Celso Pires

As crônicas de uma Venezuela rica que se faz pobre

Celso Pires - Advogado

28/03/2019 11:37h

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Nas décadas de 50 e 80, a Venezuela nada se parecia ao que é hoje. Se atualmente o país atravessa uma crise sem precedentes, sem data para terminar, no passado chegou a ser um dos mais ricos da América Latina, causa de inveja aos seus vizinhos. Uma de suas notórias alcunhas foi "Venezuela saudita", em alusão à Arábia Saudita, devido à riqueza por conta do petróleo. Na capital, Caracas, os prédios eram altos e modernos para a época. As rodovias, largas. Os hotéis eram considerados o esplendor em um paraíso tropical. E os venezuelanos tinham o título de maiores consumidores de uísque do mundo. Esse cenário faz com que a atual crise venezuelana não seja só dramática por causa da hiperinflação, pobreza e escassez de alimentos e remédios; problemas ocorridos nos últimos anos, sob o governo de Nicolás Maduro. Mas principalmente, se mostra trágica porque os venezuelanos estavam acostumados a viver com certo conforto e perderam tais condições por pura e simples incompetência e corrupção de seus governantes. Na primeira metade do século 20, a Venezuela já era um dos maiores produtores de petróleo do mundo. Mas o poder de produção estava mediante a administração de empresas estrangeiras, enquanto os governos se ocupavam de seguidas crises políticas. Em 1958, depois da queda do regime militar de Marcos Pérez Jiménez (1914-2001), a Venezuela viveu as três melhores décadas de sua história em termos econômicos. Entre 1959 e 1983, o desemprego no país se manteve na marca de 10%. No mesmo período, o crescimento médio do país foi de 4,3% por ano, a inflação também era menor do que a registrada em outros países da América Latina. A estabilidade da moeda local, o bolívar, permitia que muitos venezuelanos conseguissem sair do país para temporadas de férias, principalmente com destino a Miami, nos Estados Unidos, vista como um paraíso do consumo. Nos anos 70, os venezuelanos tinham o maior poder de compra entre os países América Latina, curiosamente quase três vezes maior que o dos brasileiros, segundo um índice da O.C.D.E – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Esse cenário durou até a década de 1990. Na década de 50, a ditadura de Marcos Pérez Jiménez ficou marcada por uma série de violações de direitos humanos, como tortura e prisões arbitrárias de opositores. Por outro lado, seus apoiadores argumentam que o governo de Jiménez foi responsável por uma série de obras importantes para o desenvolvimento do país, como uma importante rodovia que liga Caracas à costa caribenha, hotéis de luxo e dois prédios que por muitos anos foram os mais altos da América Latina. Os governos democráticos que se seguiram à queda de Jiménez herdaram essa infraestrutura. Por algumas décadas, os presidentes conseguiram manter uma inédita estabilidade econômica e política, além de apaziguar a disputa histórica entre civis e militares, que até então disputaram o poder de forma dura. Nesse período, entre o final da década de 50 e os anos 80, a Venezuela chegou bem perto de resolver um de seus grandes problemas, que envolve a dependência dos preços do petróleo no mercado mundial. Se o preço estivesse alto, o país desfrutava de um bom retorno financeiro, se não, enfrentava dificuldades. Na década de 1970, a Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), formado principalmente por árabes, suspendeu a venda de petróleo para os Estados Unidos e outros países que forneceram ajuda militar a Israel na “Guerra do Yom Kipur”. A decisão beneficiou a Venezuela, que tinha acabado de nacionalizar as empresas de petróleo. O governo de Carlos Andrés Pérez (1922-2010), que por duas vezes governou o país entre 1974 e 1993, combinou as boas relações com os Estados Unidos com o aumento de subsídios para cesta básica e massificação da educação pública. A Venezuela também investiu em cultura, criando importantes teatros, centros culturais, museus e editoras de livros. Os problemas, no entanto, continuaram. Apesar do crescimento econômico e melhorias de infraestrutura, a Venezuela, no fundo, nunca conseguiu resolver seus problemas mais graves. A educação é um deles. Mesmo com duas importantes universidades e a tentativa de massificação do ensino, a educação pública continuou excludente para parte da população mais pobre. Em 1983, o país passou a enfrentar uma crise econômica. A pobreza voltou a crescer exponencialmente depois de três décadas em queda. Outro problema histórico aflorou por meio do aumento da corrupção de políticos e servidores públicos. Os dólares do petróleo que garantiam a estabilidade econômica e política diminuíram. Com isso, aumentou o descontentamento da população com o governo. A crise econômica e, com ela, a queda do poder de compra e o aumento da pobreza levaram os venezuelanos a se sentirem descrentes em relação aos políticos e partidos tradicionais. Esses fatores levaram o país a eleger, em 1998, um militar que prometia mudanças, o tenente-coronel Hugo Chávez. Durante seu governo, país voltou a crescer, impulsionado por uma nova bonança do petróleo. Chávez se tornou o político mais popular da história venezuelana. Ele aproveitou essa chuva dos chamados "petrodólares" para financiar de programas sociais a importações de praticamente tudo que era consumido no país. Hoje, com Nicolás Maduro, sucessor de Chávez, o petróleo ainda domina a economia venezuelana e representa praticamente a totalidade de suas receitas de exportação. Em 2014, no entanto, o preço da matéria-prima desabou e o país entrou em uma severa crise econômica. O preço caiu em parte devido à recusa de Irã e Arábia Saudita, outros dois dos grandes produtores, em assinar um compromisso para reduzir a produção. Outros fatores foram a desaceleração da economia chinesa e o crescimento, nos E.U.A, do mercado de produção de óleo e gás pelo método "fracking" – o “fraturamento” hidráulico de rochas, vulgarmente e erroneamente conhecido como “gás de xisto”. Além de receber menos dinheiro por seu principal produto, a Venezuela também teve uma queda significativa na produção. Quando Chávez assumiu pela primeira vez o país, em 1999, a produção era de mais de 3 milhões de barris por dia. Hoje, é de cerca de 1,5 milhão, segundo a Opep, é o pior nível em 33 anos. Recentemente, os Estados Unidos também impuseram duras sanções à indústria petrolífera do país com o objetivo de pressionar Maduro a renunciar. A crise afetou fortemente a população. Parte dela faz constantes protestos contra Maduro. A fome fez os venezuelanos perderem, em média, 11 quilos no ano de 2018. A violência esvazia as ruas das grandes cidades quando anoitece. E a situação provocou um êxodo em massa para países vizinhos. O país vive a maior recessão de sua história com 12 trimestres seguidos de retração econômica, segundo anunciou em julho a Assembleia Nacional Venezuelana. A dimensão do colapso pode ser vista nos números do Produto Interno Bruto. Entre 2013 e 2017, o PIB venezuelano teve uma queda de 37%. O Fundo Monetário Internacional prevê que, neste ano, caia mais 15%. Estas são as sorumbáticas crônicas de um país que mesmo rico, se faz pobre pela ganância e estupidez de quem o governa.

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