Cineas Santos

O mundo encolheu

Confira o texto do professor Cineas Santos publicado no caderno Metrópole, deste final de semana

16/02/2020 08:29h

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Certa manhã (naquele tempo, todas me pareciam iguais), aportou em nossa casa o velho Aristides. Vinha de Bom Jesus do Gurgueia, com a “mala” dos Correios presa às costas. Era um homem miúdo, magro, curtido de sóis inclementes, com um boné meio roto na cabeça. Idade inescrutável, uma ferida mal sarada, protegida por um pedaço de couro de cabra, na perna direita. A cada dois meses, o velho percorria, a pé, uns 200 Km, com o saco de correspondências. À época, as estradas eram pouco mais que carreiros, e as onças faziam “piseiro” nas veredas. O velho tinha um bastão de marmeleiro, uma faquinha de picar fumo e uma cabaça na qual conduzia água. Não era funcionário dos Correios; era um “alugado” do estafeta Cavalcante, que preferia a comodidade da cidade aos ermos dos sertões. O Aristides trazia uma carta endereçada a dona Purcina, remetida por meu avô Malaquias. Foi uma festa: uma carta em Campo Formoso era algo incomum. A matriarca leu a carta, os olhos marejados. Resumiu tudo num comentário seco: “Meu pai não está bem de saúde”.

O Aristides se foi com o seu saco de alvíssaras e a rotina voltou a imperar naquela terra de nãos. Não havia água. Não havia luz. Não havia escolas. Não havia livros. A bem da verdade, nem as notícias ruins chegavam ao lugar. Só tomamos conhecimento do suicídio de Vargas quando o espírito do caudilho já se preparava para a reencarnação. Alguém, que foi à feira em São Raimundo Nonato, trouxe a notícia: “ O presidente morreu”. A prosa não prosperou, até mesmo porque, vivos ou mortos, os presidentes não interferiam em nosso mundinho. As nossas preocupações eram de outra ordem: buscar os sinais das chuvas na Natureza. E as chuvas, sovinas, engrossavam a sinfonia dos nãos.

Por que estou me lembrando disso? Bem, no passado , escrevi um arremedo de crônica - Calou-se a tia que sabia ler - falando da tia Odete, a sertaneja que me mostrou o portal da poesia. Postei a crônica na minha página no Facebook, certo de que filhos da velha não tomariam conhecimento da arenga. Para minha surpresa, no mesmo dia, uma cidadã,que não conheço, postou um comentário sobre a velha. Pedi-lhe que me fizesse a bondade de mostrar o texto aos meus primos. Ela me comunicou que já mostrara e que,naquele momento, estava na casa da tia.

Confesso que levei um tempinho para acreditar. Tia Odete, pitando seu cigarrinho, sentada à sombra do juazeiro, não teve de sair do sertão da Jurema para correr atrás do “progresso”. Esperou sentada, e por lá já chegaram: água,luz,telefone,Internet... Ainda não me refiz da surpresa. Eu alimentava vagamente o sonho de, um dia, refundar o Campo Formoso e esquecer-me por lá, “sem rádio e sem notícias da terra civilizada”. Já não será possível: em qualquer lugar, estaremos irremediavelmente condenados à “civilização”...

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