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Cineas Santos

A noiva sertaneja

Fragmento do livro O aldeão lírico

03/02/2020 12:52h

As mulheres de Campo Formoso eram poucas. As meninas do meu tope, feias.  Vai que, numa tarde, apareceu por lá, de passagem para a Cana Brava, uma moça bonita além do razoável. Usava um vestido cor-de-rosa e trazia uma fivelinha dourada prendendo os cabelos. Incontinenti, decidi que me casaria com ela. Eu teria uns oito anos de idade, se muito. A minha “prometida”, uns dezessete. A moça se foi, mas a ideia continuou a verrumar-me o juízo. Não resisti à tentação de contar tudo à Dezinha. De caçoada, minha irmã afirmou: “Pois trate de crescer logo”. Bateu uma tristeza danada: crescer não depende da vontade do freguês.

Meses depois, a Lina voltou a aparecer lá em casa. Para alegria e festa dos meus olhos, usava o mesmo vestido: talvez só tivesse aquele, pouco importa. A Dezinha me chamou e disse: “Lina, este moço quer se casar contigo”. Ela me olhou, iluminou a face com seu melhor sorriso e disparou: “Trata de crescer, ganhar dinheiro, que sustentar uma mulher como eu não é fácil”. Profundamente envergonhado com a indiscrição de minha irmã, fui chorar escondido no quarto de minha mãe.

Para poder bancar os luxos da moça, decidi que iria para São Paulo, ganharia um dinheiro graúdo e voltaria para me casar com ela. O que eu não poderia imaginar é que, além do abismo etário a nos separar, dona Purcina tinha outros projetos para mim. Nem tive tempo de sofrer muito: uma escola ordinária me esperava em São Raimundo Nonato.

Dias desses, passei por Anísio de Abreu. A Dezinha (sempre ela!) me disse: “Vamos passar na casa de uma amiga”. Para a minha surpresa, a amiga era justamente a Lina, uma senhora respeitável, distinta e elegante.  Minha irmã não se conteve: “Lina, olha o estado do teu noivo”. Dona Lina sorriu e afirmou: “Eu não te enganei. Você demorou muito a crescer e eu tinha outros pretendentes”. Para entrar no clima, afirmei: a proposta continua de pé. Lina voltou a sorrir e afirmou: “Não era mesmo para acontecer: naquele tempo, você era muito novo; agora, está muito velho...”  Como se pode ver, em matéria de mulher, ainda tenho muito o que aprender.



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