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Cineias Santos

Muito além de mim

Quando, aos oitenta anos de idade, dona Purcina foi sequestrada pelo Mal de Alzheimer, fiquei literalmente arrasado.

12/05/2019 06:09h

Para mim, era extremamente doloroso ver a velha, que parecia feita de certezas, embarcar no trem do esquecimento sem o bilhete de volta. Incontinenti, decidi que precisaria fazer algumas anotações para manter as lembranças de minha mãe vivas em mim. Mas não pensava em livro.

A doença insidiosa, rapidamente foi transformando dona Purcina num zumbi. Em curto espaço de tempo, já não se reconhecia no espelho. Com imensa tristeza, eu acompanhava tudo, mas não fazia anotações. Fui construindo o relato na memória. De cara, duas dificuldades. A primeira: retratar dona Purcina com um mínimo de isenção; a segunda: encontrar o tom adequado para a narrativa. Eu não queria um livro sentimental e muito muito menos dramático. Na medida das minhas limitações, procurei escrever um livro lírico, leve, suave...

Quando A matriarca dos loucos foi publicado, pensei que talvez o livrinho pudesse interessar às pessoas que conviveram com a minha velha. Para minha surpresa, o livro começou a percorrer sua trajetória sem a necessidade de que eu o conduzisse.  O livro foi adotado em escolas do Piauí, tendo como público-alvo adolescentes. A receptividade foi a melhor possível. Na 5ª edição da FLOR (Feira Literária de Oeiras), crianças bem pequenas dramatizaram fragmentos do livro com resultado comovente. Em curto espaço de tempo, a primeira edição do livro esgotou-se. Fiz uma segunda que teve o mesmo destino. Agora, acabo de fazer a terceira, sem alterações. Toquei apenas uma palavra, mudei a foto da capa e acrescentei o comentário do embaixador Alberto   da Costa e Silva: “É um pequeno livro belíssimo. Comovedor. Uma lição de bem escrever porque deriva de um aprendizado afetuoso de bem viver. Deu-me orgulho de ser seu amigo”.

Ao sair da gráfica com os livros, não resisti à tentação de parar para contemplar a foto de dona Purcina estampada na capa do livro. Tive a impressão de que, de algum lugar insituável, a matriarca continua balizando a minha vida. Assim seja.


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