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As cores do Piauí e do seu povo: Eu conheci!

Viajar a trabalho é das coisas mais inexplicáveis que a vida de repórter pode proporcionar.

19/10/2013 13:16h - Atualizado em 21/10/2013 11:35h

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Viajar a trabalho é das coisas mais inexplicáveis que a vida de repórter pode proporcionar. Além de conhecer coisas, lugares e pessoas incríveis, você ainda tem a missão de contar todas aquelas histórias depois – e causar inveja nos amigos que estão na redação enquanto você olha o por do sol na praia em plena quarta-feira, dia útil. E quando as histórias são para um especial – um especial do Dia do Piauí – é ainda melhor.

Fotos: Jailson Soares e Lina Magalhães


Dias antes de viajar, eu nem sabia que ia, mas queria desesperadamente, porque não conhecia nada do Piauí além de uma praia ou outra de Parnaíba, um pedacinho de Pedro II e a estrada que leva ao litoral. Pedi – ok, implorei – para a chefe, Elizângela Carvalho, deixar eu ir para o norte e para o sul do Estado.

Com destino ao litoral, começamos a viagem às 07 da manhã de uma terça-feira. Eu, Maria Romero, a repórter. Geysa Silva, a editora. Lina Magalhães, a fotógrafa. Reginaldo Silva, o motorista. Para o sul, Jailson Soares foi o fotógrafo e Marco Aurélio o motorista. Todos companheiríssimos de viagem. Beijo, gente!


Na mala, mais roupas do que o necessário – mulher não se controla – e uma ansiedade louca para descobrir as melhores histórias, as melhores personagens e as melhores fotografias.

No norte, a impressão que fica é a de que as distâncias são curtas entre uma cidade e outra e quase não dá tempo de dormir – viajar trabalhando é ótimo, mas é mais cansativo do que parece – e tem bastante coisa pra ver, especialmente as paisagens naturais. Embora nessa época do ano – viajamos em setembro – a mata esteja bem seca, ainda assim a imensidão é bonita de se olhar.



Fizemos a primeira parada em Barras, onde depois de uma circuladinha rápida pela cidade, conhecemos dois dos personagens mais incríveis da viagem inteira. A cidade é pequena, tranquila e as pessoas adoram falar dos rios que passam por ali. Somos pegas de surpresa por um poema recitado às margens do Marataoan por um senhorzinho muito simples, de sorriso desdentado, voz grave, pele queimada do sol e nome de artista: Luiz Gonzaga Araújo. Ele nos contou um pouco de sua vida na cidade e das coisas que mais gosta por lá. A vontade era de conversar o dia inteiro com ele, ir até a sua casa, conhecer sua família e saber mais de sua vida. Mas o tempo era curto e tínhamos que seguir para Esperantina.

Lá, conhecemos dona Iolanda Reis, de 82 anos. Encontramos primeiro a sua neta, uma moça de aproximadamente 20 anos, em uma das calçadas charmosas da cidade. Ela disse que iríamos gostar de conversar com sua avó. Gostamos mesmo! Iolanda foi professora da rede municipal de ensino durante muitos anos e adora falar de como as crianças na sua época eram mais gentis e educadas em comparação com os jovens de hoje. Aliás, adora comparar as gerações em vários outros aspectos também. Isso lembra nossa passagem por Oeiras, mas essa história eu conto adiante. O corpo franzino e a voz frágil de dona Iolanda camuflam opiniões fortes sobre política, especialmente a de seu próprio município.

Aliás, não que seja surpresa para alguém, mas não deixa de ser impressionante o quanto a vida da população do interior piauiense está diretamente ligada à política. Às vezes é difícil conhecer a história dos municípios sem entrar nas questões partidárias. Na saída, dona Iolanda ainda tentou de todo jeito fazer com que a gente tomasse um refrigerante – e ela pudesse falar mais sobre os filhos que moram longe –, mas o tempo era curto e a gente precisava continuar.

Chegamos em Piripiri e todo mundo adorou a origem do nome da cidade. Ninguém fazia ideia de que vinha de Pery Pery, um capim comum na região na época da fundação do município. Hoje ainda é possível ler a grafia com Y em prédios históricos como o Museu de Pery Pery, atualmente em reforma. Conversamos, já no fim da tarde, com algumas famílias que trabalham no Açude Caldeirão - como deixar de visitar quando se está em Piripiri? Lugar lindo de dia e maravilhoso à noite. Era lua cheia no dia em estávamos lá. Parecia um presente! Passamos a noite na terra dos humoristas famosos, João Cláudio Moreno, Dirceu Andrade e Amauri Jucá, lembrados por todos os conterrâneos com quem conversamos.

Na manhã seguinte, visitamos a escola mais antiga da cidade, antigamente conhecida como "escola de doidos", porque era a única a receber crianças com deficiência. Aos poucos, as outras escolas de Piripiri também passaram a receber os pequenos. Mas a grande pauta veio mais tarde, quase ao meio dia, quando conhecemos as empresárias da moda íntima. Sabe-se e fala-se muito sobre a indústria têxtil piauiense, mas a moda íntima tão desenvolvida foi uma surpresa.

Há lojas - ao todo, são mais de 20 marcas nascidas lá - que atendem públicos específicos, como crianças, e que são gigantescas em relação à cidade pequena do interior. Conhecemos a mulher que deu origem a tudo isso, dona Auri Cardoso, e que embora tenha tido a visão sagaz na época em que começou os negócios, se mostra extremamente conservadora quanto às ambições da filha que seguiu seus passos e multiplicou seu legado. O conflito de gerações, embora traga muitos atritos, é cheio de respeito e admiração mútua. Daquelas histórias que a gente leva pra sempre.


Partimos então para Parnaíba, lugar mais aguardado da viagem para o norte. E como não seria? Chegamos a tempo de registrar o pôr do sol na Praia do Coqueiro e, olha, que vontade de terminar de escrever as matérias sem nem vir embora. Quem precisa de redação com uma vista daquelas?

Foi lá, na Praia da Pedra do Sal, que conversei com a pessoa mais impressionante não só da viagem, mas acho que de toda a minha vida de repórter - curta, eu sei, mas ok. Um alemão chamado Knut Schirner que se isolou do mundo para pintar telas inspiradas na paisagem do litoral piauiense. Leiam pelo menos um breve resumo de O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, antes de ler a matéria sobre ele na edição de hoje (19) do Jornal O Dia. Acho realmente que ele inspirou a própria vida na do protagonista desse livro. Muito, muito incrível! Sem falar nas telas, maravilhosas. Saímos eu e Lina da casa dele sem nem saber o que dizer. "Que história louca!".

Depois disso começamos o retorno a Teresina. Paramos em Pedro II e acompanhamos o processo de fabricação de uma peça de opala com Dielson das Pratas, 32 anos, artesão desde adolescente. Ele teve a maior paciência do mundo em explicar e mostrar tudo pra gente, em detalhes, sobre cada etapa na hora de fazer anéis, pingentes, brincos, pulseiras... O polimento da opala é impressionante. As fotos que a Lina fez de todo o processo e das peças prontas vale muito a pena ver.

Okay, de volta a Teresina. Um mundo de coisas pra escrever, e ainda tinha o sul do Piauí... E a sensação é de que estávamos em um lugar totalmente diferente, um outro mundo. As paisagens são novas e a semelhança é só a da vegetação seca. As cidades estão bem distantes umas das outras e parecem cada vez menores, mais simples e mais cheias de um sotaque lindo. Não é pernambucano e não é baiano, mas não é também como falam os “da capital”. Lindo demais.

Primeira parada: Santa Cruz dos Milagres. A cidade é muito pequenininha, menos de 5 mil habitantes e se organiza daquele jeito típico: tudo no entorno da igreja e da praça. Com a construção da nova igreja por lá, vai caber a população inteira dentro dela. A capacidade do santuário atual é de apenas 300 fieis. Chegamos lá ao meio dia e a sensação de “vazio” é ainda maior: quem é o doido de ficar pra fora de casa a essa hora em pleno BRO Bró?

Encontramos o padre da cidade e ele nos contou um pouco do que se passa por lá e porque a cidade é tão famosa entre os romeiros: isso vocês podem ler no especial publicado hoje no Jornal O Dia.

O impressionante é que durante todo o ano, um número de pessoas que equivale a população de Parnaíba, segunda maior cidade do estado, vai para Santa Cruz dos Milagres. É tudo muito bonito, especialmente por ser tão simples. Vale mesmo a pena conhecer.

Em Picos, uma história que realmente me emocionou. Não foi triste, pelo contrário, só tem coisas boas, mas é exatamente por isso. Senti que foi uma história para tirar, até mesmo de mim, aquela sensação de que tudo que há de bom e de valor está reservado apenas aos teresinenses. Conhecemos um rapaz que vivia nas matas procurando mel quando criança e que hoje é engenheiro agrônomo. Nunca deixou o assentamento onde se criou, na zona rural de Geminiano, e vive da apicultura. Homem simples, extremamente dedicado e de uma gentileza que só vendo. Uma das melhores surpresas do sul.

A maior furada também aconteceu no sul do estado, por falha nossa. Teimamos em conhecer o trabalho dos mineradores de ferro em Paulistana, onde disseram que havia minas de extração. Acreditamos e partimos rumo à Serra Vermelha. O que deveriam ser 30 km viraram mais de 80 km. E nada de extração em canto nenhum. O que há em Paulistana é sondagem para uma possível exploração, mas nem as pessoas sabiam explicar direito e nós muito menos. Ok, dia perdido. Mas a próxima cidade compensou.

São João do Piauí. Mais um lugar incrível que eu jamais imaginei que fosse ter tanta coisa linda. Vou ser talvez repetitiva em falar disso, mas o parreiral do Projeto Marrecas é bonito demais, principalmente depois que você conversa com as pessoas e sabe o quanto o piauiense faz render com um pouquinho de apoio. Tudo muito lindo – e as uvas, as mais doces desse mundo! Vale a pena conhecer a história da Lurdinha da Marreca, a primeira mulher a plantar uvas no Piauí. E as fotos do Jailson estão maravilhosas!

Depois foi a vez de São Raimundo Nonato, o lugar que eu maaaaais queria conhecer na viagem. Como a preocupação com a preservação do Parque da Serra da Capivara é grande, não entramos em todos os lugares que gostaríamos, mas conhecemos pessoas que são a história viva de como aquele lugar se tornou o que é hoje. A história mais incrível é a do homem que, sem qualquer instrução ou estudo, sabia que todos aqueles vestígios com que seus filhos brincavam eram registros da história que deviam ser preservados. Sua filha é dona, hoje, do único restaurante próximo ao parque. Lugar incrível, pessoas maravilhosas. Vale a pena ler a matéria para conhecer a história e, principalmente, visitar a cidade.

Depois foi a vez de Bom Jesus... E qualquer coisa que eu disser agora vocês já leram ou assistiram em algum lugar. É, mesmo, um oásis no deserto. Mesmo já sabendo de tudo que encontraria por lá, fiquei impressionada. As lojas de máquinas agrícolas, as mansões dos gaúchos e, principalmente, as paisagens lindas do cerrado. O pasto seco não diminui em nada a beleza daquele lugar. Já posso me mudar pra lá ainda esse ano? Muito bonito, de verdade.

De lá, começamos o retorno para casa novamente. A sensação não é exatamente de dever cumprido, porque a vontade é de conhecer cada uma das 224 cidades, conversar com cada morador que a gente vê passando pela rua. O que a gente espera é que os exemplos contemplem o todo de mais de 3 milhões de pessoas que nasceram aqui ou escolheram o Piauí para viver e conhecem as histórias de luta, superação, empreendedorismo, fé, amor e esperança em sua terra. 

Como repórter, fiz um trabalho e realizei um sonho. Espero, de verdade e sem frases feitas, que todos gostem tanto de ler como nós gostamos de fazer esse especial. E conheçam o Piauí, é ainda mais bonito pessoalmente. 

Boa Viagem!

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Por: Maria Romero

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