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Celso Pires

A onda de protestos em escala global

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

30/10/2019 12:01h

Nas últimas semanas, o mundo assistiu à escalada de uma onda de protestos indo de Hong Kong ao Chile, passando por Líbano, Equador e outros países. Eles são diferentes, com causas, métodos e objetivos distintos; no entanto existem temas comuns que os conectam. Com milhares de quilômetros de distância, os protestos começaram por razões semelhantes em vários locais, e alguns se inspiraram em outros em relação a como organizar e promover seus objetivos. Muitos dos que protestam são pessoas que há muito tempo se sentem excluídas da riqueza de seu país. Em vários casos, um aumento em preços de serviços básicos foi a “gota d'água”. No Equador, as manifestações começaram quando o governo decidiu eliminar os subsídios a combustíveis para conter o déficit fiscal. As medidas de austeridade foram implementadas pelo presidente Lenín Moreno com apoio do Fundo Monetário Internacional – F.M.I. A mudança levou a um forte aumento nos preços da gasolina, muitos não puderam mais pagar. Os grupos indígenas temiam que a medida resultasse em aumento dos custos de transporte público e da alimentação, e disseram que as comunidades rurais seriam as mais atingidas. Os manifestantes bloquearam estradas, invadiram o Parlamento e entraram em conflito com as forças de segurança, exigindo o fim das medidas de austeridade e o retorno dos subsídios aos combustíveis. Para colocar fim nos protestos, o governo recuou após dias de manifestações. No Chile, foi uma alta nos preços dos transportes que provocou protestos. O governo disse que os custos mais altos de energia e uma moeda mais fraca levaram à decisão de aumentar as tarifas de ônibus e metrô. Os manifestantes, no entanto, disseram que a medida foi mais uma a pressionar a população mais pobre. Quando os manifestantes entraram em conflito com as forças de segurança, o presidente Sebastián Piñera foi fotografado jantando em um restaurante italiano de luxo, um sinal, disseram alguns, do abismo entre a elite política do Chile e as pessoas que estavam nas ruas. O Chile é um dos países mais ricos da América Latina, porém ainda um dos mais desiguais, tendo os piores níveis de igualdade de renda entre os 36 países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, com o mesmo índice do México. Como ocorreu no Equador, o governo do Chile recuou e suspendeu o aumento de preço, em um esforço para reprimir os protestos. No entanto, as manifestações continuaram e cresceram, com queixas mais amplas, não se tratando mais de simples protestos contra o aumento das tarifas de metrô. O Líbano passou por um movimento semelhante. A decisão de aumento de taxações provocou protestos por meio do WhatsApp, que também se tornaram mais amplos e passaram a questões econômicas ligadas a desigualdade e corrupção. Com o aumento do nível de endividamento, o governo vem tentando implementar reformas econômicas para garantir um pacote de ajuda internacional. Entretanto, muitas pessoas dizem que estão sofrendo com as políticas econômicas do país e que a má administração do governo é responsável por seus problemas. Reclamações contra a corrupção do governo estão no centro de vários dos protestos e estão intimamente ligadas à questão da desigualdade. No Líbano, os manifestantes argumentam que, enquanto sofrem uma crise econômica, os líderes do país têm usado suas posições de poder para enriquecer, por meio de propinas e acordos. Depois dos protestos, o governo aprovou um pacote de reformas, incluindo a redução dos salários dos políticos, em um esforço para conter a agitação. No Iraque, manifestantes também pedem o fim de um sistema político que, segundo eles, fracassou. Um dos principais pontos de reclamação é a maneira como as nomeações para o governo são feitas com base em cotas étnicas, em vez de mérito. Os manifestantes argumentam que isso permitiu que os líderes abusassem dos fundos públicos para benefício próprio e de seus seguidores, com muito pouco benefício para a maioria dos cidadãos. Protestos contra suposta corrupção do governo ainda ocorreram no Egito. As manifestações foram motivadas por uma convocação de Mohamed Ali, um empresário egípcio que vive em exílio auto imposto na Espanha, que acusou o presidente Abdel Fattah al-Sisi e os militares de corrupção. As alegações dele de que Sisi e seu governo estão fazendo má administração dos fundos ressoaram entre muitos egípcios, que ficaram cada vez mais descontentes com medidas de austeridade. Em alguns países, os manifestantes estão irritados com os sistemas políticos em que se sentem presos. As manifestações em Hong Kong começaram neste ano devido a um projeto de lei que permitiria a extradição de suspeitos de crimes para a China em determinadas circunstâncias. Hong Kong faz parte da China, mas seu povo desfruta de liberdades especiais e existe um profundo medo de que Pequim queira exercer maior controle sobre o território. Como em outros países, a manifestação popular em Hong Kong levou à retirada da polêmica legislação. No entanto, os protestos continuaram. Entre suas reivindicações, os manifestantes querem agora o sufrágio universal completo, um inquérito independente sobre suposta brutalidade policial e anistia para manifestantes que foram presos. As táticas deles inspiraram ativistas políticos do outro lado do mundo. Centenas de milhares de pessoas se reuniram em Barcelona para protestar contra o encarceramento de líderes separatistas catalães. Manifestantes catalães também distribuíram infográficos feitos em Hong Kong que detalham como os manifestantes podem se proteger dos canhões de água e do gás lacrimogêneo da polícia. Percebe-se claramente que a ordem mundial se encontra em um momento de convulsão, de transformação. Não se sabe bem o que vai se aflorar disso tudo, mas evidencia que uma grande parcela da humanidade está insatisfeita com determinados modelos políticos postos.


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