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Notícias Celso Pires

05 de dezembro de 2019

Michael Bloomberg vs. Donald Trump.

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

As eleições nos E.U.A se acirram com o ingresso do bilionário ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg, que tem como objetivo derrotar Donald Trump nas urnas. Como dito, bilionário, neto de imigrantes, estando entre uma das figuras mais conhecidas na imprensa, política e economia dos E.U.A e agora com o desígnio de reconstruir os Estados Unidos como presidente, em uma pretensa era pós Trump. Por sinal, Bloomberg é bem mais rico do que Trump, sendo na verdade uma antítese desse. Cultivou uma ditosa imagem de empresário, magnata da mídia e filantropo. Bloomberg é o homem com a oitava maior fortuna do mundo, segundo a revista Forbes, tendo entrado agora em novembro nas disputas primárias do Partido Democrata para escolher o candidato da sigla na eleição presidencial de 2020. Afirmou ele: "Me proponho a ser presidente a fim de derrotar Donald Trump e reconstruir os E.U.A. Acredito que meu conjunto único de experiência em negócios, governo e filantropia me permitirá ganhar e liderar". Segundo a imprensa americana, depois de hesitar em participar de campanhas anteriores, Bloomberg decidiu fazê-lo agora por causa do seu temor de que os candidatos democratas com maior apoio até o momento (Joe Biden, Elizabeth Warren e Bernie Sanders) não sejam capazes de vencer o atual presidente. De maneira muito lúcida Bloomberg asseverou "Não podemos permitir mais quatro anos das ações imprudentes e antiéticas do presidente Trump. Ele representa uma ameaça existencial ao nosso país e aos nossos valores. Se ganhar outro mandato, nunca poderemos nos recuperar dos estragos", disse ele em comunicado. A participação de Bloomberg nesta eleição será uma grande revolução na campanha democrata, marcada até agora por candidatos que basearam grande parte de seu discurso no debate sobre a desigualdade de riqueza nos Estados Unidos. Bloomberg, de 77 anos, tem uma fortuna estimada pela Forbes em US$ 54 bilhões (cerca de R$ 228 bilhões), e Trump, de US$ 3 bilhões (ou R$ 13 bilhões). Segundo um estudo da organização não governamental britânica Oxfam, baseado em dados do banco Credit Suisse referentes a 2015, os oito homens mais ricos do mundo possuíam tanta riqueza quanto as 3,6 bilhões de pessoas que compõem a metade mais pobre do planeta. No início de novembro, quando a possibilidade da candidatura de Bloomberg começou a ser comentada, Trump afirmou que "não havia mais ninguém que preferisse enfrentar do que o pequeno Michael". A campanha do democrata já separou mais de US$ 30 milhões (quase R$ 127 milhões) em anúncios na televisão, considerada a maior compra de publicidade política na história das eleições primárias do país. Bloomberg ainda anunciou que sua campanha será paga com seu próprio dinheiro, algo que Trump prometeu no início de sua campanha nas primárias republicanas e não cumpriu. Bloomberg, nascido em 1942, na cidade de Boston, Massachusetts, cresceu em uma família judia vinda da região atualmente de Bielorrússia. Estudou engenharia elétrica na Universidade Johns Hopkins e depois fez um mestrado em administração de empresas na Universidade Harvard que marcaria o resto de sua vida e sua fortuna. Depois de se formar, seu primeiro trabalho foi em Wall Street, tendo ingressado no banco de investimentos Salomon Brothers, onde era responsável pelo comércio de ações e, posteriormente, pelo desenvolvimento de sistemas. No entanto, em 1981, o banco foi comprado e Bloomberg foi demitido, iniciando e fundando assim suas atividades no conglomerado de mídia que leva seu nome. Mas, retornando a campanha, sua entrada na disputa pelo posto de candidato democrata em 2020 gerou desconforto entre alguns colegas de partido, como os senadores Elizabeth Warren e Bernie Sanders. Para eles, trata-se de outro bilionário que busca usar sua fortuna para ganhar votos e fechar negócios no Salão Oval. Apesar que, o histórico de Bloomberg o legitima como sendo completamente diferente de Trump. Sua entrada na disputa oferece principalmente um meio de direcionar para o centro o Partido Democrata que se via em um caminho arriscado para a esquerda. Enfim, se existe alguém que poderia reafirmar os valores americanos e afastar Donald Trump da presidência, esse alguém é Michael Bloomberg.

28 de novembro de 2019

A inquietação Americana com o avanço da China.

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

Existe expectativas crescentes em Washington e Pequim de que um acordo para ajudar a resolver a guerra comercial entre E.U.A e China possa ser feito em breve. No entanto, o comércio não é apenas a única rivalidade entre as duas superpotências; perpassando muitos outros setores, tais quais a economia, defesa, cultura e tecnologia. Tentar afirmar onde vai chegar tal competitividade mútua não é algo fácil. As tensões entre os dois países são muito mais profundas do que apenas o comércio, e a resolução do conflito somente em torno desse acordo comercial não fará muita diferença por si só. A realidade é que houve uma mudança negativa articulada em relação à China nos Estados Unidos da América nos últimos anos, sendo que existem muitas razões para esse aumento nas tensões. Os americanos reclamam que a China nunca teve em vista seguir as regras comerciais então postas na sociedade internacional. Afirmam que os chineses querer ingressar em fóruns multilaterais para começar a mudar a forma como os fóruns multinacionais regulam o comércio global. Em outras palavras, a China se une com a intenção de mudar a realidade a que se agrega, e não de mudar a si, flexibilizando ou cedendo em determinados termos. A escalada comercial planetária da China teve como resultado uma vasta onda de perdas de empregos e fechamento de fábricas nos E.U.A. Os chamados "Estados do cinturão da ferrugem" (onde as indústrias americanas estão concentradas) que votaram no presidente Trump em 2016 foram os que mais sofreram com a ascensão chinesa. Muitas empresas americanas transferiram a produção para a China para se beneficiar de custos trabalhistas mais baixos, mas essas empresas pagaram um alto preço por essa mudança, pois a China as obrigou a entregar sua tecnologia e propriedade intelectual. E mesmo as empresas que não realocaram a produção descobriram que a China de alguma forma se apossou de seus segredos comerciais. As agências policiais nos E.U.A têm uma longa lista de acusações contra indivíduos e empresas chinesas por espionagem comercial e invasão por hackers. O F.B.I. informou recentemente ao Congresso dos E.U.A que existem atualmente pelo menos mil investigações em andamento sobre o roubo de propriedade intelectual de empresas americanas que envolvem a China. O governo dos E.U.A estimou que o valor total da propriedade intelectual roubada pela China nos quatro anos até 2017 em US$ 1,2 bilhão. Muitos especialistas asseguram que essa é a principal razão pela qual as relações entre os E.U.A e a China desandaram. Assim que as empresas americanas descobriram suas patentes sendo desfeitas, seus produtos com engenharia reversa, seus processos de pesquisa e desenvolvimento sendo invadidos, mais e mais dessas empresas concluíram que a parceria com a China não estava se mostrando lucrativa e na verdade poderia realmente está sendo totalmente negativa. A partir dessa percepção, quem anteriormente defendia o envolvimento com a China agora se mostrava alarmado ao ver a rapidez com que o gigante asiático estava se aproximando e principalmente, por meios altamente questionáveis. Neste momento existe um movimento que se distancia da “guerra contra o terror” e, em vez disso, enfoca a competição entre as principais potências como a maior ameaça aos Estados Unidos da América. O departamento de defesa dos E.U.A agora acredita que enfrentar a ascensão da China é um dos principais objetivos militares dos Estados Unidos nas próximas décadas. A velocidade com que a China construiu e depois militarizou uma série de ilhas artificiais no Mar da China Meridional, desafiando o direito internacional, tem alarmado especialmente os americanos. A China tem sido muito evidente em suas ambições de liderar o mundo nas importantes tecnologias do futuro, como robótica e Inteligência Artificial. Os chineses obtendo sucesso nessas áreas, provavelmente superarão os Estados Unidos como a principal potência do mundo. A supremacia militar dos E.U.A não se baseia em um enorme exército permanente, mas em sistemas de armas de alta tecnologia. Se a China liderar essas tecnologias cruciais, talvez os americanos não consigam os acompanhar por muito tempo. A China não apenas aperfeiçoa tecnologias para vigilância e censura doméstica, contudo exporta cada vez mais essas tecnologias, além de fazer inúmeros investimentos no exterior. Portanto, não se espera que a posição dos E.U.A sobre a China mude no curto prazo, mesmo que Donald Trump perca as próximas eleições. A ascensão chinesa associada a uma ideologia de repressão é algo preocupante para a sociedade internacional.

21 de novembro de 2019

O início das audiências para o impeachment de Trump

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

A primeira audiência pública do processo de impeachment de Donald Trump, realizada agora em novembro, poderia ter sido relativamente trivial para quem acompanhou a cobertura no último mês dos depoimentos a portas fechadas de uma série de funcionários do atual governo e do governo anterior. A cobertura da mídia americana tem sido completa (CNN, NPR, FOX, NBC etc.) e não tem deixado passar nada; entretanto, surgiu uma novidade em meio a monotonia da audiência. o embaixador dos Estados Unidos em exercício na Ucrânia, Bill Taylor, fez uma revelação que pode complicar a situação de Donald Trump.

Trump é acusado de ter pressionado a Ucrânia a investigar seu rival político Joe Biden, principal pré-candidato democrata na corrida para as eleições de 2020, em troca de apoio militar ao país. O presidente nega, no entanto, as acusações, afirmando se tratar de uma "caça às bruxas". Taylor revelou na audiência pública que um de seus assessores estava com o embaixador americano para a União Europeia, Gordon Sondland, enquanto ele conversava por telefone com Trump após uma reunião com os ucranianos no dia 26 de julho — um dia depois do controverso telefonema entre Trump e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, no qual o americano teria feito pressão para abrir as investigações, o que motivou o pedido de impeachment. Segundo Taylor, seu assessor ouviu Trump perguntar sobre "as investigações" — e Sondland respondeu que a Ucrânia estava pronta para seguir em frente. Sondland teria dito ao assessor de Taylor que o presidente americano se importava mais com a investigação de Biden do que com qualquer outra coisa envolvendo a Ucrânia. Esse telefonema tem o potencial de representar uma grande reviravolta no processo de impeachment contra Trump. Houve consideráveis relatos sobre a interação de Sondland com os ucranianos, e o próprio embaixador afirmou em depoimento ter dito às autoridades ucranianas em 1º de setembro que presumia que a ajuda militar dos E.U.A provavelmente seria retida até o início das investigações. Durante a audiência pública, Taylor falou sobre como Sondland contou a ele que o presidente americano, como sendo um empresário, queria receber o que "deviam a ele" antes de "assinar o cheque" e que haveria um "impasse" se a Ucrânia não agisse — o que Taylor interpretou no sentido de a ajuda militar não ser retomada sem a abertura das investigações. Embora ainda haja relatos da relação direta de Sondland com o presidente, não existe evidências ligando Trump diretamente à suposta troca de favores. Todavia, o telefonema que Taylor descreveu pode mudar esse cenário. No meio da audiência pública, o Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes anunciou que agendou um depoimento a portas fechadas de uma nova testemunha: um assessor de Taylor chamado David Holmes — supostamente o assessor que Taylor mencionou quando fez referência ao telefonema. E, agora no final de novembro, o próprio Sondland vai depor durante as audiências públicas. Embora o embaixador não tenha mencionado o telefonema com o presidente em seu depoimento original a portas fechadas, vale lembrar que ele já precisou retificar seu depoimento uma vez para incluir que havia lembrado de ter discutido com autoridades ucranianas sobre ajuda militar. Os democratas podem estar esperando que ele faça isso de novo. Se Sondland ou Holmes validarem o depoimento de Taylor, isso pode minar a defesa do presidente americano, que sugere que Trump não estava diretamente envolvido nas atividades do "canal não oficial", como Taylor chama, com o governo da Ucrânia, que estaria pressionando o país a investigar Biden. Trump, quando perguntado sobre seu relacionamento com Sondland, afirmou: "Eu mal conheço esse senhor". No entanto, se Donald Trump recebeu de fato ligações diretas do embaixador após as reuniões com a Ucrânia, essa declaração parece menos convincente. Independentemente de ter sido por acaso ou programado, o primeiro dia das audiências públicas do processo de impeachment ganhou as manchetes dos jornais e criou uma linha de investigação e especulação política. Após essa grande revelação, os democratas têm motivos para ficar contentes, enquanto a equipe de Trump ganhou mais uma grande preocupação

13 de novembro de 2019

Trump retira os E.U.A do Acordo de Paris

Confira o texto publicado pelo colunista Welson Oliveira no Jornal O Dia.

A exatamente um ano de enfrentar a disputa eleitoral que poderá reconduzi-lo à Casa Branca ou retirá-lo da presidência, Donald Trump cumpriu uma promessa de campanha e notificou a Organização das Nações Unidas – O.N.U. sobre a retirada dos Estados Unidos do Acordo do Clima de Paris. O envio da carta de saída, divulgada pelo secretário de Estado Mike Pompeo, via Twitter, foi confirmado pela O.N.U. O Acordo de Paris foi aprovado em 2015 por 195 países e tem como objetivo central impedir que a temperatura média no mundo aumente mais do que 2 graus celsius, o que levaria a sucessivas catástrofes ambientais que poderiam acarretar a extinção da humanidade. Para isso, o acordo prevê que os países signatários devem atingir metas de redução de emissões de CO2, eliminado na atmosfera especialmente pela queima de combustíveis fósseis e madeira, e responsável pelo aquecimento global. Para se ajustar às demandas do acordo, os países teriam que modificar as bases de sua produção industrial, de modo a torná-la mais sustentável. Trump afirmou em 2017 que, ao fazer esse tipo de exigência, o acordo seria desvantajoso para os interesses da economia americana, porque levaria ao fechamento de fábricas e à perda de postos de trabalho na indústria carvoeira dos E.U.A, um segmento que Trump prometeu incentivar. Além disso, na percepção tacanha do mandatário americano, os termos do pacto feririam a soberania dos Estados Unidos sobre seu próprio território. Pompeo retomou esses argumentos ao anunciar a saída do pacto no dia 04 de novembro. Embora fosse uma promessa antiga, o anúncio da retirada acontece em um momento oportuno para Trump, que enfrenta tempos de fragilidade política desde que o Congresso iniciou um processo de impeachment contra ele, há pouco mais de um mês. Faz uma semana passada, a Câmara dos Representantes decidiu seguir publicamente com a tomada de depoimentos na investigação contra Trump. As transcrições dos testemunhos do ex-embaixador na Ucrânia Kurt Volken e do embaixador na União Europeia Gordon Sondland se tornaram públicas. Ambas trouxeram elementos comprometedores contra Trump no episódio em que ele pediu ao presidente da Ucrânia uma investigação contra um dos pré-candidatos democratas, Joe Biden, em troca da liberação de recursos de ajuda militar ao país. Trump tenta retirar o foco de si e colocar na questão ambiental, em razão dessa ser extremamente polarizada nos Estados Unidos. Um anúncio como esse agora é uma maneira de manter a base unida, uma estratégia para desviar a atenção do processo de impeachment. Os Estados Unidos emitem cerca de 15% do dióxido de carbono liberado na atmosfera atualmente. Trump afirmou no passado que poderia tentar renegociar uma nova entrada dos E.U.A no Acordo de Paris no futuro, com termos que, segundo ele, fossem mais justos com o povo americano. Na prática, no entanto, essa decisão dependerá de quem ganhar a presidência em 2020. Embora o simbolismo da decisão de Trump em retirar os E.U.A do acordo do clima seja grande, especialistas ponderam que os efeitos da decisão sobre o esforço global de reduzir as emissões é limitado. Muitos asseveram que mesmo o governo federal dos E.U.A deixando de tomar medidas para evitar o aquecimento global, ainda assim os Estados Unidos devem ser capazes de cumprir em quase 70% a meta de redução de liberação do CO2 estabelecida para o país pelo acordo de Paris. Isso porque, indo ao encontro à decisão de Trump, mais de uma dezena de Estados americanos, liderados pela Califórnia, estão fortemente empenhados em implementar políticas locais ainda mais restritivas ao CO2 do que as preconizadas pelo Acordo de Paris. O acordo do clima leva em conta e dá força às iniciativas subnacionais, estaduais. Não é só o governo federal que importa. E os estados americanos têm sido bem-sucedidos em contrariar Donald Trump. A retirada do Acordo de Paris é apenas mais uma das medidas tomadas na agenda ambiental de Trump, pois internamente, ele tenta enfraquecer as iniciativas limpas. No caso mais recente, Trump diminuiu as exigências federais de eficiência energética dos carros movidos a combustível fóssil, contra o interesse da própria indústria automobilística, já equipada para produzir motores menos poluentes. Na prática, Trump autorizou os carros a poluírem mais e entrou na Justiça contra a Califórnia, cujas normas são mais rígidas, para impedir que a administração estadual possa atuar de modo independente ao governo federal. Uma pesquisa publicada no periódico científico Science mostrou que, sob Trump, as terras federais americanas sofreram a maior devastação da história. O presidente defende desregulação da exploração dessas áreas, para aquecer a economia. Em setembro deste ano, o jornal New York Times contabilizou 85 regras ambientais que foram flexibilizadas ou enfraquecidas pela atual gestão, em três anos.

07 de novembro de 2019

A formalização do impeachment de Trump: o que acontece agora?

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

A Câmara dos Representantes – o equivalente à nossa Câmara dos Deputados – dos E.U.A, de maioria democrata, aprovou no dia 31 de outubro uma resolução para formalizar o prosseguimento do processo de impeachment contra o presidente Donald Trump. A resolução, aprovada por 232 votos a 196, não é um voto em torno do impeachment em si — apenas detalha como o inquérito de impeachment passará, agora, para uma fase pública de investigação a respeito de se Trump tentou ou não pressionar a Ucrânia para que o país investigasse seu rival político Joe Biden, de forma a influenciar as eleições presidenciais americanas do ano que vem. Trump nega as acusações, negando ter barganhado tal investigação com a Ucrânia e chamando o processo de impeachment de "caça às bruxas". Ainda assim, essa votação inicial de formalização do impeachment foi o primeiro teste formal de apoio para o impedimento de Trump e mostrou que os democratas têm força suficiente na Câmara para avançar com acusações formais contra o presidente, caso acreditem ter provas suficientes para tal. Os votos seguiram as linhas partidárias: a maioria dos democratas votou a favor de avançar o processo de impeachment, e a maioria dos republicanos votou contra. Agora, no início do mês de novembro, os democratas da Câmara divulgaram um documento de oito páginas definindo um processo em duas etapas para a nova fase do inquérito de impeachment. Na primeira etapa, o Comitê de Inteligência da Câmara deverá continuar sua investigação e realizar interrogatórios públicos, ainda com o direito de tornar públicas as transcrições de depoimentos colhidos em privado. Na segunda etapa, se as provas contra Trump forem consideradas robustas o bastante, o Comitê Judiciário da Câmara ficará encarregado de redigir acusações formais — os chamados "artigos de impeachment" — contra o presidente, que terão de ser colocadas em votação para todos os legisladores. Se essa eventual votação resultar na aprovação do impeachment, o processo segue para o Senado, que (ao contrário da Câmara) é de maioria republicana. Os advogados de Trump poderão participar da segunda fase do processo, no Comitê Judiciário. Os republicanos presentes nos comitês terão poder para juntar documentos e intimar testemunhas relacionados ao processo, no entanto estarão sujeitos a veto, uma vez que ambos os comitês são controlados por uma maioria democrata. Cerca de dez testemunhas ouvidas pela Câmara até agora afirmaram ter havido um esforço por Trump e aliados para "pressionar a Ucrânia" de forma a obter informações que eventualmente prejudicassem Joe Biden e, por consequência, debilitassem sua candidatura em 2020. O processo de impeachment tem como foco central um telefonema ocorrido 25 de julho entre Trump e Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, no qual o americano pede investigações a respeito de Biden e seu filho, Hunter. O telefonema foi alvo da queixa de um delator e chegou à imprensa. Em meio as investigações, Tim Morrison, principal especialista em Rússia do Conselho de Segurança da Casa Branca, testemunhou perante o Congresso, em sessão privada. Segundo outras testemunhas, Morrison (que pedira demissão na véspera da audiência) tem conhecimento em primeira mão da tentativa da Casa Branca em congelar US$ 391 milhões em ajuda militar à Ucrânia — supostamente para pressionar os ucranianos — e teria ouvido ao vivo o telefonema entre Trump e Zelensky. Trump nega, porém, que tenha condicionado a liberação dessa ajuda militar para a Ucrânia à investigação. Um futuro depoimento aguardado agora é o do famoso e beligerante John Bolton, ex-conselheiro de Trump para Segurança Nacional. Ele deporá na primeira quinzena de novembro, junto com dois advogados da Casa Branca. Bolton, segundo testemunhas, teria veementemente discordado das táticas de Trump na negociação com a Ucrânia e do envolvimento do ex-prefeito de Nova Iorque e advogado pessoal do presidente, Rudolph Giuliani, nas conversas com a liderança ucraniana. Com o avançar de toda essa fase processual poderá se descortinar um melhor entendimento da viabilidade ou não do impeachment de Trump.

30 de outubro de 2019

A onda de protestos em escala global

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

Nas últimas semanas, o mundo assistiu à escalada de uma onda de protestos indo de Hong Kong ao Chile, passando por Líbano, Equador e outros países. Eles são diferentes, com causas, métodos e objetivos distintos; no entanto existem temas comuns que os conectam. Com milhares de quilômetros de distância, os protestos começaram por razões semelhantes em vários locais, e alguns se inspiraram em outros em relação a como organizar e promover seus objetivos. Muitos dos que protestam são pessoas que há muito tempo se sentem excluídas da riqueza de seu país. Em vários casos, um aumento em preços de serviços básicos foi a “gota d'água”. No Equador, as manifestações começaram quando o governo decidiu eliminar os subsídios a combustíveis para conter o déficit fiscal. As medidas de austeridade foram implementadas pelo presidente Lenín Moreno com apoio do Fundo Monetário Internacional – F.M.I. A mudança levou a um forte aumento nos preços da gasolina, muitos não puderam mais pagar. Os grupos indígenas temiam que a medida resultasse em aumento dos custos de transporte público e da alimentação, e disseram que as comunidades rurais seriam as mais atingidas. Os manifestantes bloquearam estradas, invadiram o Parlamento e entraram em conflito com as forças de segurança, exigindo o fim das medidas de austeridade e o retorno dos subsídios aos combustíveis. Para colocar fim nos protestos, o governo recuou após dias de manifestações. No Chile, foi uma alta nos preços dos transportes que provocou protestos. O governo disse que os custos mais altos de energia e uma moeda mais fraca levaram à decisão de aumentar as tarifas de ônibus e metrô. Os manifestantes, no entanto, disseram que a medida foi mais uma a pressionar a população mais pobre. Quando os manifestantes entraram em conflito com as forças de segurança, o presidente Sebastián Piñera foi fotografado jantando em um restaurante italiano de luxo, um sinal, disseram alguns, do abismo entre a elite política do Chile e as pessoas que estavam nas ruas. O Chile é um dos países mais ricos da América Latina, porém ainda um dos mais desiguais, tendo os piores níveis de igualdade de renda entre os 36 países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, com o mesmo índice do México. Como ocorreu no Equador, o governo do Chile recuou e suspendeu o aumento de preço, em um esforço para reprimir os protestos. No entanto, as manifestações continuaram e cresceram, com queixas mais amplas, não se tratando mais de simples protestos contra o aumento das tarifas de metrô. O Líbano passou por um movimento semelhante. A decisão de aumento de taxações provocou protestos por meio do WhatsApp, que também se tornaram mais amplos e passaram a questões econômicas ligadas a desigualdade e corrupção. Com o aumento do nível de endividamento, o governo vem tentando implementar reformas econômicas para garantir um pacote de ajuda internacional. Entretanto, muitas pessoas dizem que estão sofrendo com as políticas econômicas do país e que a má administração do governo é responsável por seus problemas. Reclamações contra a corrupção do governo estão no centro de vários dos protestos e estão intimamente ligadas à questão da desigualdade. No Líbano, os manifestantes argumentam que, enquanto sofrem uma crise econômica, os líderes do país têm usado suas posições de poder para enriquecer, por meio de propinas e acordos. Depois dos protestos, o governo aprovou um pacote de reformas, incluindo a redução dos salários dos políticos, em um esforço para conter a agitação. No Iraque, manifestantes também pedem o fim de um sistema político que, segundo eles, fracassou. Um dos principais pontos de reclamação é a maneira como as nomeações para o governo são feitas com base em cotas étnicas, em vez de mérito. Os manifestantes argumentam que isso permitiu que os líderes abusassem dos fundos públicos para benefício próprio e de seus seguidores, com muito pouco benefício para a maioria dos cidadãos. Protestos contra suposta corrupção do governo ainda ocorreram no Egito. As manifestações foram motivadas por uma convocação de Mohamed Ali, um empresário egípcio que vive em exílio auto imposto na Espanha, que acusou o presidente Abdel Fattah al-Sisi e os militares de corrupção. As alegações dele de que Sisi e seu governo estão fazendo má administração dos fundos ressoaram entre muitos egípcios, que ficaram cada vez mais descontentes com medidas de austeridade. Em alguns países, os manifestantes estão irritados com os sistemas políticos em que se sentem presos. As manifestações em Hong Kong começaram neste ano devido a um projeto de lei que permitiria a extradição de suspeitos de crimes para a China em determinadas circunstâncias. Hong Kong faz parte da China, mas seu povo desfruta de liberdades especiais e existe um profundo medo de que Pequim queira exercer maior controle sobre o território. Como em outros países, a manifestação popular em Hong Kong levou à retirada da polêmica legislação. No entanto, os protestos continuaram. Entre suas reivindicações, os manifestantes querem agora o sufrágio universal completo, um inquérito independente sobre suposta brutalidade policial e anistia para manifestantes que foram presos. As táticas deles inspiraram ativistas políticos do outro lado do mundo. Centenas de milhares de pessoas se reuniram em Barcelona para protestar contra o encarceramento de líderes separatistas catalães. Manifestantes catalães também distribuíram infográficos feitos em Hong Kong que detalham como os manifestantes podem se proteger dos canhões de água e do gás lacrimogêneo da polícia. Percebe-se claramente que a ordem mundial se encontra em um momento de convulsão, de transformação. Não se sabe bem o que vai se aflorar disso tudo, mas evidencia que uma grande parcela da humanidade está insatisfeita com determinados modelos políticos postos.

18 de outubro de 2019

Quais são os países com as maiores reservas de petróleo do mundo?

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

O petróleo continua a ser a principal fonte de energia do mundo em que vivemos. E, até que as energias renováveis sejam capazes de substituir o chamado “ouro negro”, seguiremos dependentes dele. Em 2018, consumimos mais petróleo do que em qualquer outro ano da história. Segundo dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo – O.P.E.P., foram 98,82 milhões de barris por dia e a tendência é que isso continue a aumentar até atingir 100,23 milhões de barris por dia neste ano de 2019. Diante desta sua relevância como matéria-prima, a venda de petróleo e produtos derivados são uma peça fundamental da política externa e comercial no mundo. Por isso, os Estados que têm em seu subsolo esse valioso bem desfrutam de uma fonte de renda e recursos que, no entanto, nem sempre se traduz em bonança e igualdade econômicas. Dentre os países com as maiores reservas, a Venezuela apesar da pobreza que se encontra, pasme, é o país com as maiores reservas do mundo, com 300,9 bilhões de barris, de acordo com dados da C.I.A, a agência de inteligência dos Estados Unidos. O segundo é a Arábia Saudita, com 266,5 bilhões de barris. O Canadá fica em terceiro, com 169,7 bilhões de barris. O Brasil aparece em 15º no ranking, com 12,7 bilhões de barris. O custo da produção é algo bastante complexo dentro da cadeia petrolífera e por isso, ter petróleo nem sempre é sinônimo de riqueza. Um dos exemplos mais claros é a própria Venezuela, que enfrenta uma crise econômica que fez com que até 3,4 milhões de venezuelanos abandonassem o país, segundo dados da Organização das Nações Unidas – O.N.U. As razões por trás do caso venezuelano são várias e muito diversas, e a quantidade das reservas de petróleo é apenas um fator entre os que determinam se a exploração é realmente lucrativa. Um país com grandes reservas nem sempre consegue extrair e vender todo o petróleo que potencialmente teria acesso. Na Venezuela, a geologia não facilitou esse trabalho. A maioria do seu petróleo é do tipo “pesado”, e esta alta densidade torna mais difícil e cara sua extração, porque é preciso usar dissolvente para que o material possa circular. Além disso, após as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, a Venezuela não pode comercializar o que produz tão facilmente, porque sua rede de compradores se reduziu consideravelmente. O Canadá é outro exemplo de país com grandes reservas e um custo de extração elevado, porque seu petróleo também é majoritariamente “pesado”, ou seja, como dito, de alta densidade. Outros países enfrentam diferentes tipos de restrições, como altos tributos, no caso de Brasil e Estados Unidos da América. Tudo isso eleva o custo de produção. Extrair um barril no Brasil custa quase quatro vezes mais do que na Arábia Saudita, por exemplo, onde a maior parte do petróleo é líquido e mais fácil de comercializar. Se o custo de produção de um barril é de menos de US$ 9 dólares (R$ 34,6 reais) para os sauditas, segundo dados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo – O.P.E.P., na Venezuela e no Brasil esse custo sobe para US$ 27,62 dólares (R$ 106,3 reais) e US$ 34,99 dólares (R$134,70 reais) respectivamente.

10 de outubro de 2019

Trump resistirá ao impeachment?

Se, historicamente o impeachment nunca deu certo, resta a dúvida em saber o porquê de os democratas estarem levando o pedido adiante.

O pedido de impeachment aberto pelos democratas no dia 24 de setembro pode, em última instância, resultar na remoção de Donald Trump da Presidência dos E.U.A. Entretanto, se trata de um processo político bastante difícil, particularmente com as divisões políticas atualmente presente em Washington. Procedimento tão complexo que nunca foi bem-sucedido, pois os E.U.A. nunca tiveram um impeachment presidencial. Nancy Pelosi, democrata que preside a Câmara dos Representantes, até agora vinha resistindo a apoiar iniciativas de impeachment, possivelmente porque a iniciativa poderia colocar em risco tanto as campanhas eleitorais de democratas moderados que vão disputar as eleições de 2020 quanto a própria maioria democrata na Casa. Se, historicamente o impeachment nunca deu certo, podendo inclusive ocasionar fortes efeitos colaterais sobre os próprios democratas, resta a dúvida em saber o porquê de os democratas estarem levando o pedido adiante. Possivelmente o maior ímpeto para alguns membros do Congresso seja a manutenção do Estado de Direito, embasado na ideia de que ninguém está acima da lei, incluindo o presidente. Não ocorrendo uma reação do Congresso, se abriria a oportunidade para Trump ou futuros presidentes terem liberdade para violar a Constituição Americana. Foi essa a justificativa que a democrata Nancy Pelosi usou ao anunciar a abertura do inquérito de impeachment contra Trump, dizendo que "ninguém está acima da lei" e que o presidente teria "quebrado seu juramento presidencial e violado a Constituição". A forte crença nesses princípios pode ser a motivação do pedido de impeachment, mesmo que o processo fracasse. Histórico de polêmicas e lamúrias contra Trump começaram pouco depois de ele assumir o poder. A perspectiva de um impeachment circula desde os primeiros dias da Presidência de Trump, onde casos como o da investigação a respeito da interferência russa na eleição de 2016 elevaram os clamores por uma ação do Congresso Americano. E a atual polêmica em torno do telefonema de Trump ao presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, fez essa pressão aumentar. O caso da Ucrânia, com a possibilidade de que Trump tenha usado seus poderes presidenciais para pressionar um governo estrangeiro a fabricar informações negativas sobre um rival político, acabou levando a essa determinação democrata em contemplar uma abertura inequívoca em direção ao impeachment. Contudo, para além do princípio de que ninguém está acima da lei, existem possíveis motivações políticas. Pois, os democratas ambicionam atordoar a agenda política de Trump ou distrair sua campanha de reeleição para 2020. Não existe dúvidas de que os trâmites de impeachment podem ter efeito na Presidência. Os anos finais do governo Clinton, depois de seu processo de impeachment em 1998, foram totalmente dominados pelo tema. Atualmente, seu governo é lembrado primeiramente pelo escândalo sexual envolvendo Monica Lewinsky, cujos desdobramentos se estenderam por muitas décadas. Trump que já começou sua campanha de reeleição, tendo lançado sua candidatura em um evento para milhares de pessoas em Orlando, Flórida, em 18 de junho deste ano. O processo de impeachment pode acabar ocupando as atenções de Trump, criando obstáculos para seus planos de reeleição. Os Democratas creem que a opinião pública pode pesar contra Trump, mesmo que o impeachment não seja aprovado pelo Senado, o processo pode ter um considerável efeito na apreciação do público. Uma pesquisa de opinião do “YouGov” aponta que 55% dos americanos apoiaria o impeachment se for confirmado que Trump suspendeu ajuda militar à Ucrânia para forçar autoridades do país a investigar Joe Biden, que lidera a corrida democrata rumo à campanha de 2020. Neste contexto, se mostra factível que novas revelações gerem um desconforto de tal grandeza que dificultem a permanência de Trump no cargo, sendo que existe um precedente histórico para essa situação. A história nos traz o exemplo de “Watergate”, nos anos 1970, onde o presidente Richard Nixon, no início do processo de impeachment, quando do início das audiências no Congresso, apenas 19% da população opinava que ele precisaria deixar o poder, ou seja, que deveria sofrer impeachment. No entanto, à medida que emergiram mais informações sobre o que Nixon sabia em conexão com o escândalo de Watergate, essa proporção cresceu. Ao fim do processo, quando ele acabou renunciando para evitar o impeachment, esse número foi para 57%, uma grande maioria em favor do impeachment. O resumo de toda essa conjuntura política está balizado em termos onde por mais que seja complexo a possibilidade de afastamento de Donald Trump, a probabilidade de seu banimento não é uma impossibilidade completa.

03 de outubro de 2019

O processo de impeachment contra Donald Trump

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

O aviso do início de um inquérito formal de impeachment contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, feito no dia 24 de setembro pela presidente da Câmara dos Representantes, equivalente à Câmara dos Deputados, marca a abertura de um longo processo raras vezes usado na história do país. Apenas três presidentes foram submetidos ao processo de impeachment nos Estados Unidos da América. Os democratas Andrew Johnson, em 1868, e Bill Clinton, em 1998, que sofreram impeachment em votação na Câmara, entretanto foram absolvidos pelo Senado e o republicano Richard Nixon, no famoso escândalo de “Watergate”, tendo ele renunciado em meio ao processo, antes da votação da Câmara, em 1974. O anúncio feito pela democrata Nancy Pelosi adveio depois de muita pressão de algumas alas do Partido Democrata, e foi motivado pela acusação de que Trump teria tentado pressionar o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, a investigar o filho do ex-vice-presidente Joe Biden. Biden lidera as pesquisas de intenção de voto nas prévias eleitorais do Partido Democrata para a eleição presidencial em 2020 e, caso seja escolhido como candidato do partido, irá enfrentar Trump nas urnas. A abertura do processo não significa que a Câmara, onde os democratas são maioria, vai decidir votar pelo impeachment de Trump. De todo modo, mesmo o processo avançando, o Senado é dominado pelo Partido Republicano, reduzindo assim as chances de Trump ser condenado em um eventual julgamento na Casa. Dentre os 100 senadores, existem 53 republicanos, 45 democratas e 2 independentes. Nos Estados Unidos, o impeachment é a aprovação de uma acusação formal contra o presidente ou outra autoridade acusada de cometer um crime. Conforme a Constituição americana, essa responsabilidade cabe à Câmara dos Representantes. A Constituição diz que o presidente pode ser removido do cargo se for condenado por "traição, suborno ou outros altos crimes e contravenções", no entanto não detalha que crimes são esses. Historicamente, costumam ser crimes em que há abuso de poder ou obstrução de Justiça. Incumbe à Câmara decidir se vota pela aprovação do impeachment, ou seja, da acusação formal contra o presidente, todavia a Constituição não especifica quais os passos necessários até chegar a essa decisão. O comum é que haja inicialmente a aprovação de uma resolução autorizando a Comissão Judiciária da Casa a realizar investigações. Foi esta comissão que realizou investigações nos casos de Nixon e Clinton, antes da votação no plenário. Em seu anúncio, Pelosi não evidenciou os termos a serem seguidos pelo procedimento. Atualmente, seis comissões da Câmara já investigam Trump em razão de outras acusações não relacionadas ao caso com a Ucrânia. Durante seu processo investigativo, a Comissão Judiciária pode realizar audiências, analisar documentos e ouvir testemunhas para determinar se as acusações são passíveis de impeachment. Ao final dessa investigação, se chegar à conclusão de que há evidências fortes de crime, a comissão pode decidir recomendar que o plenário da Câmara aprove o impeachment contra o presidente. Na votação em plenário, é necessária maioria simples para aprovação. Ou seja, caso todos os 435 membros da Câmara votem, são necessários 218 votos. Hoje, existem 235 deputados democratas, 1 independente e 199 republicanos na Casa. Caso o impeachment seja aprovado pela Câmara, o presidente é submetido a um julgamento pelo Senado. Esse processo é comandado pelo presidente da Suprema Corte, a mais alta instância da Justiça americana. O presidente tem direito a advogados de defesa, e um grupo de deputados da Câmara dos Representantes atua como a Promotoria. O julgamento pode levar meses. Ao final, os senadores votam pela condenação ou absolvição do presidente. Para a condenação, são necessários os votos de pelo menos dois terços dos senadores. Caso isso ocorra com Trump, ele deixa o cargo e, em seu lugar, assume o vice-presidente, que atualmente é Mike Pence. O ápice dos questionáveis posicionamentos de Trump que conduziram ao movimento do Partido Democrata para a abertura do impeachment foi uma ligação telefônica em julho deste ano entre Donald Trump e o presidente recém-eleito da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Na conversa, Trump pediu que seu interlocutor ucraniano investigasse Joe Biden e seu filho Hunter Biden, integrante do conselho de uma empresa de gás ucraniana. Joe Biden é um político filiado ao partido Democrata, já foi senador e vice-presidente, durante o governo do presidente Barack Obama, atualmente concorre à indicação do partido para se tornar candidato às eleições presidenciais do próximo ano. Em troca, Trump teria prometeu "algum benefício" ao líder ucraniano, possivelmente ajuda militar americana ao país. Toda essa situação veio à tona por meio de um informante do setor de inteligência, cuja identidade não foi revelada. Nos E.U.A, essa figura jurídica (whistleblower) pode ser um funcionário público ou privado que decide denunciar formalmente supostas irregularidades, como fraudes, desvios éticos e riscos à saúde pública. Para incentivar as denúncias, esses informantes são protegidos por lei contra eventuais retaliações, a exemplo de demissões ou transferências. Outro ponto importante da crise é que o governo Trump estaria tentando impedir que a denúncia do informante fosse entregue ao Congresso, apesar de membros do setor de inteligência a terem classificado como "urgente" depois de avaliarem se a denúncia tinha credibilidade. De acordo com a imprensa americana, o telefonema entre Trump e Zelensky é apenas um dos pontos presentes na denúncia do informante. A presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, afirmou que Trump "violou seriamente a Constituição". Para Pelosi, Trump traiu seu juramento presidencial, a segurança nacional americana e a integridade das eleições de 2020. A conversa, segundo os democratas, expõe uma incitação à interferência estrangeira nas eleições de 2020. Agora resta aguardar o andamento do processo.

12 de setembro de 2019

O fim do prazo para o “Brexit”

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

Parte dos parlamentares britânicos vai correr contra o tempo nestes meses de setembro e outubro, considerada por muitos como a última chance de interferir nos rumos do “Brexit” – o processo de saída do Reino Unido da União Europeia. No final do mês de agosto acabou o recesso parlamentar e os parlamentares voltariam a Westminster, mas o premiê Boris Johnson suspendeu as atividades do Parlamento entre os dias 9 e 12 de setembro, pouco antes do fim do prazo para o Reino Unido deixar a União Europeia, marcado para 31 de outubro. O pedido de suspensão, oficialmente chamado de "prorrogação", já foi aprovado pela rainha da Inglaterra, Elizabeth 2ª. A manobra de Johnson, na prática, reduziu o tempo hábil que os parlamentares teriam para aprovar leis que impeçam o chamado "Brexit sem acordo", que é a saída da União Europeia sem nenhum arcabouço legal de como ficaria a relação entre as duas partes em temas como imigração, comércio e trânsito de pessoas e bens. Partidos da oposição britânica emitiram comunicado acusando Boris Johnson de suspender o Parlamento com o único objetivo de impedir que os parlamentares discutam uma alternativa ao “Brexit sem acordo”. Já Johnson defende que a suspensão evita ter que esperar o “Brexit” para seguir adiante com seus planos para o país e que mesmo com a "prorrogação" será possível debater o “Brexit” na Casa. A União Europeia acompanha atentamente os desdobramentos, que impactarão negócios e livre circulação de cidadãos com o Reino Unido, além de encorajar ou não a dissidência de outros países do bloco europeu. Um “Brexit sem acordo” faria com que o Reino Unido deixasse a U.E., em 31 de outubro, sem nenhuma definição de como será esse processo de retirada. Ou seja, abruptamente os britânicos deixariam o mercado comum europeu e a união aduaneira, algo que causará insegurança e prejuízos econômicos, segundo muitos políticos e empresários. A ex-premiê britânica Theresa May tentou, sem sucesso, fazer com que o Parlamento aprovasse sua proposta de acordo com a U.E., motivo pelo qual ela acabou renunciando. Boris Johnson, por sua vez, já entrou no cargo defendendo que o “Brexit” não seja mais adiado para além de 31 de outubro, mesmo que sem acordo com os europeus. Apesar do pouco tempo de atividade parlamentar antes da suspensão, os legisladores ainda têm algumas opções para impedir um “Brexit sem acordo”. Os parlamentares podem tentar assumir o controle da agenda para aprovar leis que eventualmente forcem Johnson a pedir uma extensão ao prazo final do “Brexit”. Outra opção seria remover, novamente, o atual governo por meio de uma moção de desconfiança. Se a maioria dos parlamentares votar contra o governo, os passos seguintes previstos em lei são: o premiê terá 14 dias consecutivos para atestar que ainda consegue manter a confiança do Parlamento; nesse período, se outro parlamentar provar que tem o apoio da maioria de seus colegas, espera-se que o premiê abdique do cargo; se nenhum novo governo for formado dentro desses 14 dias, convoca-se uma nova eleição geral. O processo leva ao menos cinco semanas. Enquanto isso, formar-se-ia um governo temporário de unidade nacional, cujo objetivo seria pedir uma extensão de prazo para a U.E. e organizar eleições. Destacando que tal iniciativa requereria uma enorme cooperação entre os partidos, algo que não é visto no Reino Unido desde a época da Segunda Guerra Mundial. Não está claro o que aconteceria se Boris Johnson perdesse o voto de confiança dos colegas ao mesmo tempo em que o Parlamento está em suspensão. O que se sabe, nessa hipótese, é que certamente aumentaria a pressão sobre o governo para adiar a suspensão parlamentar. Ainda se levanta a hipótese de desafiar na Justiça o pedido de Johnson, acatado pela rainha, de suspender o Parlamento. Não é possível, sob a lei britânica, acionar judicialmente a rainha por sua decisão, mas sim questionar legalmente os argumentos que a levaram a tomar essa decisão, ou seja, pedir que a Justiça reavaliasse o pedido do governo pela prorrogação. Uma alternativa mais drástica seria cancelar o “Brexit”, abrindo um novo plebiscito de consulta à população britânica. No entanto, não parece que haverá tempo e apoio suficiente de parlamentares, para fazer com que isso aconteça antes de o próprio “Brexit” se tornar realidade, em 31 de outubro.

05 de setembro de 2019

O “furacão atômico” de Trump.

Trump teria indagado a vários assessores a respeito da ideia de usar bombas para impedir a formação de furacões

A utilização de bombas nucleares para impedir a formação de furacões, definitivamente não é uma boa ideia... Foi o que afirmou a agência do governo dos Estados Unidos da América para os oceanos e a atmosfera, N.O.A.A. – National Oceanic and Atmospheric Administration. A agência americana precisou formalizar essa declaração depois de vários meios de comunicações norte-americanos noticiarem que o presidente Donald Trump haveria ponderado e solicitado que essa opção fosse avaliada em relação ao furacão “Dorian” que se aproximava do Estado da Flórida. Segundo sites de notícias americanos, Trump teria indagado a vários assessores da área de segurança nacional a respeito desta possibilidade. A agência N.O.A.A., foi categórica em afirmar que os resultados seriam "devastadores". Em seguida a disseminação da polêmica notícia, Trump negou ter cogitado este contexto radical de cunho nuclear. Furacões são um problema antigo nas terras do “Tio Sam”, costumando afetar a costa leste dos Estados Unidos da América, frequentemente com resultados devastadores. Nos termos da controvérsia atual envolvendo Trump, teria ele perguntado por que os E.U.A não poderiam simplesmente jogar uma bomba atômica no olho de um furacão para tentar desfazê-lo antes que atingisse a costa americana. Tendo afirmado a agência N.O.A.A., que o uso de armas nucleares contra um furacão poderia não ter qualquer efeito sobre a tempestade. Além disso, poderia causar uma precipitação radioativa que seria rapidamente carregada pelos ventos até o continente. O problema de usar explosivos para desfazer os furacões, disse a agência, é a quantidade de energia necessária. A liberação de energia de um furacão é equivalente à de uma bomba nuclear de 10 megatons explodindo a cada 20 minutos. Para efeito de comparação, uma bomba de 10 megatons é 476 vezes mais poderosa que o artefato "Fat Man", usado pelos E.U.A para atacar a cidade de Nagasaki em agosto de 1945. Preventivamente, avançar contra ondas tropicais fracas ou depressões antes que elas tenham a chance de se transformar em furacões ainda não seria promissor, conforme orientação da N.O.A.A., pois cerca de 80 desses distúrbios meteorológicos se formam por ano na bacia do Atlântico, mas apenas cerca de cinco se tornam furacões em um ano típico. Não há como saber com antecedência quais deles irão se desenvolver. Historicamente, em quase 20 anos, os E.U.A explodiram 31 ogivas em 27 testes nucleares, a intenção era saber se o arsenal atômico dos Estados Unidos poderia ser usado para escavar canais ou minas, ou criar um porto para navios. Entretanto, nunca uma ogiva nuclear foi jogada no “olho” de um furacão, apesar da ideia existir a bastante tempo. À medida que os perigos da radiação se tornaram mais claros, esse pensamento foi abandonado, sem mencionar que os atuais tratados internacionais proibiriam os E.U.A de explodirem uma arma nuclear em um furacão. Diversas outras ideias extravagantes, para se dizer o mínimo, foram lançadas nos últimos anos; incluindo um evento no Facebook pedindo aos donos de armas dos E.U.A para "abaterem" o furacão Irma em 2017 com balas e lança-chamas. O evento atraiu, pasmem, a inscrição de 55 mil pessoas. A temporada de furacões do Atlântico vai de 1º de junho até o final de novembro. O pico da temporada acontece em setembro, quando a temperatura do mar é mais alta. A agência N.O.A.A. alertou que as condições este ano estão mais favoráveis do que o normal para a formação de furacões. Prevê-se entre 10 e 17 tempestades grandes, das quais de 5 a 9 se tornarão furacões, entre eles, de 2 a 4 furacões de grande porte. Quatro tempestades grandes se formaram até agora neste ano de 2019. Elas foram batizadas pelos nomes de Andrea, Barry, Chantal e Dorian, seguindo a ordem alfabética. Aos que se encontram no caminho desses furacões, resta se preparar e respeitar, acima de tudo, os seus poderes de destruição. Dentro desse contexto, evidencia-se a convicção de que as complexidades da natureza são bem maiores e mais caóticas do que imagina a simplória beligerância humana.

29 de agosto de 2019

As novas regras para deportação de imigrantes ilegais nos E.U.A.

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

O governo dos Estados Unidos da América anunciou um novo processo de deportação rápida, que contornará a necessidade de os casos relacionados com imigrantes passarem pelos tribunais de imigração. Com as novas regras, qualquer imigrante que não consiga provar que esteve no país por dois anos ininterruptos pode ser deportado de forma imediata. Até agora, só poderiam ser deportados de forma rápida aqueles que fossem detidos a até 160 km da fronteira e que estivessem no país há menos de duas semanas. Imigrantes encontrados no resto do país ou que demonstrassem ter estado por mais de duas semanas nos Estados Unidos eram encaminhados a tribunais para julgar a deportação, com direito a um advogado para auxiliar no caso. Segundo o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, a nova regra estabelece que uma pessoa pode ser deportada imediatamente, independentemente da distância da fronteira e sem a designação de um representante legal. A mudança tem potencial de atingir cerca de 300 mil pessoas, segundo estimativa do Migration Policy Institute. Alvo de críticas de organizações não governamentais e ativistas, a medida deve se tornar alvo de disputa nos tribunais americanos. A O.N.G American Civil Liberties Union afirmou que pretende levar o caso à Justiça. O grupo critica o endurecimento da política de migração do governo de Donald Trump, particularmente as condições nos centros de detenção na fronteira com o México. Curiosamente, com essa nossa legislação de Trump, os imigrantes que moram no país há anos terão menos proteção do que se estivessem envolvidos em julgamentos de infrações de trânsito. Especialistas em legislação afirmam que a presença ilegal nos Estados Unidos da América não é um crime na maioria dos casos. No entanto, é uma infração administrativa que coloca a pessoa em risco de ser deportada, sendo um processo que leva muito tempo. Entretanto, com tais regras mais duras contra imigrantes, esses processos se aceleram sumariamente. Para analistas políticos, o presidente americano, Donald Trump, indica que transformará a política de imigração em um eixo central da campanha eleitoral de 2020. Membros do governo americano ainda falam que um dos principais objetivos é desencorajar outras famílias a migrar ilegalmente para os Estados Unidos. Estima-se que existam atualmente cerca de 10,5 milhões deles nos Estados Unidos, a maioria oriunda de El Salvador, Guatemala e Honduras. Ao longo de seu mandato, Trump anunciou e implementou diversas medidas para endurecer o combate e as regras contra imigrantes ilegais, como a detenção das crianças que cruzaram a fronteira em centros afastados de seus pais ou responsáveis. No entanto, seu governo tem enfrentado uma série de dificuldades para dar seguimento ou implementar tais diretivas, como a tal construção de um muro na fronteira com o México. Outra ação recém divulgada foi uma grande operação para prender milhares de estrangeiros sem documentos com o objetivo de expulsá-los do país. Contudo, segundo o jornal The New York Times, a ação surtiu menos efeito do que o esperado. Dos 2.000 imigrantes ilegais que eram alvos das operações do Serviço de Imigração e Controle Alfandegário dos E.U.A, apenas 35 foram detidos. Neste ano, o país registrou um aumento recorde de detenções de imigrantes ilegais na fronteira, sobretudo de famílias com filhos. Como consequência, as instalações de detenção ao longo da fronteira estão operando acima da capacidade e foram alvo de denúncias de superlotação e negligência. O governo americano afirma que no mês de junho foram detidos 104.344 imigrantes que cruzaram a fronteira sem documentos, número 28% menor do que o registrado em maio, que foi de 144.728, mês com mais prisões dessa natureza em 13 anos e o terceiro consecutivo a passar de 100 mil detenções. Nos últimos dez anos, houve um recuo das pessoas detidas tentando entrar ilegalmente em território americano pelo México, mas durante o governo de Trump voltaram a subir. No ano de 2017, foram 303.900, e no período seguinte, a partir de outubro de 2018, a Patrulha de Fronteira dos E.U.A disse ter feito 593.507 detenções na fronteira sul. Toda essa conjuntura é claramente insustentável, mas até agora nada de efetivo e sistemático tem sido pensando para tentar minorar as consequências nefastas para milhares de vidas que, em muitos casos, não possuem opções.

22 de agosto de 2019

O interminável conflito entre E.U.A e Irã

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

Aparentemente, um avião de reconhecimento não tripulado dos Estados Unidos foi derrubado por mísseis iranianos. Em seguida, o presidente americano, Donald Trump, confirmou que ordenou e depois abortou, um ataque de retaliação ao país do Oriente Médio, tendo mudado de ideia 10 minutos antes do bombardeio. A sequência de eventos forneceu um vislumbre sobre a possibilidade de um conflito entre os dois países. Entretanto, resta a dúvida do que teria acontecido se Trump não tivesse mudado de ideia. É provável que os primeiros ataques americanos teriam alcance limitado, visando mísseis ou radares iranianos, associados ou similares aos que abateram o drone norte-americano.

O ataque teria sido acompanhado por uma intensa advertência diplomática ao Irã de que se trataria de uma ação limitada, servindo apenas como retaliação à perda da aeronave americana. Segundo relatos, Trump ainda teria oferecido uma espécie de trégua. De acordo com informações da imprensa, os Estados Unidos de fato enviaram uma mensagem para Teerã, com pedido de negociações. Todavia, em meio a confabulações e hipóteses ainda restaria a dúvida em relação ao que teria acontecido. Ainda especulando, o próximo passo provavelmente seria dado pelo Irã. De fato, o país teria respondido à mensagem do E.U.A no mesmo dia. Segundo a agência de notícias Reuters, uma fonte não informada teria afirmado que o país não estava interessado em negociações e deu um aviso nos termos que qualquer ataque contra o Irã teria consequências regionais e internacionais. Saber como se daria este conflito é o mais complicado, pois existem muitas variáveis a serem consideradas. Provavelmente o mais fácil seria dizer o que não aconteceria. A administração Trump pode ser um inimigo implacável do regime iraniano, no entanto dificilmente iria promover uma invasão terrestre do Irã em larga escala para derrubar o regime. O país não é o Iraque de Saddam Hussein. O Irã é um desafio mais complexo, tanto militar quanto politicamente. Qualquer ataque iraniano a navios ou aeronaves dos E.U.A quase certamente seria rebatido por um contra-ataque dos americanos. As instalações navais iranianas, as bases aéreas, e assim por diante, seriam atingidas por bombardeios lançados de aviões e de navios. O foco, em parte, seria o chamado “Corpo da Guarda Revolucionária”, cujo braço naval sempre tem desempenhado um papel importante nos eventos relacionados a defesa do Irã. Obviamente, os Estados Unidos podem realizar ataques contra a infraestrutura militar do Irã. No entanto, o Irã também tem meios de se defender. O país pode usar uma variedade de arsenais, atingindo pequenos barcos ou submarinos para interromper as operações nas águas do Golfo de Omã. Petroleiros poderiam ser atacados, forçando os americanos a tomarem medidas para protegê-los. Os E.U.A visivelmente têm uma vantagem extraordinária na coleta de informações e na análise da situação. Todavia, como no caso da queda do drone sofisticado corrobora o fato que ainda existem vulnerabilidades significativas. O Irã intenta danificar ou afundar alguns navios de guerra americanos a ponto de tornar-se o preço desse conflito tão alto que Trump poderia desistir de avançar no conflito. Qualquer guerra seria caracterizada por esse aspecto assimétrico. Sugerindo uma guerra dos fracos contra os fortes, dois lados com objetivos muito diferentes e métricas muito diferentes para o sucesso. Se uma guerra começar, os Estados Unidos vão tentar atacar as forças armadas do Irã, inicialmente derrubando as defesas aéreas iranianas e assim por diante. Sob pressão, o Irã ainda poderia tentar espalhar o conflito de forma mais ampla, exortando aliados no Iraque, na Síria ou em outros lugares a atacar alvos americanos. De forma mais extrema, poderia até tentar convencer o Hezbollah, em conjunto com suas próprias forças na Síria, a lançar ataques com foguetes contra Israel. O objetivo seria demonstrar a Trump que uma campanha bélica e punitiva de curta duração, na verdade, poderia incendiar toda a região. O Irã ainda pode estar perseguindo sua própria versão de alto risco de uma política de mudança de regime no governo americano. O país pode ver a atual administração de Trump como agressiva, mas igualmente indecisa e sem apoio de seus principais aliados ocidentais. Ao atrair os americanos para um conflito dispendioso e aberto, a liderança iraniana pode acreditar ser capaz de suportar a guerra, ao mesmo tempo em que prejudicam as chances de Trump na próxima corrida presidencial, em 2020. Uma guerra com o Irã seria de fato cara e imprevisível. Não resolveria o problema do programa nuclear nem a crescente proeminência iraniana na região. 

15 de agosto de 2019

Boris “Trump” Johnson?

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires na edição desta quinta-feira (15) no Jornal O Dia.

O cabelo muito loiro, penteado de maneira curiosa, as gafes, as frases polêmicas, o estilo que destoa dos políticos tradicionais e o nacionalismo são algumas das características usadas para descrever este líder. Poder-se-ia estar falando do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mas trata-se do novo primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, que assumiu a chefia de governo do país e a liderança do Partido Conservador. As semelhanças entre os dois governantes já rendem a Johnson o apelido de "Trump do Reino Unido" ou "Trump britânico". "Ele é um homem bom, é duro e é inteligente. Eles o chamam de Trump do Reino Unido. Isso é uma coisa boa. Eles gostam de mim lá. É o que eles queriam, é o que eles precisam. Boris vai fazer um bom trabalho", disse Donald Trump, após a vitória de Johnson ser anunciada na disputa pela liderança do Partido Conservador. A comparação de Boris Johnson com Trump não é estimulada só pelo presidente americano. A oposição no Reino Unido também se utiliza dela, mas para atacar o premiê. Durante a primeira participação de Johnson em uma sessão do Parlamento, o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, destacou que o novo primeiro-ministro é conhecido como "Trump britânico". "As pessoas temem que, longe de tomar de volta o controle sobre os rumos do nosso país, o primeiro-ministro nos torne um Estado vassalo da América de Trump", disse. Especialistas concordam em afirmar que a semelhança mais observável entre Boris e Trump ocorre justamente no estilo populista de oferecer soluções simples para problemas complexos. Assemelhando na dimensão da retórica, ao utilizarem argumentos que não se sustentam cientificamente para promover propostas abstratas que carecem de detalhes. Para difundir propostas sem ter de respaldá-las com dados que comprovem eficácia, os dois líderes se utilizam, da evocação ao nacionalismo. No caso de Boris Johnson, a principal agenda é o “Brexit”, a saída do Reino Unido da União Europeia. O atual primeiro-ministro foi um dos líderes da campanha pelo “Brexit” no plebiscito realizado em 2016. Apostando em ideias nacionalistas, de resgate da soberania e de retorno a um império global, o premiê aposta numa ruptura radical com a União Europeia apesar de o Banco da Inglaterra (equivalente ao Banco Central brasileiro) apontar para o risco de o Reino Unido entrar numa recessão pior que a provocada pela crise financeira internacional de 2008. Visivelmente tanto Boris Johnson quanto Donald Trump partilham da vontade em abalar o sistema internacional posto, utilizando ambos da forte retórica nacionalista. Boris Johnson quer um “Brexit” radical e Trump tem focado nos interesses dos Estados Unidos em acordos comerciais com a União Europeia e na imigração. Usam claramente a mesma estratégia de fomentar uma base eleitoral nacionalista em busca de apoio para seus objetivos. Boris Johnson se posta como irreverente, tem um aspecto físico até parecido com Trump e é conhecido por frases polêmicas. Contudo, diferentemente do presidente americano, ele não é uma figura de fora da política tradicional. Foi parlamentar, prefeito de Londres, ministro de Relações Exteriores e ocupou postos de destaque no partido político mais tradicional do Reino Unido. Apesar das semelhanças, existem intensas diferenças entre Boris Johnson e Donald Trump, principalmente no que diz respeito a questões de costume e direitos sociais. O novo premiê britânico é defensor de amplos direitos reprodutivos para as mulheres (o aborto é liberado no Reino Unido), do respeito aos direitos LGBT e de medidas ambiciosas no combate ao aquecimento global. Como prefeito de Londres, ficou conhecido por estimular o transporte limpo na cidade, com ampliação de ciclovias e estímulo para que bicicletas passassem a ser distribuídas para aluguel em todos os pontos da capital britânica. Boris Johnson também não é acostumado a ataques diretos à imprensa, diferentemente de Donald Trump. Apesar das opiniões de Boris sobre o “Brexit”, nacionalismo e populismo, em outras áreas ele é bastante progressista. Seu gabinete plural inclui ingleses de origem indiana, paquistanesa e mulheres. As semelhanças entre Boris Johnson e Donald Trump não podem geram um automático paralelismo das formas em todas as nuances ideológicas da vida de cada um. Não obstante aos pontos de convergência aguardemos o desenrolar desse novo governo que se inicia.

08 de agosto de 2019

Nacionalismo e Intolerância nos E.U.A.

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires na edição desta quinta-feira (8) no Jornal O Dia.

Os Estados Unidos registraram dois ataques envolvendo atiradores em um espaço temporal de apenas 24 horas. O primeiro tiroteio aconteceu em uma loja da rede Wal-Mart em El Paso, Texas e foi seguido por outro tiroteio em frente a um bar na cidade de Dayton, Ohio. Juntos, os dois incidentes deixaram ao menos 29 mortes, e dezenas de outros feridos. Estes terríveis incidentes acontecem menos de uma semana depois do tiroteio em um festival gastronômico na Califórnia, quando três pessoas perderam a vida. No caso de El Paso, onde ao menos 26 pessoas ficaram feridas, o ataque aconteceu em uma loja do Wal-Mart próxima ao shopping Cielo Vista Mall, a poucos quilômetros da fronteira entre os E.U.A e o México. A polícia local e o F.B.I investigam se o tiroteio está relacionado a um "manifesto" nacionalista branco que foi compartilhado em um fórum online, e que teria sido escrito pelo atirador. O texto afirma que o alvo do atentado era a comunidade hispânica. Segundo as informações das autoridades sobre o tiroteio na cidade de Dayton, Estado do Oregon, os disparos teriam acontecido na rua, em frente a um bar. Policiais mataram o atirador no local. No caso do atentado da cidade de El Paso, o atirador de 21 anos de idade está preso, sendo que os policiais não precisaram disparar nenhum tiro para prendê-lo. O grande questionamento em momentos como esse é se a indignação com os atos de violência vai catalisar alguma espécie de resposta política, como aconteceu no Reino Unido após o massacre em uma escola em Dunblane, na Escócia, ou na Austrália depois dos assassinatos em Port Arthur ou, mais recentemente, na Nova Zelândia, em sequência aos ataques a tiros a mesquitas em Christchurch. Entre os ativistas americanos por um maior controle de armas existe certa resignação quando uma nova tragédia ganha as manchetes. A ideia é que, se a opinião pública não exerceu pressão suficiente em 2012, no episódio do massacre em Newtown, quando 26 pessoas, incluindo 20 crianças, foram mortas em uma escola em Connecticut, dificilmente o fará desta vez.  Entretanto, algumas particularidades do momento atual podem fazer com que os ataques em El Paso, Texas, e em Dayton, Ohio, tenham um desfecho diferente. As causas apontadas para os ataques a tiros mais recentes nos E.U.A são várias. Vão de “juventude rebelde” nos casos envolvendo escolas em Parkland, na Flórida, e em Santa Fe, no Texas, a distúrbios mentais, no episódio do ataque a um jornal em Annapolis, Maryland. De frustrações ligadas ao trabalho no caso do massacre em Virginia Beach, a brigas familiares, apontada como possível motivação para o massacre em uma igreja em Sutherland Springs, no Texas. O mais mortal desses incidentes, o tiroteio em uma casa noturna em Las Vegas em 2017, que deixou 58 mortos, ainda não tem uma motivação clara. No caso deste fim de semana, entretanto, todas as evidências indicam que o massacre em El Paso foi uma ação premeditada e alimentada pela retórica do nacionalismo branco que tem ganhado cada vez mais destaque na política americana. Nesse sentido, se aproximando tanto ao ataque a tiros em uma sinagoga em Pittsburgh no último mês de outubro de 2018, que provocou discussões sobre o aumento do antissemitismo nos E.U.A, quanto aos episódios de violência em uma marcha de supremacistas brancos em Charlottesville em 2017. Ainda que a autoria do manifesto racista postado na internet pouco antes dos ataques e atribuída ao suspeito de ser o atirador, ainda tenha que ser confirmada, alguns fatos importantes sobre o caso devem ser levados em consideração. O atirador não realizou o ataque em sua cidade natal, mas dirigiu por oito horas, do norte do Estado do Texas à cidade que está a poucos quilômetros da fronteira com o México, e abriu fogo em uma área sabidamente frequentada por hispânicos. Por essa razão, as autoridades locais estão caracterizando o caso como um episódio de "terrorismo doméstico". Isso coloca o incidente no centro do atual debate nos E.U.A sobre imigração, segurança de fronteiras e identidade nacional. Os americanos costumavam se perguntar o que levavam jovens em outras partes do mundo a se envolverem em atos de violência política contra inocentes. Agora veem o fenômeno acontecer no próprio país. A natureza do ataque em El Paso pode desencadear uma reflexão sobre a ameaça doméstica representada por grupos nacionalistas brancos e sobre caminhos para frear o avanço desses movimentos, incluindo medidas de controle de venda e compra e de posse e porte de armas. Desta vez, além de manifestações de políticos do Partido Democrata, vozes mais conservadoras também protagonizaram as críticas. Senador pelo Texas, Ted Cruz, que concorreu contra Trump nas prévias republicanas das eleições presidenciais de 2016, condenou a intolerância contra os hispânicos. O comissário do “Escritório Geral de Terras do Texas”, George P. Bush, filho do então pré-candidato republicano à presidência em 2016 Jeb Bush, neto do ex-Presidente George Bush e sobrinho do ex-Presidente George W. Bush, publicou uma declaração afirmando que os chamados "terroristas brancos" são uma ameaça real. A comoção com os massacres deste fim de semana e a ligação que muitos dos políticos de oposição fizeram entre os episódios e o comportamento beligerante do presidente Trump, devem trazer o tema da regulamentação das armas de volta aos holofotes, assim como a discussão sobre medidas para evitar que novas tragédias aconteçam. Logo após o massacre em uma escola em Newtown em 2012, o Congresso estudou instituir uma série de medidas para endurecer o controle de armas do país, entre elas a ampliação da checagem de antecedentes criminais dos compradores de armas. Apesar de a medida ter sido apoiada pelos partidos Democrata e Republicano no Senado, uma minoria conseguiu bloquear a tramitação por meio de procedimentos regimentais. O texto não chegou nem a ser apreciado pela Câmara de Deputados, então controlada pelos republicanos. Depois do ataque a tiros em uma escola em Parkland, na Flórida, Trump demonstrou maior inclinação para apoiar uma legislação de maior controle a armas, declarando inclusive ser a favor de uma checagem de antecedentes criminais detalhada. Apesar de Trump ter tuitado condenando o ataque em El Paso como um "ato odioso", ele será pressionado para ir além e se manifestar sobre o nacionalismo branco. O fato de democratas o estarem acusando de contribuir com um ambiente retórico que encoraja atos de violência, pode terminar por desincentivar Trump a tomar medidas mais concretas. Trump poderia ver algo nesse sentido como uma possível admissão de culpa. Nesse caso, a situação atual poderia acabar como uma espécie de reprise da resposta presidencial à violência protagonizada em Charlottesville em 2017 por supremacistas brancos, onde após condenar as ações de simpatizantes do neonazismo, Trump declarou em uma coletiva de imprensa que a culpa era "dos dois lados". Quanto mais pré-candidatos democratas a corrida presidencial de 2020 acusarem Trump, maior a probabilidade de que ele conteste e fomente um ambiente infértil para uma solução a este tão grave problema.