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Andarilhos

Duas cartas de amor no jornal - II parte

"As estranhezas se completam"

15/04/2016 13:47h - Atualizado em 15/04/2016 14:06h

Passadas duas semanas após a publicação da primeira carta, o editor do jornal já havia desistido de receber algum sinal da destinatária. Uma tarde quando voltava do Café da Esquina – onde se encontrava com o dono de uma banca de revistas e taxistas, com quem jogava conversa fora para espairecer antes de voltar ao clima de deadline da redação – encontra em cima de sua mesa um envelope, cuidadosamente lacrado com um selinho dourado. Ao se dirigir à secretária, esta explica-lhe que uma jovem senhora solicitou que a carta que fosse entregue diretamente a ele e que havia acrescentado um pedido: que fosse encaminhado ao dono de uma certa carta publicada pelo jornal. Tão logo recebeu a resposta da secretária, dirigiu-se rapidamente ao escritório com o envelope na mão, fechando rapidamente a porta atrás de si. Enfim o mistério seria solucionado. Mal podia esperar para descobrir quem era a tal “moça que disse adeus”.

Mas de repente ficou diante de um dilema. Tratava-se de uma missiva de foro íntimo. Teria ele o direito de violar a intimidade alheia em nome da curiosidade, que para bem ou para mal, fazia dele o editor de uma redação jornalística? Passava o envelope de uma mão a outra pensativo... Até se dar conta de que não poderia entregá-lo ao remetente da primeira carta, que apenas assinara como Pepeu. Ele sequer sabia de quem partira a ordem para que fosse publicada. Assim, passou o dedo pelo lacre e em segundos estava com a resposta nas mãos.

No dia seguinte, uma chamada discreta na primeira página anunciava ao interessado que a íntegra de uma certa mensagem, por ele aguardada, estaria publicada na página de Informações e Novidades.

Ao moço de cabelos caídos na testa,

Cheguei por esses dias de viagem e dei de cara com um jornal deixado na recepção do meu prédio com um bilhete de minha irmã - que mais tarde me reclamou as várias mensagens não respondidas, e as milhares de ligações perdidas em meu celular, sem retorno. O bilhete dizia “ aquele teu amigo estranho, de cabelos caídos na testa escreveu para ti. Olha!”. Antes de analisar o conteúdo da mensagem publicada, pensei no que ela escreveu a teu respeito. O jeito como sempre me censurou por ser amiga de um rapaz estranho.

Eu mesma te achava estranho e comentei com outro amigo nosso. Mas isso foi antes de sermos amigos, e faz muito tempo que talvez não valha a pena recordar. Digo isso porque me culpei centenas de vezes por tê-lo julgado mal. Acho que nunca te disse, mas me senti mal de verdade por tê-lo alcunhado estranho.

Li a tua carta e desabei a chorar logo na primeira linha. Então... fui eu que te disse adeus! Mas creio que o motivo não tenha ficado muito claro para você, meu querido. Essa chateação sobre Marx, foi apenas uma desculpa. Talvez eu levasse a política mais a sério na época - isto é, há dois anos atrás - mas não foi a principal razão para nossa ruptura. Fomos bons amigos, confidentes, mas houve uma coisa que nunca te disse (fora a questão da alcunha de estranho!). Não sei se agora teria coragem para contar também. Muita coisa aconteceu comigo. Acho que com você também, mas não da mesma maneira. Você falou de sua mãe e isso me leva a crer que ainda viva na casa de seus pais. Eu... me casei! Quer dizer fui casada por um ano e uns poucos meses e durante esse tempo morei me mudei para outro estado. Essa revelação pode tê-lo assustado. Posso mesmo ver a tua cara de assombro!

O fato é que senti a tua falta durante esse tempo. De como ficava horas na pracinha olhando para o nada. E quando eu perguntava no que estava pensando sempre respondia a mesma coisa: o tempo está bonito hoje, não é? Outro dia me peguei com esse mesmo olhar perdido – longe do tempo, longe do barulho da vida, longe de tudo. Foi um pouco antes de voltar para cá. E o engraçado foi a conclusão a que cheguei: também sou estranha. Talvez nossas estranhezas se completassem e não tivesse percebido isso antes.

Espero que essa carta chegue até você. Eu até gostaria que fosse publicada, como foi a tua, como uma espécie de “estamos quites”. Embora eu saiba que no meu caso o pedido de desculpas faça mais sentido. Gostaria de vê-lo Pepeu.

Também com saudades,

Ana P.

O dono da banca de revistas comentou à tarde com o editor - que saíra como de costume, para espairecer – que naquele dia vendeu todos os jornais, sem entender a princípio a razão do próprio lucro. Alguém lhe comentou sobre a história das cartas, mas ele não achou isso grande coisa. O editor, que parecia mais empolgado com o resultado da última publicação, atribuía a falta de sensibilidade do vendedor a seu estado contínuo de “homem livre”. Voltou ao seu escritório pensando sobre a história daquelas duas pessoas. Quais os detalhes não revelados pela mulher na carta? Haveria algo mais que amizade nas entrelinhas daqueles escritos? Como se daria esse encontro? 

(Continua) 

Aldenice Sousa  


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