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Andarilhos

À solidão - Parte I

Sobre ser só

27/01/2015 17:34h - Atualizado em 03/02/2015 08:48h

 Ninguém vai me esperar no aeroporto.

Depois de uma longa viagem para a Europa ou de um fim de semana de aulas de pós-graduação naquela cidadezinha do interior do sul do Brasil. Inevitavelmente vou olhar para todos os lados ao desembarcar, procurando um amigo, um familiar, a plaquinha de “bem-vinda!”, “saudades”, querendo achar o melhor abraço, ou apenas um braço para me enlaçar e jogar as malas no chão num impulso. Mas ninguém estará a postos, me esperando.

Ninguém também vai me dá carona.

Não chegarei a tempo para o embarque. E voltarei para casa, com um novo voo agendado, torcendo para que o horário remarcado para amanhã dê certo. Minhas malas pesadas? São exercícios pré-viagem. Subirei de madrugada todos os lances de escada do meu condomínio sozinha, pois o elevador nunca foi consertado (e eu nunca fui de muitas amizades durante cinco anos morando no mesmo apartamento).

Ninguém vai me receber em casa.

Eu vou chegar ao meu apartamento, as luzes estarão apagadas e os móveis empoeirados. O leite continuará em cima da mesa, apodrecido dentro da xícara pela pressa e pelo esquecimento em guarda-lo na geladeira. O banheiro estará imundo. Todas as correspondências acumuladas, contas a serem pagas e nenhuma mensagem perguntando se eu cheguei bem.

Nem minha própria casa vai estar me esperando.

Acabei de chegar de viagem e já ia embarcar novamente. Minha casa parece que não é meu lar. Depois de cinco anos ali, ainda existem coisas empacotadas. Nunca arrumei meu lugar do modo como sempre quis, desde pequena: com quadros na parede, um lugarzinho reservado para eu fumar e beber sem ser incomodada, e nunca mandei consertar minha máquina de escrever para servir-me de inspiração. Tudo está ali, no canto da sala, apenas esperando minha disposição e um pouco do meu tempo que gasto em bares e em salas de aula.

Ninguém vai comprar uma cerveja para mim.

Até porque nunca gostei do gosto amargo dessa bebida. Mas vou preparar vários drinks sozinha, ao som de uma dessas bandas nacionais independentes que pouca gente conhece. Estarei dançando no meio da sala –  vazia e tão pequena. Depois descerei novamente as escadas e caminharei em direção a rua, em plena madrugada. Logo após alguns quarteirões, verei o mar e me sentarei na areia fria.

Ninguém vai caminhar comigo na orla da praia.

De tantas vezes percorrer esse caminho entre meu condomínio e a brisa marítima, é que me dou conta do motivo pelo qual escolhi esse lugar para morar: amo a praia de madrugada! Sento sozinha na areia com meu drink forte e fico horas ali, até me dá conta de que posso me atrasar novamente para o meu voo.

Ninguém vai me indicar a direção.

Com medo de está novamente atrasada, levanto rapidamente e sinto que estou um pouco tonta. Preciso voltar para casa, preciso viajar a trabalho e, no entanto, o que mais quero é permanecer ali naquela praia até o dia amanhecer. Sigo caminho de volta ao meu apartamento empoeirado, jogo o leite apodrecido no lixo, volto a desligar as luzes, desço as malas pela escada escura e pego um táxi em direção ao aeroporto. Onde, para mim, não há ninguém.

Consegui embarcar. Comemoro silenciosamente e sigo viagem. Eu e minha solidão.

Por: Aldenora Cavalcante

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