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Celso Pires

Trump vs. John Bolton

Celso Pires - Advogado

31/01/2020 11:27h

Congressistas democratas aumentaram a pressão para que o ex-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos John Bolton deponha no julgamento de impeachment do presidente Donald Trump. O possível depoimento ganhou ainda mais importância após relatos de que, em novo livro, Bolton afirma que Trump disse a ele que tinha a intenção de congelar ajuda militar à Ucrânia até que o governo do país ajudasse nas investigações contra democratas, incluindo o ex-vice-presidente Joe Biden. A informação estaria em um rascunho do livro, obtido pelo jornal The New York Times. Trump nega os relatos. O testemunho de Bolton, porém, colocaria em xeque as alegações do presidente, que afirma não ter cometido abuso de poder ao pedir que o presidente ucraniano Volodomyr Zelensky, em um telefone em julho de 2019, que investigasse Biden, seu potencial rival nas eleições presidenciais de novembro deste ano. O antigo assessor, que é republicano, seria um herói improvável para o Partido Democrata. Ainda assim, os políticos da sigla acreditam que ele poderia ser uma testemunha-chave, que forneceria provas irrefutáveis de que Trump cometeu irregularidades, fortalecendo o pleito democrata para que deixe o cargo. John Bolton, ocupou o cargo de Conselheiro de Segurança nos anos de 2018 e 2019, tendo aparentemente estado pessoalmente envolvido nas tratativas do presidente com

autoridades ucranianas. Se Bolton testemunhasse, seria capaz de fornecer o relato mais detalhado divulgado até este momento da suposta pressão política de Trump sobre Zelensky e a decisão de congelar US$ 391 milhões em ajuda militar. Outras testemunhas já afirmaram que membros do governo Trump usaram os recursos como instrumento de barganha para pressionar os ucranianos a investigarem Biden e seu filho, Hunter. Contudo, nenhuma delas relacionou Trump explicitamente ao condicionamento da ajuda militar a uma investigação, nem indicou que o presidente tenha pessoalmente orientado as operações. Para os democratas, o ex-conselheiro de Segurança Nacional poderia, justamente, fornecer a prova incontestável contra Trump. De acordo com os relatos, Bolton se opôs ao congelamento de recursos para o Ucrânia e tentou, sem sucesso, convencer o presidente a liberar a ajuda militar durante reunião no Salão Oval. Os recursos acabaram por ser liberados exatamente um dia depois de Bolton deixou o

governo, em setembro de 2019. Trump já disse repetidamente que não fez nada de errado é que o processo de impeachment é um golpe. Advogados da Casa Branca já negaram pedidos de congressistas democratas para que Bolton e outras testemunhas deponham no julgamento no Senado. Bolton já afirmou publicamente que, se for convocado, prestará depoimento e Trump já deu indícios de que tentaria barrar o depoimento na Justiça. Os senadores americanos votarão a convocação de testemunhas nos próximos dias. O impeachment de Trump foi aprovado pela Câmara dos Deputados, de maioria democrata, em dezembro. Para que deixe o cargo, porém, é preciso uma maioria de dois terços no Senado — dominado pelos republicanos, por 53 a 47. Uma votação contra Trump, portanto, é improvável. Ele é o terceiro presidente americano a enfrentar um processo de impeachment. Historicamente, Bolton defendia políticas agressivas em relação à Coreia do Norte, o Afeganistão e o Irã, e Trump nem sempre concordava. Por vezes, Bolton era alijado de decisões no governo. Sua demissão ocorreu em setembro, tendo sido anunciada pelo próprio Trump, via Twitter. Bolton se opunha a negociações de paz com o Talibã, grupo convidado por Trump para dialogar. O plano, depois abandonado, foi alvo de críticas sobretudo por causa do momento, justamente a proximidade com o aniversário dos atentados de 11 de setembro de 2001, realizados pela Al-Qaeda, organização extremista que o Talibã permitiu operar no Afeganistão. Bolton foi o terceiro conselheiro de Trump na função, depois de Michael Flynn e H.R. McMaster. Bolton ainda chegou a ser embaixador temporário dos E.U.A nas Nações Unidas e ocupou cargos nos últimos três governos conduzidos por políticos republicanos, desde a gestão de Ronald Reagan (1981-1989). Bolton foi um dos principais articuladores da invasão americana no Iraque, durante o governo de George W. Bush, sob o argumento de que o então regime de Saddam Hussein mantinha um programa secreto de armas de destruição em massa. Em 2005, porém, dois anos após o ataque, um relatório divulgado pela Agência Internacional de Energia Atômica desmentiu a informação.


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