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Notícias Celso Pires

02 de abril de 2020

A postura da humanidade ante a pandemia do coronavírus

A crise do coronavírus esvaziou cada uma das capitais ocidentais geralmente lotadas, exceto precisamente Estocolmo.

Debates existem em relação a melhor conduta a ser tomada em relação a pandemia do coronavírus. Por exemplo, a atitude que vem tomando a Suécia em combater a pandemia protegendo economia e liberdades individuais vêm chamando atenção do mundo, principalmente em razão do seu risco. A crise do coronavírus esvaziou cada uma das capitais ocidentais geralmente lotadas, exceto precisamente Estocolmo. Embora seja impossível sentar-se em um restaurante em cidades como Roma, Paris, Londres ou Madri, os estabelecimentos de alimentação na capital sueca continuam a operar e receber clientes. Escolas para jovens com menos de 16 anos, academias, lojas e até algumas estações de esqui movimentadas ainda estão abertas. Sendo que as únicas medidas que o governo do país escandinavo adotou em face da pandemia da covid-19 foi proibir aglomerações públicas de mais de 50 pessoas, fechar instituições de ensino superior e recomendar que os trabalhadores trabalhem em casa, acaso consigam. Pari passu, o número de pessoas infectadas com o coronavírus na Suécia permanece aumentando. Segundo a contagem da Universidade Johns Hopkins, a Suécia confirmou 4.435 mil casos e 180 mortes até 31 de março, quando escrevo este artigo. Conforme o governo sueco, a estratégia é inibir a propagação do vírus, proteger grupos vulneráveis e não sobrecarregar o sistema de saúde, mas ao mesmo tempo reduzir as consequências econômicas e proteger as indústrias com diferentes pacotes de estímulos econômicos. Entretanto, uma apreciação comparada dentro da União Europeia demonstra que na Espanha e na Itália existem poucas pessoas que se arrependem de não ter agido mais severamente antes. No entanto, tomado por um julgamento mais analítico e racional, o Governo da Suécia, na pessoa de sua vice-Ministra da Saúde explicou que o país europeu está comprometido em implementar "as ações certas no momento certo" e que suas políticas para enfrentar a epidemia são baseadas na ciência. Especialistas, no entanto, afirmam que a Suécia está tomando uma decisão bastante arriscada. Pois estão colocando mais em risco a saúde de sua população do que outros governos que impuseram restrições mais severas à liberdade de movimentação. Todavia, não restam dúvidas de que por outro lado, tal orientação arrisca menos, em termos financeiros, a população sueca. Um governo que não quiser correr riscos, pode simplesmente confinar toda a sua população e implementar restrições de viagem para conter a pandemia, como fizeram países como Itália e Espanha, mas tais medidas têm enormes custos econômicos. Aumento das taxas de desemprego e empresas falidas são, em grande parte, o resultado de políticas de confinamento. Se isso permitir que o vírus pare e que o país se abra mais cedo, o custo pode valer a pena. No entanto, é importante resolver tanto os problemas econômicos, quanto os de saúde. Caso contrário, iremos enfrentar uma depressão econômica que conduzirá a sociedade internacional globalizada a uma obscura era de falências, colapso, fome e retrocesso.  O coronavírus vem causando um grande transtorno na economia global e, mesmo que determinados países venham a sofrer menos com a pandemia, suas economias são afetadas em razão da globalização e da alta exposição das economias mundiais ao comércio internacional. Retornando a Suécia, enquanto a indústria do turismo está completamente paralisada tem semanas em toda a Europa Ocidental, as suas movimentadas estações de esqui permanecem totalmente operacionais e abertas ao público. O debate na Suécia e em outros países nórdicos sobre qual é a abordagem apropriada para enfrentar a crise do coronavírus continua intenso. Os suecos têm uma visão mais liberal do que seus vizinhos dinamarqueses e noruegueses. No entanto, no momento, não está claro qual modelo é mais eficaz. Ao que tudo indica, nas próximas semanas existirá uma grande discussão entre os países escandinavos sobre a maneira como diferentes países lidam com a pandemia. De fato, devemos aprender com os erros e acertos dos vários países que foram e estão sendo o epicentro desta pandemia, convencidos de que essa terrível situação de exceção passará. Fundamentalmente, vamos nos convencer que somos mais fortes unidos, nas palavras do pensador Yuval Harari: “o verdadeiro antídoto para epidemias não é a segregação, mas a cooperação”. A pandemia tem exposto nossa fragilidade e igualdade, mostrando que a sua propagação em qualquer país põe em risco toda a humanidade. Cabe a nós trilharmos a solidariedade como caminho de agora em diante, confiando na ciência e na cooperação internacional na busca por uma resposta conectada em nível global. A desunião do planeta, fruto da xenofobia, isolacionismo e desconfiança gera um grave risco a espécie humana. Usemos essa pandemia para aprendermos e renascermos ainda mais fortes, convictos que podemos estar separados fisicamente, mas conectados espiritualmente.

26 de março de 2020

Pandemia e desinformação no Irã.

O vice-ministro da Saúde do iraniano foi diagnosticado com covid-19 em meio ao surto que já matou 15 pessoas no país.

Um dia depois de Iraj Harirchi aparecer suando muito em uma coletiva de imprensa televisionada, um porta-voz da pasta da saúde confirmou que ele estava contaminado com o novo coronavírus e que fora submetido a quarentena. Diante do episódio, o presidente iraniano, Hassan Rouhani, pediu que à população que não entrasse em pânico. Rouhani sustentou uma postura positiva no sentido de superação ao vírus. Desde a segunda quinzena de fevereiro, foram notificados 95 casos no Irã, no entanto acredita-se que o número seja bem maior. A Organização Mundial de Saúde – O.M.S. afirmou ser "profundamente preocupante" o aumento dos casos de pessoas contaminadas no país. O diretor regional da Organização das Nações Unidas – O.N.U. tinha uma viagem marcada para o Irã, mas resolveu adiar o compromisso. Um porta-voz da O.M.S asseverou que a organização está definindo uma data para a visita de uma missão técnica ao país. Confirmou ainda o envio de suprimentos médicos e kits para diagnosticar a doença. Existe mais de 80 mil casos confirmados de covid-19 no mundo, com 2,7 mil mortes, sendo a grande maioria na China. Durante a coletiva de imprensa, Harirchi rebateu acusações feitas por um membro do parlamento proveniente de Qom, considerado epicentro do surto no país, de que as autoridades estariam tentando esconder a real dimensão da contaminação no Irã. Ahmad Amirabadi-Farahani afirmou que a covid-19 teria chegado à cidade havia três semanas e que havia feito 50 vítimas apenas no local. O vice-ministro da Saúde negou que o número estivesse correto e disse que renunciaria se ficasse comprovado que pelo menos metade daquele total tivesse morrido por causa da doença em Qom. Amirabadi-Farahani disse posteriormente ter mandado ao vice-ministro uma lista de 40 pessoas que teriam falecido e afirmou que aguardava seu pedido de demissão. O secretário do Conselho Nacional de Segurança, Ali Shamkhani, declarou ter pedido ao procurador-geral para checar a veracidade das alegações do membro do parlamento. O grande problema dessa situação em torno do coronavírus é que tanto espalhar fake news quanto esconder a verdade pode perturbar a segurança nacional e prejudicar a sociedade. As autoridades iranianas têm rejeitado a hipótese de colocar Qom em quarentena e isso é prejudicial à saúde da sociedade internacional, pois permite que o vírus se alastre. A cidade abriga o santuário dedicado a Fatima Masumeh, irmã do oitavo imã, Reza, e é visitada por milhões de peregrinos muçulmanos e por turistas todos os anos. O local também reúne alguns dos principais clérigos xiitas e dezenas de milhares de estudantes de teologia que vêm de todo o país participar do seminário conduzido por eles. Acredita-se que o Irã tenha sido a fonte para a contaminação de países vizinhos como Afeganistão, Bahrein, Iraque, Kuwait e Omã, que acabaram proibindo viagens para a república islâmica. Os Emirados Árabes Unidos, um hub importante no Oriente Médio, suspenderam todos os voos de passageiros e de carga para o Irã como medida de precaução, pois já foram registrados 13 casos no país. A realidade é que o Irã vive no eterno conflito entre religião e ciência. Os relatórios recebidos de cidades em todo o Irã indicam que o número de casos é na verdade bem maior do que está sendo divulgado pelas autoridades. Ao contrário da Itália, o governo iraniano se recusa a impor quarentena às áreas afetadas pelo surto, sob o argumento de que esta é uma medida antiquada, na qual não acreditam. Os santuários xiitas nas cidades de Qom e Mashhad seguem abertos à visitação, apesar de Qom ser um dos centros do surto. Muitos aiatolás importantes acreditam que o santuário, que atrai milhões de peregrinos do mundo inteiro, e seu importante seminário, são o orgulho do mundo xiita. Fechá-lo seria algo de grande impacto para os clérigos, e algo a que não gostariam de se submeter a não ser que houvesse pressão internacional. A atual situação mostra um conflito claro entre fundamentalismo religioso e ciência. O Irã não tem os suprimentos médicos necessários para conter o avanço do surto. As máscaras de proteção disponíveis no país já se esgotaram e não há kits suficientes para fazer o exame que detecta a doença. Uma parte dos profissionais de saúde foi infectada, portanto existe ainda um temor de que não haverá médicos e enfermeiros suficientes para tratar dos pacientes contaminados. A maioria dos iranianos está extremamente preocupada e com esse tipo de postura adotada pelo Irã, toda a comunidade internacional também deveria ficar.

20 de março de 2020

Joe Biden x Bernie Sanders: os pré-candidatos democratas nos E.U.A.

Celso Pires - Advogado

Os resultados preliminares da “super terça”, quando 14 Estados americanos realizaram eleições primárias, afunilaram a corrida democrata pela candidatura de quem enfrentará Donald Trump nas urnas no 03 de novembro. Agora, o ex-vice-presidente Joe Biden está na liderança em número de delegados (433 até o momento), tendo ultrapassado o senador Bernie Sanders (388). Estão em disputa 3.979 delegados, e o candidato que alcançar 1991 (a metade arredondada mais um) desses votos conquista a candidatura. Com a desistência do ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg e da senadora Elizabeth Warren, a candidatura ficou entre Sanders e Biden, a depender de como votarão os demais eleitores democratas nos cerca de 30 Estados que ainda realizarão prévias até meados do ano. Ao verificar seus perfis, constatamos que Biden, pré-candidato centrista, demonstrou contar com o respaldo dos eleitores democratas nos Estados sulistas que já realizaram prévias até agora. Tendo passado oito anos como vice-presidente de Barack Obama, ele herdou grande parte do seu legado, o que ajuda a explicar um de seus trunfos: sua alta popularidade com o eleitorado negro americano e com a população de idade mais avançada. Seu vínculo estreito com o Obama pode continuar sendo um fator-chave para Biden manter sua força nesse público. Sendo a saúde uma questão crucial na campanha eleitoral americana (uma vez que o país não tem um sistema de saúde universal), Biden lançou ainda no ano passado anúncios publicitários contando sua história pessoal e explicando por que o acesso à saúde é algo pessoal para ele. Em 1972, ele perdeu sua mulher e filha em um acidente de carro, que também feriu seus dois filhos pequenos. Um deles, Beau Biden, morreria em 2015 de câncer no cérebro. Em seus anúncios publicitários, ele afirmava que não imaginava como teriam sido esses momentos difíceis se ele e sua família não contassem com cobertura de saúde. Ele defende a expansão do “Obamacare”, forma como ficou conhecido o projeto de saúde de Obama que prevê coberturas a preços acessíveis, mas sem eliminar planos privados ou sem universalizar totalmente o sistema – uma diferença importante em relação a Sanders. Biden ainda é apontado como mais moderado, tendo dito que pretende trabalhar em conjunto com o rival Partido Republicano em assuntos importantes. Biden, além de herdar dividendos políticos da era Obama, conta com o apoio do establishment político do Partido Democrata, que vê Sanders como radical. Ele é visto por parte do público democrata como um candidato mais competitivo para enfrentar Trump, em relação a Sanders. Biden ainda ganhou o endosso de pré-candidatos democratas importantes que desistiram nos últimos dias, como Michael Bloomberg, Amy Klobuchar e Pete Buttigieg. Entretanto, seus pontos fracos devem ser explorados pelos republicanos caso seja escolhido candidato. O primeiro tem a ver com o processo de impeachment de Donald Trump, no qual ele foi inadvertidamente uma figura central: foi a partir do pedido de que o governo da Ucrânia investigasse Biden e seu filho Hunter por seus negócios com uma empresa petrolífera ucraniana que Trump foi acusado de abuso de poder. É bem provável que essa ligação com a Ucrânia (até o momento não sustentada por provas concretas) vire tema de discussão durante a campanha. Avaliando o outro pré-candidato, o senador por Vermont, Bernie Sanders surge como candidato mais velho (78 anos) e mais à esquerda na disputa democrata. Sanders ganhou força ao vencer as prévias nos primeiros Estados em disputa: Iowa, New Hampshire e Nevada, tendo ainda vencido em três Estados na “super terça”. Bernie Sanders tem sido puxado, em grande parte, pelo eleitorado jovem e por uma ala de democratas tida como bastante leal a ele — a ponto de alguns eleitores terem dito à imprensa americana que se recusariam a ir às urnas em novembro caso Sanders não seja escolhido candidato democrata. Com um discurso anti-establishment, Sanders tem como tema centrais de sua plataforma eleitoral a implantação de um sistema de saúde universal e gratuito (com a eliminação de planos privados), um salário mínimo de US$ 15 por hora, o perdão das dívidas de financiamento estudantil e sistema de ensino superior gratuito. Muitos acreditam que, com propostas tão à esquerda do espectro político e um discurso tido muitas vezes como radical e desagregador, Sanders teria poucas chances de vencer Trump em redutos eleitorais conservadores dos E.U.A. Isso é particularmente importante em um país onde a designação "socialista" tem conotação pejorativa com uma parcela significativa do eleitorado. Ao mesmo tempo, Sanders é visto como um candidato consistente, que praticamente não mudou seu posicionamento na maioria dos temas cruciais ao longo de sua vida política. É um duro crítico de políticas e incentivos que, ao longo de diferentes governos, favoreceram multinacionais e grandes investidores, e defensor da redução da desigualdade de renda nos EUA, com mais impostos sobre os mais ricos e uma maior presença do Estado na saúde e na educação. Se for escolhido candidato democrata, Sanders deve enfrentar questionamentos sobre sua saúde — recentemente, ele afirmou que não pretende divulgar informações adicionais sobre seu estado de saúde, poucos meses após ter sofrido um ataque cardíaco — e por sua posição a respeito do controle de armas — ele é duramente criticado por outros democratas por ter votado, no passado, contra uma lei que exige antecedentes criminais de compradores de armas de fogo. Outro questionamento é a respeito de como financiar seus ambiciosos planos para a saúde e educação, cujos custos são estimados em trilhões de dólares.

16 de março de 2020

Disputa no Partido Democrata: Joe Biden vs. Bernie Sanders

Confira o artigo do advogado Celso Pires publicada no jornal O Dia.

Depois de passar o primeiro mês de disputa das primárias democratas em baixa pelos resultados fracos em votos e baixa arrecadação de verba para campanha, o ex-vice presidente dos Estados Unidos Joe Biden foi o grande vencedor da “superterça” – falamos sobre o que ela significa em nosso último artigo. Superficialmente explicando, a “superterça” ocorre na primeira terça-feira de março (03/03), onde eleitores foram às urnas em 14 Estados americanos e um território para apontar quem deve representar o partido Democrata na disputa presidencial contra o republicano Donald Trump, em novembro desse ano. O bom resultado de Joe Biden — que venceu em ao menos nove Estados, contra três de seu principal opositor, o senador socialista Bernie Sanders — foi possível em parte graças a um movimento calculado e executado nas últimas 48 horas pela ala moderada e pela máquina do partido. Alarmados pela vitória do outsider Sanders nos três primeiros Estados em que houve votação (Iowa, New Hampshire e Nevada) e incentivados pelo desempenho positivo de Biden na Carolina do Sul, no fim de semana anterior, os democratas decidiram que era a hora de evitar divisões internas, que nitidamente favoreciam Sanders na obtenção de maioria, e se unir em torno de um nome que não apenas pudesse vencer Trump, mas que representasse o que os democratas historicamente reconhecem ser sua identidade. Em jogo no dia 03 de março estavam mais de 1.344 delegados — 1 em cada 3 disponíveis —, que, se não garantem a nomeação definitiva, dão ao candidato uma vantagem expressiva na corrida à vitória, que depende da conquista de 1.991 delegados. O resultado da delicada estratégia foi uma virada no segundo maior Estado em delegados. O Texas, onde pesquisas recentes indicavam uma vitória relativamente folgada a Sanders, acabou nas mãos de Biden, que também saiu vitorioso da Virgínia e da Carolina do Norte, dois dos chamados “estados-pêndulo” (swing states, como são chamados em inglês), onde os eleitores alternam suas preferências entre republicanos e democratas a cada eleição. Biden levou ainda Alabama, Arkansas e Tennessee. O ex-vice presidente provou sua força ao obter a liderança em dois Estados em que sequer foi visitar durante sua campanha: Massachussets, no qual a concorrente progressista Elizabeth Warren é senadora, e Oklahoma. O pivô da mudança interna no partido Democrata foi a vitória consistente de Biden na quarta rodada primária, a Carolina do Sul — com 29 pontos percentuais sobre Sanders, em segundo. O segundo movimento nesse xadrez partidário interno foi o anúncio da retirada das candidaturas do ex-prefeito Pete Buttigieg e da senadora Amy Klobuchar. Juntos, ambos amealharam 33 delegados na disputa. Não é um número expressivo, mas pode ser relevante em uma disputa apertada. Na véspera da “superterça”, o terceiro lance do xadrez: tanto Buttigieg quanto Klobuchar explicitaram apoio a Joe Biden, e pediram a seus seguidores que o votassem nele. Quem ainda seguiu o mesmo padrão foi o senador Beto O'Rourke, que também figurou na lista de pré-candidatos democrata para 2020. Todos eles endossaram o movimento WeKnowJoe, ou, "nós conhecemos o Joe", uma alusão direta à insegurança que Sanders gera entre os democratas históricos por sua desconexão com a história e com os objetivos do partido. Visto como um herói democrata em um Estado com 228 de delegados, O'Rourke lançou seu peso político em favor de Biden não só por acreditar que Sanders não seria capaz de vencer Trump num confronto direto. Os democratas temem que a escolha por Sanders, considerada radical, possa afugentar das urnas os eleitores democratas mais conservadores e resultar em perdas de cadeiras do partido no Legislativo. Atualmente, graças à maioria que possuem na Câmara dos Representantes, os democratas têm conseguido bloquear propostas de Trump. Além disso, para os democratas, a vitória de Sanders poderia representar uma perda de conexão com a agremiação que ajudaram a construir. O temor dos democratas tem precedente na história recente de seus principais adversários: em 2016, entre atônitos e incrédulos, os republicanos orgânicos se fragmentaram em múltiplas pré-candidaturas e viram o outsider Donald Trump vencer nomes tão tradicionais quanto o texano Ted Cruz, o senador pela Flórida Marco Rubio ou o ex-governador da Flórida Jeb Bush, cujo irmão e o pai ocuparam a Casa Branca. Trump defendia medidas opostas aos princípios majoritários entre os republicanos: protecionismo no comércio, austeridade zero nas contas públicas, limites às liberdades individuais. Sua proeminência acabou por descaracterizar a legenda e levou republicanos históricos a se dobrar a uma “doutrina Trump” sob pena de perderem suas vagas legislativas. Crítica semelhante tem sido feita a Sanders, chamado pelo staff democrata de "Trump da esquerda". Ele defende um sistema universal de saúde, custeado com verba pública e quer proibir opções de convênios médicos privados. Advoga por controles do mercado para as gigantes da tecnologia, elogia inimigos americanos históricos, como o líder da revolução cubana Fidel Castro e é acusado de ser leniente com os regimes de esquerda da Venezuela e da Nicarágua. Sanders propõe ainda anistiar a dívida estudantil de milhões de americanos, extinguir órgãos de controle de fronteira e acabar com deportações de imigrantes ilegais.

Simpatizantes de Sanders acusam os democratas de tentar ignorar a vontade popular e tomar novamente uma decisão errada ao escolher Biden. Para eles, o ex-vice presidente vende o passado, uma posição centrista que não responde aos anseios sociais, o estilo político tradicional que dominou Washington nas últimas décadas e gerou repulsa em boa parte do eleitorado americano. As próximas semanas e meses prometem uma disputa acirrada entre Biden e Sanders. Independentemente de quem vença, resta a dúvida se os democratas conseguirão recolher todos os votos possíveis para tentar vencer Trump após intensas acusações e tensões entre seus dois principais nomes.

13 de fevereiro de 2020

Ocorreu o esperado, Donald Trump foi inocentado

Celso Pires - Advogado

Em votação histórica que durou pouco mais de meia hora, a maioria dos senadores americanos votou, neste 05 de fevereiro, pela absolvição do presidente Donald Trump, que havia sofrido impeachment pela Câmara alguns meses antes. Com o desfecho, que já era esperado, Trump permanece na Presidência para disputar a reeleição em 03 de novembro. No julgamento da primeira acusação (ou, no termo técnico, artigo de impeachment), 52 senadores votaram a favor de Trump, e eram necessários dois terços da Casa, 67, para que ele fosse condenado e removido do cargo — os votos pela condenação foram 48. O placar foi semelhante na votação da segunda acusação: 53 a 47 em favor de Trump. O processo de impeachment reforçou a polarização partidária nos E.U.A: enquanto a Câmara, de maioria democrata (oposição), defendeu a saída do presidente, o Senado, de maioria republicana (partido de Trump), o absolveu. Donald Trump era acusado de abuso de poder e obstrução do Congresso. A primeira acusação remete a um telefonema, em julho do ano passado, entre Trump e o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, indicando que o americano estava pressionando o líder da Ucrânia a investigar Joe Biden — pré-candidato democrata para a eleição de novembro — em troca de uma ajuda militar financeira americana. Diferentes testemunhas ouvidas pela Câmara afirmaram que houve uma tentativa de pressionar os ucranianos, algo que Trump negou, dizendo-se vítima de uma "caça às bruxas" partidária. Opositores afirmaram que isso configura tentativa de influenciar as eleições americanas com a ajuda de um país estrangeiro. Alguns senadores republicanos asseveraram publicamente considerar a conduta de Trump reprovável, mas não o suficiente para afastá-lo do cargo, preferindo a avaliação do povo americano nas urnas. Um ponto importante, no entanto, é que o proeminente senador e ex-candidato a presente Mitt Romney votou a favor da condenação de Trump por abuso de poder, tornando-se o único republicano a defender a sua saída e contrariando a maioria de seu partido. Antes da votação, ao explicar seu voto, Romney – que foi o candidato presidencial republicano na eleição de 2012 – afirmou acreditar que Trump é culpado de um estarrecedor abuso da confiança pública. A segunda acusação da Câmara, de obstrução do Congresso, tentava imputar ao presidente uma suposta tentativa de dificultar as apurações legislativas sobre sua conduta. A acusação também foi rejeitada. Pouco depois da votação, Trump não escreveu nada no Twitter, mas postou um vídeo que o mostrava "em campanha para todas as eleições futuras". Ao fim da sessão, Trump rasgou os artigos de impeachment e postou o vídeo no Twitter, em uma ironia com ato protagonizado na véspera pela líder democrata na Câmara Nancy Pelosi, que rasgou o discurso de Estado da União de Trump perante as câmeras. Pelosi disse a repórteres que, independentemente do julgamento do Senado, Trump permaneceria “‘impichado’ por toda a vida" pela Câmara. Trump é o terceiro presidente americano a passar pelo processo de impeachment. Antes dele, foram Andrew Johnson, em 1868, e Bill Clinton, em 1998. Ambos sofreram o impeachment pela Câmara, mas depois foram absolvidos em seus julgamentos no Senado. O Senado sinalizava pela absolvição do presidente desde o início do processo e isso foi reforçado, quando a maior parte dos senadores votou contra a convocação de mais testemunhas no caso. A principal testemunha que deixou de depor no Senado é o ex-conselheiro nacional de segurança republicano John Bolton, que, segundo relatos sobre seu livro prestes a ser lançado, tem afirmado que Trump, em maio de 2019, o disse diretamente que não liberasse ajuda militar de quase US$ 400 milhões à Ucrânia até que o governo ucraniano concordassem em investigar Biden e seu filho, Hunter. Isso é central no debate em torno do impeachment, já que Trump é acusado de usar a ajuda militar em questão para pressionar o governo ucraniano a investigar um adversário eleitoral — o que, conforme dito, para opositores, configurava tentativa de interferência nas eleições americanas e abuso de poder. Trump, em contrapartida, chamou de mentirosa a fala atribuída a Bolton. O advogado de Trump indicou, durante as sessões no Senado, que tudo que um presidente faz a serviço de sua própria reeleição pode ser considerado de interesse público e, portanto, não passível de impeachment. A partir de agora, com a absolvição de Trump, a expectativa é de que tanto governistas quanto oposição voltem suas atenções à campanha eleitoral e às primárias democratas, que definirão o candidato a enfrentar Trump nas urnas em 03 de novembro deste ano.

10 de fevereiro de 2020

A importância da “quarentena” em um mundo sem fronteiras

Na China, mais de uma dúzia de cidades estão isoladas do mundo, na esperança de prevenir novos casos do agora já tão famoso “coronavírus”.

 Países ocidentais também estão colocando as pessoas que retornam de Wuhan, a cidade no centro do surto, em isolamento forçado por até duas semanas. Semana passada, o governo brasileiro anunciou que trará de volta os brasileiros que estão em Wuhan e os colocará em quarentena. Isso depois que um determinado grupo de brasileiros na China fez um apelo ao presidente Jair Bolsonaro para a retirada de cidadãos do país afetado pelo surto do coronavírus. A quarentena é um recurso usado há muito tempo para evitar que doenças se espalhem. Geralmente implica manter um grupo de pessoas separado e isolado do público em geral. O termo em si faz referência ao primeiro exemplo conhecido do método de isolamento. Quando a peste negra se espalhou pela Europa durante o século 14, Veneza aplicou uma regra em que navios tinham que ancorar por 40 dias antes que a tripulação e passageiros pudessem desembarcar. O período de espera foi denominado "quarantino", que deriva da palavra em italiano para o número 40. Não está claro de onde surgiu exatamente o conceito dos 40 dias. Uma possibilidade é que tenha sido uma referência bíblica — a ideia de passar 40 dias e 40 noites no deserto como Jesus teria feito. Com o tempo, a duração da quarentena foi encolhida, mas o isolamento continua sendo chave para limitar surtos de doença ao redor do planeta. No Reino Unido, um dos exemplos mais famosos é o da aldeia inglesa de Eyam, que se colocou de quarentena durante a peste bubônica. Entre setembro e dezembro de 1665, 42 moradores do vilarejo morreram. Em junho de 1666, o recém-nomeado pároco da aldeia, Willliam Mompesson, decidiu que a vila deveria ser colocada em quarentena. Com apoio de Earl de Devonshire, um nobre que morava nos arredores que havia oferecido enviar comida e suprimentos se eles concordassem com a medida de isolamento, Mompesson convenceu os moradores a acatar a quarentena. O pároco disse aos moradores que faria todo o possível para aliviar seu sofrimento e continuar com eles. Em agosto daquele ano, a vila testemunhou um recorde de seis mortes por dia — no entanto quase ninguém quebrou o isolamento. Com o tempo, o número de casos caiu e, em novembro, a doença havia desaparecido. O isolamento funcionara. Hoje em dia, as quarentenas são impostas, em geral, por governos ou instituições de saúde. Quando medidas de quarentena são introduzidas, elas não são apenas baseadas em cálculos médicos sobre se serão ou não eficientes para parar ou reduzir o avanço de uma doença infecciosa. Tal medida visa atender as expectativas de outros governos, e ainda para tranquilizar a população do país onde surgiu o surto. Em San Francisco, em 1900, imigrantes chineses foram colocados em quarentena depois que um homem chinês foi encontrado morto em um hotel. Foi confirmado mais tarde que ele havia morrido em razão da peste. Preocupados, policiais cercaram — com cordas e arame farpado — uma área de Chinatown. Os moradores não podiam entrar ou sair, e apenas a polícia e oficiais de saúde podiam ultrapassar aquela barreira. Durante a Primeira Guerra Mundial, cerca de 30 mil trabalhadoras ligadas ao comércio sexual foram colocadas em quarentena em meio a um temor sobre o aumento de doenças sexualmente transmissíveis. Elas puderam sair depois que foi confirmado que não tinham mais D.S.T.s. A epidemia de Sars em 2002 e 2003 começou uma nova era no controle de doenças. Durante aquele surto, pessoas que haviam sido expostas ao vírus eram colocadas em quarentena. O governo chinês ameaçou executar ou prender qualquer um que fosse encontrado violando as regras da quarentena e espalhando o contágio. A doença reforçou lições a respeito da importância de trabalhar em conjunto com outros países durante uma crise de saúde pública. Quando a doença se espalhou da China para Toronto, no Canadá, 44 pessoas morreram e centenas mais foram infectadas. Cerca de 7 mil pessoas no Canadá foram colocadas em isolamento para conter o avanço da Sars. No Reino Unido, duzentos cidadãos britânicos estão sendo trazidos de Wuhan para casa, onde ficarão em quarentena por 14 dias. Nos E.U.A, os cidadãos americanos que estavam em Wuhan estão alocados em quarentena obrigatória no Estado da Califórnia, conforme informado pelo Centros de Controle e Prevenção de Doenças. Como visto, a quarentena se sustenta como um importante método de controle da propagação de doenças contagiosas.

31 de janeiro de 2020

Trump vs. John Bolton

Celso Pires - Advogado

Congressistas democratas aumentaram a pressão para que o ex-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos John Bolton deponha no julgamento de impeachment do presidente Donald Trump. O possível depoimento ganhou ainda mais importância após relatos de que, em novo livro, Bolton afirma que Trump disse a ele que tinha a intenção de congelar ajuda militar à Ucrânia até que o governo do país ajudasse nas investigações contra democratas, incluindo o ex-vice-presidente Joe Biden. A informação estaria em um rascunho do livro, obtido pelo jornal The New York Times. Trump nega os relatos. O testemunho de Bolton, porém, colocaria em xeque as alegações do presidente, que afirma não ter cometido abuso de poder ao pedir que o presidente ucraniano Volodomyr Zelensky, em um telefone em julho de 2019, que investigasse Biden, seu potencial rival nas eleições presidenciais de novembro deste ano. O antigo assessor, que é republicano, seria um herói improvável para o Partido Democrata. Ainda assim, os políticos da sigla acreditam que ele poderia ser uma testemunha-chave, que forneceria provas irrefutáveis de que Trump cometeu irregularidades, fortalecendo o pleito democrata para que deixe o cargo. John Bolton, ocupou o cargo de Conselheiro de Segurança nos anos de 2018 e 2019, tendo aparentemente estado pessoalmente envolvido nas tratativas do presidente com

autoridades ucranianas. Se Bolton testemunhasse, seria capaz de fornecer o relato mais detalhado divulgado até este momento da suposta pressão política de Trump sobre Zelensky e a decisão de congelar US$ 391 milhões em ajuda militar. Outras testemunhas já afirmaram que membros do governo Trump usaram os recursos como instrumento de barganha para pressionar os ucranianos a investigarem Biden e seu filho, Hunter. Contudo, nenhuma delas relacionou Trump explicitamente ao condicionamento da ajuda militar a uma investigação, nem indicou que o presidente tenha pessoalmente orientado as operações. Para os democratas, o ex-conselheiro de Segurança Nacional poderia, justamente, fornecer a prova incontestável contra Trump. De acordo com os relatos, Bolton se opôs ao congelamento de recursos para o Ucrânia e tentou, sem sucesso, convencer o presidente a liberar a ajuda militar durante reunião no Salão Oval. Os recursos acabaram por ser liberados exatamente um dia depois de Bolton deixou o

governo, em setembro de 2019. Trump já disse repetidamente que não fez nada de errado é que o processo de impeachment é um golpe. Advogados da Casa Branca já negaram pedidos de congressistas democratas para que Bolton e outras testemunhas deponham no julgamento no Senado. Bolton já afirmou publicamente que, se for convocado, prestará depoimento e Trump já deu indícios de que tentaria barrar o depoimento na Justiça. Os senadores americanos votarão a convocação de testemunhas nos próximos dias. O impeachment de Trump foi aprovado pela Câmara dos Deputados, de maioria democrata, em dezembro. Para que deixe o cargo, porém, é preciso uma maioria de dois terços no Senado — dominado pelos republicanos, por 53 a 47. Uma votação contra Trump, portanto, é improvável. Ele é o terceiro presidente americano a enfrentar um processo de impeachment. Historicamente, Bolton defendia políticas agressivas em relação à Coreia do Norte, o Afeganistão e o Irã, e Trump nem sempre concordava. Por vezes, Bolton era alijado de decisões no governo. Sua demissão ocorreu em setembro, tendo sido anunciada pelo próprio Trump, via Twitter. Bolton se opunha a negociações de paz com o Talibã, grupo convidado por Trump para dialogar. O plano, depois abandonado, foi alvo de críticas sobretudo por causa do momento, justamente a proximidade com o aniversário dos atentados de 11 de setembro de 2001, realizados pela Al-Qaeda, organização extremista que o Talibã permitiu operar no Afeganistão. Bolton foi o terceiro conselheiro de Trump na função, depois de Michael Flynn e H.R. McMaster. Bolton ainda chegou a ser embaixador temporário dos E.U.A nas Nações Unidas e ocupou cargos nos últimos três governos conduzidos por políticos republicanos, desde a gestão de Ronald Reagan (1981-1989). Bolton foi um dos principais articuladores da invasão americana no Iraque, durante o governo de George W. Bush, sob o argumento de que o então regime de Saddam Hussein mantinha um programa secreto de armas de destruição em massa. Em 2005, porém, dois anos após o ataque, um relatório divulgado pela Agência Internacional de Energia Atômica desmentiu a informação.

23 de janeiro de 2020

A Escócia poderia ficar na União Europeia?

Celso Pires - Advogado

Uma União Europeia sem o Reino Unido, mas com a Escócia. Uma afirmação que pode soar estranha, no entanto os resultados das eleições britânicas levantaram a possibilidade de um segundo referendo de independência, que permitiria aos escoceses, caso a opção separatista saia vitoriosa, permanecer no bloco econômico. A primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, pediu ao governo do Reino Unido para negociar a transferência de poderes para o Parlamento escocês, o que permitiria ao país organizar um referendo de independência agora em 2020. Para Sturgeon, o resultado das eleições gerais de 2019 — nas quais o seu Partido Nacional Escocês, obteve 48 das 59 cadeiras possíveis no Parlamento — torna indiscutível o apoio a um novo referendo. O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, é contra a realização de outro referendo, alegando que o que foi realizado em 2014 deve ser respeitado — na ocasião, 55% dos escoceses rejeitaram a saída do Reino Unido, contra 45% que votaram pela independência. Dado que a ampla vitória de Boris Johnson praticamente garante a saída do Reino Unido da União Europeia agora em 31 de janeiro, o objetivo da Escócia é deixar a união britânica e se reintegrar como Estado-membro do bloco europeu. Embora a permanência no Reino Unido tenha saído vitoriosa no referendo escocês de 2014, o referendo para o Brexit, a saída da União Europeia, realizado em 2016, mudou esse cenário. Na Escócia, 62% dos cidadãos foram contra deixar o bloco europeu, enquanto 52% dos eleitores britânicos votaram a favor do Brexit. O Partido Nacional Escocês considerou isso como uma mudança de circunstâncias que justificaria uma segunda consulta sobre a independência, uma vez que a Escócia seria forçada, em razão dos percentuais supracitados, a deixar o bloco contra sua vontade. Tem havido um longo debate jurídico sobre se o Parlamento Escocês poderia aprovar as leis necessárias para que haja uma nova votação sobre independência, pois em tese é o Parlamento Britânico, em Westminster, no qual a Escócia tem 59 vagas, que deveria aprovar essa lei. De qualquer forma, a primeira ministra escocesa quer que o governo do Reino Unido concorde em transferir os poderes para o Parlamento Escocês para permitir que exista um referendo, assim como aconteceu em 2014. Assim, segundo a líder escocesa, isso garantiria que o resultado do referendo fosse considerado legal e legítimo por todos, especialmente pela União Europeia. Todavia, o primeiro-ministro Boris Johnson, junto a outras figuras importantes do seu governo, se opõe a isso e diz que não haverá referendo pela independência nos próximos cinco anos. Se seus argumentos políticos não fizerem Johnson ceder, Sturgeon não descarta levar o caso à Justiça. Situação arriscada, uma vez que o sucesso não é garantido e pode levar um tempo considerável, entretanto alguns acreditam que pode funcionar. A outra opção seria conseguir uma vitória esmagadora nas eleições para o Parlamento escocês em 2021, o que catapultaria a demanda por um referendo e aumentaria a pressão sobre o governo britânico. Dados de opinião coletados apontam para um aumento de apoio à independência, no entanto, não tendo ainda a maioria dos votos. De uma maneira geral, as pesquisas apontam para 51% dos votos contra a independência, excluindo os indecisos, e 49% a favor. Na prática, a Escócia não se tornaria independente imediatamente após uma vitória do "sim" nas urnas. Primeiro, deveria haver um período de transição. Em 2014, os defensores da independência afirmaram que levaria 18 meses para criar um Estado escocês independente. Mesmo que o referendo fosse realizado o mais breve possível, a transição demoraria o suficiente para o Reino Unido concluir a sua saída completa da União Europeia. Isso significa que a Escócia deixaria a U.E. com o resto do Reino Unido — e precisaria se candidatar para ingressar no bloco europeu novamente. A Escócia teria que passar por todos os trâmites de qualquer outro Estado que pretenda fazer parte da União Europeia, apesar de ter a vantagem de ter sido um membro recente. Os critérios de acesso envolvem uma série de questões como moeda, níveis de déficit e fronteiras. Sturgeon já abordou essas questões, argumentando que a Escócia poderia continuar usando a libra esterlina inicialmente — e que a situação financeira do país poderia ser ajustada dentro do marco econômico europeu. No entanto, em termos práticos isso pode levar vários anos. A primeira-ministra ainda quer evitar barreiras na fronteira entre a Escócia e a Inglaterra. A realidade é que as respostas sobre essas questões e muitas outras só serão verificadas em detalhes com o amadurecimento de todo esse processo que se avança.

A Escócia poderia ficar na União Europeia?

Celso Pires - Advogado

Uma União Europeia sem o Reino Unido, mas com a Escócia. Uma afirmação que pode soar estranha, no entanto os resultados das eleições britânicas levantaram a possibilidade de um segundo referendo de independência, que permitiria aos escoceses, caso a opção separatista saia vitoriosa, permanecer no bloco econômico. A primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, pediu ao governo do Reino Unido para negociar a transferência de poderes para o Parlamento escocês, o que permitiria ao país organizar um referendo de independência agora em 2020. Para Sturgeon, o resultado das eleições gerais de 2019 — nas quais o seu Partido Nacional Escocês, obteve 48 das 59 cadeiras possíveis no Parlamento — torna indiscutível o apoio a um novo referendo. O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, é contra a realização de outro referendo, alegando que o que foi realizado em 2014 deve ser respeitado — na ocasião, 55% dos escoceses rejeitaram a saída do Reino Unido, contra 45% que votaram pela independência. Dado que a ampla vitória de Boris Johnson praticamente garante a saída do Reino Unido da União Europeia agora em 31 de janeiro, o objetivo da Escócia é deixar a união britânica e se reintegrar como Estado-membro do bloco europeu. Embora a permanência no Reino Unido tenha saído vitoriosa no referendo escocês de 2014, o referendo para o Brexit, a saída da União Europeia, realizado em 2016, mudou esse cenário. Na Escócia, 62% dos cidadãos foram contra deixar o bloco europeu, enquanto 52% dos eleitores britânicos votaram a favor do Brexit. O Partido Nacional Escocês considerou isso como uma mudança de circunstâncias que justificaria uma segunda consulta sobre a independência, uma vez que a Escócia seria forçada, em razão dos percentuais supracitados, a deixar o bloco contra sua vontade. Tem havido um longo debate jurídico sobre se o Parlamento Escocês poderia aprovar as leis necessárias para que haja uma nova votação sobre independência, pois em tese é o Parlamento Britânico, em Westminster, no qual a Escócia tem 59 vagas, que deveria aprovar essa lei. De qualquer forma, a primeira ministra escocesa quer que o governo do Reino Unido concorde em transferir os poderes para o Parlamento Escocês para permitir que exista um referendo, assim como aconteceu em 2014. Assim, segundo a líder escocesa, isso garantiria que o resultado do referendo fosse considerado legal e legítimo por todos, especialmente pela União Europeia. Todavia, o primeiro-ministro Boris Johnson, junto a outras figuras importantes do seu governo, se opõe a isso e diz que não haverá referendo pela independência nos próximos cinco anos. Se seus argumentos políticos não fizerem Johnson ceder, Sturgeon não descarta levar o caso à Justiça. Situação arriscada, uma vez que o sucesso não é garantido e pode levar um tempo considerável, entretanto alguns acreditam que pode funcionar. A outra opção seria conseguir uma vitória esmagadora nas eleições para o Parlamento escocês em 2021, o que catapultaria a demanda por um referendo e aumentaria a pressão sobre o governo britânico. Dados de opinião coletados apontam para um aumento de apoio à independência, no entanto, não tendo ainda a maioria dos votos. De uma maneira geral, as pesquisas apontam para 51% dos votos contra a independência, excluindo os indecisos, e 49% a favor. Na prática, a Escócia não se tornaria independente imediatamente após uma vitória do "sim" nas urnas. Primeiro, deveria haver um período de transição. Em 2014, os defensores da independência afirmaram que levaria 18 meses para criar um Estado escocês independente. Mesmo que o referendo fosse realizado o mais breve possível, a transição demoraria o suficiente para o Reino Unido concluir a sua saída completa da União Europeia. Isso significa que a Escócia deixaria a U.E. com o resto do Reino Unido — e precisaria se candidatar para ingressar no bloco europeu novamente. A Escócia teria que passar por todos os trâmites de qualquer outro Estado que pretenda fazer parte da União Europeia, apesar de ter a vantagem de ter sido um membro recente. Os critérios de acesso envolvem uma série de questões como moeda, níveis de déficit e fronteiras. Sturgeon já abordou essas questões, argumentando que a Escócia poderia continuar usando a libra esterlina inicialmente — e que a situação financeira do país poderia ser ajustada dentro do marco econômico europeu. No entanto, em termos práticos isso pode levar vários anos. A primeira-ministra ainda quer evitar barreiras na fronteira entre a Escócia e a Inglaterra. A realidade é que as respostas sobre essas questões e muitas outras só serão verificadas em detalhes com o amadurecimento de todo esse processo que se avança.

10 de janeiro de 2020

EUA e Irã podem entrar em guerra?

Celso Pires - Advogado

A morte no Iraque do general iraniano Qasem Soleimani num ataque aéreo dos Estados Unidos, no dia 03 de janeiro, marcou uma arriscada escalada da tensão entre Washington e Teerã. O mundo acompanha de perto as reações do Irã e as novas ameaças de Donald Trump. O corpo de Soleimani passou em cortejo pelas ruas do Iraque e foi velado no Irã, com honras de herói nacional e mártir. O líder supremo do país, aiatolá Khamenei, liderou as orações, enquanto milhares de iranianos tomaram as ruas para prestar a última homenagem àquele que era considerado o segundo homem mais poderoso do Irã. O governo iraniano já anunciou que vai se "vingar" dos E.U.A e que passará a produzir urânio para além dos limites do acordo nuclear firmado com grandes potências mundiais em 2015. Já Trump prometeu um ataque "desproporcional" ao país do Oriente Médio caso forças iranianas atinjam alvos americanos. Contudo, restam as dúvidas se o desenrolar do ataque dos E.U.A poderia chegar a um conflito direto entre os dois países ou até a uma guerra de escala mundial. Ao que tudo indica não existe razão para uma Terceira Guerra Mundial. Potências econômicas ou militares, como Rússia e China, não são protagonistas desse conflito, embora tenham criticado duramente a morte do general iraniano. Esse pode ser, no entanto, um momento decisivo para os E.U.A no Oriente Médio. Ocorrendo uma represália significativa do Irã, poderia conduzir a um ciclo de ação e reação com potencial para um confronto direto entre os dois países. Em relação a morte do general, os Estados Unidos alegam que Soleimani foi responsável por ataques contra forças apoiadas pelos americanos no Iraque. Além disso, o país classifica as Forças Quds – que operam as intervenções militares e de inteligência do Irã no exterior e que era liderada por Soleimani – como sendo uma organização terrorista. Além de Soleimani, integrantes das Forças de Mobilização Popular do Iraque, milícia apoiada pelo Irã, estavam no comboio atingido por mísseis. Algo que pouco tem sido dito é que o ataque ordenado pode ter ocorrido para desviar a atenção do processo de impeachment de Trump. A política interna sempre tem muita relevância, especialmente num ano eleitoral para Trump. E em um ano eleitoral, a principal preocupação de Trump deve ser evitar a perda de vidas americanas na região. Entretanto, esse dramático ataque parece destoar de um presidente que, apesar de ser duro na retórica, se caracterizou pela cautela quanto a ações militares concretas. Por isso vem a intuição de uma tentativa de mudança de foco de seus problemas domésticos. Retornando as chances de retaliação, o fato é que o Irã não tem armas nucleares, embora possua muitos elementos que possam contribuir para o desenvolvimento delas. O país do Oriente Médio tem insistido que não quer desenvolver uma bomba atômica. No entanto, a crescente frustração e embates com os E.U.A poderiam perfeitamente persuadir dirigentes iranianos a abandonar por completo o acordo nuclear assinado com a comunidade internacional. O governo Trump já abandonou o chamado Plano de Ação Integral Conjunto, que é o acordo nuclear firmado entre Irã e potências como E.U.A e nações europeias. Por ele, o governo iraniano se comprometia a abandonar seu programa nuclear em troca da retirada de sanções econômicas contra o país. A União Europeia criticou o posicionamento dos E.U.A e especialistas disseram que a decisão de romper o acordo e repor sanções foi imprudente. A retirada dos E.U.A do acordo e a posterior imposição de sanções ao Irã aumentaram a pressão sobre Teerã, sem possibilidade de aparentes saídas pela via diplomática para conter a escalada da tensão. O governo do Iraque ficou em posição delicada com ataque americano. Pois o país é aliado tanto do Irã quanto dos E.U.A. O primeiro-ministro iraquiano, Adel Abdul Mahdi, declarou que a morte de Soleimani foi um "assassinato político" e disse que o general era um "mártir" responsável por "grandes vitórias contra o Estado Islâmico". E o Parlamento iraquiano aprovou uma resolução pela saída e encerramento das atividades de tropas estrangeiras no país. O governo argumenta que os E.U.A foram muito além dos termos do acordo que permite operações militares americanas no país. Trump reagiu dizendo que as tropas americanas só deixarão o Iraque se o governo pagar pela base aérea que os E.U.A construíram no país. Tendo ainda ameaçado impor sanções ao Iraque, caso implementasse a decisão de expulsar militares americanos. Até esse momento restará a dúvida em relação a presença dos E.U.A no Iraque e o desenrolar de toda essa crise bélica com o Irã.

05 de dezembro de 2019

Michael Bloomberg vs. Donald Trump.

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

As eleições nos E.U.A se acirram com o ingresso do bilionário ex-prefeito de Nova York Michael Bloomberg, que tem como objetivo derrotar Donald Trump nas urnas. Como dito, bilionário, neto de imigrantes, estando entre uma das figuras mais conhecidas na imprensa, política e economia dos E.U.A e agora com o desígnio de reconstruir os Estados Unidos como presidente, em uma pretensa era pós Trump. Por sinal, Bloomberg é bem mais rico do que Trump, sendo na verdade uma antítese desse. Cultivou uma ditosa imagem de empresário, magnata da mídia e filantropo. Bloomberg é o homem com a oitava maior fortuna do mundo, segundo a revista Forbes, tendo entrado agora em novembro nas disputas primárias do Partido Democrata para escolher o candidato da sigla na eleição presidencial de 2020. Afirmou ele: "Me proponho a ser presidente a fim de derrotar Donald Trump e reconstruir os E.U.A. Acredito que meu conjunto único de experiência em negócios, governo e filantropia me permitirá ganhar e liderar". Segundo a imprensa americana, depois de hesitar em participar de campanhas anteriores, Bloomberg decidiu fazê-lo agora por causa do seu temor de que os candidatos democratas com maior apoio até o momento (Joe Biden, Elizabeth Warren e Bernie Sanders) não sejam capazes de vencer o atual presidente. De maneira muito lúcida Bloomberg asseverou "Não podemos permitir mais quatro anos das ações imprudentes e antiéticas do presidente Trump. Ele representa uma ameaça existencial ao nosso país e aos nossos valores. Se ganhar outro mandato, nunca poderemos nos recuperar dos estragos", disse ele em comunicado. A participação de Bloomberg nesta eleição será uma grande revolução na campanha democrata, marcada até agora por candidatos que basearam grande parte de seu discurso no debate sobre a desigualdade de riqueza nos Estados Unidos. Bloomberg, de 77 anos, tem uma fortuna estimada pela Forbes em US$ 54 bilhões (cerca de R$ 228 bilhões), e Trump, de US$ 3 bilhões (ou R$ 13 bilhões). Segundo um estudo da organização não governamental britânica Oxfam, baseado em dados do banco Credit Suisse referentes a 2015, os oito homens mais ricos do mundo possuíam tanta riqueza quanto as 3,6 bilhões de pessoas que compõem a metade mais pobre do planeta. No início de novembro, quando a possibilidade da candidatura de Bloomberg começou a ser comentada, Trump afirmou que "não havia mais ninguém que preferisse enfrentar do que o pequeno Michael". A campanha do democrata já separou mais de US$ 30 milhões (quase R$ 127 milhões) em anúncios na televisão, considerada a maior compra de publicidade política na história das eleições primárias do país. Bloomberg ainda anunciou que sua campanha será paga com seu próprio dinheiro, algo que Trump prometeu no início de sua campanha nas primárias republicanas e não cumpriu. Bloomberg, nascido em 1942, na cidade de Boston, Massachusetts, cresceu em uma família judia vinda da região atualmente de Bielorrússia. Estudou engenharia elétrica na Universidade Johns Hopkins e depois fez um mestrado em administração de empresas na Universidade Harvard que marcaria o resto de sua vida e sua fortuna. Depois de se formar, seu primeiro trabalho foi em Wall Street, tendo ingressado no banco de investimentos Salomon Brothers, onde era responsável pelo comércio de ações e, posteriormente, pelo desenvolvimento de sistemas. No entanto, em 1981, o banco foi comprado e Bloomberg foi demitido, iniciando e fundando assim suas atividades no conglomerado de mídia que leva seu nome. Mas, retornando a campanha, sua entrada na disputa pelo posto de candidato democrata em 2020 gerou desconforto entre alguns colegas de partido, como os senadores Elizabeth Warren e Bernie Sanders. Para eles, trata-se de outro bilionário que busca usar sua fortuna para ganhar votos e fechar negócios no Salão Oval. Apesar que, o histórico de Bloomberg o legitima como sendo completamente diferente de Trump. Sua entrada na disputa oferece principalmente um meio de direcionar para o centro o Partido Democrata que se via em um caminho arriscado para a esquerda. Enfim, se existe alguém que poderia reafirmar os valores americanos e afastar Donald Trump da presidência, esse alguém é Michael Bloomberg.

28 de novembro de 2019

A inquietação Americana com o avanço da China.

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

Existe expectativas crescentes em Washington e Pequim de que um acordo para ajudar a resolver a guerra comercial entre E.U.A e China possa ser feito em breve. No entanto, o comércio não é apenas a única rivalidade entre as duas superpotências; perpassando muitos outros setores, tais quais a economia, defesa, cultura e tecnologia. Tentar afirmar onde vai chegar tal competitividade mútua não é algo fácil. As tensões entre os dois países são muito mais profundas do que apenas o comércio, e a resolução do conflito somente em torno desse acordo comercial não fará muita diferença por si só. A realidade é que houve uma mudança negativa articulada em relação à China nos Estados Unidos da América nos últimos anos, sendo que existem muitas razões para esse aumento nas tensões. Os americanos reclamam que a China nunca teve em vista seguir as regras comerciais então postas na sociedade internacional. Afirmam que os chineses querer ingressar em fóruns multilaterais para começar a mudar a forma como os fóruns multinacionais regulam o comércio global. Em outras palavras, a China se une com a intenção de mudar a realidade a que se agrega, e não de mudar a si, flexibilizando ou cedendo em determinados termos. A escalada comercial planetária da China teve como resultado uma vasta onda de perdas de empregos e fechamento de fábricas nos E.U.A. Os chamados "Estados do cinturão da ferrugem" (onde as indústrias americanas estão concentradas) que votaram no presidente Trump em 2016 foram os que mais sofreram com a ascensão chinesa. Muitas empresas americanas transferiram a produção para a China para se beneficiar de custos trabalhistas mais baixos, mas essas empresas pagaram um alto preço por essa mudança, pois a China as obrigou a entregar sua tecnologia e propriedade intelectual. E mesmo as empresas que não realocaram a produção descobriram que a China de alguma forma se apossou de seus segredos comerciais. As agências policiais nos E.U.A têm uma longa lista de acusações contra indivíduos e empresas chinesas por espionagem comercial e invasão por hackers. O F.B.I. informou recentemente ao Congresso dos E.U.A que existem atualmente pelo menos mil investigações em andamento sobre o roubo de propriedade intelectual de empresas americanas que envolvem a China. O governo dos E.U.A estimou que o valor total da propriedade intelectual roubada pela China nos quatro anos até 2017 em US$ 1,2 bilhão. Muitos especialistas asseguram que essa é a principal razão pela qual as relações entre os E.U.A e a China desandaram. Assim que as empresas americanas descobriram suas patentes sendo desfeitas, seus produtos com engenharia reversa, seus processos de pesquisa e desenvolvimento sendo invadidos, mais e mais dessas empresas concluíram que a parceria com a China não estava se mostrando lucrativa e na verdade poderia realmente está sendo totalmente negativa. A partir dessa percepção, quem anteriormente defendia o envolvimento com a China agora se mostrava alarmado ao ver a rapidez com que o gigante asiático estava se aproximando e principalmente, por meios altamente questionáveis. Neste momento existe um movimento que se distancia da “guerra contra o terror” e, em vez disso, enfoca a competição entre as principais potências como a maior ameaça aos Estados Unidos da América. O departamento de defesa dos E.U.A agora acredita que enfrentar a ascensão da China é um dos principais objetivos militares dos Estados Unidos nas próximas décadas. A velocidade com que a China construiu e depois militarizou uma série de ilhas artificiais no Mar da China Meridional, desafiando o direito internacional, tem alarmado especialmente os americanos. A China tem sido muito evidente em suas ambições de liderar o mundo nas importantes tecnologias do futuro, como robótica e Inteligência Artificial. Os chineses obtendo sucesso nessas áreas, provavelmente superarão os Estados Unidos como a principal potência do mundo. A supremacia militar dos E.U.A não se baseia em um enorme exército permanente, mas em sistemas de armas de alta tecnologia. Se a China liderar essas tecnologias cruciais, talvez os americanos não consigam os acompanhar por muito tempo. A China não apenas aperfeiçoa tecnologias para vigilância e censura doméstica, contudo exporta cada vez mais essas tecnologias, além de fazer inúmeros investimentos no exterior. Portanto, não se espera que a posição dos E.U.A sobre a China mude no curto prazo, mesmo que Donald Trump perca as próximas eleições. A ascensão chinesa associada a uma ideologia de repressão é algo preocupante para a sociedade internacional.

21 de novembro de 2019

O início das audiências para o impeachment de Trump

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

A primeira audiência pública do processo de impeachment de Donald Trump, realizada agora em novembro, poderia ter sido relativamente trivial para quem acompanhou a cobertura no último mês dos depoimentos a portas fechadas de uma série de funcionários do atual governo e do governo anterior. A cobertura da mídia americana tem sido completa (CNN, NPR, FOX, NBC etc.) e não tem deixado passar nada; entretanto, surgiu uma novidade em meio a monotonia da audiência. o embaixador dos Estados Unidos em exercício na Ucrânia, Bill Taylor, fez uma revelação que pode complicar a situação de Donald Trump.

Trump é acusado de ter pressionado a Ucrânia a investigar seu rival político Joe Biden, principal pré-candidato democrata na corrida para as eleições de 2020, em troca de apoio militar ao país. O presidente nega, no entanto, as acusações, afirmando se tratar de uma "caça às bruxas". Taylor revelou na audiência pública que um de seus assessores estava com o embaixador americano para a União Europeia, Gordon Sondland, enquanto ele conversava por telefone com Trump após uma reunião com os ucranianos no dia 26 de julho — um dia depois do controverso telefonema entre Trump e o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, no qual o americano teria feito pressão para abrir as investigações, o que motivou o pedido de impeachment. Segundo Taylor, seu assessor ouviu Trump perguntar sobre "as investigações" — e Sondland respondeu que a Ucrânia estava pronta para seguir em frente. Sondland teria dito ao assessor de Taylor que o presidente americano se importava mais com a investigação de Biden do que com qualquer outra coisa envolvendo a Ucrânia. Esse telefonema tem o potencial de representar uma grande reviravolta no processo de impeachment contra Trump. Houve consideráveis relatos sobre a interação de Sondland com os ucranianos, e o próprio embaixador afirmou em depoimento ter dito às autoridades ucranianas em 1º de setembro que presumia que a ajuda militar dos E.U.A provavelmente seria retida até o início das investigações. Durante a audiência pública, Taylor falou sobre como Sondland contou a ele que o presidente americano, como sendo um empresário, queria receber o que "deviam a ele" antes de "assinar o cheque" e que haveria um "impasse" se a Ucrânia não agisse — o que Taylor interpretou no sentido de a ajuda militar não ser retomada sem a abertura das investigações. Embora ainda haja relatos da relação direta de Sondland com o presidente, não existe evidências ligando Trump diretamente à suposta troca de favores. Todavia, o telefonema que Taylor descreveu pode mudar esse cenário. No meio da audiência pública, o Comitê de Inteligência da Câmara dos Representantes anunciou que agendou um depoimento a portas fechadas de uma nova testemunha: um assessor de Taylor chamado David Holmes — supostamente o assessor que Taylor mencionou quando fez referência ao telefonema. E, agora no final de novembro, o próprio Sondland vai depor durante as audiências públicas. Embora o embaixador não tenha mencionado o telefonema com o presidente em seu depoimento original a portas fechadas, vale lembrar que ele já precisou retificar seu depoimento uma vez para incluir que havia lembrado de ter discutido com autoridades ucranianas sobre ajuda militar. Os democratas podem estar esperando que ele faça isso de novo. Se Sondland ou Holmes validarem o depoimento de Taylor, isso pode minar a defesa do presidente americano, que sugere que Trump não estava diretamente envolvido nas atividades do "canal não oficial", como Taylor chama, com o governo da Ucrânia, que estaria pressionando o país a investigar Biden. Trump, quando perguntado sobre seu relacionamento com Sondland, afirmou: "Eu mal conheço esse senhor". No entanto, se Donald Trump recebeu de fato ligações diretas do embaixador após as reuniões com a Ucrânia, essa declaração parece menos convincente. Independentemente de ter sido por acaso ou programado, o primeiro dia das audiências públicas do processo de impeachment ganhou as manchetes dos jornais e criou uma linha de investigação e especulação política. Após essa grande revelação, os democratas têm motivos para ficar contentes, enquanto a equipe de Trump ganhou mais uma grande preocupação

13 de novembro de 2019

Trump retira os E.U.A do Acordo de Paris

Confira o texto publicado pelo colunista Welson Oliveira no Jornal O Dia.

A exatamente um ano de enfrentar a disputa eleitoral que poderá reconduzi-lo à Casa Branca ou retirá-lo da presidência, Donald Trump cumpriu uma promessa de campanha e notificou a Organização das Nações Unidas – O.N.U. sobre a retirada dos Estados Unidos do Acordo do Clima de Paris. O envio da carta de saída, divulgada pelo secretário de Estado Mike Pompeo, via Twitter, foi confirmado pela O.N.U. O Acordo de Paris foi aprovado em 2015 por 195 países e tem como objetivo central impedir que a temperatura média no mundo aumente mais do que 2 graus celsius, o que levaria a sucessivas catástrofes ambientais que poderiam acarretar a extinção da humanidade. Para isso, o acordo prevê que os países signatários devem atingir metas de redução de emissões de CO2, eliminado na atmosfera especialmente pela queima de combustíveis fósseis e madeira, e responsável pelo aquecimento global. Para se ajustar às demandas do acordo, os países teriam que modificar as bases de sua produção industrial, de modo a torná-la mais sustentável. Trump afirmou em 2017 que, ao fazer esse tipo de exigência, o acordo seria desvantajoso para os interesses da economia americana, porque levaria ao fechamento de fábricas e à perda de postos de trabalho na indústria carvoeira dos E.U.A, um segmento que Trump prometeu incentivar. Além disso, na percepção tacanha do mandatário americano, os termos do pacto feririam a soberania dos Estados Unidos sobre seu próprio território. Pompeo retomou esses argumentos ao anunciar a saída do pacto no dia 04 de novembro. Embora fosse uma promessa antiga, o anúncio da retirada acontece em um momento oportuno para Trump, que enfrenta tempos de fragilidade política desde que o Congresso iniciou um processo de impeachment contra ele, há pouco mais de um mês. Faz uma semana passada, a Câmara dos Representantes decidiu seguir publicamente com a tomada de depoimentos na investigação contra Trump. As transcrições dos testemunhos do ex-embaixador na Ucrânia Kurt Volken e do embaixador na União Europeia Gordon Sondland se tornaram públicas. Ambas trouxeram elementos comprometedores contra Trump no episódio em que ele pediu ao presidente da Ucrânia uma investigação contra um dos pré-candidatos democratas, Joe Biden, em troca da liberação de recursos de ajuda militar ao país. Trump tenta retirar o foco de si e colocar na questão ambiental, em razão dessa ser extremamente polarizada nos Estados Unidos. Um anúncio como esse agora é uma maneira de manter a base unida, uma estratégia para desviar a atenção do processo de impeachment. Os Estados Unidos emitem cerca de 15% do dióxido de carbono liberado na atmosfera atualmente. Trump afirmou no passado que poderia tentar renegociar uma nova entrada dos E.U.A no Acordo de Paris no futuro, com termos que, segundo ele, fossem mais justos com o povo americano. Na prática, no entanto, essa decisão dependerá de quem ganhar a presidência em 2020. Embora o simbolismo da decisão de Trump em retirar os E.U.A do acordo do clima seja grande, especialistas ponderam que os efeitos da decisão sobre o esforço global de reduzir as emissões é limitado. Muitos asseveram que mesmo o governo federal dos E.U.A deixando de tomar medidas para evitar o aquecimento global, ainda assim os Estados Unidos devem ser capazes de cumprir em quase 70% a meta de redução de liberação do CO2 estabelecida para o país pelo acordo de Paris. Isso porque, indo ao encontro à decisão de Trump, mais de uma dezena de Estados americanos, liderados pela Califórnia, estão fortemente empenhados em implementar políticas locais ainda mais restritivas ao CO2 do que as preconizadas pelo Acordo de Paris. O acordo do clima leva em conta e dá força às iniciativas subnacionais, estaduais. Não é só o governo federal que importa. E os estados americanos têm sido bem-sucedidos em contrariar Donald Trump. A retirada do Acordo de Paris é apenas mais uma das medidas tomadas na agenda ambiental de Trump, pois internamente, ele tenta enfraquecer as iniciativas limpas. No caso mais recente, Trump diminuiu as exigências federais de eficiência energética dos carros movidos a combustível fóssil, contra o interesse da própria indústria automobilística, já equipada para produzir motores menos poluentes. Na prática, Trump autorizou os carros a poluírem mais e entrou na Justiça contra a Califórnia, cujas normas são mais rígidas, para impedir que a administração estadual possa atuar de modo independente ao governo federal. Uma pesquisa publicada no periódico científico Science mostrou que, sob Trump, as terras federais americanas sofreram a maior devastação da história. O presidente defende desregulação da exploração dessas áreas, para aquecer a economia. Em setembro deste ano, o jornal New York Times contabilizou 85 regras ambientais que foram flexibilizadas ou enfraquecidas pela atual gestão, em três anos.

07 de novembro de 2019

A formalização do impeachment de Trump: o que acontece agora?

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

A Câmara dos Representantes – o equivalente à nossa Câmara dos Deputados – dos E.U.A, de maioria democrata, aprovou no dia 31 de outubro uma resolução para formalizar o prosseguimento do processo de impeachment contra o presidente Donald Trump. A resolução, aprovada por 232 votos a 196, não é um voto em torno do impeachment em si — apenas detalha como o inquérito de impeachment passará, agora, para uma fase pública de investigação a respeito de se Trump tentou ou não pressionar a Ucrânia para que o país investigasse seu rival político Joe Biden, de forma a influenciar as eleições presidenciais americanas do ano que vem. Trump nega as acusações, negando ter barganhado tal investigação com a Ucrânia e chamando o processo de impeachment de "caça às bruxas". Ainda assim, essa votação inicial de formalização do impeachment foi o primeiro teste formal de apoio para o impedimento de Trump e mostrou que os democratas têm força suficiente na Câmara para avançar com acusações formais contra o presidente, caso acreditem ter provas suficientes para tal. Os votos seguiram as linhas partidárias: a maioria dos democratas votou a favor de avançar o processo de impeachment, e a maioria dos republicanos votou contra. Agora, no início do mês de novembro, os democratas da Câmara divulgaram um documento de oito páginas definindo um processo em duas etapas para a nova fase do inquérito de impeachment. Na primeira etapa, o Comitê de Inteligência da Câmara deverá continuar sua investigação e realizar interrogatórios públicos, ainda com o direito de tornar públicas as transcrições de depoimentos colhidos em privado. Na segunda etapa, se as provas contra Trump forem consideradas robustas o bastante, o Comitê Judiciário da Câmara ficará encarregado de redigir acusações formais — os chamados "artigos de impeachment" — contra o presidente, que terão de ser colocadas em votação para todos os legisladores. Se essa eventual votação resultar na aprovação do impeachment, o processo segue para o Senado, que (ao contrário da Câmara) é de maioria republicana. Os advogados de Trump poderão participar da segunda fase do processo, no Comitê Judiciário. Os republicanos presentes nos comitês terão poder para juntar documentos e intimar testemunhas relacionados ao processo, no entanto estarão sujeitos a veto, uma vez que ambos os comitês são controlados por uma maioria democrata. Cerca de dez testemunhas ouvidas pela Câmara até agora afirmaram ter havido um esforço por Trump e aliados para "pressionar a Ucrânia" de forma a obter informações que eventualmente prejudicassem Joe Biden e, por consequência, debilitassem sua candidatura em 2020. O processo de impeachment tem como foco central um telefonema ocorrido 25 de julho entre Trump e Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, no qual o americano pede investigações a respeito de Biden e seu filho, Hunter. O telefonema foi alvo da queixa de um delator e chegou à imprensa. Em meio as investigações, Tim Morrison, principal especialista em Rússia do Conselho de Segurança da Casa Branca, testemunhou perante o Congresso, em sessão privada. Segundo outras testemunhas, Morrison (que pedira demissão na véspera da audiência) tem conhecimento em primeira mão da tentativa da Casa Branca em congelar US$ 391 milhões em ajuda militar à Ucrânia — supostamente para pressionar os ucranianos — e teria ouvido ao vivo o telefonema entre Trump e Zelensky. Trump nega, porém, que tenha condicionado a liberação dessa ajuda militar para a Ucrânia à investigação. Um futuro depoimento aguardado agora é o do famoso e beligerante John Bolton, ex-conselheiro de Trump para Segurança Nacional. Ele deporá na primeira quinzena de novembro, junto com dois advogados da Casa Branca. Bolton, segundo testemunhas, teria veementemente discordado das táticas de Trump na negociação com a Ucrânia e do envolvimento do ex-prefeito de Nova Iorque e advogado pessoal do presidente, Rudolph Giuliani, nas conversas com a liderança ucraniana. Com o avançar de toda essa fase processual poderá se descortinar um melhor entendimento da viabilidade ou não do impeachment de Trump.

30 de outubro de 2019

A onda de protestos em escala global

Confira o texto publicado pelo colunista Celso Pires no Jornal O Dia.

Nas últimas semanas, o mundo assistiu à escalada de uma onda de protestos indo de Hong Kong ao Chile, passando por Líbano, Equador e outros países. Eles são diferentes, com causas, métodos e objetivos distintos; no entanto existem temas comuns que os conectam. Com milhares de quilômetros de distância, os protestos começaram por razões semelhantes em vários locais, e alguns se inspiraram em outros em relação a como organizar e promover seus objetivos. Muitos dos que protestam são pessoas que há muito tempo se sentem excluídas da riqueza de seu país. Em vários casos, um aumento em preços de serviços básicos foi a “gota d'água”. No Equador, as manifestações começaram quando o governo decidiu eliminar os subsídios a combustíveis para conter o déficit fiscal. As medidas de austeridade foram implementadas pelo presidente Lenín Moreno com apoio do Fundo Monetário Internacional – F.M.I. A mudança levou a um forte aumento nos preços da gasolina, muitos não puderam mais pagar. Os grupos indígenas temiam que a medida resultasse em aumento dos custos de transporte público e da alimentação, e disseram que as comunidades rurais seriam as mais atingidas. Os manifestantes bloquearam estradas, invadiram o Parlamento e entraram em conflito com as forças de segurança, exigindo o fim das medidas de austeridade e o retorno dos subsídios aos combustíveis. Para colocar fim nos protestos, o governo recuou após dias de manifestações. No Chile, foi uma alta nos preços dos transportes que provocou protestos. O governo disse que os custos mais altos de energia e uma moeda mais fraca levaram à decisão de aumentar as tarifas de ônibus e metrô. Os manifestantes, no entanto, disseram que a medida foi mais uma a pressionar a população mais pobre. Quando os manifestantes entraram em conflito com as forças de segurança, o presidente Sebastián Piñera foi fotografado jantando em um restaurante italiano de luxo, um sinal, disseram alguns, do abismo entre a elite política do Chile e as pessoas que estavam nas ruas. O Chile é um dos países mais ricos da América Latina, porém ainda um dos mais desiguais, tendo os piores níveis de igualdade de renda entre os 36 países membros da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – OCDE, com o mesmo índice do México. Como ocorreu no Equador, o governo do Chile recuou e suspendeu o aumento de preço, em um esforço para reprimir os protestos. No entanto, as manifestações continuaram e cresceram, com queixas mais amplas, não se tratando mais de simples protestos contra o aumento das tarifas de metrô. O Líbano passou por um movimento semelhante. A decisão de aumento de taxações provocou protestos por meio do WhatsApp, que também se tornaram mais amplos e passaram a questões econômicas ligadas a desigualdade e corrupção. Com o aumento do nível de endividamento, o governo vem tentando implementar reformas econômicas para garantir um pacote de ajuda internacional. Entretanto, muitas pessoas dizem que estão sofrendo com as políticas econômicas do país e que a má administração do governo é responsável por seus problemas. Reclamações contra a corrupção do governo estão no centro de vários dos protestos e estão intimamente ligadas à questão da desigualdade. No Líbano, os manifestantes argumentam que, enquanto sofrem uma crise econômica, os líderes do país têm usado suas posições de poder para enriquecer, por meio de propinas e acordos. Depois dos protestos, o governo aprovou um pacote de reformas, incluindo a redução dos salários dos políticos, em um esforço para conter a agitação. No Iraque, manifestantes também pedem o fim de um sistema político que, segundo eles, fracassou. Um dos principais pontos de reclamação é a maneira como as nomeações para o governo são feitas com base em cotas étnicas, em vez de mérito. Os manifestantes argumentam que isso permitiu que os líderes abusassem dos fundos públicos para benefício próprio e de seus seguidores, com muito pouco benefício para a maioria dos cidadãos. Protestos contra suposta corrupção do governo ainda ocorreram no Egito. As manifestações foram motivadas por uma convocação de Mohamed Ali, um empresário egípcio que vive em exílio auto imposto na Espanha, que acusou o presidente Abdel Fattah al-Sisi e os militares de corrupção. As alegações dele de que Sisi e seu governo estão fazendo má administração dos fundos ressoaram entre muitos egípcios, que ficaram cada vez mais descontentes com medidas de austeridade. Em alguns países, os manifestantes estão irritados com os sistemas políticos em que se sentem presos. As manifestações em Hong Kong começaram neste ano devido a um projeto de lei que permitiria a extradição de suspeitos de crimes para a China em determinadas circunstâncias. Hong Kong faz parte da China, mas seu povo desfruta de liberdades especiais e existe um profundo medo de que Pequim queira exercer maior controle sobre o território. Como em outros países, a manifestação popular em Hong Kong levou à retirada da polêmica legislação. No entanto, os protestos continuaram. Entre suas reivindicações, os manifestantes querem agora o sufrágio universal completo, um inquérito independente sobre suposta brutalidade policial e anistia para manifestantes que foram presos. As táticas deles inspiraram ativistas políticos do outro lado do mundo. Centenas de milhares de pessoas se reuniram em Barcelona para protestar contra o encarceramento de líderes separatistas catalães. Manifestantes catalães também distribuíram infográficos feitos em Hong Kong que detalham como os manifestantes podem se proteger dos canhões de água e do gás lacrimogêneo da polícia. Percebe-se claramente que a ordem mundial se encontra em um momento de convulsão, de transformação. Não se sabe bem o que vai se aflorar disso tudo, mas evidencia que uma grande parcela da humanidade está insatisfeita com determinados modelos políticos postos.