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Notícias Andarilhos

20 de março de 2015

Apontador de Ideias - A melhor companhia - Parte I

As palavras que eu guardei pra mim

A escrita sempre serviu pra mim como o melhor antidepressivo do mundo. Umas linhas, curtas, longas, tortas, retilíneas: era o momento em que um encontro realmente resolvia as coisas do meu coração, que sempre foi feito de rabiscos. Não esqueço que meus problemas existem, é como se os colocasse sobre a mesa e fosse capaz de olhá-los mais de perto.

Em um momento infeliz, me disseram que eu era muito boa com as palavras, eu retifico: elas que são boas comigo, porque quando estão ausentes, fazem bem; quando consigo usá-las direito, me fazem bem também. A questão é para quem direciono o que digo, escrevo, silencio. O que tenho certeza é que devo usá-las corretamente nos momentos de incerteza, ou devo me calar e fugir de dizê-las a outras pessoas nestes instantes escuros. Quando as palavras foram entregues com carinho e jogadas ao vento pelo destinatário, a gente não deve mais desperdiçá-las, porque elas são caras, são preciosas, e devemos, ser gratos a elas.

Deixei de escrever a muita gente, a quem minhas palavras eram abarrotadas em pacotes, e depois descartadas como os restos de sentimentos, como excreta emocional. Entretanto, tenho o prazer de contar e de agradecer-me, porque li, escutei e respondi a mim mesma. Peço-me perdão, porque em alguns momentos eu estive realizando um descarte desenfreado das minhas palavras aos outros, enquanto deveria parar para ouvir-me por alígeros minutos.

Sempre gostei de me juntar às almas irremediavelmente sensíveis, como a minha, e a frieza sempre me espantava. Porque mesmo quando eu sentia, as palavras tomavam formas em imagens, em gestos, e de algum modo precisavam sair: até meu silêncio sempre disse milhares de coisas. Agora, já que tem alguém aí, lendo essas coisas, entende que, hoje, minha melhor companhia serão as palavras que eu guardei pra mim.

18 de março de 2015

16 de março de 2015

Em busca de si

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Acordou inundado por uma manhã tempestuosa. Sem saber quem era, o que lhe pertencia e o que tampouco lhe cabia. De si só sabia o nome e algumas conquistas realizadas ao longo do percurso. Mas agora estava confuso, um pouco perdido talvez e então dentro dele brotou o desejo de se conhecer, aprender mais sobre a sua história, a sua origem e seu passado, que em sua mente era uma vaga e inconsistente lembrança.
Já havia circulado metade do mundo, mas não era em nenhuma parte dela que se situava sua origem. E num impulso resolveu buscar suas raízes mais profundas, voltaria para a cidade onde fora concebido. Os riscos eram calculados, trabalho arranjaria fácil devido ao seu extenso currículo, o problema seria enfrentar sua família... Eles o entenderiam, cedo ou tarde, bom seria se fosse logo. Deixar os amigos também o incomodava, mas era necessário, no momento era realmente necessário.
Partiu na madrugada enquanto a cidade inteira dormia. Fora julgado e contestado. Resolveu apesar de tudo seguir sua intuição, não queria enlouquecer com a fúria dos seus pensamentos. Era hora de colocar tudo em pratos limpos e descobrir... O porquê, o onde, o como e principalmente, o quem.
O avião decolou na sua cidadezinha pela noite. Fora recebido sem muito impacto por alguns conhecidos, sem muitos questionamentos sobre o que fora fazer ali, isso era ótimo. Quanto menos que tivesse que falar sobre si, melhor.  Fazia 20 anos que não pisava naquele solo, desde que se fora, aos oito, sonhava com o local, mas nunca tinha regressado.
Passou duas semanas inerte em seu pensamento. Dedicou esse tempo pra conhecer de novo a cultura local e se adaptar a maneira de vida das pessoas. Tudo era muito diferente e ao mesmo tempo tão interessante... Ele reparou que as pessoas mais humildes eram mais carismáticas, não sentiam medo de se aproximar. E as com mais poder aquisitivo eram mais frias, arrogantes e não deixavam de ter um lado amigável.
Encontrou facilmente um trabalho como professor de espanhol, eu um cursinho de idiomas qualquer. Devido ao seu conhecimento de mundo e a sua fluência na língua foi aceito sem muitos questionamentos. Era um lugar fervilhante, no começo o assustava, tinha medo de que fosse capaz de repassar o ensino e pensava seriamente em desistir. Mas aos poucos foi se acostumando, o interesse dos alunos o motivou a ser firme. E quanto ao seu objetivo inicial... Quase era hora de confrontá-lo, mas precisaria de um pouco mais de tempo e coragem.
Ricardo então decidiu que já era hora de enfrentar pequenos obstáculos e resolveu ir até um dos lugares preferidos na sua infância. Era estranho sentar-se na beira daquele lago depois de tanto tempo. E mais assustador ainda o fato de que podia sentir as vibrações do lugar. Ele tinha dez anos quando pisara lá pela última vez, apenas uma criança sem compromisso algum. Hoje apesar de todas as transformações em sua mentalidade o que sentia em estar ali não mudara em nada.
 A brisa matinal cobria seu rosto com uma glória implacável, ele fechava os olhos para contemplar melhor aquele momento. Tudo dentro de si estava intacto. Nenhum adjetivo aumentara ou diminuira, os verbos continuavam todos com sua urgência. Permitiu-se mais um pouco de descanso e deixou sua mente fluir por outros caminhos. Precisava convencer a si mesmo que falar com aquele homem era seu objetivo e que conseguiria isso no momento certo. A única coisa que o aterrorizava, e neste momento mordeu o lábio devido à tensão, era não obter a resposta que desejava.
Ele ansiava em conhecer seu pai, do qual sabia apenas o nome e umas histórias não muito agradáveis aos ouvidos de qualquer pessoa de bom senso. Queria vê-lo e ouvir dele o porquê de tanto descaso e porque ele simplesmente lhe negara ao nascer. Havia provas da sua paternidade, mas ele refutava e nada o fez mudar de idéia e assumir o que tinha feito o que tinha criado. Sua família se impôs. O homem que havia lhe dado a vida era cruel. E tinham medo do que ele faria com o filho, com o próprio filho.
Passou semanas, mais precisamente meses, discutindo consigo mesmo sem o intermédio de um espelho, como o abordaria. Pouco importava onde ou com quem, só precisava saber as palavras certas. Ele julgava necessário impactá-lo e mesmo que fosse uma utopia fazê-lo pensar sobre os anos que tinham perdido. Mas queria um conserto ou pelo menos enxergar arrependimento nos olhos do pai, só isso seria o suficiente para acalentá-lo e entender que sua jornada não foi em vão.
Então um dia, quando se decidiu pronto, marcou um encontro. Combinou em um barzinho qualquer como um velho hábito de boêmio, o que decerto seu pai era, porém vestido em um paletó. E neste momento ele o viu. Ricardo tremeu, pois em nenhum momento dos seus discursos preparou-se para aquele olhar lascivo e de certa forma com um ar de desdém. Mas isso não o deteria, o rapaz encheu seus pulmões de ar e foi de encontro ao seu maior distúrbio durante anos.
Conversaram como dois estranhos, entretanto, assim o eram. Por alguns momentos tiveram conversas frívolas sobre o tempo em países estranhos, pelo menos, pensou Ricardo, o homem estava disposto a ter algum tipo de diálogo. Mas foi uma primeira e errônea impressão. Logo ele percebeu que o pai estava incomodado com aquela situação e naquele momento pensou em iniciar seu longo e voraz discurso, sobre a criança abandonada por um pai sem coração.
Abriu a boca num gesto ameaçador, mas deteve-se a pronunciar um boa noite e retirou-se da mesa. Depois de tanto tempo pensando e de tantas provocações ele percebeu que seu verdadeiro motivo não era julgar o pai ou cobrar explicações, e sim descobri-lo. Então ele notou que aquele velho com deboche no rosto era um homem que não merecia seus trunfos. Era só mais um desconhecido, como tantos outros que havia visto pela vida. O homem ficou surpreso com sua saída, mas nada fez para impedi-lo.
Ricardo chegou em casa um pouco confuso, agitado talvez. Mas sentia-se feliz e pela primeira vez compreendia o quanto da sua vida não devia aquele homem, ele pensou que deveria agradecê-lo por tê-lo abandonado, porque ele seria um medíocre se o tivesse ao seu lado. E então sorriu febrilmente. Foi necessária toda uma viagem a outro lugar quase desconhecido para perceber quem realmente era e para aprofundar suas raízes.
Entretanto, nada tinha sido inútil. A experiência daquela viagem tinha sido única. Fez novos amigos e redescobriu velhos. Conheceu mais afundo sua cultura de origem, apesar de julgar muitas coisas desnecessárias, mas divertira-se com tudo aquilo. Tornou-se independente financeiramente e mais importante livrou-se de um castigo que jamais tivera. Ele então agradeceu por ter conseguido saber quem era, mesmo que já soubesse desde o início e refletiu sobre o que tinha se tornado, nada parecido com o pai, ainda bem.
Rapidamente foi recolhendo suas coisas e com elas revendo cada lembrança daquele lugar. Cada emoção nova ou despertada dentro si, que agora inundavam suas emoções e enchiam-se num crescimento pessoal estrondoso. Nada foi como ele planejara, tudo tão diferente e tudo tão maravilhoso... Sentiria saudades, mas era hora de partir e descobrir-se ainda mais em outro lugar do mundo.





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