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Andarilhos

Procrastinação

s. f., ato ou efeito de procrastinar; adiamento, demora, delonga.

25/02/2016 13:03h - Atualizado em 25/02/2016 13:14h

A mesma carinha insossa de sempre. Um sorrisinho. Um olhar fixo em qualquer canto. Nem fede, nem cheira. E todo mundo passa. A escola passa. A banda passa. Até uva passa. Ela: imóvel.

Doer doía, mas não havia como ninguém saber. Era só ficar ali sorrindo. Uma musa pronta para ser retratada, mas sem nenhum pintor. Depois de algum tempo essa mesmice, esse de sempre... Isso cansa. É cômodo, só que cansa.

Queria subir no alto de uma torre e gritar a plenos pulmões. Queria xingar todo mundo. Usar todas as palavras sórdidas que conhecia. A palavra com p, com f, com c... Uma depois da outra. Ao invés disso sentou-se com uma calma invejável, e levou uma xícara de chá vagarosamente à boca. O chá era uma maneira de dizer aos nervos para se aquietarem, que tudo aquilo não passava de tolice, de um momento de fúria e descontrole pelo qual não valia a pena perder a compostura. Mas, intimamente se perguntava o que aconteceria se perdesse. E devagar, bem devagar tal qual sua própria figura, começou a simular o plano que iria mudar sua vida dali por diante.

"Sim senhor, sim senhora", e ao repetir isso algumas vezes por dia, caminhava exausta até o ponto de ônibus mais próximo do trabalho, o que ficava ao lado da drogaria de esquina. Mas nesse dia não fez o mesmo trajeto. Pegou uma van até a rodoviária, e pagou uma passagem para outro estado. Assim do nada. Sem malas, sem livros, sem despedidas. Apenas o necessário na bolsa.

Ninguém mais viu, nem ouviu falar nada a respeito. A não ser sobre a rescisão que recebera um dia antes e um bilhete que deixou:

" Você fez suas escolhas, estou fazendo as minhas. Te amo. Adeus mamãe!".

Culpou alguém por sua mórbida infelicidade? Não. A única culpada era ela mesma. Ela sabia. Esperou que os céus se abrissem para abençoá-la? Não. Não havia porque esperar, ou por quem. Só havia ela e ali estava em direção ao desconhecido. Ninguém sentiu sua falta, nem nada no mundo mudou por causa disso. Mas ela mudou. Ela sorriu com vontade até a barriga doer. Mandou o mundo às favas que ela estava se lixando. "Chá? Não, obrigada. Prefiro um rosé!".

Alguém chamou por seu nome. Ela voltou do devaneio ainda com a xícara de chá morna. Um dia isso poderá ser real. Hoje não.

A.S. 


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