Cineas Santos

O teresinense convive melhor com o calor sufocante do que com o verde

Em Teresina, cortam-se as árvores por qualquer pretexto: as folhas que sujam o chão; as raízes que racham as calçadas; as copas que escondem as fachadas.

24/02/2019 06:09h

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O verde minguante...

Não seria exagero afirmar que o teresinense convive melhor com o calor sufocante, que nos asfixia, do que com o verde que minimiza os efeitos do sol inclemente.  Em Teresina, cortam-se as árvores por qualquer pretexto: as folhas que sujam o chão; as raízes que racham as calçadas; as copas que escondem as fachadas.

Por oportuno, relato três fatos que me marcaram muito: na remota década de 1980, um grupo de universitários teve de peitar o reitor da UFPI para manter um punhado de mangueiras numa área destinada a estacionamento de automóveis. Os proprietários dos veículos queriam derrubar as árvores, alegando que os frutos que caíam das mangueiras danificavam os automóveis estacionados. Algum tempo depois, registrou-se o estupro de uma universitária nas imediações do centro de atividades esportivas. O então reitor entendeu que a melhor medida para evitar tais crimes seria derrubar as árvores do entorno do centro. À época, denunciei o fato com tal estridência que ganhei um inimigo e salvei uma nesga de verde que ainda subsiste. Quando estive à frente da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, fui convidado a participar do plantio de alguns ipês numa praça da zona leste de Teresina. Para dar maior “brilho” ao evento, levaram banda de música e tudo mais. Enquanto plantávamos as mudas, uma cidadã bradava, alto e bom som: “Este matagal aqui só vai servir para acoitar malfeitores”.

Acrescente-se a essa aversão ao verde a gula das imobiliárias que, avidamente, engolem os quintais e temos um quadro desolador. No antigo Clube das Classes Produtoras, por exemplo, havia uma área generosa com árvores frutíferas, sombra, flores e pássaros... Num piscar de olhos, tudo aquilo foi devastado para dar lugar a um caixote pavoroso com cores berrantes. Na área destinada ao estacionamento dos carros, em vez de árvores, toldos de plásticos enfeiam o espaço... Como o verde de Teresina é basicamente o sobrou dos quintais, em curto espaço de tempo, tudo isso aqui será um imenso deserto cinza.

As praças de Teresina, sem exceção, estão às moscas. As árvores, acometidas por cupins, fungos e erva-de-passarinho, apodrecem, secam, morrem...Mas tudo isso parece pouco: na semana passado, um morador do conjunto Saci, por sua conta e risco, destruiu as árvores de uma praça inteira. Até onde sei, os vizinhos a tudo assistiram bovinamente...

Num futuro próximo, quando a molecada da rede municipal de ensino estiver cantando “Do verde exuberante que te veste”, alguém comentará: o cara que escreveu isso era cego ou bebia muito...         

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