Cineas Santos

O cronista de meia-tigela

O segundo ano de minha estada em Teresina não prometia muito.

27/04/2019 06:19h

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 A fábrica de sandálias de borracha entrou em parafuso: fui despedido. Tornei-me auxiliar de tapeceiro. Trabalhei com o Preá, com o Edmundo, com o Luiz Passos. Não tinha salário fixo: ganhava uns caraminguás quando entrava algum dinheiro nas oficinas de fundo de quintal. No colégio, ia de mal a pior: ruim em física e péssimo em matemática. Aliás, o professor de matemática, Edgar Tito, entregava-nos as provas com o seguinte comentário: “São apenas três questões: uma é do aluno, a outra é minha; a terceira, do diabo”. Por azar, eu ficava sempre com a do torto...

Um dia, criaram, no Liceu, um jornal mural. Renascença, se não me trai a memória. Resolvi escrever uma crônica tendo como pretexto um guarda de trânsito que trabalhava na Praça João Luís Ferreira.Para minha surpresa, a xaropada fez um sucesso danado. Alguns alunos copiaram-na e reproduziram em outros murais da cidade. Sem que eu me desse conta, estava nascendo ali o cronista de meia-tigela que eu me tornaria no futuro.

Por iniciativa do grêmio, institui-se um concurso de contos para os alunos do Liceu. Resolvi inscrever-me. Escrevi um conto de feição regionalista sobre um arruaceiro dos sertões do Piauí. O título traduzia a coisa: O triste fim de Chico Facão. Quatro laudas datilografadas em espaço dois. Mostrei o texto ao Chico Viana, um dos poucos náufragos que, efetivamente, sabiam ler. Ele cortou, corrigiu, refez passagens inteiras e reduziu o texto a uma lauda e meia. Inscrevi o conto e aguardei. Um mês depois, o resultado: o meu conto estava empatado com o do Benoni Alencar, um estudante bastante conhecido na cidade. Era considerado “comunista de carteirinha”. Curiosamente, éramos colegas de turma e não nos conhecíamos. A bem da verdade, ninguém me conhecia: eu era invisível. Alceu Guimarães, professor de literatura, tornou-se padrinho do Benoni; Ray Brito, professor de gramática, apadrinhou-me. Por critérios que desconheço, acabei vencedor. Valor do prêmio: dez cruzeiros a serem pagos pela Secretaria de Educação do Piauí.

Se vencer o concurso foi complicado, receber o prêmio, uma via crúcis. Eu chegava à Secretaria por volta das oito horas. A secretária que, tempos depois, seria minha aluna, afirmava: “O secretário ainda não chegou”. Por volta do meio-dia, avisava; “O secretário já saiu”. Uns três meses, ouvindo mesma história. Eu não sabia que os políticos brasileiros têm o dom de entrar e sair sem serem percebidos. Na Faculdade de Direito, fui colega do professor Balduíno Barbosa de Deus, o ex-secretário que me enrolou por três meses. Contei-lhe a história,ele sorriu,bateu no meu ombro e afirmou: “Colega, eram muitas as demandas”. Entendi: eu era realmente invisível.

(fragmento do livro O Aldeão Lírico)

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