Cá entre mães

Eu não amamentei. Sou menos mãe?

Quando ele ouviu o choro da menina (ela tinha 20 dias e há 10 chorava sem parar, mesmo mamando), disse com uma voz calma: “minha filha, esse choro não é de cólica; sua filhinha está com fome”.

26/02/2014 16:35h

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Faz tempo que eu queria contar aqui a minha experiência em amamentação. Ou a quase ausência dela. Confesso que nunca tive muita coragem. Então, uma amiga me marcou num post sobre guerras maternas  e eu li um outro post  em relação à existência ou não dessas guerras.

Lia, relia, e quanto mais lia, mais pensava na minha experiência em amamentação. E tomei coragem.

Antes de engravidar eu já sabia que queria amamentar. Quando grávida, preparei-me psicologicamente para alimentar minha filha exclusivamente ao peito, em livre demanda, por pelo menos seis meses. Eu já tinha tudo planejado.

Fiz exercícios para os seios; peguei sol para fortalecer os mamilos; cuidei da alimentação; usei concha; e mais um sem número de dicas que me deram.

Quando Laura nasceu, comecei a tarefa para a qual tanto me preparei. E mesmo não sendo aquela coisa linda das cenas de novela, eu adorava. Doía, mas eu adorava.

Era uma delícia sentir a minha filha sugando de mim o seu alimento. Era um momento de comunhão.

Mas nem tudo era gostoso. Meus seios ficaram muito feridos e passei a usar um bico de silicone. Sem sucesso.

A dor era intensa. Perdi a conta de quantas vezes deixei as lágrimas rolarem ao amamentar minha pequena. Perdi a conta de quantas vezes mordi minha mão para manter Laura tranquila ao peito.

Nem em meio à mais forte dor, eu pensei em parar de amamentar. Ao contrário, fazia tudo o que me ensinavam para que a amamentação continuasse.

Um dia, vi o rostinho da Laura sujo de sangue e pensei que eu a tinha machucado. Quando a tirei do seio, vi que era do meu peito o sangue. Nesse mesmo período, a pequena começou a chorar de forma quase intermitente. Passava horas e horas ao seio e continuava a chorar.

O peito não estava pedrado e parecia encher e esvaziar, mas como o choro não parava e eu já tinha deixado de comer quase tudo porque me diziam que o choro era de cólica e nada dava jeito, fomos ao pediatra.

Conversamos longamente. Ele perguntou mil coisas. Quando eu falei sobre o sangue, passou medicamento e disse que, temporariamente, eu teria que usar desmamadeira, para que Laura não engolisse o sangue.

Quando ele ouviu o choro da menina (ela tinha 20 dias e há 10 chorava sem parar, mesmo mamando), disse com uma voz calma: “minha filha, esse choro não é de cólica; sua filhinha está com fome”.

Desabei. Fome? Como, fome? Ela mamava furiosamente de duas em duas horas e passava a noite inteira, literalmente, ao peito. Como poderia ser fome?

Não é fácil pensar que sua criança está há 10 dias chorando de fome.

O pediatra disse então que eu deveria ficar calma, usar a medicação para sarar o peito e, nesse ínterim, dar à Laura leite artificial (para solucionar o problema da fome) e continuar estimulando os seios e desmamando de duas em duas horas. Pediu ainda que eu armazenasse a produção de todo o dia, para sabermos quanto de leite eu produzia em 24 horas e comparar com a quantidade que ela tomava.

Assim fiz. Enquanto Laura dormiu durante cinco horas seguidas, pela primeira vez na vida, após tomar a primeira mamadeira (de cara, aos 20 dias, tomou 120ml), descobri que eu produzia quase nada, cerca de 30ml de leite durante um dia inteiro.

Fui até à maternidade Evangelina Rosa, para aprender a técnica do desmame manual, porque eu achava que estava fazendo alguma coisa errada.

A técnica do banco de leite massageou meus seios (que estavam cheios, mas não pedrados, porque eram constantemente estimulados e esvaziados com desmamadeira). Para surpresa dela – e minha – ao final de um dia, ela conseguiu 40ml de leite materno, somando os dois seios.

Voltei ao pediatra e ele verbalizou o que eu já havia constatado. Eu não produzia leite em quantidade suficiente para alimentar minha filha. Ela mamava 120ml a cada duas horas e eu produzia, no máximo, 40ml em 24 horas.

Nem preciso dizer que chorei. A culpa veio com toda a força. Aos meus olhos, eu já não era tão mãe.

De novo, a voz calma do pediatra: “minha filha, a gente estimula o aleitamento, porque é melhor para a criança e porque a maioria das mulheres tem produção suficiente; mas você não deve se culpar; o importante é que sua filha seja cuidada e alimentada; cada organismo reage de forma diferente a uma mesma situação; então, vamos cuidar da sua filha, alimentá-la de forma a saciar sua fome e você verá como ela crescerá forte e saudável e você será tão mãe quanto todas as outras”.

Naquela hora, essas palavras só me fizeram chorar ainda mais. Olhei pra Laura e pensei: “vamos lá, filha, vamos fazer o que tem que ser feito, juntas”.

Então, com nosso arsenal de mamadeiras e acessórios, eu e Alex começamos a tarefa de alimentar nossa filha de outro jeito. Ainda continuei a desmamar a cada duas horas, mas a quantidade de leite era, como sempre, mínima. Até que parei.

Minha experiência com amamentação durou exatos 20 dias. Mas o sofrimento por não alimentar minha filha com leite materno durou muito mais.

Não foram poucos os comentários maldosos, os palpites condenatórios e os julgamentos.

A maior parte das pessoas, ao perguntar se Laura mamava muito e ouvir minha resposta, que ela tomava mamadeira, olhava como se eu fosse um E. T., uma mãe pra lá de desnaturada, como se eu não amamentasse por escolha.

Fui julgada de diversas formas, com olhares, gestos e palavras.

Teve até um dia, eu e mamãe levamos Laura para a consulta de inclusão no plano de saúde. Enquanto esperávamos a carteirinha do plano ficar pronta, chegou a hora de alimentar a pequena. Minha mãe ficou com Laura no colo e eu comecei a preparar a mamadeira.

A senhora que estava sentada ao nosso lado, até então muito simpática e admirada com meus cuidados de mãe zelosa, ao ver a mamadeira, disparou sem piedade: “a mãe dessa menina não tem peito não?”. Foi cruel. Doeu demais.

Mas também serviu para acender não sei que luz dentro de mim. Engoli a vontade de chorar e respondi na lata: “tenho peito e a minha filha tem pediatra”.

Nesse dia, comecei a me libertar da culpa que eu carregava. Comecei a entender que eu de fato não era menos mãe porque não amamentava.

Passei a entender que o meu vínculo com a Laura não dependia exclusivamente de alimentá-la ao peito, mas da relação que estávamos construindo, dia a dia.

E entendi que, como tudo na vida, às vezes nós podemos escolher (e eu tinha escolhido amamentar) e outras vezes não.

Depois disso, conheci outras histórias semelhantes à minha. Mulheres que, por diversos motivos, também não puderam alimentar seus filhos ao seio.

E comecei a criar, para mim e para a Laura, outras formas de fortalecer nosso vínculo, nosso amor.

Temos um jeito só nosso na hora da alimentação. A hora da soneca é um momento mágico entre nós. Em todos os instantes em que estamos juntas, sorrimos e trocamos olhares constantemente e é delicioso ver o brilho nos olhos dela ao me ver.

Eu até acho que existe uma certa competição entre mães. Mas há muito resolvi não entrar nessa energia. Ela não é minha.

Participo de um grupo de mães numa rede social. Lá, no lugar da competição, há o auxílio. Todas nós nos sabemos imperfeitas e nos ajudamos mutuamente. De minha parte, se alguém me julga – no grupo ou em outro lugar – ignoro.

Eu aprendi que os filhos nos ensinam. E que é preciso ouvir e observar atentamente, para aprender.

Valorizo a amamentação exclusiva até os seis meses da criança. E continuo a estimulá-la entre as grávidas com quem convivo. Mas já não me sinto culpada por não ter amamentado. E sei que a minha experiência pode ajudar algumas pessoas que passam pelo mesmo que eu.

Não perco tempo pensando se fiz o certo; se a atitude do pediatra foi a correta. Fiz o que podia, da forma como podia. E o que realmente importa é que Laura cresce tranquila e normalmente, com todas as suas peraltices. E que há amor entre nós.

No fim, é isso o que importa.

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Por: Viviane Bandeira, jornalista e mãe da Laura

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