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Celso Pires

A inédita reunião entre Kim Jong-un e Vladimir Putin

Celso Pires - Advogado

17/05/2019 13:25h

O ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, viajou à Rússia neste início do mês de maio, onde se reuniu pela primeira vez com o presidente russo, Vladimir Putin. O encontro inédito ocorreu poucos meses após o fracasso da conferência entre Kim Jong- un e o presidente dos E.U.A, Donald Trump, em Hanói, no Vietnã, que terminou antes do previsto e sem acordo. O impasse internacional sobre o programa nuclear de Pyongyang (capital norte coreana) está no topo da pauta de reunião. Entretanto, ao que tudo indica Putin e Kim Jong-un buscam uma negociação com expectativas diferentes. O encontro foi realizado na famosa cidade portuária de Vladivostok, a apenas algumas horas da fronteira entre os dois países. Nesta reunião, a maior dúvida que vigora diz respeito a existência de uma significativa influência de Moscou em relação a Coreia do Norte. No passado, a antiga União Soviética era uma forte aliada da Coreia do Norte na segunda metade do século 20, oferecendo cooperação econômica e intercâmbio cultural. Proporcionou ainda aos norte-coreanos seus primeiros conhecimentos sobre energia nuclear. No entanto, desde o colapso da U.R.S.S, a relação entre os dois países se deteriorou. Com os laços ideológicos enfraquecidos, não existia mais razão para o tratamento especial. E como parceira comercial regular, a Coreia do Norte não importava muito para a Rússia, já que era incapaz de pagar os preços praticados no mercado internacional. Todavia, desde o gradual afastamento da Rússia do Ocidente no

início dos anos 2000, o relacionamento entre os antigos aliados começou a ser retomado aos poucos. Moscou passou a apoiar países com base na velha lógica de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. O último encontro bilateral entre a Coreia do Norte e a Rússia aconteceu em 2011, quando o então presidente Dmitry Medvedev conheceu o pai de Kim, Kim Jong-il. A relação entre os dois países faz sentido do ponto de vista geopolítico por compartilharem uma pequena fronteira de 17 km, não muito longe de Vladivostok, onde os atuais líderes se reuniram. Além disso, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores da Rússia, existem ainda cerca de 8 mil imigrantes norte-coreanos trabalhando no país, que enviam valores fundamentais para suas casas. Havendo estimativas ocultas asseverando que esse número seria muito mais alto. Em teoria, sob as atuais sanções da Organização das Nações Unidas – O.N.U., todos esses trabalhadores teriam que ser enviados de volta para a Coreia do Norte. A reunião entre Kim Jong-un e Donald Trump, realizada no final de fevereiro, em Hanói no Vietnã, terminou sem qualquer acordo ou progresso sobre o programa nuclear da Coreia do Norte. Este desfecho não era esperado pelo líder norte-coreano, existia esperança de chegar a um acordo que permitisse flexibilizar as sanções internacionais que estão prejudicando a economia do país. Dentro desse contexto, a Coreia do Norte necessita negociar com todos os países que possam ser úteis para alcançar esse objetivo. Qualquer demonstração, até mesmo uma assistência diplomática simbólica, seria útil para Pyongyang. Provavelmente a intenção de Kim era, com a reunião, obter um certo apoio russo. A estratégia de cortejar outros parceiros se conecta com o anúncio da realização de um novo teste de armas para pressionar Washington a voltar para a mesa de negociações. Pelo lado russo, Putin tem mostrado interesse em encontrar com o ditador norte-coreano há algum tempo. No entanto, o Kremlin foi deixado de lado em meio às duas reuniões entre Kim Jong-un e Donald Trump. Com o fracasso das negociações

entre estes dois atores internacionais, o encontro com Kim Jong-un é uma boa oportunidade para Putin colocar Moscou em cena. Assim como os E.U.A e a China, a Rússia não está confortável com o fato de a Coreia do Norte ser uma nação nuclear que no início dos anos 2000 se retirou do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Todavia, ao contrário de Washington, Moscou quer aceitar o status quo. Como a “desnuclearização” é vista como um objetivo não muito realista, o Kremlin pretende negociar com Pyongyang para estabilizar a situação. A reunião demonstra ainda que a participação da Rússia é uma questão de prestígio e reputação internacional. Independentemente de como se desenrolem as relações entre os E.U.A e a Coreia do Norte, os russos estão

dispostos a aumentar sua esfera de influência na região. Tudo indica que esse encontro não tenha muita utilidade prática em termos de grandes acordos entre os dois países. Além de obter algum reconhecimento internacional e alavancar futuras negociações com Washington, a Coreia do Norte está interessada principalmente em dinheiro. A situação econômica do país é ruim, e Pyongyang quer desesperadamente um relaxamento nas sanções, de modo que o comércio regular possa ser retomado. No entanto, é pouco provável que esse comércio e ajuda venham de Moscou. A sensação

russa continua sendo de que Pyongyang é um país pouco confiável e incontrolável, onde não será investido dinheiro. Sendo que dinheiro é o que a Coreia do Norte mais precisa. A Rússia está sujeita às sanções do Conselho de Segurança da O.N.U. Violar abertamente as sanções impostas só prejudicariam os interesses do Kremlin, que receberia muito pouco em troca. A Coreia do Norte não é um mercado de exportação relevante para a Rússia. E, tampouco, tem produtos úteis para o país. Assim, no final das contas, houveram algumas pequenas promessas de ajuda simbólica, muitas palavras e pouca ação.


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