Em 1966, muda a diretoria da UPES. Em lugar do Ernâni, assume Aldaíso Alves Fortes, um cidadão com vocação paternalista e defensor intransigente da “revolução redentora”. A primeira coisa que fez: comprou uma dessas lajes de Campo Maior, com um buraco no meio, e nos deu de presente. Eu e o Otacílio Goiabão cavamos um buraco no fundo do quintal e fizemos uma rústica latrina. Em seguida, conseguiu alguma madeira com o comandante do BEC. Eu, o Raimundo e o Humberto Leal fizemos uns beliches; duas mesas grandes e dois bancos. Nessa altura do campeonato, a casa velha que, com algum desconforto, acomodaria vinte pessoas, já abrigava oitenta. Lotação de presídio brasileiro.
Resolvemos, então, fazer nossa própria comida na UPES. O presidente da entidade conseguiu, no Serviço Social do Estado, arroz, óleo de soja, fubá de milho e leite pau de índio. O governador Helvídio Nunes garantiu-nos uma cota mínima de carne: 15 quilos por semana. A vida melhorou muito.

Foi aí que, para “botar ordem na casa”, o Aldaíso resolveu nomear-me “diretor de disciplina” da UPES. Eu não ganhava nada, mas investi-me do papel de xerife e passei a agir com mão de ferro. Para começo de conversa, instituí horário de estudo, das 8 às 10 e das 14 às 16 horas. Quem estivesse na casa era obrigado a estudar. Os resultados foram muito bons. Mas, investido dos “poderes” que eu acreditava ter, comecei a exagerar na dose: proibi a entrada dos moradores depois da 23 h; proibi rádio ligado a partir da 22, proibi que circulassem com “roupas inadequadas” pelo interior da casa, etc. Tornei-me um pequeno e odiado ditador.
Uma tarde, mandaram-me ir ao Palácio de Karnak falar com o chefe de gabinete do governador, um cidadão chamado Aurino Nunes. Em nome dos estudantes, fui pedir que aumentasse a nossa ração de carne. Ele me recebeu, olhou-me de cima a baixo e perguntou: “Qual é o seu cargo na UPES, rapaz?”. Inflei o peito e respondi: diretor de disciplina. Ele sorriu e, com ar de desprezo, afirmou: “Logo, logo vão mandar o faxineiro da entidade para falar com o governador”. Caí do cavalo: descobri que os meus “podres poderes” não valiam absolutamente nada. Com uma tacada, o cidadão me devolveu ao chão. Voltei ao meu status natural: Zé Ninguém.
(fragmento do livro O aldeão lírico)
Edição: Adriana Magalhães