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Celso Pires

Uma Guerra Fria na América Latina?

Celso Pires - Advogado

09/05/2019 10:58h

Quando a União Soviética competia com os Estados Unidos pela supremacia global durante a Guerra Fria, costumava atuar com cautela e fora dos holofotes no que era tido como quintal de Washington: a América Latina. Atualmente, três décadas após a queda do Muro de Berlim, a Rússia vem tomando medidas na Venezuela que desafiam os americanos de forma ostensiva. Uma delas foi o recente envio de aeronaves militares russas para Caracas em apoio ao presidente venezuelano Nicolas Maduro. Do outro lado da disputa, Washington apoia os esforços liderados por Juan Guaidó, que foi proclamado presidente interino do país, para derrubar Maduro. Dois aviões russos com soldados e equipamentos aterrissaram no aeroporto internacional de Caracas no final de março durante o dia, sem qualquer segredo, de forma bastante explícita. A decisão russa causou reação imediata dos E.U.A. e Trump alegou que a Rússia teria que sair da Venezuela. Entretanto, em declarações publicadas pelas agências de notícias russa, o vice-chanceler venezuelano Yván Gil sinalizou que acordos de cooperação entre os dois países podem elevar mais ainda o número de militares russos enviados ao país. A presença militar da Rússia em um país latino-americano, principalmente um no qual os E.U.A pressionam por uma mudança de governo, é visto como algo de fato excepcional, mesmo para os antigos parâmetros da Guerra Fria. Assim como a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – U.R.S.S. geralmente evitava intervir diretamente na América Latina durante a Guerra Fria, os Estados Unidos adotavam postura semelhante na Europa Oriental. Ambas as regiões eram consideradas "zonas de influência" das superpotências globais, onde tinham um amplo controle político e militar, ao menos extraoficialmente. Ainda que houvesse exceções, como é o caso de Cuba. Em 1962, quando um avião espião dos E.U.A descobriu a instalação de mísseis nucleares soviéticos na ilha, o mundo chegou à beira de uma guerra nuclear. O episódio ficou conhecido como a "crise dos mísseis". Contudo, na maioria das vezes, o apoio da União Soviética a forças ideologicamente alinhadas na América Latina era limitado, sigiloso e usava intermediários, tendo Cuba como o principal promotor de guerrilheiros no subcontinente. Um relatório secreto da inteligência dos E.U.A afirmou em 1982 que, apesar do interesse existente, a distância geográfica tendia a relegar a América Latina, com exceção de Cuba, para a periferia das preocupações soviéticas de segurança. O texto, que perdeu o caráter sigiloso anos depois, indicava que a U.R.S.S tinha o Peru como principal cliente de suas armas na região. No entanto, segundo o relatório, a relação militar de Moscou com Lima deu aos soviéticos pouca influência sobre as políticas peruanas. Agora, a Rússia dá uma sustentação internacional crucial para Maduro, cujo seu governo e o do antecessor, Hugo Chávez (1999-2013), assinaram contratos de milhões de dólares com Moscou ligados ao fornecimento e à manutenção de aviões de combate, tanques e sistemas de defesa aérea. A presença militar russa no país durante a crise atual mostra que sob o governo Trump, a Rússia se sente encorajada a desconsiderar a ideia de que os E.U.A têm algum status na área que o impediria de fazer o que fez. Historicamente, a ideia de que os Estados Unidos têm uma influência especial na América Latina remete à doutrina Monroe. Implementada pelo presidente americano James Monroe em 1823 e resumida na frase "América para os americanos", essa doutrina rechaçou o colonialismo no continente e estabeleceu que qualquer intervenção europeia seria vista como uma agressão que demandaria a intervenção dos E.U.A, que logo espalhou sua própria influência sobre a região. Após o fim da Guerra Fria, o governo de Barack Obama declarou o fim da Doutrina Monroe em 2013. Todavia, seu sucessor, Donald Trump, se mostrou determinado a desenterrá-la. A mudança quis fornecer alertas bastante diretos de Washington para a Rússia e a China, e as divergências com Moscou, no que diz respeito a Venezuela, marcam o ponto mais alto dessas tensões. Vladimir Putin necessitará lidar com a situação da Venezuela em termos semelhantes aos que o então líder soviético Nikita Khrushchev enfrentou na então esfera de influência dos E.U.A durante a crise dos mísseis cubanos em 1962. Putin assumiu posição arriscada ao posicionar publicamente um contingente militar russo na Venezuela, longe do território russo, e em uma área do mundo onde os E.U.A têm um indiscutível domínio militar. Se o plano de Putin der certo, talvez consiga dissuadir qualquer ação direta dos E.U.A, ou talvez abrir espaço para a Rússia ter lugar na negociação para remover Maduro enquanto protege os interesses russos. Todavia, se tal conduta der errada corre o risco de submeter seus militares na Venezuela a um ataque direto dos E.U.A sem capacidade de reação, produzindo assim uma escalada de conflito entre as superpotências nucleares. É a história se repetindo, muito semelhante ao que Khrushchev arriscou na crise dos mísseis cubanos de 1962. Espera-se que o conflito atual seja resolvido tão pacificamente quanto o de outrora.


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