Celso Pires

O arriscado enfrentamento da pandemia na Suécia

Celso Pires - Advogado

30/04/2020 16:22h

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A estratégia da Suécia de não impor a grande parte da sociedade medidas de isolamento social é amplamente apoiada pela população. Ela foi desenvolvida por cientistas e adotada pelo governo, mas nem todos os especialistas do país estão convencidos de que este foi o melhor caminho a seguir diante da pandemia de coronavírus. Não existe quarentena na Suécia, como atesta a situação de seus bares abertos e espaços ao ar livre abarrotados de gente. Ainda assim, é um mito afirmar que a vida dos suecos segue normalmente. É verdade que poucos estabelecimentos fecharam. Entretanto, dados apontam que a grande maioria da população adotou o distanciamento social voluntário, que é o cerne da estratégia da Suécia para retardar a propagação do vírus. O uso do transporte público caiu significativamente. Muitas pessoas estão trabalhando a partir de casa. E a maioria da população se absteve de viajar no fim de semana da Páscoa. O governo também proibiu reuniões de mais de 50 pessoas e visitas a casas de repouso para idosos. Cerca de nove a cada dez suecos dizem que mantêm pelo menos um metro de distância das pessoas — eram sete a cada dez tem um mês, segundo pesquisa realizada. Do ponto de vista da Agência de Saúde Pública da Suécia, a forma como a população reagiu é motivo de comemoração, embora com bastante cautela. A abordagem dos cientistas na Suécia gerou semanas de muito debate ao redor do mundo sobre se o país tinha adotado um plano sensato e sustentável ou submetido sua população a um experimento que causaria mortes desnecessárias e levaria ao fracasso em conter a propagação da covid-19. A capital, Estocolmo, é o epicentro da epidemia no país até agora, mas o total de casos se mantém de certa forma estável, embora tenha ocorrido um forte pico devido, ao que tudo indica, em parte pelo aumento dos testes realizados. Ainda existe espaço nas unidades de terapia intensiva, e um novo hospital de campanha erguido em um antigo centro de conferências ainda não foi usado. O epidemiologista-chefe do governo sueco, Anders Tegnell é que tem chefiado a força tarefa contra a epidemia. Em contraste a outros países onde líderes políticos comandaram a resposta nacional à crise, Tegnell foi quem esteve à frente da maioria das entrevistas coletivas. Em um tom tranquilo, ele comenta sobre a pandemia com falas fortemente centradas em números e com poucas menções ao impacto emocional da crise nas vítimas e em suas famílias. Neste cenário, a Agência de Saúde Pública da Suécia conserva altos índices de aprovação durante o enfrentamento da pandemia. A decisão da Suécia em deixar a maior parte da sociedade aberta, diferentemente da maioria da Europa, foi tomada após a equipe comandada por Tegnell prever impacto mais limitado do vírus sobre a população do país em comparação com outros cientistas, entre eles os que estão por trás de um grande relatório do Imperial College de Londres, que aparentemente influenciou o governo do Reino Unido a lançar mão de uma quarentena. Além disso, a Agência de Saúde Pública da Suécia seguiu desde o início a ideia de que uma grande proporção de casos provavelmente teria consequências leves. No entanto, foi negado enfaticamente que sua estratégia fosse baseada no objetivo de gerar uma "imunidade de grupo", uma controversa estratégia baseada no conceito de administrar a disseminação da doença para que a população ganhe imunidade contra o vírus. O objetivo central do governo sueco foi introduzir medidas de distanciamento social menos rigorosas e que pudessem ser mantidas por um longo período. Por exemplo: as escolas para menores de 16 anos permanecem abertas para permitir que os pais continuem trabalhando em áreas-chave. Enquanto isso, todos os outros países nórdicos optaram por restrições temporárias mais rigorosas. No momento, podemos saber se a estratégia adotada pela Suécia está obtendo sucesso ou não por meio do que os números nos informam. A Suécia, com uma população de 10 milhões de pessoas, é o 21º país do mundo com mais casos, segundo a Universidade Johns Hopkins — eram pouco mais de 18,1 mil até 25/04 — mesmo que na maioria das vezes apenas teste aqueles com sintomas graves. Agora, estão sendo introduzidas verificações de contágio mais amplas. O país já registrou 2.192 mortes e tem uma taxa de mortalidade mais alta em relação ao tamanho da população do que em qualquer outro lugar da Escandinávia. Ao contrário de alguns países, as estatísticas da Suécia incluem residentes em casas de idosos, responsáveis por cerca de 50% de todas as mortes. Os residentes estrangeiros, particularmente os da Somália, que têm maior probabilidade de viver em famílias onde várias gerações estão juntas, ainda estão em condições de subnotificação nos números oficiais. Neste momento existe uma crítica ainda mais contundente à abordagem do governo, mediante o argumento que uma parte maior da sociedade deveria ter sido temporariamente isolada em março, enquanto as autoridades avaliavam a situação. A história julgará quais países acertaram na resposta à pandemia. Contudo, o mais recente debate científico na Suécia está focado no número de suecos que podem ter contraído o vírus sem apresentar nenhum sintoma. Isso é importante, porque muitos cientistas do país acreditam que os suecos podem ter níveis de imunidade muito mais altos em comparação com aqueles que vivem sob regulamentações mais rígidas. Um relatório da Agência de Saúde Pública da Suécia sugeriu que cerca de um terço das pessoas em Estocolmo terão sido infectadas até o início de maio. Depois, o índice foi revisado para 26%, após a agência admitir um erro de cálculo. A Agência de Saúde Pública da Suécia insiste que ainda é muito cedo para dizer qual o impacto das taxas de infecções assintomáticas sobre a proteção da população em geral. O país está longe de estar unido quanto a isso. Nas redes sociais, existe muita discordância. Alguns defendem medidas mais duras, enquanto outros acreditam que o pior já passou. Dados de telefones celulares sugerem que os moradores de Estocolmo estão gastando mais tempo no centro da cidade do que há duas semanas, e, no último final de semana, a polícia manifestou preocupação com a superlotação de locais da vida noturna. O que acontecerá a seguir na Suécia pode depender em grande parte de como as pessoas reagirão em relação ao distanciamento social, restando a sociedade internacional somente observar esta aposta arriscada do governo sueco. 

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