSE. Trata-se de característica da política brasileira de difícil compreensão para os cientistas políticos de outras nações. Dentre as sopinhas de letrinhas, estão PTB, PDT, PT, DEM, PCdoB, Avante, Partido Novo, Solidariedade, Patriota, Pode, etc. etc. Por exemplo, o presidente eleito Jair Messias Bolsonaro, em seus sete mandatos como deputado federal, entre 1991 e 2018, esteve filiado a sete diferentes partidos – PSC, PP, PFL, PTB, PPB, PPR, PDC – até se agarrar a um partido nanico, o Partido Social Liberal ou PSL. 

Até aqui, nenhuma novidade. A instabilidade do sistema político. O elemento novo, em minha percepção (respeito profundo às ideias divergentes), fica por conta do magistrado, escritor e professor universitário Sérgio Fernando Moro ter aceito integrar a linha de frente do Governo Bolsonaro. Não sou petista. Não concordo com a onda de corrupção que tomou conta do país, nos conduzindo a um mar de lama, que não salpica, mas enxovalha e emporcalha os Poderes Executivo, Legislativo e, vez por outra, vem à tona desmandos, excessos, abusos e transgressões do Poder Judiciário. 

Ao vasculhar os porões das instituições públicas brasileiras e expor suas vísceras no que mantêm de mais repugnante, um nome ganhou destaque no decorrer dos anos. Retoma-se, aqui, o nome de Sérgio Moro. Como Juiz Federal da 13a Vara Criminal Federal de Curitiba desde 1996, assumiu, com brilhantismo, uma série de casos, como o escândalo do Banestado, além de se envolver com o julgamento de crimes alusivos ao famoso Mensalão. Porém, a notoriedade nacional e internacional veio, quando, em março de 2014, tomou para si o julgamento em primeira instância dos delitos da chamada Operação Lava Jato, considerada como o maior registro de corrupção e de lavagem de dinheiro descoberto em território nacional, envolvendo políticos de diferentes instâncias, personalidades do high society, empreiteiros e grandes empresas. O longo trabalho desenvolvido com seriedade ímpar conquistou a admiração de milhões de brasileiros, que, ingenuamente, como eu, lhe posicionaram como mito ou superdeus, por seu poder, sua decência e sua honorabilidade. 

O Presidente eleito, por sua vez, representa o oposto. Literalmente, é uma incógnita em qualquer acepção: sua instabilidade política partidária; seu temperamento distante de qualquer traço do que se chama estadista; sua vida militar obscura; sua formação intelectual duvidosa; sua parca produção e ações em prol dos brasileiros durante tantos anos na Câmara Federal. Tudo isto aliado a estigmas que lhe são atribuídos, como homofóbico, racista, intolerante no campo religioso, misógino (não importam os casamentos, as mulheres e os cinco filhos), nada pacifista e assim seguem adjetivos a ele imputados, que surgirão (ou não) durante seu mandato. 

Assim, após este parêntese, o aceite do magistrado ao apelo de Bolsonaro para assumir o Ministério da Justiça e da Segurança Pública, ou seja, uma pasta poderosa, desvenda a alma de homem comum de Moro. Pela primeira vez – espero que seja a única e a última – sou obrigada a concordar com a truculenta Dilma Rouseff, quando diz: “o rei está nu”, referindo-se ao “juiz do Brasil.” Ao acatar com tanta facilidade e rapidez o perigoso convite, ele se desnuda e expõe sua fragilidade humana. Permite-me questionar até que ponto sua ambição desmedida e sua vaidade exacerbada lhe roubaram a capacidade de raciocinar e de avaliar como está pondo em risco uma história de vida sem máculas e a conquista da honorabilidade, numa época em que espertos e indignos estão rastejando por toda parte. 

Não duvido da coerência e da retidão de suas sentenças. A centena de provas irrefutáveis aponta a culpabilidade dos presidiários, incluindo Luís Inácio Lula da Silva. Ao que parece não há inocentes. A Lava Jato prosseguirá. Torço para que Moro se salve nesse novo universo tão fétido quanto o bando de transgressores com quem conviveu. Não lhe desejo mal. É tão somente um sentimento meio ridículo de desilusão intensa com gosto de orfandade – a minha ou a nossa: os tolos que acreditaram na existência, ainda, de super-heróis! Eis um pulo no escuro! Eis um tiro no pé! 

*Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica

31 de outubro de 2018

Homens e sapatos

Sapatos, vestidos, lingeries, acessórios, etc. são forma de expressão diante do mundo, inclusive como indício de desprezo frente à opinião dos que nos cercam.

Há alguns anos, eu, sempre avessa ao julgamento de outrem por sua aparência, escutei alguém, ao meu lado, afirmar, com veemência: “aquele ali é um pé-rapado”, referindo-se a um senhor sentado à mesa vizinha. Surpresa, perguntei de imediato: “como tem tanta certeza?” Ela respondeu sem titubear: “Olhe seus sapatos!” E prosseguiu, explicando como reconhecer um homem a partir dos sapatos que porta, visando discernir se possui boa condição econômica ou é um “pobretão.”

Nunca esqueci o acontecido por minha aparente estupidez. Aliás, a bem da verdade, optei por manter minha ignorância, uma vez que até os dias de hoje, prossigo (ingenuamente ou não) a não classificar as pessoas, muito menos por seus sapatos. O caráter que vem à tona com a convivência constitui para mim a essência do ser humano. Mas, eis que os anos passaram. Talvez, uma década, até que me deparo com uma dessas matérias de revistas de bordo – algumas interessantes – assinada pelo designer e escritor André Carvalhal, sob o título “A moda imita a vida.” De início, lá está a frase: “Diz o ditado que se conhece um homem pelos seus sapatos.” Não contive o riso diante da coincidência, indiferente à surpresa do vizinho de assento no voo.

Porém, não obstante início tão “macabro”, Carvalhal conduz sua fala de forma singular e interessante. Assegura que anunciamos nossa identidade por meio da moda, na acepção de estilo de se vestir, resultante de gostos pessoais ou interferências do meio onde vivemos, incluindo as singularidades de cada um e as variáveis sociais, culturais e econômicas, uma vez que ela favorece nos apresentar diante do outro como, de fato, nos vemos e nos sentimos. São sapatos, vestidos, lingeries, acessórios, etc. como forma de expressão diante do mundo, inclusive como indício de desprezo frente à opinião dos que nos cercam. É a moda como poesia e como inspiração que podem traduzir nossa inspiração e referência frente à arte de viver / sobreviver.

É a moda – na acepção da forma de se vestir no dia a dia – que denuncia nosso enfrentamento ante o olhar de quem integra o meio que frequentamos. Por exemplo, se circulamos em ambientes diferenciados, onde estão pessoas economicamente beneficiadas, a chita e o chitão podem causar certo estranhamento, como símbolo de atitude revolucionária ou de mau gosto. A mesma chita e chitão, num meio de pessoas desfavorecidas, pode passar desapercebida. É preciso entender que não se trata somente do valor material do que usamos. Em linha oposta, a forma como nos vestimos, incluindo os sapatos que portamos, atua como representação via comunicação não verbal e atalho aos olhos dos outros, imprimindo opiniões que se incrustarão em nós. 

Nesta discussão, paira o novo conceito da “moda do bem”, aquela que busca transformar as práticas tradicionais, que prejudicam, de alguma forma ou em alguma intensidade, o planeta. Tal concepção insere as expressões “moda sustentável” e “moda consciente.” No primeiro caso, indústrias e artesãos só trabalham com recursos e procedimentos que não contribuem com os impactos ambientais, o que lhe dá o cognome de eco fashion. A “moda consciente”, a qual Carvalhal se dedica, apesar de próxima da primeira, prioriza os que adotam artigos que rendam um bom diálogo, ou seja, que lhes permitam priorizar o encanto que cerca a moda, como chance única de individualizar e particularizar. Isto é, tanto na vida quanto nos sapatos que usamos, temos a oportunidade suprema de escolher nosso caminho rumo à autenticidade, o que demanda disponibilidade para olhar para si mesmo, longe das interferência dos vizinhos... Em suma, sapatos e caráter não constituem um binômio invencível! Decisivamente, recuso-me a (re)conhecer um homem pelos seus sapatos!

       

26 de outubro de 2018

Eleições: falcatruas e futricas

Resultado do segundo turno prenuncia uma carranca assustadora e disforme

O domingo – dia 28 de outubro – prenuncia uma carranca assustadora e disforme que, decerto, cercará o resultado do turno decisivo da eleição presidencial em território nacional, qualquer que seja o próximo inquilino do Palácio da Alvorada, às margens do lago Paranoá, e residência oficial do Presidente da República Federativa do Brasil. No Palácio do Planalto, Jair Messias Bolsonaro, militar da reserva e político do Partido Social Liberal (PSL) ou Fernando Haddad, advogado e político do Partido dos Trabalhadores (PT), ocupará o Gabinete Presidencial para despachos e decisões que afetarão a vida do povo brasileiro, ao que tudo indica, a partir de 15 de janeiro de 2019. 

No entanto, por mais que se diga, aqui e acolá, que o pleito já está decidido a favor do “miliciano” (em tom pejorativo) e em oposição ao “professor universitário” (em tom elogioso) – termos inseridos na mídia, nos horários eleitorais, ao longo destes últimos dias – há dois fatos irredutíveis ou indiscutíveis.  Distante de qualquer retórica, o primeiro deles diz respeito ao ineditismo dessas eleições. Agressividades, mentiras (agora chamadas glamourosamente de fake news), ataques pessoais e posturas aéticas fazem parte, há muito tempo, da política partidária mundo afora. 

No caso nacional, basta rememorar as últimas eleições, a partir da que traz o economista Fernando Affonso Collor de Mello ao poder, à época como filiado do Partido da Reconstrução Nacional (PRN). Sua posse se dá em 1990 e se encerra, por sua renúncia para fugir do impeachment, em 1992. Seguem dois outros pleitos. Estes transformam o sociólogo, cientista político, escritor e professor universitário consagrado, Fernando Henrique Cardoso, Presidente do país, entre 1995 e 2003, na condição de representante do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Adiante, é a vez do PT. Chega ao Planalto o ex-sindicalista e ex-metalúrgico Luís Inácio Lula da Silva (2003-2011) e, então, sua sucessora, a economista e também petista Dilma Vana Rousseff, que permanece no poder em seu primeiro mandato desde 2011 e após novas eleições, sofre impeachment, ano 2016. 

Nessas sete eleições, muita disputa, muita acusação, muita agressão. A diferença, é que esta, ano 2018, consegue estabelecer um profundo fosso que distancia a população, os grupos de amigos e até as famílias. O desrespeito ao perguntar com insistência em quem o amigo vai votar (se é que vai votar) causa aborrecimentos, incompreensões e outras coisinhas mais. Ou seja, os desentendimentos extrapolam os partidos. Os conchavos rodeados de acordos desrespeitosos atingem em cheio as pessoas na esfera individual e social, como nunca até então ocorrera. 

O segundo fato singular é o tom hostil, deselegante e ofensivo das duas partes. Por exemplo, uma acusa a outra com dedo em riste por disseminação de fake news, ao tempo em que também o faz em profusão ao ponto de levar Rosa Weber, Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, a insistir que inexistem milagres contra ações difamatórias que ocorrem de forma galopante nas redes sociais. Mas insiste: a Corte investigará quaisquer acusações de fraude contra o processo eleitoral, não importa se envolvam Bolsonaro ou Haddad. Afinal, o anonimato e o não aprofundamento das informações e dos conhecimentos, no espaço virtual, estão banalizando os valores culturais do ser humano, mediante a desinformação que se espalha a passos de gigante, reafirmando o ex-primeiro-ministro britânico James Callaghan, para quem “uma mentira pode dar a volta ao mundo antes que a verdade tenha a chance de calçar as botas.” 

Por fim, resta-nos, como cidadãos, muito pouco, e, ao mesmo tempo, muito a ser feito. Manter a compostura e o respeito ao vizinho. Lembrar que está em jogo nossas próprias vidas. O povo brasileiro não suporta mais tanta aflição e a situação verdadeiramente caótica que atinge setores primordiais, como saúde, saneamento, educação e, sobretudo, segurança pública. É zelar para que o fim da corrupção, de fato, aconteça, e que nossa gente possa viver em paz e sustentar uma qualidade de vida digna, acima de falcatruas e futricas. Basta!