Campelo

A fragilidade física humana e o descaso dos governos

Parte 2 – O erro do debate ideológico na luta contra a COVID 19

16/04/2020 10:25h

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Em que pese o dualismo, enquanto filosofia cartesiana ter avançado ainda no Século XVIII, quando Descartes expôs a existência de duas diferentes espécies de substâncias, distinguindo a espiritual da material, tendo se descortinado a partir daí tantas outras dualidades, como o bem e o mal, o certo e o errado, direita e esquerda, por exemplo, tenho visto em pleno Século XXI, e em um momento tão delicado quanto o atual, esse dualismo exacerbando-se de uma forma doentia na política ideológica no Brasil. É que, agora, com a COVID 19, esse jogo dual-ideológico tem atentado contra a própria vida das pessoas, o que nos remete a pensar que o que menos têm importado a esses ideólogos são as pessoas que prometem estar defendendo. 

Efetivamente, não se tratam mais apenas de teorias, discursos, ou opiniões filosóficas conflitantes entre si, em um cenário academicista. Não. As pessoas estão em casa e a atividade econômica responsável pelo desenvolvimento do país avança a passos largos para um poço que, oxalá não seja tão profundo a ponto de se ter que levar anos para sair dele. 

Ficar em casa ou produzir, fazer a economia girar, avançar e o dinheiro circular ou correr o risco de contrair a COVID 19? Argumentos não faltam para se defender uma ou outra posição.  Essa realidade, disse, outrora, “assinala para algo muito mais profundo: a fragilidade física humana, por um lado; e o descaso dos Estados para com suas respectivas populações, pelo outro” (Ver parte 1: “O COVID 19 é um Tsunami?”). E aqui, nessa afirmação, não há nada dual ou ideológico, posto se tratarem de argumentos independentes entre si e que por isso mesmo merecem ser abordados isoladamente.

Quando se trata da fragilidade física humana é forçoso reconhecer, ante a pandemia perpetrada pela COVID 19, que a natureza física é, de fato, delicada como um cristal, podendo se quebrar a qualquer instante, exigindo zelo e cuidado no seu trato, o que remete para a prudência e para a razoabilidade na tomada de decisões, especialmente quando se pode colocar em risco essa vida física. Um vírus que atinge praticamente todos os espaços da Terra, em uma velocidade assombrosa, e que já tirou a vida de milhares de pessoas, é mais do que uma prova dessa realidade. 

Todavia, cerca de 820 milhões de pessoas em todo o mundo não tiveram acesso suficiente a alimentos em 2018, segundo relatório da ONU, sendo que apenas hoje, enquanto escrevo esse artigo, mais de 15 mil pessoas já morreram de fome no Mundo, havendo ainda mais de 800 milhões de pessoas sem acesso a água potável.  (https://www.worldometers.info/pt/). Poderia citar vários outros dados, mas penso que estes já são suficientes o bastante para se entender onde quero chegar.

Mas então, qual o caminho deve ser seguido?  Sair, produzir (repito) ou ficar em casa e esperar que o vírus se vá? Essas questões tão importantes remetem a um debate que, independente da escolha, podem atentar contra a vida das pessoas, e por isso mesmo jamais deveriam ser respondidas com vieses ideológicos, pois é o bem mais valioso que existe que está em jogo: a vida física das pessoas, que é frágil e deveria ser bem zelada.

Há a necessidade, assim, que se mudem os comportamentos e que os debates exsurjam de outra forma, mais responsável e eticamente, sem interesses políticos, eleitorais ou  de poder, sem querer tirar vantagens e sem querer dar o famigerado e pernicioso ‘jeitinho’. 

Os líderes precisam compreender que esses debates ideológicos não poderiam existir nesse momento de guerra que a humanidade vive. Uma trégua precisava ser declarada e as decisões, quaisquer que fossem, deveriam ser encontradas com um coração puro e límpido e um sentimento altruísta em que a razão deveria confirmar como decisões acertadas, justas e melhores para todos, indistintamente. De fato, os líderes precisam compreender que quando se tratam de vidas estas deveriam sempre ficar em primeiro plano, acima de falaciosas ideologias que, ao longo da história, já demonstraram todo o poder destruidor de que se revestem. Mas isso não é possível, eu sei, é utópico, mas não deveria ser.

Se se olhar bem para todo esse cenário, tal qual uma tragédia shakespeariana, tantas contradições, desencontros, descasos e falsidades serão encontrados, que só se admite não vê-los àqueles que estão cegos pelas ideologias ou por que se negam a pensar e refletir.

É que enquanto o debate ficar submergido a essas discussões antagônicas e que levam mais a dúvidas e incertezas do que às necessárias soluções, algumas pessoas continuarão trancadas em seus lares, outras se amontoarão no transporte público e nas  filas de bancos em busca da sobrevivência, esperando receber algum dinheiro do Estado, impedidas que estão de voltarem às ruas, pedindo esmolas, vigiando carros ou fazendo malabarismos nos semáforos; a economia continuará a desabar; a indústria não produzirá e tampouco o comércio terá o que vender; e as pessoas continuarão a morrer à mingua, seja de fome, miséria ou por falta de saneamento básico em seus lares... seja por causa da COVID 19. Tudo isso, na verdade, demonstra apenas o descaso (histórico) dos governos. Continua...

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