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Notícias Andarilhos

03 de fevereiro de 2016

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego*

Agonizou no meio do passeio público

Era um senhor de 60 anos. Há menos de um mês, foi seu aniversário e, um dia antes da data, ele teria a idade do meu pai. E tinha o nome do meu tio. O nome continua sendo o mesmo e a idade, também. Mas agora, no passado. Atravessou a rua com seu passo tímido, a caminho do trabalho, numa tarde quase de chuva. Agonizou no meio do passeio público, enquanto eu estava dentro de uma redação, agonizando de fome.

Pelo trânsito caótico, chegaria atrasado ao seu segundo emprego. Com uma família para sustentar, o salário de taxista não dava para sustentar todo mundo. Mas talvez ele nem se importasse muito com o atraso. Todos os dias fazia o mesmo percurso. Às vezes dispensava alguma corrida para ir deixar os filhos em casa. Um abraço e um almoço em família valiam muito.

O carro estava estacionado em uma rua qualquer do centro. Talvez ele tinha ido ali para tentar comprar livros usados e baratos. Com três filhos, não tinha dinheiro no mundo que pudesse pagar livros novos para eles levarem para a escola. A esposa pressionava: meu amor, as aulas das crianças já começaram, elas precisam de livros. No que ele revidava: agora com o inicio das escolas, pode ser que os livros ali na praça do fripisa estejam com um preço melhor, você sabe querida, nosso orçamento está apertado e eu não quero pegar mais corridas, essa profissão de taxista está muito perigosa, vi uma reportagem no último domingo falando sobre isso.

A reportagem foi escrita por mim, mas talvez ele, como fotolitógrafo, onde atuava diretamente na impressão do jornal, tivesse lido ela antes mesmo de todo mundo, e sentido uma falta de ar no coração, como eu senti, enquanto estava na rodoviária, na semana passada, ouvindo um taxista. Lembrei dessa entrevista que fiz porque enquanto perguntava e tentava escrever as sensações do senhor Edienaldo, gravei na minha memória uma coisa que ele me disse e que não deu para anotar no caderninho: “fui espancado anos atrás por bandidos, mas depois dei graças a deus, porque eu tive sorte de estar vivo, o que muitos amigos meus de profissão não tiveram”. O trabalhador do jornal deve ter se comovido, igual a mim.

Nesse dia, estava atrasado. Perto de se aposentar, a vida corria mais tranquila e ali, após procurar livros para suas três preciosidades em forma de amor, ele dançou e gargalhou pela rua como se ouvisse música. A impressão do jornal que esperasse!

Trinta anos fazendo o mesmo caminho, o mesmo trajeto, entrando pela mesma porta, fazendo os mesmos gestos. Talvez tenha sido esse senhorzinho, naquele meu primeiro período na universidade que explicou para mim e para minha turma, aquele processo da gráfica, antes da impressão do jornal. Talvez ele já tivesse me dado bom dia e, nesse tempo todo, evitado um erro grotesco da capa do jornal.

Mas hoje, ele se acabou no chão feito um pacote flácido, com as chaves do carro ainda na mão. Ele segurou as chaves do veiculo para não ser roubado por um adolescente. Segurou aquele molho de chaves, da mesma forma que seguraria as dores da família, o coração da esposa e seus sonhos. Ele teria sonhos? Deveria ter. E, por isso, deveria ser um homem de bem, que sorria ao final do dia. Todos sorriem, não é mesmo?

Era um senhor de 60 anos e eu aposto que contava os dias para se aposentar e ir morar em um sítio bem afastado da cidade. Igual meu pai! Eu nem cheguei a conhecer o senhorzinho, mas já sei que ele era parecido com meu pai. E, de alguma forma, ele também era importante para mim, para o meu trabalho. Sem ele, as histórias que escuto e conto nas notícias, não seriam impressas. O jornal foi rodado hoje, como todos os dias porque tinha que ir. Sim ou sim! Mas foi impresso com tinta molhada. Se você que estiver me lendo for assinante do jornal, não se assuste se seu exemplar chegar úmido em sua casa. É que a gente deixou cair uma lágrima, enquanto o senhorzinho de óculos flutuava para o céu como se fosse um pássaro.


“Amou daquela vez como se fosse a última. Beijou sua mulher como se fosse a última. E cada  filho seu como se fosse o único. E atravessou a rua com seu passo tímido... E flutuou no ar como se fosse um pássaro”


*texto com trechos da música Construção, do Chico Buarque.

10 de novembro de 2015

Viajar para contar: Terceira Carta

****

Prometi escrever todos os dias, eu sei. Os dias passam devagar e não tenho nenhuma desculpa pronta para derramar em você e me safar desta culpa que agora mora em meu coração. É que as palavras simplesmente não querem voar.  Ou talvez não estejam prontas.

Hoje, depois de resolver algumas burocracias do cotidiano, fui ao parque. Levei aquele livro que você me deu de presente para esta viagem, lembra? A faceta jornalística de Clarisse Lispector revelada. O engraçado é que este é meu primeiro contato direto com essa autora tão aclamada e tão querida por você. Gosto de passear no parque, observar as pessoas pondo em prática a vida. Sempre quis ter um lugar desse perto de casa. Aqui, satisfeita essa vontade, quando a solidão ocupa muito espaço dentro desse apartamento, levo-a para passear no parque. São momentos doces de solidão. Acho que aprendi a conviver com alguns de meus demônios.

Revirando alguns documentos, encontrei sua carta. Sim, minha querida, eu trouxe a sua carta com o selo de Paris para quando a saudade apertar. E ela aperta todos os dias. O pior dia é o domingo. Acho que o domingo é uma dor universal no peito de todos aqueles que sofrem com a distância. Não me entenda mal, a experiência em um novo país está sendo incrível, mas a crise do regresso bateu em minha porta ontem, justamente em um domingo. É a crise. Daqui a pouco passa e eu volto a programar minhas últimas viagens antes do tão temido fim.

Tenho medo de voltar, assim como sempre tive medo de todas as coisas da vida. Mas você sabe, nunca deixo de enfrentar os desafios. Não sei se voltarei a caber na minha rotina de antes. Bater-ponto, redigir ofícios e todas essas coisas cinzas do cotidiano público. Argh! Talvez quando eu voltar, não consiga me adequar a mais nenhum lugar. Todas as fôrmas estarão deformadas e ultrapassadas.

Tenho tantas coisas para contar! Alguns segredos você já sabe, outros, não cabem na caixinha de inbox das redes sociais. É preciso conta-las revelando o sorriso no meu rosto e meus olhos brilhando de orgulho de mim mesma. Sim, minha querida, essa vida em outro país está aumentando, ainda que pouquinho, minha autoestima.

Eu jurei escrever mais vezes, eu sei. Espero que me desculpe. Faço rabiscos, elenco temas ou observações diárias para escrever futuros contos, mas fica tudo entalado aqui na garganta. Às vezes não consigo respirar com tantas palavras me sufocando. Acho que é assim que as pessoas angustiadas vivem quando não sabem que escrever é a melhor terapia. Daí tomo café, assisto um filme, pratico o espanhol lendo um livro do Gabo e assim vou matando o tempo enquanto a próxima viagem não vem.

Mais do que nunca, tenho sede de mudanças. Tenho fome do desconhecido. E estou aprendendo mais sobre isso com uma amiga que conheci aqui. Pode chama-la de Liberdade. Não se preocupe querida! Minha convivência com ela não afeta meu carinho por você, Geena. Fique com um pouco da minha magia do cotidiano, enquanto me alimento de viagens e de saudades.

Um abraço de uma amiga querida!

ps: ando escutando muito Marisa Monte durante esse período, então aqui vai um presente para você:

Marisa Monte - Universo ao meu redor 

28 de setembro de 2015

Cabo de La Vela

a realidade feita para turista esquecer.

Cabo de La Vela é um lugar turístico localizado no norte da Colômbia, em frente ao mar do Caribe e no noroeste da península do departamento de La Guajira. A região é muito procurada por viajantes, mochileiros e aventureiros. Os sites de viagens afirmam que todos devem conhecer o local. Parada obrigatória no país.

O território é habitado pelos índios Wayuus, conhecidos pela produção artesanal de lindas bolsas que facilmente são encontradas pela Colômbia, motivo que faz aumentar a procura desse “ponto turístico”. Então os turistas também buscam o lugar para conhecer os costumes e a cultura desse povo indígena que, ainda hoje preserva suas tradições e sua língua, conhecida como Wayunaiki, apesar de muitos deles se comunicarem em espanhol.

Visitei o lugar recentemente. Juntei os amigos, contratei uma empresa de turismo e segui viagem no meio do deserto. Um grupo de onze pessoas. Apesar de preferir conhecer os lugares sem nenhum guia, ouvi os conselhos dos colombianos que diziam que a região era muito perigosa, que o caminho desértico era confuso e fácil para nos perdermos. E de fato era verdade.

Nós turistas, entramos numa van pequena e com ar-condicionado, percorremos tudo em dois dias e conhecemos paraísos naturais lindíssimos. Invadimos o espaço dos índios, dormimos em redes confeccionadas por eles, fomos servidos por eles, compramos a preços baixos as bolsas coloridas e as pulseirinhas, artesanalmente feitas pelas índias, e voltamos para a nossa cidadezinha de origem, com mais uma viagem riscada da lista.

A guia turística se preocupou em nos mostrar todos os lugares importantes do caminho, lembrou-se de contar algumas curiosidades e outras coisas que, por eu ainda está me adaptando com o espanhol, não entendi direito.

Cumprimos com todo o roteiro programado. Mas, durante o trajeto, olhando atento às paisagens, a gente só esqueceu de olhar pro lado e ver aquelas crianças indígenas. Várias delas correndo com a mão estendida e a fome estampada na cara. Queriam da gente qualquer coisa que poderia caber naquela mãozinha e dentro da barriga. Um borrão quase imperceptível para todos os turistas.

23 de setembro de 2015

Joana, a leitora criminosa

****

“Proibido pegar livros. Dirija-se ao atendente mais próximo”, dizia a plaquinha fixada recentemente na parede da biblioteca. Uma surpresa para todos, sobretudo, para Joana, frequentadora assídua e apaixonada daquele lugar.

Na adolescência, Joana esbarrou por acaso na biblioteca mais antiga da cidade. Caminhando sozinha no trajeto diário da escola para sua casa, a menina de 14 anos assustou-se quando dobrou em uma esquina qualquer e se deparou com aquele prédio imponente, com um porte autoritário e o portão principal aberto, atraindo-a.

Foi a primeira vez que ela desobedeceu às ordens severas de sua mãe, que sempre dizia que a menina não deveria desviar o caminho de casa. As duas moravam juntas a três quadras dali, mas, quase não se viam. Desde muito cedo, a menina era a única encarregada dos afazes domésticos, ocupando suas tardes e noites solitárias com sabão, escova, vassoura e uma dura realidade, enquanto que a mãe trabalhava o dia inteiro em uma padaria do outro lado da cidade. Todas as noites, para compensar a ausência, sua mãe lhe trazia deliciosos sonhos empacotados em papel alumínio.

Seduzida com a beleza daquele prédio, a pequena adolescente abriu sua mochila, retirou todas as dúvidas juvenis e as obrigações domésticas, deixou tudo na calçada e sutilmente meteu-se sozinha em um mundo estranho e cheio de histórias até então desconhecidas.

Dizem que cada pessoa tem uma reação especifica quando entra em contato com seus primeiros livros. Surpresa, paixão, frustração, ou talvez uma mistura intensa de tudo isso, que invade o corpo inteiro de uma vez. Joana não sabia ao certo o que estava acontecendo com ela naquele exato momento. Caminhava vagarosamente, percorrendo todas as prateleiras, fazendo esforço para ler os títulos apagados dos velhos livros de capa dura. Ela nunca havia lido algo que não fosse seus livros escolares. Da prosa e da poesia, pouco sabia além dos seus conceitos.

 Joana não tinha se dado conta ainda, mas ali, com seus 14 anos, seus óculos quebrados e seus cabelos desgrenhados, ela estava reinventado todas as suas futuras andanças.

Ao final da tarde, voltando para casa, sentiu como se lhe faltasse algo. Procurou nos bolsos, na mochila, dentro do peito – tudo estava no lugar. Mas nada permanecia da mesma forma que era há poucas horas. Por entre as prateleiras, Joana deixou pedaços soltos de sua alma de adolescente inquieta que havia encontrado um doce conforto para os dias vazios.

Durante muito tempo, a biblioteca tornou-se casa de sonhos, um abrigo, quase o único refúgio para uma Joana que não se reconhecia ano após ano. Tornou-se uma jovem cansada, com uma jornada dupla de trabalhos-estágios-estudos e obrigações domésticas. Mas que não deixava de ir nenhum dia à biblioteca.

A jovem acreditava que cada livro era especial e tinha um poder mágico. Para ela, ninguém era capaz de escolher uma história por si só: era a história que escolhia seu leitor. Joana passava horas e horas perambulando por entre as prateleiras e, havia dias em que saía da biblioteca sem nenhum livro em mãos. “Hoje não fui escolhida por ninguém. Amanhã venho mais charmosa para sair com um livro que valha a pena”, pensava no caminho de volta para casa com as mãos vazias. Enquanto que havia dias em que sua mochila ficava duplamente mais pesada por ela ter sido eleita a leitora especial de três ou quatro livros.

Joana, namorada, amante, prostituta dos livros, sonhava com o dia que conseguiria mergulhar mais profundo nas histórias que lia, ao ponto dela mesma ser a personagem principal, uma clandestina da vida real praticando um crime fantasioso.

Mas, quando se deparou com aquela plaquinha recém-fixada e compreendeu o seu significado, ela viu suas imaginações sendo acorrentadas. Se em dez anos, ela podia transitar livremente por entre tantas histórias que, a medida que eram desvendadas, tornavam-se tão suas, justamente hoje, sob um céu cinzento, bonito para chover, seu melhor prazer foi despedaçado.

“Proibido pegar livros. Dirija-se ao atendente mais próximo. Proibido pegar livros. Dirija-se ao atendente mais próximo. Proibido pegar livros. Dirija-se ao atendente mais próximo”. Repetia para si. Acostumada a sentir todos os cantos daquele lugar, aquela plaquinha lhe atingia muito forte o peito.

A medida não foi questionada por muita gente. Em pouco tempo, a maioria das pessoas estava habituada ao procedimento imposto: acessar o sistema on-line, verificar a disponibilidade do livro previamente escolhido, anotar o código, entregar para o atendente e aguardar que lhe seja entregue o objeto desejado. Diziam: prático, automático, sistemático – um avanço!

Para Joana, uma doença. Sentiu como se tivessem privado-lhe da presença constante de grandes e importantes amigos. Nunca soube ao certo o real motivo da medida implantada. Buscou preencher o tempo que gastava se perdendo por entre as prateleiras, com outras coisas: mais estudos, mais trabalhos e cafés. Mas, como seu vicio maior era aquele lugar, aqueles livros, as novas alternativas não supriram a necessidade maior.

Conhecendo a biblioteca mais do que qualquer pessoa, armou um plano. Recordou-se de um lugar escondido que dava acesso a uma das partes das prateleiras de livros franceses e estava decidida a entrar por ali para saciar seu desejo de amante-leitora.

Após uma semana, tomou a decisão de entrar clandestinamente na biblioteca. Já havia arquitetado tudo: local, horário e até como iria distrair os guardas. Ela só não contava com as outras mudanças que foram instaladas junto com a plaquinha que tanto lhe machucou.

No ato do delito, Joana acabou sendo presa. Ela conseguiu entrar pelo esconderijo, colocar na mochila alguns dos livros que escolheram a ela como leitora neste curto tempo, mas, ao tentar sair, foi detida por um guarda. A jovem foi levada à delegacia e foi interrogada e fichada pelo delegado, sendo liberada em poucas horas. Saiu dali sem os livros que tinha pegado naquela tarde e com seu primeiro registro como delinquente na polícia. Na plaquinha da sua foto de criminosa foi anotado: Joana Sonhadora, presa por um crime literário.

28 de agosto de 2015

O Homem

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De peito aberto, ele seguia pelas ruas acima e abaixo. Não tinha casa, não tinha canto para repousar a cabeça, e qualquer lugar é lugar: calçada é cama, cimento frio é o colchão. Tão logo, descobriu que as estátuas são amigas sempre diligentes, para que se fale sempre que queira, a exorbitar os limites dos dias, das noites, do que sejam horas, do que ele saiba ser o tempo. O certo dessa relação com as esculturas urbanas é que os abraços estáticos são frios e quentes, a variar ao longo do dia, e ele sempre tinha a certeza da semi-indiferença.

 Mas a noite, com seu manto escuro, sempre fez com que ele pensasse mais na necessidade de aconchego, contudo, juntar o corpo às amigas estátuas era mais frio: era um momento de reconhecimento da própria solidão, um passar de olhos e saber que era ao menos aquilo que tinha.

As flores de manhã ao longo dos canteiros das ruas, das casinhas, e no canteiro da maior avenida da cidade eram a alegria plena, para confortar o corpo e a alma de um calor escaldante ao longo do dia. Aliás, na ninharia, na migalhice, qualquer sombra, e o menor conforto é uma dádiva, qualquer brisa passageira é o consolo e uma semente para guardar um pouco de fé, para conseguir um punhado de força para sorver o dia em pequenos goles, e às vezes em longos haustos.

Mas rememorando, o peito aberto: o seu coração estava exposto. Câmaras, válvulas, cada nervo, e pequena parte do músculo em trabalho pleno, diante da velocidade de quem não tem tempo de olhar mais nada. Não, o homem de peito aberto era completamente invisível para os demais de sua espécie. O barulho difuso e agudo do bater de pernas, troar dos motores, buzinas de desespero, o ruído interior do tédio dos pontos de ônibus formavam um invólucro nas vistas dos transeuntes.

Somente ele ali ficava, a ver cada pessoa, do varrer do chão laranja à gravata de cetim, cada detalhe: era disso que preenchia o dia, uma observação sem fim, como se estivesse em uma torre de vidro para vigiá-los. Mas não se engane: não há segurança, mesmo quando os mais perigosos animais não são capazes de vê-lo.

 A tez do homem franzia de dor, e em meio ao curiar da vida dos demais: as moscas e as larvas lhe devoravam o peito, dia após dia. Cada vez que em seu peito pungia um lance de espasmo, lembrava que aquilo era uma missão, um afazer dado pelo próprio destino em pessoa, que entregou-lhe a chave de cada rua daquela cidade, que já percorrera todas, uma por sua vez. Dor perene, mas a vastidão não era extensa à vida, efêmera como cada uma das flores, que lhe presenteavam de conforto em cada manhã.

Talvez, em piedade, pousou um pássaro negro sobre o músculo, e arrancou-o às bicadas em uma voracidade de dias sem alimentação. Algumas horas, minutos: não se sabe; mas, ninguém o ouvia gritar, e nem o homem tinha noção de tempo. Ele não aguentou e murchou, de uma vez, ao fim do dia, no trocar do sol pela lua.

Foi coberto de outros pássaros negros, que vieram gralhar e terminar com a carcaça do que um dia fora um homem. O invólucro se desfez, e os demais homens, aqueles animais perigosos de sua espécie, pela primeira vez, viram-no. Um horror na Avenida Frei Serafim.





27 de agosto de 2015

Viajar para contar: A segunda carta

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Nesta cidade a sensação é de que está nublado constantemente. Muita nuvem, nenhum rastro de céu azul e um calor que sempre vem em excesso – lá fora e dentro do meu peito. Amanheço diariamente com o coração inquieto, do avesso. Tudo aqui ainda tem gosto de novidade.

Habituei-me a algumas expressões, às cores, aos vendedores ambulantes de livros, frutas cortadas, às ruas sempre tão largas e aos “Buenos Dias” frequentes. Sinto-me uma parte clandestina desta cidade. Mas ainda acordo ansiosa, como se fosse me surpreender a qualquer momento com as tarefas que, para mim, agora são comuns no meu dia.

Ah Geena, tenho vivido coisas incríveis em tão pouco tempo! Pareço uma boba se eu lhe disser que ainda me surpreendo diariamente com algo tão simples como ter minha própria cozinha e ir ao supermercado três vezes por semana? Quem sabe eu fugi de mim mesma para poder me encontrar em outro lugar. Dentro de um supermercado, talvez, escolhendo atentamente as melhores verduras.

Desde aquele tempo em que comecei a trabalhar, quando nos conhecemos, eu nunca tive tempo de organizar meu próprio tempo. É como se minha vida estivesse a mercê do trabalho e dos estudos. Nunca me sufoquei com isso – até gostava – mas agora que estou submersa em uma vida completamente diferente, sinto que precisava mesmo me aventurar neste presente incerto.

E o que mais gosto é do silêncio. Daqui de dentro deste apartamento de pouco mais de dez passos, só escuto os carros buzinando na rua, na correria. Aqui dentro tudo anda devagar. Descubro-me sendo outra a cada gesto: na escolha da comida, no quarto limpo, nos livros lidos e na porta sempre aberta para novas imersões. Mas nem tudo são silêncio e calmaria. Tenho samba para dançar até de manhã e poesia para ler quando me cansar.

Estar aprendendo um novo idioma na prática tem suas vantagens. Passei a observar mais. E a ouvir. Sinto-me uma intrusa: na sala de aula, no supermercado, dentro dos ônibus coloridos, nas praias e na pracinha. Sigo sempre em silêncio, sendo a estrangeira da vida que sempre fui, mas agora sou de verdade. Carne, osso e uma alma afoita.

Posso contar um segredo, minha querida amiga? Que bom que eu escolhi ser passarinho nesta vida onde predominam os leões! Tenho o corpo frágil, mas asas que suportam o mundo.

Mas chega de falar de mim. Quero muito saber, Geena, o que anda acontecendo com você. Já sabes meu endereço e esta é a segunda carta que lhe envio. Apesar dos meus simples voos e de minhas asas tão fortes, preciso de suas palavras para voar mais alto, você sabe disso.

Responda-me, minha amiga.

12 de agosto de 2015

Viajar para contar: Do amor despejado em saudades

De quando encontrei uma carta de amor dentro do meu apartamento

Encontrei uma carta de amor no canto mais improvável deste pequeno apartamento. Eu estava aqui, organizando o que seria minha moradia pelos próximos meses, com o coração despedaçado de dúvidas e medos e, de repente, me deparei com aquele papel amassado, sujo, escrito a mão, esquecido por detrás da geladeira. Uma carta recheada do mais puro amor.

Pela data “quarto minguante, fevereiro de 2015”, creio que teria sido escrita pela antiga hóspede que, assim como eu, estaria aqui em seu primeiro intercâmbio. E diferente de mim, havia deixado um grande amor no Brasil. Sim! O escrito borrado de apenas cinco parágrafos e que me fez chorar copiosamente, estava em português.

Derramando saudade pelos cantos, a última hóspede, buscava encontrar pelas ruas festivas do carnaval de Barranquilla, seu amado. “Aqui o carnaval é ‘super comportado’, não vi brigas, nem putaria. O caos casteño se transparece em alegria e flerte. Eu me transformei em dança”, escreveu docemente. Na falta da presença do amado, a menina se entregou à rua durante cinco intensos dias. Para quem não sabe, o carnaval da costa colombiana é o segundo maior e mais festivo do mundo, perdendo apenas para nossas animadas festas brasileiras. É o que me contam todas as pessoas que aqui vivem.

A carta não estava assinada, parecia não haver precisão. Seu destinatário já conhecia exatamente o formato daquelas palavras escritas com a pressa de um amor que sofria de lonjuras.

Não sei bem se é possível definir, mas nesses momentos, o fato de te pensar me fez sentir o vento me atravessar, com um ato de pura carícia”, desabafou a menina, que eu desconhecia o rosto. Mas a cada frase lida, aquela menina se revelava para mim, enamorada, saudosa e mergulhada, através das palavras, nas carícias de seu intenso amor, que devia esperar ansiosamente seu regresso no país ao lado. Ela não sabe e talvez nunca saiba, mas, eu aqui, sentada sozinha, dentro deste lugar que já foi sua moradia, torne-me sua confidente.

Senti-me também um pouco enamorada por aquelas palavras. Talvez pela saudade. Ou pela falta de abraços. Em tão poucos dias distante de minha vida costumeira, ainda estou me adaptando a este lugar quente, tal qual a minha cidade de origem. E as semelhanças param por aí.

Após conhecer amor tão profundo em poucas frases, não consegui terminar de fazer meu primeiro almoço, deixe a organização do apartamento para outro dia e me desabei em choro por algumas horas, enquanto tentava construir e imaginar aquela relação de amor que me foi apresentada em apenas cinco parágrafos de uma carta esquecida dentro deste apartamento. O suficiente para amassar assim, tão profundamente, o meu peito.

09 de agosto de 2015

Viajar Para Contar: A primeira carta

De quando descobri que os meus Medos não me abandonaram

Olá, minha querida amiga!

Recebi sua carta quando já estava por essas bandas e confesso que não consegui conter as lágrimas. Você me ensinou tanto, Geena! Se estou sobrevoando o mundo com tanta coragem, foi porque tive pessoas como você acreditando em meus sonhos.

Nesta primeira carta, eu poderia falar-te sobre esta cidade, ou minha moradia. E também sobre minhas novas amizades. Mas estou aqui dentro deste pequeno apartamento vazio, sozinha e quase aos prantos. Tantas vezes falando dos grandes voos, das coragens e das futuras vivências, nunca confessei a ti meus Medos que hoje me acompanham nesta minha nova jornada.

Saí do meu lugar de origem acreditando piamente que uma nova vida estaria a minha espera e que eu estaria mais preparada do que nunca. Como de costume, minha querida, eu acabei me enganando e não pude ver o quanto que precisava lutar para, enfim, desfrutar desta “nova vida”.

Eu sei, minha amiga, que os desafios são inevitáveis, que precisa ser realmente assim e que comigo não seria diferente. Mas custou-me acreditar que meus Medos embarcaram junto comigo, silenciosamente dentro do avião. E pasmem, eles continuaram ao meu lado, mesmo durante as demoradas conexões para chegar ao destino final.

Talvez eles tenham mais coragem do que eu, cara amiga. E isto sufoca meu coração! Ah, Geena, se eu tivesse sentado para escrever-te ontem, creio que seria muito difícil para que você compreendesse minhas palavras úmidas e borradas.

Mas não quero que te preocupes. Estou me adaptando aos poucos com os costumes, o novo idioma e todo o resto. Também estou programando novas viagens. Mando fotos dos lugares lindos em breve. Apesar de toda essa confusão e aflição em minha alma, sigo forte com a certeza de que estou aqui realizando muito mais que sonhos.

Escrevo-te pouco porque estou com pressa, mas logo pretendo contar todas as minhas vivências e experiências novas aqui, prometo!

Além de minha carta, receba também um grande abraço, amiga.

17 de julho de 2015

Nunca me ensinaram a partir

[Uma Carta para uma grande amiga]

Minha queridíssima Geena! Quantas saudades suas! Na confusão da mudança, não consigo encontrar tuas cartas endereçadas a mim. Passei o final de semana inteiro procurando suas palavras e não encontrei nada além das lembranças guardadas com muito carinho em meu coração.

Mas preciso escrever-te antes de partir! A vida deu uma grande reviravolta e eu, que sempre me precavia para que nada saísse do planejado, fui surpreendida. Talvez ainda não tivesse chegado aos seus ouvidos nada a respeito de minha partida. Não se preocupe, explico-te tudo com clareza no decorrer das próximas linhas.

Acredito que você, minha tão amada amiga, tenha ciência da importância que a produção literária possui em minha vida. Antes de revelar a reviravolta que me ocorreu, sinto que devo esclarecer-te uma série de coisas. Espero, de verdade, que minhas palavras não te cansem.

Desde que vim morar no Rio de Janeiro, tenho escrito incessantemente, como se minha vida real dependente única e exclusivamente de todas as histórias criadas e construídas sobre cada folha em branco que entrava em meu pequeno apartamento. Infelizmente, morando sozinha e sem nenhuma ajuda financeira, palavras fantasiosas não bastavam para o meu sustento. Para ser franca, nunca vão me bastar. Então consegui um emprego em um jornal pequeno, próximo ao meu prédio.

Trabalhar dentro de uma Redação Jornalística sugava diariamente minha alma. Durante alguns anos, adquiri vícios pontuais e hábitos deliciosos. Apesar da rotina cansativa, a cidade maravilhosa, seus bares, seus cafés e meus porres de vinho, fizeram com que eu me dedicasse ainda mais a minha escrita. Como a vida é inspiradora para nossas produções, Geena!

Nesse tempo, aprendi um mundo inteiro de coisas incríveis. Prendia-me àquela rotina de jornal-porres-amigos-escrita. Aprendi a escrever matérias de todos os tipos, a viver sozinha, em dupla, ou até mesmo guiada por uma multidão de amigos. Ah Geena, aposto que você deve está reprovando minhas atitudes a cada linha escrita nesta carta!

Não julgue tanto esse meu jeito de ser. Você não sabe, mas já joguei no lixo diversas cartas endereçadas a você, falando mal da vida que eu levava. Das pautas policiais, das fontes arrogantes, da exploração trabalhista, do pouco salário. Assim como amassei muitas cartas falando de meus colegas de trabalho. Como amo todos eles! Cada um, intensamente. Fervorosamente. E, exatamente por isso, prendia-me tanto àquela rotina maçante. Só sei trabalhar, sabendo amar. Aprendi tanto com todos. Só nunca aprendi a partir. E, por isso, estou aqui, escrevendo tanto a você e tentando esconder as lagrimas. Se eu passar esta carta a limpo, talvez você nem note que eu chorei a noite inteira de hoje, como chorei ontem e antes de ontem ou a semana inteira. Mas prefiro que você veja tudo isso, minha amiga.

Chorei porque preciso partir, preciso deixar tudo que construí nesta cidade, interromper projetos futuros por projetos que surgiram e deixaram minha vida do avesso. Mas, durante todos esses anos de aprendizado, nunca aprendi a partir.

Acredito que ainda não esteja tão claro a você o motivo de todo este drama. Peço desculpas a você, minha amiga, por não conseguir sintetizar as histórias. Faz tanto tempo que não te escrevo que agora não consigo mais parar. Que saudades, minha Geena!

Estou exatamente no melhor momento da minha vida, abraçando e aceitando a oportunidade que sempre quis ter. Mas não aprendi a partir. Não sei proceder nesse tipo de ocasião. Aperto a mão de meus amigos e dobro a esquina, silenciosamente? Junto todos naquele café aconchegante próximo a praia? Parto sem comunicar a ninguém? Ou me reúno apenas com alguns poucos no barzinho sujo e tão querido da turma?

Já escrevi diversos bilhetes iguais apenas com os dizeres “Vou ali realizar um sonho e já volto”. Minha ideia é coloca-los no bloquinho de todos que trabalham comigo. No fim do expediente e sem ninguém notar. Mas desisti da ideia.

O fato, minha querida, é que recebi uma proposta de um grande amigo que mora fora do país. O carteiro me entregou a carta que informava o nome do remetente conhecido, mas vindo de um lugar estranho. Barranquilla, na Colômbia, você acredita? Dentro do envelope, tinha muito dinheiro para comprar minhas passagens e uma carta me comunicando que uma editora daquela cidade havia lido um rascunho de um dos meus livros e queria que eu fosse passar alguns meses por lá para que pudéssemos acertar todos os detalhes da produção do meu livro. Meu primeiro livro! Você acredita? Fiquei extremamente feliz e imediatamente mandei um telegrama respondendo aquela proposta dizendo: “Aceito! Embarco daqui a duas semanas. Reserve meu colchonete, o café e o vinho!”.

Mas eu não sabia como seria difícil viver essas duas semanas que separavam a decisão tomada de maneira tão impensada, do meu embarque. Nunca aprendi a partir. E isto me dói. Não quero interromper o percurso tão intenso e produtivo que estou vivendo. E meu emprego? E as amizades? E os novos projetos que estavam sendo iniciados?

Mas, ao mesmo tempo, sinto que preciso ir. Com todas as minhas forças, por Deus, Geena, p-r-e-c-i-s-o partir! E hoje, no último dia, antes da partida, estou aqui, revelando-te toda a situação. Chorando. Sozinha. Olho para minhas malas ainda por fazer. Tomo várias xícaras de café. Escuto tantas musicas que deixo passar sem dar a devida atenção e não sei o que fazer. Apesar de já ter como certa minha decisão e que ela não tem volta. E que, mesmo com o coração partido, pela iminente partida, sei que quero que a volta aconteça somente em alguns meses, quando meu livro estiver pronto. E prometo: voltarei!

Além disso, você sabe, preciso voar. Fiz-me passarinha desde que pousei meus pés nesta cidade maravilhosa. Apesar de ama-la e amar tanto meus amigos, são as mudanças, os voos que me sustentam neste vasto mundo. Ah, minha cara! Não há nada mais prazeroso para mim do que mergulhar de corpo, alma e sensações, no obscuro de todas as aventuras que aparecem em minha frente. Mesmo não sabendo partir, admito que não existe coisa mais encantadora nesta vida!

Embarcarei amanhã bem cedo. Logo mais estarei enviando a você o meu novo endereço. Escreva-me, por favor. E não se preocupe: nunca aprendi a partir, mas sei ir. E não quero que nossa amizade se perca por entre os nossos voos.

Te amo, minha amiga!

Rio de Janeiro, 1984.

08 de junho de 2015

Das lembranças

de uma infância despejada

Confesso que não me recordo muito bem do gosto. Lembro-me de ser acordada cedo da manhã pelas vozes e gargalhadas felizes que vinham da cozinha, do café sempre forte, sempre quente e cheio de carinho, do bolo frito, dos pães comprados do homem que passava de bicicleta em frente a Casa Antiga, mas do gosto do leite quentinho tirado na hora? Não, não me lembro.

Desculpe a sinceridade de uma infância inteira assim, despejada. Talvez meu paladar de criança nascida e criada em uma cidade quase grande, tenha me impedido de guardar gosto tão carregado de lembranças. Mas me recordo de cada detalhe daquelas férias na Casa Antiga. De ter que dormir em uma rede, bem próxima a outra rede, dos inúmeros colchões espalhados pelos quartos, dos adultos que organizavam a casa para que todos dormissem em paz, um ao lado do outro, somente com o espaço para o coração respirar. E, de fato, eu respirava muito amor e incontáveis histórias.

Os quintais cheios de aventuras e caminhos a serem percorridos – um mundo inteiro desconhecido bem ali na vastidão de meu olhar. Árvores, trilhas imaginárias, dragões em formato de sombras. E eu, vestida de coragem: uma criança em busca de histórias a serem desbravadas.

Esforço-me para lembrar do gosto do leite quentinho, natural, mas minha memória falha. Consigo voltar ao instante em que meu tio saía do curral, subia os três degraus da cozinha com cuidado, equilibrando-se ao som dos passarinhos, para que o leite não caísse da vasilha e não derramasse, levando junto toda a dedicação em alimentar uma família grande, que só se reunia em temporadas como essa que aqui descrevo.

A cozinha, aos poucos se enchia de vida, enquanto que os quartos se esvaziavam e os colchões eram empilhados um a um, próximo as janelas. As crianças percorriam a casa inteira, correndo e redescobrindo novos cômodos que eram reinventados a cada brincadeira. Os adultos - irmãos e amigos - trabalhavam o café da manhã como se fosse a tarefa mais importante de suas vidas, montavam a mesa, reuniam as xícaras e preenchiam aquele espaço com conversas que há muito esperavam serem postas para fora.

Ainda assim, sem muito lembrar do sabor daquele líquido branco e engordurado, levado à mesa e partilhado por todos que ali se reuniam, sinto que tudo aquilo, depois de passados tantos anos, agora seguem misturados em mim, impregnados em mim, em um único gosto de saudade.