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Especial

O jornalismo foi a paixão de Ricardo Boechat

Relembre entrevista com Ricardo Boechat publicada no jornal O Dia, em 13 de fevereiro de 2005

11/02/2019 18:20h - Atualizado em 12/02/2019 11:08h

Em 2005, Ricardo Boechat esteve no Piauí, onde participou do prêmio Octavio Miranda de jornalismo, atendendo a convite do Jornal O Dia, que à época publicava sua coluna. Nesta ocasião concedeu entrevista ao jornalista Marco Antonio Vilarinho, entre outros assuntos falou sobre jornalismo. A entrevista original foi publicada em 13 de fevereiro de 2005, no caderno Metrópole. Os principais trechos estão reproduzidos a seguir.


Ricardo Boechat, um dos jornalistas mais conceituados do país, deixa claro que ainda tem muito o que aprender, conceituando desconfiar do talento daqueles que dizem ter chegado ao ápice da carreira. Durante visita à redação de O Dia, Ricardo Boechat falou um pouco sobre jornalismo e política.

O Senhor é considerado um dos maiores jornalistas do país. O senhor chegou ao ápice da carreira?

Olha, eu estou sempre aprendendo. A vida do jornalista é um eterno aprendizado. Eu desconfio do profissional que diz ter chegado ao ápice da carreira. Eu continuo aprendendo e tenho certeza de que ainda tenho um longo caminho pela frente a ser explorado. O jornalista deve estar atento a tudo o que se passa à sua volta. Bem informado e sempre certo de que a sua formação é pautada no dia a dia, no batente, na realidade. Para mim, o bom profissional, aquele que tem amor ao seu trabalho, nunca está descansando: ele está sempre correndo atrás da notícia, atualizando-se procurando informar o leitor com responsabilidade.

Até onde vai a ética na profissão?

Em primeiro lugar, eu não acredito em códigos de ética, por não ser ela um valor coletivo; não tem nenhum significado quando colocada num conjunto de regras a ser seguido, porque se pode romper esses valores, até individualmente – nos atos mais simples, até mesmo na mais absoluta intimidade. Para mim, ética é o respeito à própria consciência; o respeito aos valores que se traz do ambiente em que se é formado. Se não se tem caráter, se não se tem auto-crítica, seguramente uma folha de papel com normas não será respeitada.

No Brasil se faz um bom jornalismo?

Em relação aos outros países, definitivamente não. Mesmo do ponto de vista estrutural, até mesmo se tomarmos como referência o que se faz de mais portentoso no jornalismo brasileiro, que é o trabalho da TV Globo, que cobre o Oriente Médio de longe – de New York. Chega depois das guerras; raramente está na frente desses conflitos. Não tenho nada contra a Globo, só que essas coberturas são aquém do estágio planetário que as grandes redes internacionais já lograram há muito tempo. Na mídia impressa, essa preocupação tem sido maior. Há décadas, os grandes jornais mantinham, profissionais nas principais capitais do mundo; isso veio decaindo, mas já temos correspondentes eventuais, principalmente porque a tecnologia tem facilitado muito esses contatos. Nós gostamos de nos ufanarmos, de grades superlativos, mas não temos uma imprensa a ser considerada uma das melhores do mundo. O que temos é um jornalismo bastante compatível com o estágio de nossa sociedade. A imprensa brasileira não é nem pior nem melhor do que a sociedade para qual ela presta serviço.

Um pecado mortal para o jornalista é?

Guardar notícia na gaveta, achar que a notícia pode esperar. Nunca, nunca, nunca o jornalista deve assim proceder; algumas vezes que cai na besteira de fazer isso, chorei “lágrimas de sangue”. Eu já deixei de dar furos para o Brasil inteiro, em decorrência dessa bobagem; apenas 24h que deixei a notícia descansando foram suficientes para que ela caminhasse com as próprias pernas para o concorrente. Só para exemplificar: uma veze eu estava jogando bola, em Niterói, num sábado, quando um amigo chegou de Angra dos Reis e me disse que a Xuxa estava grávida. Ora, eu nem gosto da Xuxa mas é óbvio que essa notícia despertaria interesse em todos o Brasil, e foi o que realmente aconteceu. Bom, ao invés de eu deixar o futebol e sair, imediatamente, para colocar a nota na coluna, fui para casa, tomei um banho e liguei para o Boni, porque a Xuxa estava na cada dele. Ele me confirmou a notícia, mas deixei para colocá-la na coluna de segunda, certo de que ninguém dela tinha conhecimento. E no domingo, para minha decepção, o Fantástico veiculou-a e foi aquela comoção em todo o país. Fiquei doente. Por favor, não guardem notícia!

Por: Marco Vilarinho – Editor do Metrópole / Foto: Eduardo Knapp - Folhapress

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