• Premium Outlet
  • Salve Maria
  • Jovens escritores 2019
  • Banner paraíba
  • AZ no rádio
  • cachoeir piaui
  • Novo app Jornal O Dia
  • TV O DIA att
  • TV O Dia - fullbanner

Notícias Andarilhos

24 de fevereiro de 2015

A jornalista maníaca dos bloquinhos

****

Ela guardava todos os bloquinhos numa gaveta. De um por um, eles estavam organizados por ordem cronológica de pauta. A moça fazia disso seu ritual de domingos ensolarados – quando não estava de plantão.

Com dez anos de profissão, carregados com muitos crimes denunciados e histórias de vidas incríveis – descobertas por acaso por entre becos e vielas -, ela jamais guardou uma reportagem publicada. Capa de jornal, manchete de portal, furo de reportagem, notícia mais compartilhada nas redes sociais.... Não, não havia nenhuma arquivada em destaque no meio das coisas importantes de sua carreira. Mas, estranhamente, tinha todas as suas apurações escritas em garranchos, protegidos por simples espirais, dentro das gavetas de seu escritório pessoal.

De Redação em Redação, pulando de editoria em editoria, ela foi adquirindo experiência a base de muitos erros. Errou em política, errou em polícia, cultura, cidades, economia – quase acreditou que havia errado também de profissão. Mas de erro em erro, certa vez acertou em cheio em uma pauta.

E pimba! De acordo com os registros de seu primeiro bloquinho, foi aí que começou o principal ritual de sua vida. Ainda quando morava com seus pais, naquela casinha pequena onde sequer havia uma gaveta para servir de cofre-de-bloquinhos. Depositava-os ao lado da cama.

Comparando as apurações das primeiras páginas, não foi uma pauta especial o motivo pelo qual resolveu começar a guardar seus próprios rabiscos. Aliás, de acordo com o nome das fontes usadas, ela já havia feito aquela matéria antes, nos seus primeiros meses de estágio. E também não foi porque saiu do estágio e entrou em outro e, muito menos, porque foi contratada por um grande jornal, pela primeira vez na vida, ou mudou de cargo logo depois.

O que se sabe é que ela guardava bloquinhos num canto do quarto, quando morava com os pais, e posteriormente, em gavetas, quando passou a morar sozinha. E guardava-os com zelo, carinho, como se fosse o maior tesouro de sua vida. Companheiros de pautas, de correria, mais importantes que a futura matéria que seria escrita com base naqueles rabiscos quase incompreensíveis.

Ela ganhava esses pequenos objetos envoltos por espirais e com folhas em branco, sempre que fazia aniversário e também no Natal. Não se importava que o presente fosse repetido – ficava até muito mais feliz do que se ganhasse qualquer outra coisa.

A moça também não se importava por ser conhecida como a maníaca dos bloquinhos. Fazia seu trabalho, dava seus plantões e seguia para casa com seu tesouro rabiscado e bem protegido dentro da bolsa.

Ao chegar, guardava dentro da gaveta mais um bloquinho preenchido e já transformado em notícia. Satisfeita, admirava o quanto que seu tesouro só crescia, dentro das gavetas, ao longo de tantos anos de trabalho como repórter.

Desde a primeira vez que acertou em uma pauta, ela tratava como arte, quase mágica, o prazer da apuração.

19 de fevereiro de 2015

Querido Ulisses,

(Leia sem pressa)

Não sei como aconteceu, nem tampouco qual foi o motivo para que nos distanciássemos assim. Acredito que a culpa não tenha sido sua, nem minha. Do tempo talvez, mas por que responsabilizá-lo se ele é incapaz de voltar? Então o problema deve ter sido das circunstâncias. Mas também não vou julgá-las. Sou incapaz de saber exatamente quais foram.

A verdade é que talvez não existem culpas. Provavelmente existam arrependimentos, mas não estou tão convicta quando a isso. Afinal, coisas feitas de maneiras diferentes podem ter obtido um resultado melhor do que o esperado. Eu deveria lhe pedir desculpas pelas duas vezes que lhe ignorei, mas seria cinismo da minha parte dizer que não fiquei feliz. Porque fiquei por mim, por me mostrar que já não era tão importante assim. Lembre-se apenas de que quem começou foi você.

Acho que no final de tudo eu não era tão boazinha quanto você pensava. E nem tão idiota como eu imaginava. Mas isso é um mérito de águas passadas que não movem estradas, opa! Moinhos. Eu poderia continuar com meus desaforos, sempre fui muito boa nisto. Entretanto esse joguinho de pedras para a lua cansou.

Vim lhe dizer que de verdade eu sinto falta do que se foi. Dos risos fora de hora, das conversas sem sentido sobre Bob Marley depois de uns conhaques acima do nível, das danças esquisitas e das escadas pretas. A ausência das palavras ditas e das bagagens sobre o Caribe deixaram um vazio enorme. Tão grande quanto o silêncio que habita as almas sem chão. Guardo isso com muito carinho, protegido de qualquer tempo, circunstância ou culpa. Provavelmente não existam mesmo.

Acabei de ouvir uma voz rouca entoando “Welcome to the new age”. Sinto que fui convidada a voltar sutilmente ao mundo real. Só queria lhe dizer que lamento que tudo tenha se transformado assim, um mal necessário, você diria. Desejo que consiga provar suas teorias e que o mundo seja uma enorme bolha de realizações. Em soma de alegrias e gastas tristezas.

Devo me despedir agora.

Com amor,

                             T.S.

 

12 de fevereiro de 2015

Carta aos anjos

Aos que estão na Terra.

 Querido,

Por vezes trancamos todos os nossos sonhos dentro de uma caixinha e a deixamos em algum lugar secreto para que ninguém possa alcançá-la. Escolhemos um lugar tão difícil que depois até nós mesmos nos perdemos no caminho para encontrá-los novamente.
Temos medo de que os outros vejam os nossos sonhos ou de que os nossos medos os alcancem e possam apagá-los, por isso trancamos, com tantas chaves, que depois fica difícil de serem abertas.
Deixamos que a esperança e as coisas bonitas fiquem dentro dos nossos armários, enquanto a nossa insegurança decora todo o nosso quarto pelo lado de fora. Nós permitimos que os sentimentos ruins tomem conta do nosso espaço. Enquanto ele deveria ser preenchido por alegria.
Não existem culpados. Ou talvez até existam, mas ninguém tem maior responsabilidade por nossas atitudes, sucessos e frustrações do que nós mesmos. Somos nossos donos. Temos nossos desafios e metas ao nosso alcance e só cabe a gente poder escolher o caminho a ser traçado.
Somos essa coisa inconstante. Querendo ter ótimas respostas todo o tempo e nos desanimando com pequenas batalhas perdidas. Mas a vida é mesmo uma guerra, não é? E precisamos de bons sonhos e bons planos para podermos vencê-la,
No final das contas nós precisamos da nossa força. A nossa força de vontade. E também é muito importante saber que existem pessoas que alimentam essa força e que torcem por nós. Independente de como estivermos, sempre estarão lá. São como anjos, com asas bem largas, do tamanho de um sorriso sincero.
São pessoas que só fazem o bem. Que cuidam. Que estão sempre por perto. Que tem um carinho maior do mundo e uma afeição indescritível. São pessoas que se preocupam. Que se fazem presentes, mesmo quando ausentes. São pessoas como você, capazes de iluminar vidas.


Obrigada por ser um anjo para mim.

Com carinho,

10 de fevereiro de 2015

O jarrinho de felicidade

(uma doce lembrança do passado)

Vitória então caiu em prantos. Sentou-se na pedra bonita e, pela primeira vez, não se encantou com sua magnitude.

- Caiu! Olha ali perto do lago â disse ela ofegante, apontando em direção a margem do pequeno lago. Quando percebeu o que estava acontecendo, permaneceu estática. â Pega para mim! Não deixa a correnteza levar. Não posso me desfazer dele!

O rapaz, mesmo sem entender muito bem a importância daquele jarro vermelho e surrado, obedeceu sem pestanejar e juntou cada pedacinho encontrado no chão antes que caísse na água. A cada junção e encaixe daqueles cacos, o sorriso da moça se engrandecia e iluminava o ambiente. A energia dela se restaurava e confundia ainda mais Fernando.

- Para quê você precisa desse jarro tão inútil? â indagou o rapaz fascinado com a beleza da moça a sua frente.

- Isso que você ajudou a salvar, carrega consigo todo o meu coração e acorrenta minha alma em um entrelace de amor profundo e cumplicidade restauradora. Esse é o meu jarrinho de felicidade.

- Como pode um vaso tão feio, comportar sua mais elegante beleza? Quem o deu a você?

- Você não consegue perceber? â perguntou Vitória assustada.

- O que eu tenho que perceber?

- Eu que quis retirar meu coração de dentro de mim e colocá-lo aí. Foi escolha minha.

- Ainda não entendo. â o rapaz achava um absurdo muito grande uma pessoa retirar o coração e depositar ali. Não existe decisão e escolha pior.

- Eu facilito a divisão ao fazer isso. Assim poderei deixar um pouco de mim em cada pessoa que eu sentir que merece. Nem todos são merecedores de uma parte de mim. â explicou a bela moça com um brilho puro de ingenuidade cativante no olhar â Mas agora não sei o que farei, meu jarrinho está quebrado.

- Como faço para ter um?

- Basta desejá-lo. O jarro de felicidade se cria quando sente que alguém precisa dele.

Fernando refletiu um pouco e resolveu acreditar no que ouvia. Aquela menina parecia ser verdadeira. Com medo de cair no lago, devolveu o que restou do jarrinho para Vitória e sentou-se na pedra bonita durante um longo tempo.

Ficou de pé de repente e notou a transformação e, subitamente, o jarro de felicidade se fez completo. Em um gesto, o rapaz depositou seu coração ali dentro e sentiu-se leve e revigorado. Até o ruído do vento que tocava em sua pele lhe era encantador. Virou-se para a garota e sentiu-se radiante. Levantou a mão e ofereceu o jarrinho para Vitória.

- Fiz para você.

- Como assim? Não entendo o motivo.

- Seu jarrinho está quebrado, você não pode viver fragmentada desse jeito. Você não merece. Receba o meu.

- E como você fica sem o jarrinho?

- Feliz por saber que meu coração está perto de ti. Fortalecido por te ver inteira novamente. Tome, é seu! Vou ficar aqui nessa clareira concertando o seu jarro, não se preocupe.

05 de fevereiro de 2015

Carta aos meus dois ex-amores

Por me fazerem superar obstáculos.

     "O rio atinge seus objetivos porque aprendeu a contornar obstáculos"
                                                                 (Lao Tsé)


Tive dois grandes amores, de bem verdade pouco os possui e muito os amei. Talvez o meu modo de entregar a minha felicidade aos outros torne tudo isso mais dramático ou talvez me mostre que a rota certa não é bem essa.

O primeiro, o qual dizem que a gente nunca esquece, foi bastante forte e avassalador. Ele era um meninão e nós éramos um pouco jovens, esse fato porém deve ter contribuído para a nossa paixão sem precedentes. Nos meus sonhos mais rasos e provavelmente nos mais fundos, seríamos um só até a eternidade, entretanto tudo possui um final, nesse caso não foi tão feliz. Nos casamos, mas durou pouco mais de dois anos, incompatibilidade de gênios e a jovialidade sem muitos compromissos nos impediram de continuarmos juntos.

 Conheci o meu segundo amor enquanto ainda derramava prantos pelo primeiro, ele me parecia totalmente diferente e mais adulto. Foquei novamente numa relação em que entregava minha felicidade de bandeja. O segundo não era tão alegre e espontâneo como o primeiro, mas seu jeito me fazia sentir bem, apesar das poucas juras de amor trocadas. Devo acrescentar que ele me concedeu meu melhor presente, meu filhinho e por esse motivo, provavelmente o único hoje, eu o agradeço. O nosso relacionamento também não foi muito além, fui abandonada por outra mais jovem.

Não queridos amigos, não quero que vocês sintam pena da minha história, apenas quero mostrar-lhes que consegui o impossível duas vezes e conseguirei outras ainda. Esquecer o primeiro amor, demorei um pouco, mas hoje lembro apenas dos bons momentos, sem remorsos ou culpas. Criar um filho sozinha, essa parte deu mais trabalho, mas todo o esforço para que ele seja a criança mais feliz do mundo é risório para mim.

Além dessa façanha fui preenchida por um aprendizado gigantesco, hoje consigo ser feliz sozinha, sem depender totalmente e tolamente de alguém. Me expresso de uma forma mais cautelosa e me tornei tão responsável em um tempo tão curto que isso chega a entrar pra lista das coisas impossíveis. E por fim, digo a vocês que não estou desiludida quanto às pessoas, apenas ainda não conheci aquela destinada a mim, o que espero que não demore muito. Por esse motivo aconselho, tentem, aprendam e conquistem sem medo de errar de novo, pois nesse mundo a vida não é um mar de rosas para ninguém, mas pode ser um rio pronto para desaguar no mar.
 

Com carinho,
Rachel.

03 de fevereiro de 2015

À solidão - Parte II

Sobre viver só

Todo mundo vai julgar.

Em meio a crise dos 20 anos você vai sentir que está preparada para morar sozinha. As pessoas vão apontar o dedo na sua cara, vão olhar torto para os seus passos e dizer baixinho que você está desmerecendo todo o trabalho dos seus pais. Mas, abraçada ao bichinho de pelúcia, com um livro de poesia embaixo do braço e escutando Cássia Eller pelo celular, você vai dizer um âAté logoâ para os seus familiares e encontrará seu cantinho na quitinete mais barata da cidade. Em silêncio, sem alarde e consciente que esse era o momento certo.

Todo mundo vai opinar.

E, de repente, na festa de casamento de sua tia de terceiro grau que você só viu uma vez na vida, toda a família vai está lá. Conversando. Fofocando. Cada um se vangloriando das conquistas dos filhos e dos caminhos que eles estão seguindo â mas que todo mundo sabe que cada passo foi escolhido pelos próprios pais â enquanto que acreditam piamente que você, a -menina-que-leva-uma-vida-mundana-por-morar-sozinha vai ter um futuro fracassado. Enquanto você vai está na terceira dose de tequila, descalça, dançando no meio da pista e comemorando com sua prima a aprovação dela no intercâmbio da universidade. E antes da meia-noite, vocês já estarão com todas as viagens pelas cidades mais lindas da Europa planejadas.

Todo mundo vai questionar seu modo de vida.

Algumas pessoas vão a casa de seus pais dizer que viu você bebendo e sendo feliz numa segunda-feira de madrugada, rodeada de amigos. E abraços. E carinhos. E você vai sim beber até amanhecer e se tiver que ir trabalhar sem nem dormir e de ressaca, não importa! Seu trabalho não perderá a qualidade e você vai trabalhar com a mesma dedicação como qualquer outro dia.

Todo mundo vai dizer que é errado.

Ao final de uma discussão com seu colega de trabalho chato, você vai sair da empresa que trabalha desde os 18 anos e nunca mais vai voltar. Depois de três meses sobrevivendo com o seguro desemprego, finalmente receberá a resposta da editora que você sempre quis, dizendo que seu livro foi aceito e que você tem até dois dias para está na sede da editora, em São Paulo, para definir os últimos detalhes. Você imediatamente vai ligar para a sua melhor amiga pedindo dinheiro emprestado, e desembarcará, sozinha, ainda no mesmo dia, numa cidade que nunca pisou. Ao chegar no aeroporto, vai encontrar com aquela vizinha que passou o ano inteiro juntando dinheiro para passar as férias ali e que, imediatamente vai chamar você de âlouca, maluca, que não sabe o que quer da vida!â Ora mais, onde já se viu, largar uma vida inteira e ir atrás de um sonho?

Todo mundo vai se afastar.

Por que não é de ~bom tom~ andar com uma menina sem juízo que resolveu morar sozinha tão cedo, que leva quem quiser para dormir em algumas noites abraçada e que, em sua geladeira, nunca faltará vinho, e em sua escrivaninha, cigarros. Por que é errado. Não dá futuro. E você quer mesmo é viver o presente.

Todo mundo vai querer ter sua liberdade.

Seu contrato com a editora foi assinado e seu livro será publicado daqui a um mês. Você vai voltar animada de São Paulo e, ao chegar em seu apartamento vazio, vai sonhar com o lançamento de seu primeiro livro. Depois de algumas semanas, você finalmente conseguirá ser contratada pela revista que sempre quis trabalhar. E vai comemorar. Estará embriagada na véspera de seu primeiro dia de trabalho. Feliz. Abraçada aos amigos e a vida, que sempre dá um jeito para que tudo seja resolvido.


Para ler "à Solidão - Parte I", clique aqui.





Enquete

Você é favorável a instalação de estações de passageiros no passeio da Avenida Frei Serafim?

ver resultado